	
Para Alegria Ferreira, pequena jia de graa e beleza que me foi entregue na pia batismal por Cleo e Marinho, compadres tambm na alegria de encarar a vida com dignidade.

O Livro de Ouro da MPB, de Ricardo Cravo Albin,  uma obra rara, j que oferece ao leitor a oportunidade de combinar mltiplas perspectivas sobre o assunto. Isso porque o autor  uma personalidade da MPB com uma vivncia (musical) extremamente diversificada. Fundador e primeiro diretor do Museu da Imagem e do Som, os Depoimentos para a Posteridade que instituiu foram uma das foras atuantes para a revitalizao do samba, nos anos 1960, ao destacar pela primeira vez, com honras e glrias devidas, figuras como Pixinguinha, Donga e Joo da Baiana, genunos criadores do nosso gnero musical mais popular. Ele prprio um pesquisador, conviveu com figuras
enciclopdicas como Almirante e Jacob do Bandolim, entre outros. Produziu shows e discos antolgicos de grande sucesso, que sublinharam tanto as razes como as tendncias contemporneas de nossa msica. Escreveu obras que se impem como referncia aos estudos da matria. E, como apaixonado pela msica, pessoa tpica do meio, Ricardo acrescenta ao registro factual,  anlise e  contextualizao, a crnica, os casos pitorescos, a personalidade dos astros e estrelas vista de perto, o testemunhoafetivo e nico. Numa prosa saborosa,
repleta de esprito, temos aqui um relato do encadeamento de gneros musicais, estilos e ritmos da MPB, dos primrdios  chegada do sculo XXI, e tambm uma viso
de conjunto e dinmica de nossa msica. Nossas razes, como e por quem foram estabelecidas. E as releituras. As inovaes. O percurso da MPB, e tambm o seu patrimnio,
aquilo que  seu mago e nimo, sempre pronto a refrutificar. A diversidade, a vitalidade e a constante capacidade de renovao, e ainda as personalidades que pontuaram
seu trajeto, que so referncias, marcos de nossa msica. O Livro de Ouro da MPB  uma obra indispensvel para especialistas e estudantes das reas ligadas  cultura
brasileira, mas, principalmente, trata-se de um achado para todos os que gostam de nossa msica e podem se deliciar conhecendo mais suas histrias.


RICARDO CRAVO ALBIN

O livro de Ouro da M.P.B.

DE SUA ORIGEM ATE HOJE


Copyright (c) 2003 by Ricardo Cravo Albin

Direitos exclusivos para publicao, Ediouro Publicaes S. A., 2003

Todos os direitos reservados e protegidos pela Lei 9.610 de 19-02-98.  proibida a reproduo total ou parcial, por quaisquer meios, sem autorizao prvia, por
escrito, da editora.

Coordenao editorial: Sheila Kaplan Preparao de originais e texto: Veio Libri Produo editorial: Cristiane Marinho Assistentes de produo: Felipe Schuery, Jorge
Amaral e Christiane Cardozo Reviso tipogrfica: Paulo Corra e Gratia Maria Domingues Capa, projeto grfico e editorao eletrnica: Miriam Lerner Pesquisa iconogrfica:
Mnica Sousa Produo grfica: Jaqueline Lavr Assistente de produo grfica: Gilmar Mirndola

CIP - BRASIL. CATALOG AO - NA-FONTE SINDICATO NACIONAL DOS EDITORES DE LIVROS, RJ

A295L

Albin, Ricardo Cravo, 1940O livro de ouro da MPB / Ricardo Cravo Albin. - Rio de Janeiro : Ediouro, 2004. . - (Livro de ouro)

ISBN 85-00-01345-1

1. Msica popular - Brasil - Histria e crtica. I. Ttulo.

03-0410

04 05 06

C D D 784.50098 1 CDU 78 (8 1)

7 6 5 4

4 Edio

Todos os direitos reservados  lidiouro Publicaes l.tda.

????Run Nova |crus:ilctn, 345 - Bonsuccsso Rio de Janeiro - RJ - Cl 21042-23(1 Tel.: (21) 3882-8200 - lax: (21) 3K82-82I2 / 8313 www.edit niro.com.bl'


Para Alegria Ferreira, pequena jia de graa e beleza que me foi entregue na pia batismal por Cleo e Martinho, compadres tambm na alegria de encarar a vida com
dignidade.


Sumrio

Prefcio, 8 
Introduo, 10

CAPTULO   1 : O nascimento da msica

Popular brasileira, 16

. Os primrdios, 16

. A modinha e o lundu - o nascimento da MPB, 22

. As estrelas pioneiras da MPB, 32

. De raiz e de gnio: o comeo do sculo XX, 54

CAPITULO 2: A dcada de ouro,80

. Quem primeiro (en)cantou o Brasil, 8o

. Os compositores que deram alma  MPB, III

. O fino da antiga bossa, 134

CAPTULO   3 :No vo d Asa Branca  Princesinha do Mar. E o corte do rdio, 140

. Veio l do serto, 142

. Estar na fossa, 152

. A realeza do rdio, 159

. Uma poca de grandes msicos, 182

. Fora do rdio, no corao dos carnavais, 196

. Enquanto a Bossa Nova no chega, 205


C A P  T U L O   4 : Que coisa mais linda, mais cheia de graa! 214

CAPTULO 5 : Eu sou o samba!, 236

. E tambm os chores, 265


C A P  T U L O   6 : Jovens tardes de domingo, 26 8

. Vai comear o rock'n'roll, 278

C A IP  T U L O  7: Canto de resistncia, 284

. Msica pro serto virar mar (e o mar virar serto), 286

. Sob o signo da Tropiclia, 290

. Atraes  parte, 309

. A era dos festivais, 327

. Chico Buarque do Brasil, 339

C A P  T u' L O   8 : As muitas musicalidades de um pas mestio, 342

Bibliografia, 358 
Sobre o autor, 365

8

Prefacio

Uma obra para iniciantes, simpatizantes e estudiosos

Este Livro de ouro da MPB bem que poderia ser chamado de Memria Musical Popular do Brasil. Digo isto porque, na verdade, ele  uma coletnea de biografias de expoentes
da nossa msica, escritas pelo pesquisador Ricardo Cravo Albin com aluses a todos os que laboram em diferentes reas da cultura dos sons.

Cada leitor certamente sentir falta de um ou outro nome, como  comum em obras deste gnero, mas sei que a pesquisa foi exaustiva, sem privilegiar o seu gosto musical ou preferncias pessoais.

O autor no carrega nas crticas e nem escreveu para agradar ao mundo intelectual, no preocupando-se em demonstrar que  um literato, atendo-se a formas, imagens
e vocabulrio erudito, mas sim criando um texto como se fosse escrito para uma longa palestra dirigida a uma platia ecltica. Mesmo assim a linguagem  rebuscada,
culta, bela e cativante.

A preocupao principal do militante cultural Ricardo Cravo, como sempre,  informar, enaltecer a musicalidade brasileira e avivar a nossa memria. Este trabalho  um prato cheio para pesquisadores, historiadores como ele prprio e muito til para escolas que do importncia ao estudo da msica.

Esta obra tem incio l nos primrdios do nosso Pas, com "O nascimento da msica popular brasileira", captulo em que fala
9



de lundus, polcas e modinhas, me fazendo tomar conhecimento do poeta satrico e violeiro Gregrio de Matos Guerra bem como do tocador de viola Domingos Caldas Barbosa.

De informaes do sculo XVII o historiador vem vindo at os tempos atuais, fazendo um retrato do Brasil que canta e dana, permeando o relato com informaes polticas e sociais, normalmente embutidas no bojo ou nas entrelinhas da nossa MPB, de modo enftico no samba.

Pretendia apenas folhear a brochura que me foi enviada pela Ediouro para escrever este prefcio, mas depois das primeiras pginas no consegui parar e li at o ltimo captulo - "As muitas musicalidades de um pas mestio", que  uma anlise clara, sem preconceito com nenhum segmento. Na verdade, um ensaio sobre a vida brasileira,
sobre a integrao da msica no cenrio nacional e no mbito internacional, a importncia dos rgos de comunicao, das organizaes carnavalescas e a lembrana de fatos e nomes que fortalecem as minhas convices.

Meu compadre Ricardo  um escritor engajado, comprometido com a verdade e um grande amante da msica, tanto  que toda a sua obra  baseada na nossa histria musical.
Vide: MPB - a histria de um sculo; MIS - rastros de memria; De Chiquinha Gonzaga a Martinho da Vila; Driblando a censura (De como o Cutelo viu e incidiu sobre
a Cultura) e O canto da Bahia.

A leitura causou-me uma saudade imensa dos baluartes citados, de Donga a Moreira da Silva, de Aracy de Almeida a Clara Nunes..., mas, especialmente, de Albino Pinheiro
e sua Banda de Ipanema, da qual eu fui um dos padrinhos e Leila Diniz foi a primeira .


10
Introduo

As pginas deste livro so fruto da minha paixo de vida inteira pela Msica Popular Brasileira. Assim, em muitos trechos, o pesquisador e o historiador deram lugar
ao admirador, ao f, quele que  e foi envolvido sempre pelo encantamento das muitas musicalidades de nosso povo. Sinto que o de mais til que este livro pode oferecer queles interessados em conhecer um pouco mais desta expresso fundamental de nossa cultura e esprito  um encadeamento das diversas fases, gneros musicais e achados.
Ou at releituras e redescobertas que situam em largas pinceladas seu contexto social e histrico bem como os personagens que tornaram robustos seus momentos decisivos:
os compositores e intrpretes que representam marcos e referncias de nosso riqussimo cancioneiro. Portanto, este livro no pretende,  claro, esgotar anlises crticas nem contemplar todos os nomes que conquistaram um lugar na histria da MPB. O objetivo principal  oferecer um roteiro panormico e cronolgico, impregnado
de muita afetividade.

A meu ver, a histria da msica popular brasileira nasce no exato momento em que, numa senzala negra qualquer, os ndios (quem sabe se os mesmos registrados por Jean de Lry, que os viu cantando ao tempo da Frana Antrtica de Villlegagnon?) comeam a acompanhar as mesmas palmas dos negros cativos, enquanto os colonizadores
brancos se deixam penetrar pela magia do cantarolar das negras de formas curvilneas. Esse amlgama, maturado sensual e lentamente por mais de quatro sculos, daria uma resultante de-

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finida, h cerca de cem anos, quando  criado no Rio o choro e quando surgem o maxixe, o frevo e o samba.

Da para c, esses ltimos cento e tantos anos, abertos tanto pela Abolio da Escravatura (1888) quanto pela Proclamao da Repblica (1889), assistiram  consolidao
de uma transformao cultural que nos redimiu: a dramtica ascenso e formao da civilizao mulata no Brasil. E com ela, a consolidao de sua filha primognita,
a mais querida e a mais abrangente, a MPB.

A histria de nossa msica popular , tambm, a histria dos preconceitos e dos narizes retorcidos da cultura oficial, encastelada na burguesia e na aristocracia
oligrquica. Duas excees  regra geral do preconceito devem ser registradas, at porque envolvem duas mulheres, logo elas que viviam sob o jugo das botas de seus
maridos. Refiro-me  maestrina e compositora Chiquinha Gonzaga, filha de marechal do imperador, que teve a coragem de abandonar um casamento e montar casa prpria, onde ousava ensinar no s piano, mas at violo, considerado maldito. E cito tambm uma rara primeira-dama culta (era cartunista e pintora), Nair de Teff, (a RIAN), casada com o presidente marechal Hermes da Fonseca, que teve igualmente o topete de abrir o Palcio do Catete, em 1912, para saraus de MPB, onde pontificavam poetas
e msicos populares, como Catulo da Paixo Cearense e Anacleto de Medeiros.

Mesmo assim, os muitos sofrimentos impostos aos msicos e poetas do povo espraiavam-se pelas ruas das cidades do Brasil. Sofrimentos que - como me testemunharam pioneiros do samba e do choro, do porte de Joo da Baiana, Pixinguinha, Donga e Heitor dos Prazeres - culminavam com o fato de serem presos nas ruas apenas pelo pecado de portarem um violo, "coisa de capadcio, de desocupado, da negralhada". Ou de serem obrigados a entrar pela porta dos fundos do Hotel Copacabana Palace
(RJ) por serem msicos e "ainda por cima negros", l por volta dos anos 1920. Isso depois de Os Oito Batutas de Pixinguinha terem excursionado, e com
12

Elizeth Cardoso junto a Donga e Pixinguinha no bar paulistano Vou vivendo, So Paulo, 1986.

Juan Esteves/Folha Imagem




sucesso, a Paris, centro da cultura e da insolncia comportamental dos annes folles.

 tambm a histria do comeo da profissionalizao dos primeiros sambistas da MPB, nos anos 1920, com Sinh (O rei do samba), Cndido das Neves, Aracy Cortes, Ismael Silva e seu grupo do Estcio, que no s dariam a forma definitiva ao samba ainda maxixado de Donga e Sinh, como ainda fundariam a primeira escola de samba (a Deixa falar, em 1927). Como ainda  a histria da saga gloriosa do rdio no Brasil, inaugurado pelo gnio de Edgard Roquette Pinto (um heri modesto e cativante que ainda precisa ser avaliado melhor ao comeo deste sculo) e desenvolvido pela esperteza poltica do estadista Vargas. O rdio (a partir de 1923) e a gravao eltrica (a partir de 1928) fizeram florescer a poca de ouro da MPB, os anos 1930, em que irrompem talentos nos quatro cantos do pas, especialmente no eixo Rio-So Paulo.
Dela saem para o mundo Ary Barroso e Zequinha de Abreu, e especialmente Carmen Miranda, uma fogueira tropical que fez crepitar a Hollywood bem-comportada e rigorosamente padronizada dos anos 1940.

O sucesso de Carmen na Amrica antecede de poucos anos a histria do movimento da bossa-nova no mercado mundial, que consolida, de uma vez por todas, o prestgio internacional da MPB. A ponto de ejetar nomes como Tom Jobim, Joo Gilberto e Vincius de Moraes para as estratosferas do Olimpo musical do mundo.

A bossa-nova, alis, foi antecedida - e at provocada, de certo modo - pela enxurrada dos sambas-canes que inundou a dcada de 1950, transformando a MPB num rio
noir de lgrimas, fossa e dores de cotovelo, muitas delas escritas por talentos fulgurantes como Antnio Maria, Lupicnio Rodrigues, Dolores Duran e at Caymmi,
Braguinha e Ary Barroso, que se destacavam da mediocridade noir em que patinava o gnero lacrimejante. Como tambm se destacaram, nos anos 1950, antecedendo a bossa-nova
(cria-
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da pelo charme da classe mdia da zona sul do Rio de Janeiro), as figuras solares do pernambucano Luiz Gonzaga e do paraibano Jackson do Pandeiro, que trouxeram para o Brasil o melhor da carga energtica do baio, da toada e do coco nordestinos.

A histria dos festivais dos anos 1960 d parto a estrelas incandescentes como Chico Buarque, Edu Lobo, Milton Nascimento, Caetano, Gil, Ivan Lins, Gonzaguinha, Joo Bosco, todos alinhados, eu at ousaria dizer estimulados, para melhor combater a burrice da censura oficial, esmagadora e intolervel entre 1968 e 1985, se bem que seus arreganhos tivessem comeado a partir de 1964. A interveno militar, de resto, provocou uma imediata mobilizao de setores musicais universitrios (ou pr-universitrios) e que tinham epicentro no CPC (Centro Popular de Cultura) da UNE (Unio Nacional dos Estudantes). Ali se reuniam compositores como Carlos
Lyra, Edu Lobo, Geraldo Vandr, Srgio Ricardo, ao lado de cineastas como Gluber Rocha, Carlos Diegues, Joaquim Pedro e Leon Hirschman, os ltimos j integrados  revoluo do "cinema-novo", que usava a MPB com veemncia e paixo, em suas trilhas sonoras. Esse tambm foi um tempo de amadurecimento e reflexes desses jovens msicos e letristas da classe mdia, em relao ao caldeiro musical que ainda se escondia nos morros e favelas cariocas. E a so revalorizados personagens que andavam esquecidos, gente da altura de Cartola e Nelson Cavaquinho, ambos da gloriosa Mangueira ou Z Kti, da Portela.

Mas como no sublinhar o triunfo em venda de discos que foi a volta do samba de raiz, a partir de Martinho da Vila, Beth Carvalho, Alcione, Clara Nunes e Paulinho da Viola, no iniciozinho da dcada seguinte, os anos 1970, apesar de todo peso de chumbo do regime militar? Como no registrar, mesmo com alguma eventual insegurana, a chegada do rock brasileiro nos anos 1980, com jovens poetas como Cazuza e Renato Russo dando seqncia aos pioneiros Rita Lee e Raul Seixas?
15
_Z Ktti e Nara Leo no espetculo Opinio. 
Arquivo CEDOC / funarte

Toda essa j longa histria da MPB, argamassada pela paixo e tendo como pilares as fraldas da sociedade, desgua agora neste comecinho de sculo.

Esses ltimos anos configuram e do seguimento, com uma  certa eloqncia, a todo o legado da MPB, hoje mais do que nunca o produto nmero um da pauta de exportao cultural com que conta o pas ao comeo do sculo XXI.

Estamos hoje melhores ou piores em msica popular? Afastando-me do pecado do maniquesmo e da tentao da crtica individualizada, eu diria que a MPB vai, como quase sempre esteve, muito bem, obrigado.

At porque, como diz o ditado, quem puxa aos seus no degenera. E a est a miscigenao brasileira, to cativante e tropical, a in-terinfluenciar e consolidar a
herana dos ritmos e do esprito mulato do Brasil.



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CAPTULO 1

O nascimento da msica popular brasileira

Os primrdios
A msica - o canto e a dana - esteve e est muito presente entre os primeiros habitantes desta terra, que inclusive fabricavam alguns toscos instrumentos musicais que ainda podem ser encontrados, ou seus descendentes, em festas do folclore. Mais atuante nos ritos, nas celebraes, a experincia musical dos indgenas brasileiros foi apenas modestamente transmitida a esta bendita mestiagem que chamamos hoje de cultura popular brasileira. Justamente ao contrrio de tantas palavras, extradas dos idiomas indgenas, que foram incorporadas ao portugus trazido pelas caravelas, tornando-o capaz de nomear a natureza local, costumes e prticas aqui adquiridos,
e depois mostraram-se to ativas em nossa literatura. Talvez, tenha nos ficado, sim, do nosso antepassado pr-cabralino, um forte sentimento de musicalidade, e certa sensualidade, tanto ingnua quanto epidrmica (ou talvez uma porque a outra), em vez de ritmos e temas como no caso da msica negro/africana, que marca presena ntida e permanente em nosso repertrio.

O que de praxe se aponta como a primeira manifestao musical no Brasil (mais do que brasileira) no poderia deixar de ser a que nos chegou junto com os colonizadores portugueses. Trata-se da msica religiosa, com a qual os jesutas buscavam dois objetivos simultneos: de um lado, catequizar os ndios, infundindo-lhes a religiosidade atravs da mstica do canto, que de todo modo j ti-


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Jean Baptiste Debret. Instrumentos musicais indgenas, sc. XIX

nha para eles um sentido espiritual; e, de outro, um propsito mais sutil, embora no menos crucial e missionrio: lembrar ostensivamente ao colono portugus que estar habitando, s vezes em degredo, esta nossa terra to lasciva, em meio a ndios e negros nus, no poderia faz-lo perder a conscincia de que cristos eram e como cristos deveriam se portar. Como bem conta a j referida mestiagem de nossa epiderme, e de nosso esprito, nesse segundo propsito os catequizadores falharam - graas a Deus!

Assim, nos trs primeiros sculos de colonizao, o que existiu foram bem definidas e isoladas formas musicais: os cantos para as danas rituais dos ndios e os batuques dos escravos, a maioria dos quais tambm rituais. Ambos fundamentalmente  base de percusso: tambores, atabaques, tants, palmas, apitos, etc. Em outro extremo do cotidiano, sem se misturarem, as cantigas dos europeus colonizadores que tinham origem nos burgos medievais dos sculos XII a XIV. Fora desse tipo de msica, o hinrio religioso catlico dos padres. Ainda a registrar os toques e as fanfarras militares dos exrcitos portugueses aqui aquartelados.

Justamente quando a msica dessacralizou-se, ou mundanizou-se, ou ainda quando, ao mesmo tempo, deixou as casernas, ou, como queiram, escapou das igrejas e da ordem unida e ganhou as rodas pblicas,  que se pode comear a falar numa msica po-

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_Johann Nieuhojf. Escravos tocando instrumentos de percusso: pandeiro e reco-reco feito de cabaa.

Arquivo da Editora

_SPINA, Segismundo. A poesia de Gregrio ele Matos. So Paulo, Kdusp, 1995, P.50.

pular brasileira. Numa palavra, quando miscigenou-se com apetncia e liberdade. Isso se deu ainda no sculo XVII, com artistas cujos nomes a histria esqueceu. Um dos mais remotos registros de canto popular  do grande poeta satrico Gregrio de Matos Guerra, o Boca do Inferno, que, mesmo j velhote, tentava seduzir as escravas mais apetitosas do Recncavo Baiano, cantando versos frascrios ao som de uma viola de arame...

Pea amores e finezas,

Pea beijos, pea abraos;
Pois que os abraos so laos,
que prendem grandes firmezas;
No h maiores despesas,
Que um requebro, e que um carinho;
Pois no tomar de um beijinho,
Fica a riqueza ganhada.
Se tudo o mais no vai nada,
No peas mais, meu anjinho.

Gregrio de Matos Guerra nasceu em Salvador, em 1633, e morreu em Recife, em 1696, depois de passar anos degredado em Angola, expulso do pas por um dignitrio atingido por sua pena ferina. Sobre sua forte ligao com a msica, comenta Segismundo Spina, na notcia biogrfica que introduz sua antologia do poeta1:
19
Vasconcelos, Ary.Razes da msica popular
brasileira So Paulo
Martins, 1977.
A licenciosidade que perdurou mais tarde nos versos de   nossa poesia e uma herana desse Petrarca sertanejo que aperfeioou o lundu, to em voga na Colnia. O lundu, de origem portuguesa ou quimbunda, bem como outras danas populares portuguesas que haviam sido condenadas pela Inquisio e pelos jesutas, conservou-se com toda a sua pujana no Brasil, sobretudo na poca de Gregrio. O lundu era uma dana dengosa, cantada e executada com todos os ritmos e voluptuosidades da coreografia. De todo o folclore nacional  o lundu a melhor forma de manifestao do tropicalismo dos mestios, a expresso mais viva do sensualismo das mulatas erticas e ciosas. Mais tarde essa forma frentica que emigrou da frica, com o desaparecimento da vivacidade e do requebro peculiares, passou a ser cantada ao som da viola e da guitarra, como evocao das saudades, evoluindo ento para as modinhas, de criao americana, que tanto fizeram chorar a viola de Gregrio e tanto caracterizaram o folclore dos sculos
= seguintes em Portugal e no Brasil. Gregrio foi, pois, o "Homero do Lundu", que ele tanto aperfeioou e com o qual impressionou a estncia do recncavo durante o tempo do seu reinado.


L pelo final do sculo XVIII, outro tocador de viola, o poeta carioca Domingos Caldas Barbosa, deixou o Rio e foi para Portugal. Logo se tornou conhecido como intrprete
de modinhas e lundus. Caldas Barbosa nasceu, muito provavelmente, no Rio de Janeiro, por volta de 1738 (assim afirma Cmara  Cascudo). H, no entanto, dvidas a respeito.
Ary Vasconcelos2 acredita que o compositor nasceu em 1740, e nos oferece em Razes da msica popular brasileira uma verso de um sobrinho do prprio Caldas Barbosa, segundo a qual o compositor teria nascido ainda a caminho do Rio de Janeiro, em navio vindo de Angola. E certo que Caldas Barbosa era filho de um comerciante portugus
com uma negra angolana (no h referncias a res-
20
Hans Nobauer. Domingo de Festa na Fazenda. leo sobre tela. Os negros danando lundu enquanto os senhores observam. Museu Histrico Nacional, RJ


peito de seus nomes). O pai, depois de longo perodo na colnia africana, veio para o Brasil trazendo a negra grvida do futuro compositor.

Para obedecer ao desejo do pai, o garoto estudou no Colgio dos Jesutas. Por volta de 1760, foi mandado  Colnia do Sacramento (extremo sul do Brasil, hoje parte do Uruguai). Sabe-se que seu recrutamento foi um castigo por conta de seus versos satricos, criticando os portugueses. Retornou ao Rio de Janeiro em 1762, dando baixa logo depois. Em 1775, chega a Portugal sob a proteo dos 
21

irmos do vice-rei do Brasil, Jos e Lus de Vasconcelos e Sousa. Torna-se capelo da Casa de Suplicao por influncia de seus protetores. Essa parece ter sido a soluo encontrada para superar as dificuldades de insero social motivada por sua condio de mestio de origem humilde. De fato, a partir de ento, o compositor ingressou na sociedade lisboeta.

Caldas Barbosa  considerado por todos como o responsvel pela fixao do gnero modinha na Lisboa da segunda metade do sculo XVIII. A partir de 1775, o compositor
passa a fazer sucesso na corte portuguesa, cantando versos satricos e maliciosos (dirigidos principalmente s mulheres), acompanhado pelo ponteio de sua viola de
arame. Curiosamente, apresenta-se de batina, sendo disputado pelas famlias nobres de Lisboa, vidas  de t-lo em seus saraus. Em 1790, funda, juntamente com outros poetas (dentre os quais Curvo Semedo e Bocage), a Nova Arcadia de   Lisboa. Adota o pseudnimo de Lereno Selnuntino, que usa para dar ttulo  sua coleo de poemas, sobre os quais comps modinhas    e lundus: a Viola de Lereno (Publicados postumamente: Lisboa, vol. fazendo sucesso na 1, 1798; vol. 2, 1826). Segundo Mozart de Arajo, apesar de todos corte portuguesa. Os poemas da coleo terem sido musicados, somente uma das obras nos chegou com melodia: "Ora, a Deos Senhora Ulina". A modinha est publicada nas pginas 98 e 99 do livro A modinha e o lundu no sculo XVLII, deste autor. J Mrio de Andrade afirmou o seguinte em Modinhas imperiais: "a provenincia erudita europia das modinhas  incontestvel". Hoje, muitos estudiosos consideram tal suposio incorreta, justamente por levarem em conta a vida e a obra de Caldas Barbosa. Segundo Tinhoro, em sua Pequena histria da msica popular brasileira, todos os contatos do compositor "tero sido com mestios, negros, pndegos em geral e tocadores de viola, e nunca com mestres de msica eruditos". Assim sendo, a importn-
_O mulato. Caldas
Barbosa (1738-40) -1800), padre mulato comps as primeiras modinhas brasileiras fazendo sucesso na corte portuguesa.
Arquivo da Editora

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Na pgina ao lado:

Eduard Hildebrandt. Largo Chafariz e Igreja de Santa Rita, Praa no Rio de Janeiro. 1844.

Staatliche, MUSEEN

Zu Berlin, Alemanha

cia do compositor mestio se fez no trabalho de transpor a distncia entre a cultura popular e a cultura erudita, levando para os sales aristocrticos o produto
artstico popular da colnia do alm-mar: a 
Modinha brasileira. Aos 60 anos, Caldas Barbosa faleceu em Lisboa e foi sepultado na Igreja Paroquial de Nossa Senhora
dos Anjos.

lento da

1 ANDRADE, Mrio de. "Memrias de um Sargento de Milcias", em Aspectos da literatura brasileira, So Paulo, Livraria Martins Editora. 5' ed. pp. 130-31.

A modinha e o lundu _ o nascimento do  msico popular brasileiro
Considero muito importante ressaltar, desde logo, que a consolidao da msica popular constitui uma criao que  contempornea ao aparecimento das cidades. E deve-se deixar claro tambm que msica popular s pode existir ou florescer quando h povo. Atentem, por exemplo, para esta aguda observao que Mrio de Andrade faz-' ao romance Memrias de um sargento de milcias, escrito por Manuel Antnio de Almeida (1831-1861) e ambientado no Rio de Janeiro nas primeiras dcadas do sculo XIX, durante a estada da Corte de D. Joo VI c por estas terras. Ele ressalta a msica, acompanhada da viola e cantada, e a dana como hbitos (e prazeres) muito mais
disseminados nos tempos do rei do que se pensa:

Manuel Antonio de Almeida  musicalssimo... O romance est cheio de referncias musicais de grande interesse documental. Enumera instrumentos, descreve dansas, conta o que era a "msica dos barbeiros" nomeia modinhas populares do tempo do imprio.

Quando as classes perigosas - como eram chamados pelas elites os mais modestos - se divertiam, isso at podia virar caso de polcia. No so poucos os episdios no livro de Almeida em que o notrio major Vidigal, figura quase folclrica da poca, invadia as casas
23 imagem
24
Idem, ibidem, p. 129. 
Idem, ibidem, p. 132.

onde estivessem tocando viola e cantando as chamadas scias, na poca, coisa muito suspeita... "O major Vidigal... foi durante muitos anos, mais que chefe, o dono
da polcia colonial carioca. Habilssimo  nas diligncias, perverso e ditatorial nos castigos, era o horror das classes desprotegidas do Rio de Janeiro".4

"Como est se vendo, um dos grandes mritos das Memrias de um sargento de milcias  ser um tesouro muito rico de coisas e costumes da poca"5... Com efeito, porque j nestas observaes, Mrio de Andrade capta registros do livro sumamente significativos. No   toa que tanto se sobressaem a msica e a  dana populares no romance ambientado justamente no momento em que o Rio de Janeiro comea a crescer, dada a importncia poltica e cultural de haver se tornado a nova matriz do Imprio. Outro dado a considerar: a msica de que tratamos aqui, em seu incio, por conta de sua raiz popular, foi bastante reprimida, por muito tempo e de diversas maneiras, assim como outras manifestaes dos mais humildes. O populacho era para obedecer, jamais para ter a insolncia de deitar modas e costumes... Para as elites, tudo isso poderia ser poltica e estrategicamente inconveniente, quando no perigoso.

Os gneros mais populares da primeira metade do sculo XIX eram o lundu e a modinha (s no ltimo quarto do sculo surgiria o maxixe, visto por muitos como o primeiro gnero musical autenticamente brasileiro).

O lundu (landum, lundum, londu)  dana e canto de origem africana introduzido no Brasil, provavelmente por escravos de Angola. Da mesma forma que a modinha, h inmeras controvrsias quanto  sua origem. Confundido inicialmente com o batuque africano (do qual proveio), tachado de indecente e lascivo nos documentos oficiais que proibiam sua apresentao nas ruas e teatros, o lundu, em fins do sculo XVIII, no era ainda uma dana brasileira, mas uma dana africana do Brasil. Segundo Mozart de Arajo,  a partir de 1780 que o lundu comea a ser mencionado 
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nos documentos histricos. At ento, era dada a denominao de batuque aos folguedos dos negros. Enquanto dana, a coreografia do lundu foi descrita como tendo certa influncia espanhola pelo alteamento dos braos e estalar dos dedos, semelhante ao uso de castanholas, com a peculiaridade da umbigada, ponto culminante do encontro lascivo dos umbigos do homem e da mulher na dana. Trao caracterstico e predominante em sua evoluo seria o acompanhamento marcado por palmas, num canto de estrofe-refro tpico da cultura africana. Quando a umbigada passa a se disfarar como simples mesura, o lundu ensaia sua entrada nos sales da sociedade colonial.

Como gnero de msica cantada, a mais antiga meno ao lundu-cano  encontrada nos versos de Caldas Barbosa que, alm da modinha brasileira, implantou na corte portuguesa a moda do lundu cantado  viola. No segundo volume da coletnea de seus versos (publicados postumamente), seis composies aparecem expressamente citadas como lundus. Ao comentar a supremacia do lundu sobre as danas em voga em Lisboa, diz Caldas Barbosa:

Johann Moritz Rugendas. Dana Lundu, see. XIX

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Eu vi correndo hoje o Tejo 
Vinha soberbo e vaidoso; 
S por ter nas suas margens
 O meigo Lundum gostoso

Que lindas voltas que fez; 
Estendido pela praia 
Queria beijar-lhe os ps

Se o Lundum bem conhecera
 Quem o havia c danar; 
De gosto mesmo morrera 
Sem poder nunca chegar

Ai rum rum
Vence fandangos e gigas
A chulice do Lundum

D. Jos da Cunha Gr Athayde e Mello, em carta de 1780, afirma ser o lundu dana comum entre brancos e mulatos:

Os pretos, divididos em naes e com instrumentos prprios de cada uma, danam e fazem voltas como arlequins, e outros danam com diversos movimentos do corpo, que, ainda que no sejam os mais indecentes, so como os fandangos em Castella e fofas de Portugal, o lundum dos brancos e pardos daquele pas.

Referncias ao lundu so tambm encontradas nas Cartas chilenas, de Toms Antnio Gonzaga, que comeam a circular em Minas Gerais em 1787.

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Aqui lascivo amante, sem rebuo, 
A torpe concubina oferta o brao; 
Ali mancebo ousado assiste e fala 
A simples filha que seus pais recatam; 
A ligeira mulata, em trajes de homem, Dana o quente lundum e o vil batuque.

Num prximo passo, de cano solista o lundu transforma-se em msica instrumental, ponteado  viola ou ao bandolim, ou executado ao cravo. Um dos mais antigos registros musicais desse tipo de dana encontra-se nas Canes populares brasileiras e melodias indgenas, recolhidas no Brasil por Martius entre 1817 e 1820. Uma das peas
 o "Landum, Brasilianische Volktanz", composio na qual um pequeno motivo, construdo sobre as harmonias de tnica e dominante,  executado em forma de variaes.
O lundu-dana continuou a ser praticado por negros e mestios, enquanto o lundu-cano passou a interessar aos com-
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positores de escola e msicos de teatro, onde era feito para ser danado e cantado com letras engraadas e maliciosas. J em fins do sculo XIX, esse aspecto foi
intensamente explorado por Laurindo Rabelo, o poeta Lagartixa, que, acompanhando-se ao violo, depois de determinada hora, improvisava com facilidade lundus especiais, ouvidos s por homens. Para que se possam vislumbrar o contedo e a temtica envolvida nesse tipo de cano, segue o exemplo abaixo:

O diabo desta chave 
Que sempre me anda torta 
Por mais jeitos que lhe d 
Nunca posso abrir a porta

Tome l esta chave, 
Endireite, sinh.... 
Voc  quem sabe 
O jeito que lhe d... 
seguido de outro lundu,

Eu possuo uma bengala 
Da maior estimao, 
E feita da melhor cana 
E tem o melhor casto.

A minha bela caseira

Toda inteira se arrepia

Quando trs vezes por dia 
No dou bengaladas nela.

E conclua: Lhe fincando a bengalada!
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Como cano, o mestio lundu fez grande sucesso no incio do sculo XX, cantado em circos de todo o Brasil e em casas de chope no Rio de Janeiro. Referncias clssicas
do gnero so as gravaes iniciais realizadas para a Casa Edison pelo palhao Eduardo das Neves e, principalmente, o lundu "Isto  bom", de Xisto Bahia, considerada a primeira obra a ser gravada na histria da msica popular brasileira, alm do "Bolim bolacho", de autor desconhecido.

J a modinha,  considerada canto urbano branco de salo, de carter lrico, sentimental. Em Portugal, a palavra moda designa cano em geral. E jeito luso-brasileiro  de acarinhar tudo com diminutivos. A palavra modinha nasceu assim. A forma da modinha sempre apresenta muitas variaes: em duas estrofes A-B; em duas estrofes e  refro A-B-C; em estrofe e refro A-C; em duas estrofes e stretto, que faz s vezes refro A-B-D, e mesmo algumas eruditssimas, vestindo o espartilho da ria da 
capo. Em princpio, era em compasso binrio (C e 2/4). Depois, por influncia da valsa, adotou o ternrio, que  hoje o mais vulgarizado. H tambm a modinha que 
adota o binrio do schottisch, chamada no vocabulrio da msica popular brasileira de cano, como, por exemplo, a famosa "A voz do violo" (1928), de Francisco 
Alves e Horcio Campos. Mrio de Andrade, com a acuidade de sempre, observou que: 
 medida que esta (a modinha) desaparece ou vive mais desaparecida dos seresteiros, vai sendo, porm, substituda pelo samba-cano, que  realmente uma modinha 
nova, de carter novo, mas cano lrica solista, apenas com uma rtmica fixa de samba, em que, porm, a aggica no  mais realmente coreogrfica, mas de cano  lrica. Ora, isso  uma evoluo lgica, por assim dizer, fatal. A modinha de salo, passada pra boca do povo, adotou os mesmos ritmos coreogrficos, o da valsa 
e o do xote principalmente. Ora, estes eram sempre ritmos importados, no de criao imediata nacional. O samba-cano  a nacionalizao definitiva da modinha.

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Modinhas de 1895. Recordao de "Minha Esther".

Museu de Msica, Mariana, MG


Resta acrescentar que a modinha, hoje denominada popularmente de seresta nos botequins e nas churrascarias de subrbio do Rio de Janeiro, onde se refugiou, reveste tambm o ritmo do Fox-cano brasileiro, to divulgado nas dcadas de 1930 e 1940. Nessas serestas, quase nunca deixam de ser cantados, ao lado de "Cho de estrelas"
(Orestes Barbosa e Slvio Caldas, 1937), "Lbios que beijei" (J. Cascata e Leonel Azevedo, 1937) ou de sambas de Ary Barroso, Noel Rosa e Lupicnio Rodrigues, os fox-cano "Nada alm" (Custdio Mesquita e Mrio Lago, 1938), "Renncia" (Roberto Martins e Mrio Rossi, 1942) ou "Mulher" (Custdio Mesquita e Sadi Cabral, 1940). 
Os musiclogos discutem, sem chegar a resultados conclusivos, se a modinha nasceu em Portugal ou no Brasil e se  de origem popular ou erudita. O que est firmemente  estabelecido  que as melhores modinhas sempre foram as brasileiras.
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Tanto portugueses despreocupados de fazer histria, como os viajantes estrangeiros que nos fins do sculo XVTIi e primeiro semi-sculo seguinte visitaram Portugal, testemunham constantemente a superioridade da modinha brasileira e o domnio que ela manteve alm-mar.

Quanto a ser ela criao erudita ou popular, o que  certo  que era cantada, com acompanhamento de viola de arame, pelo mulato brasileiro Domingos Caldas Barbosa,  na corte de D. Maria I (me de D. Joo VI), em Portugal. Por outro lado, Slvio Romero, falando sobre a popularidade de Caldas Barbosa (o Lereno Selinuntino da Arcdia),  afirma: 

O poeta teve a consagrao da popularidade. No falo dessa que adquiriu em Lisboa, assistindo a festas e improvisando na viola. Refiro-me a uma popularidade mais  vasta e mais justa. Quase todas as cantigas de Lereno correm de boca em boca nas classes plebias truncadas ou ampliadas. Formam um material de que o povo se apoderou, 
revelando-o a seu sabor. 
A modinha foi o primeiro gnero popular brasileiro a ser divulgado com sucesso fora do pas, h 250 anos. Caldas Barbosa, para desespero dos eruditos poetas portugueses (Bocage, Nicolau, Tolentino, Filinto Elsio e outros), era uma verdadeira coqueluche nos saraus da corte, com suas modinhas e lundus. Depois dele, praticamente todos  os poetas romnticos do Brasil tiveram seus versos musicados: Gonalves Dias, Casimiro de Abreu, Castro Alves e outros. At os modernos no escaparam da moda da  modinha. Manuel Bandeira, Drummond e Mrio de Andrade tambm forneceram poemas, aproveitados posteriormente pelos msicos do gnero. Chico Buarque, Vincius de Moraes, 
Juca Chaves, Baden Powell e muitos outros compositores de nossos dias fizeram modinhas. Ao 
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" ARAJO, Mozart de. A modinha e o lundu no sculo XVIII. So Paulo: Ricordi Brasileira, 1964.



finalizar o sculo XX, entre as canes escolhidas como as 10 melhores do perodo pela Academia Brasileira de Letras (ento presidida por Nlida Pinon) e em comemorao aos 100 anos da instituio, inclua-se a modinha "Cho de estrelas", de Slvio Caldas e Orestes Barbosa, consagrando assim um gnero mais de duas vezes centenrio.
Mozart de Arajo, numa obra clssica sobre o tema6, termina o estudo com as seguintes palavras: "Dizem que a modinha morreu. Ela no morrer porque j no  mais  uma cano, mas um estado de alma. Ela est na prpria essncia emotiva da nacionalidade." 

As estrelas pioneiras da MPB 

Na segunda metade do sculo XIX iriam se fixar os primeiros grandes nomes daqueles que iriam formar as bases do que  hoje considerada a nossa msica popular. As 
populaes dos arraiais e vilas se somaram cm cidades, das quais logo despontaram Salvador, Recife e Rio de Janeiro, todas com forte influncia negra. Essas populaes,  agora como ingrediente urbano, demandavam novas formas de lazer, ou uma produo cultural. E essa produo se fez representar no campo da msica popular pelos gneros  iniciais de lundu e de modinha, e a seguir pelo maxixe. Dentro desse quadro e poca, comeam a aparecer alguns vultos essenciais a serem aqui registrados. 

Um dos primeirssimos  Xisto Bahia (Bahia, 1841 - Caxambu, 1894), que retomou a tradio de Domingos Caldas Barbosa, cujas modinhas irnicas levadas  corte portuguesa  no sculo XVIII j se tinham transformado em rias pesadonas, quando D. Joo VI aportou no Rio, em 1808, fugido com sua corte da invaso promovida por Napoleo Bonaparte  na Pennsula Ibrica. 

Mulato, compositor, cantor, violonista, teatrlogo, Xisto de Paula Bahia nasceu na Freguesia de Alm do Carmo, Salvador, 

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Bahia. Filho do major do Exrcito Francisco de Paula Bahia e de D. Tereza de Jesus Maria do Sacramento Bahia. O pai, depois de desligar-se do Exrcito, recebeu como 
recompensa aos servios prestados quela instituio nas campanhas da Cisplatina e da Independncia o cargo de administrador da Fortaleza de Santo Antnio de Alm  do Carmo. L Xisto Bahia nasceu. Era o  caula dos irmos Soter, Francisco Bento, Horcio e Eullia. O menino recebeu somente instruo primria. Depois da morte 
do pai, em 1858 

-        o que deixou a famlia em delicada situao financeira 
-        tentou a carreira de comerciante. Acabou desistindo diante das dificuldades e da falta de talento para o comrcio. Passou, ento, a se dedicar  vida artstica,  sua clara e irrefrevel vocao. 

Reparem nesta sensvel descrio de Xisto Bahia feita por Lus Edmundo7: "...o homem que dedilha o instrumento suavssimo  um mulato de gaforinha densa e bipartida,  um fraque de sarja velho, fechado na altura do pescoo, preso por um alfinete de fralda...". Xisto casou-se com a atriz portuguesa Maria Vitorina de Lacerda Bahia,  conhecida como Maria Bahia (falecida a 28 de maro de 1941, aos 77 anos). Com ela teve quatro filhos: Augusto, Maria, Teresa e Manuela. 

Xisto Bahia  considerado figura importante para a consolidao da msica popular brasileira, j que teve atuao de destaque como ator, compositor e cantor de modinhas  e lundus na importante fase do teatro de costumes (grande mercado e vitrine para os msicos, compositores e intrpretes do Brasil, no sculo XIX). Foi, principalmente,  atravs desse cenrio, que a cultura brasileira viu surgir inmeros sucessos musicais, novos gneros e grandes intrpretes. Xisto comeou desde cedo a demonstrar  espontnea (nunca estu- 

Xisto Bahia. Arquivo Cedoc 
Funarte 
EDMUNDO, Luis. O Rio de Janeiro do meu tempo. Rio de Janeiro, Imprensa Nacional, 1938. 

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dou msica formalmente) inclinao para a msica. Logo revelou-se, ainda como amador, cantando e tocando violo no teatrinho da rua So Jos, na Freguesia do Carmo. 
Aos 17 anos, j compunha suas prprias modinhas e lundus. Em 1859, entrou para a Companhia Lrica Clemente Mugnai, como corista (possua bela voz de bartono), apresentando-se  no Teatro So Joo, em Salvador. Transfere-se para a companhia de teatro de seu cunhado Antnio Arajo (pai dos futuros professores Torquato e Antnio Bahia). Com  ele excursionou pelas principais cidades da provncia baiana. Em 1861, ento com 20 anos, fazia enorme sucesso cantando chulas e lundus de sua autoria, acompanhando-se  ao violo, em festas organizadas pela Companhia do Comendador Constantino de Amaral Tavares (ento diretor do Teatro So Joo), para quem trabalhou nessa poca. 

Em 1864, excursionou pelo norte do pas, contratado pelo empresrio Couto Rocha. O contrato durou 10 anos. Durante esse perodo, o sucesso parece ter-lhe subido 
 cabea; Xisto deu para entrar no palco sem ter sequer lido o papel. Em 1866, no Cear, recebe o troco por seu descuido profissional:  vaiado em cena. Em conseqncia,  passa por uma profunda depresso, s recuperando-se com a ajuda do crtico Joaquim Serra, que aconselhou Xisto a estudar sob a direo de Joaquim Augusto. O resultado  comea a aparecer no Maranho, de onde parte, depois de grande sucesso. Volta ao Cear, onde tambm deixa tima impresso e retorna consagrado  Bahia, em 1873. 
A seguir, ingressa na Companhia de Mgicas de Lopes Cardoso. Participa da montagem da comdia Duas pginas de um livro, que fazia clara propaganda republicana e  abolicionista. 

Ao retornar ao Rio de Janeiro, logo apresentava-se no Teatro Ginsio, na Companhia de Vicente Pinto de Oliveira, ao lado de Cllia Arajo. Passa, da, a ser requisitado  em vrias comdias, alcanando grande sucesso na corte. Data dessa poca o incio da rivalidade entre Xisto Bahia e Laurindo Rabelo (outro grande autor 

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de lundus maliciosos e satricos como os de Xisto). Segundo Afonso  Rui,  desse embate surgiram, de verdadeiramente corrosivo para o teatro, o uso e abuso dos gestos e frases dbias de novos lundus e  canonetas que descambaram para a licenciosidade . Xisto Bahia   Portuguesa interpretava, com muito sucesso, esses lundus jocosos para o pblico. Nos  sales aristocrticos de Botafogo, no entanto, interpretava visualidade". composies elegantes, escritas especialmente pelo Visconde de Porto Alegre. Ainda em 1875, trabalhou na pea Uma vspera de Reis, de Arthur Azevedo. O teatrlogo conseguira o consentimento de Rui Barbosa, na poca diretor do Conservatrio Dramtico
de Salvador, para mont-la.

Azevedo ficou to entusiasmado com a interpretao autoral de Xisto, dada ao personagem tabaru Bermudes, que quis lhe oferecer a co-autoria da pea, coisa que Xisto recusou. O fato pode ser comprovado em artigo do prprio Arthur Azevedo, publicado no O Pas, de 7 de novembro de 1894.

Em 1878, Xisto excursionava novamente ao norte do pas, inaugurando o Teatro da Paz, em Belm do Par, com a pea As duas rfs. Um ano depois, voltou  Bahia, trabalhando pela ltima vez com Pontes de Oliveira. Logo depois, seguiu para o Rio de Janeiro e, chegando  corte, ingressa no grupo de Furtado Coelho. Em 1880, o Imperador D. Pedro II vai assistir ao espetculo Os perigos do coronel, uma comemorao  Batalha do Riachuelo. Em carta  Condessa de Barrai, o Imperador conta: "Gostei de um cmico chamado Xisto Bahia - creio que  baiano - numa espcie de imitao de 'Les Jurons de Cadrac'... declamou com muito talento a descrio da Batalha do Riachuelo".

Xisto teve marcantes passagens em teatros do Rio de Janeiro, So Paulo e Minas Gerais, mas, apesar da fama, continuava pobre, o que comeou a lhe gerar grande desiluso com a vida artstica. No Teatro Lucinda, no Rio de Janeiro, montou cerca de cinco revistas e mgicas9, mas acabou afastando-se dos palcos, imerso em frus-
* Em Bomios  seresteiros
baianos do passado.
" Mgica, no Dicionrio
Contemporneo da Lngua
Portuguesa de Caldas 
Aulete,  Pea teatral com transformaes e visualidade


36
Henrique Bernardelli. O Teatro de Arthur Azevedo, 13 de novembro de 1901.

NUMERO 214  ANO XXVII
Arthur Azevedo
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traes, como podemos deduzir da amarga resposta ao amigo Antnio Espiuca, que lhe escrevera pedindo conselhos sobre seu regresso ao teatro, depois de t-lo trocado
pelo curso de doutor: ...
Tu nunca depravaste a arte, tu nunca deste cambalhotas, tu nunca concorreste para a desmoralizao dos teus colegas; ao contrrio, foste vtima, como eu, dos gavies, das rapinas daqui. Queres voltar? Queres comer novo po, ainda mais amargo e duro do que o que j comeste? Sentes-te com nimo? Ah! No venhas, eu to peo...

Ainda em 1891, obteve do ento presidente do Estado do Rio de Janeiro, Francisco Portela, um lugar de amanuense na Penitenciria de Niteri. Em 1892, Portela  demitido, Xisto perde o posto e  obrigado a voltar  cena. Sua ltima apresentao  a mgica O filho do averno, com a Companhia  Garrido, no Teatro Apoio. O sucesso alcanado pela pea fez Arthur Azevedo escrever um perfil do artista, publicado no semanrio Album.

Posteriormente, recebeu convite do empresrio portugus Sousa Bastos para temporada no Teatro das Novidades, em Lisboa, mas a Revolta da Armada impediu que viajasse para Portugal. A crise poltico-econmica da ltima dcada do sculo XIX provocou o fechamento de muitos teatros no pas. Como tantos outros artistas populares, ele que colhera tantos triunfos, e chegou a ser co-autor de Arthur Azevedo (1855-1908) - irmo de Alusio Azevedo, autor de O cortio, considerado ao lado de Martins Pena um dos fundadores da dramaturgia nacional, escreveu cidas stiras de costumes. Xisto, em fins de 1893, bastante enfermo, na misria, sozinho e esquecido, viajou, a conselho mdico, para a estncia hidromineral de Caxambu, sul de Minas Gerais, onde faleceu.

Xisto  bem filho de uma poca de popularizao da poesia unida  msica, quando os poetas romnticos comearam a es-
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crever versos para serem musicados no apenas por instrumentistas e compositores de escola, mas por simples tocadores de violo. Ele legou  msica popular brasileira  verdadeiros clssicos. Sua produo, embora pequena (muitas obras devem ter sido perdidas),  de excelente qualidade.  dele a autoria da primeira msica gravada no Brasil pela Casa Edison, de Fred Figner, em 1902: o at hoje reconhecido lundu "Isto  bom", com interpretao de Bahiano (Zon-o-phone 10001). A modinha "Quis debalde varrer-te da memria", que Xisto interpretava magistralmente, segundo seus contemporneos,  citada por todos os estudiosos de nossa msica popular como um dos maiores sucessos de todas aquelas dcadas.

A partir de Xisto, comeam a aparecer os grandes talentos de renome, na msica popular brasileira, que tambm passa por uma transformao significativa. Isso porque comeam a nascer os ritmos ou gneros brasileiros, ou seja, a msica gerada a partir da nossa especial miscigenao racial, jeito de ser, de comemorar a vida, de celebrar a alegria.

Na segunda metade do sculo XIX, a msica ouvida pelas elites era, em geral, as peras, as operetas e a msica leve de salo. Os negros ou os brancos amestiados das camadas baixas executavam e ouviam, geralmente, os estribilhos acompanhados por sons de palmas e violas. A tmida classe mdia - que comeou a se formar no segundo imprio - ouvia apenas os gneros europeus, ou seja, msica leve dos sales da elite: a polca, chegada ao Brasil em 1844, a valsa ( claro), e ainda a schottisch,
a quadrilha, a mazurca. E nesse contexto que aparece o mulato Joaquim da Silva Callado (RJ, 1848 -RJ, 1880).

Flautista, com boa formao musical, Callado organizou os primeiros grupos instrumentais de carter carioca e popular no Brasil: os choros, palavra que inicialmente indicava apenas uma reunio de msicos (chores) e que, s muito depois, passou a significar o nome

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_ngelo Agostini.
 Joaquim Antnio da 
Silva Callado. Revista
 Illustrada, Rio de 
Janeiro, ano 5, n 202,
 3 de abril de 1880.

 Enciclopdia da Msica Popular Brasileira, So Paulo, Publifolha, 2000, p. 200.
do gnero musical. Era a msica do gnio e da criatividade brasileiras. Seu conjunto mais famoso, formado por volta de 1870, chamou-se Choro Carioca.

O choro foi o recurso de que se utilizou o msico popular para executar, a  seu modo, a msica importada, que era consumida a partir da primeira metade do sculo XIX nos sales de baile da alta sociedade. A msica gerada sob o impulso criador e improvisatrio dos chores logo perdeu as caractersticas dos pases de origem, adquirindo feio e carter perfeitamente brasileiros, a ponto de se tornar impossvel confundir uma Polka da Bomia, uma Scottisch teuto-escocs ou uma Walsa alem ou francesa com o respectivo similar brasileiro sado desses chores que se chamaram Calado, Chiquinha Gonzaga, Anacleto de Medeiros, Irineu Batina, Mrio Cavaquinho, Stiro Bilhar, Candinho Trombone, Pixinguinha.10


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_Alexandre Gonalves Pinto. O Choro, 1936.

Arquivo da Editora
Entre as histrias sobre o choro, conta-se que seu nascimento se deveu  reunio de trs instrumentos: a flauta, o cavaquinho e o violo. Os instrumentistas, sempre
os mais hbeis, reuniam-se informalmente, por pura diverso, para executar sua msica carregada de sentimento, chorosa... Os instrumentistas, geralmente, eram pessoas humildes, funcionrios da Alfndega e dos Correios e Telgrafos, ou da Central do Brasil, e o bairro do choro era, sem dvida nenhuma, a Cidade Nova, Rio de Janeiro.

Callado, para sustentar os cinco filhos, comeou a vida tocando em festas. Sua estria em salas de concerto, entretanto, seria uma apresentao clebre, diante da
Famlia Imperial, como segundo flautista no Teatro Ginsio, em 1866. No  ano seguinte, uma composio sua, a quadrilha 'Carnaval de 1867", seria seu primeiro sucesso como compositor. A partir da, ganhou prestgio suficiente para reunir em torno de si justamente os instrumentistas mais hbeis, aptos para a execuo de seus choros.

O novo gnero, uma msica estimulante, solta e buliosa, era quase sempre executado  base de modulaes e de melodias to trabalhadas que exigiam de seus executantes extrema competncia e talento. A ponto tal que os editores, a partir de um determinado momento, passaram a recusar-se a editar Callado, que chegaria, con-
41
" Apud Enciclopdia da msica brasileira p.494.

tudo, a ser condecorado pelo imperador com a Ordem da Rosa   (1879), alta comenda contenda a personalidades do Imprio. Callado morreu em 1880, vitimado por uma das muitas epidemias que grassavam no Rio no fim do sculo XIX, insalubre e sem esgotos sanitrios.
Aproximadamente em 1875, ainda nos forrs da Cidade Nova e nos cabars da Lapa, surgiria outro gnero musical fundador da MPB: o maxixe.

Segundo Jos Ramos Tinhoro, em Pequena histria da msica popular, o maxixe "marca o advento da primeira grande contribuio das camadas populares do Rio de Janeiro
 msica do Brasil". J em Histria da msica brasileira, Renato de Almeida diz ser o maxixe "uma adaptao de elementos que se fixaram num tipo novo, com uma coreografia cheia de movimentos requebrados e violentos, muitos deles emprestados do batuque e ao lundu". Mrio de Andrade" considera o maxixe a primeira dana genuinamente brasileira, que, do ponto de vista musical, resultou da fuso do tango e da havaneira pela rtmica da polca, com adaptao da sincopa afro-lusitana. Em fins do sculo XIX, a dana chegou ao teatro de revista e aos clubes carnavalescos, sendo-lhe acrescentados passos a que foram dados os  nomes de carrapeta, balo, parafuso, cortacapim,
saca-rolha, etc. Data de ento, provavelmente, o nascimento do maxixe cantado, e a aquisio pelas letras tanto de expresses da gria carioca, quanto de um tom insinuante, picante, lbrico, que lhe ficaram caractersticos, diferenciando-o de vez do tango e da havaneira.

Inicialmente, para danar o maxixe, os pares o faziam ao ritmo de tango, havaneira, polca ou lundu. Dessa variedade rtmica nasce o maxixe, cujas primeiras partituras com essa qualificao so impressas em fins do sculo XIX - quando as casas editoras o reconheceram como gnero musical especfico. J naquele tempo o Brasil exportava sua msica, e assim o maxixe foi levado  Europa, onde

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Alfredo Herculanu. Tempo de Bambas: O Carnaval da Praa XI, 1928.
alcanou relativo sucesso em apresentaes coreografadas pelo bailarino Duque, na Frana e na Inglaterra, respectivamente em 1914 e em 1922.

Mas, retornando aos decisivos momentos do final do sculo XIX, a partir de Callado surge toda uma gerao de msicos: Pedro Galdino, Paulino Sacramento, Pedro S
Pereira e Candinho, entre muitos outros. O Teatro de Revista - cujo corao estava na Praa Tiradentes do Rio - era o grande centro consumidor e tambm irradiador
da msica popular, desde as ltimas dcadas do sculo. Com destaque para trs grandes msicos sempre presentes nos palcos da poca: Henrique Vogeler, Freire Jr. e Lus Peixoto, a partir das dcadas iniciais do sculo XX.

Dentre todos os pioneiros, todavia, duas chamas individuais logo se destacam dos demais: Chiquinha Gonzaga e Ernesto Nazareth.

Francisca Edwiges de Lima Neves Gonzaga (RJ, 1847 - RJ, 1935) era filha da mulata e me solteira Rosa Maria de Lima com o futuro marechal-de-campo do imperador,
Jos Basileu Neves Gonzaga, que a reconheceu como filha legtima. Casou-se por promessa paterna com um oficial da marinha mercante chamado Jacinto Ribeiro do Amaral, que logo obrigou-a a vender o piano, assim como forava-a a viajar quase reclusa no camarote do seu navio. Conta-se que, no porto de Salvador, certa feita, Chiquinha trouxe

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um violo para bordo. O marido, o capito do navio, com quem ela j vivia s turras, caiu na ingenuidade de dar a Chiquinha um ultimato insensato: "O violo ou eu!"
Chiquinha, intimerata e prontamente, escolheu o violo.

Talvez a histria desse casamento, que tanto marcou de sofrimento a vida de Chiquinha, tenha sido bem menos folclrica... Ela se casara com apenas 16 anos, no dia 5 de novembro de 1863. O marido era oito  anos mais velho e com ele teve trs filhos: Joo Gualberto, nascido a 12 de julho de 1864; Maria do Patrocnio, nascida a 12 de novembro de 1865, e Hilrio, nascido provavelmente em 1868. Nessa poca  que o casamento se desfaz, depois de uma difcil viagem acompanhando o marido  regio onde acontecia a Guerra do Paraguai. Ela sai de casa levando o filho Joo Gualberto e o pai deserda-a, considerando-a morta. O rigor de Jos Basileu obriga a compositora a abandonar a filha e o filho mais novo, alm de ser proibida, da para o resto da vida, de visitar a me em sua casa. A filha Maria  criada por seus pais e Hilrio por tios, sem saberem que so filhos de Chiquinha Gonzaga.

Na dcada de 1870 - e j no Rio Chiquinha comea a ensinar violo e a compor, preparando-se para tornar-se uma futura maestrina. A polca "Atraente" (1877) foi seu primeiro sucesso, em meio

Chiquinha Gonzaga.
Arquivo Cedoc / Funarte
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Chiquinha Gonzaga.    
Sultana , polca para piano   
Arquivo da Editora

 a centenas de composies em todos os gneros: valsas, polcas, tangos maxixes, lundus, quadrilhas, fados, gavotas,
mazurcas, bar carolas, havaneiras, serenatas e at msicas sacras. "Atraente" foi publicada pelo Imperial Estabelecimento de Pianos e Msica, de Artur Napoleo e Leopoldo Miguez. Fez muito sucesso (15 edies), chegando a ganhar uma letra annima, que fazia referncias ferinas ao estilo de vida da compositora. Chiquinha passa a receber nas ruas o apelido de Chica Polca, acompanhado de quadrinhas maliciosas.

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Contempornea de Callado, seu grande amigo e admirador, participou de grupos com os principais chores de ento. Em 1885, derrubou mais um preconceito: comps a primeira partitura feita por uma mulher para uma opereta popular, A corte na roa, impondo-se assim como maestrina. Por conta desse trabalho, um jornal da corte a chamou de Offenbach de saias. Apesar da proibio, por parte da polcia, de algumas letras e do bis do ltimo nmero, um maxixe, foi muito aplaudida pelo pequeno pblico presente no ento Teatro Imperial (mais tarde So Jos). A partir de ento, a compositora consegue impor-se no meio teatral, a ponto de, anos depois, dirigir nada menos do que os msicos do teatro e a Banda da Polcia Militar, tornando-se a primeira mulher a reger uma orquestra no Brasil. Em 1887, promoveu um concerto para cem violes no Teatro So Pedro. As  vsperas da Lei urea, com o dinheiro da venda das partituras de sua obra Caramuru, comprou a alforria do escravo msico Z Flauta, no apenas um ato poltico, uma demonstrao de impacincia pela hesitao do Imprio em reconhecer que no tinha sada a no ser decretar a Abolio, mas tambm por se tratar de um msico popular que ela apreciava. Em 1897, comps um de seus grandes sucessos, o tango "Gacho", conhecido alguns anos depois como
"O corta-jaca" - obra imortal de nosso cancioneiro, que foi lanada na pea Zizinha Maxixe, toda musicada por Chiquinha. Em uma cena, Machado Careca fazia grande sucesso danando o tango "Gacho".

O tango foi responsvel por um episdio inslito na histria da Repblica. Por ocasio de uma recepo oficial, promovida no Palcio do Catete, no dia 26 de outubro de 1914, a esposa do ento presidente Hermes da Fonseca, a lendria Nair de Teff, fez questo de incluir no programa o tango "O corta-jaca", que a prpria primeira-dama executou ao violo, provocando escndalo nos conservadores e fortes crticas da oposio.
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Em 1899, Chiquinha comps, a pedido do Cordo Rosa de Ouro, a primeira marcha de carnaval, "O abre alas", tornando-se pioneira na produo carnavalesca e antecipando-se em 20 anos  fixao do gnero. A marcha foi sucesso entre os folies, entre os anos de 1901 e 1910. Nesses anos, faria vrias viagens  Europa, percorrendo na primeira delas Portugal, Espanha, Itlia, Frana, Alemanha, Blgica, Inglaterra e Esccia. No exterior, se apresentaria no Salo Neuparth, de Lisboa, e na Igreja de Nossa Senhora do Amparo, em Benfica, e, numa viagem posterior, ganharia fama por musicar vrias peas portuguesas, dentre as quais As trs graas, com Lus Galhardo, e
A bota do diabo, com Avelino Andrade. O ano de 1912 trouxe muito sucesso  compositora, e o maior deles foi Forrobod, opereta em trs atos que musicou, com libreto de Lus Peixoto e Carlos Bittencourt, e que teve nada menos do que 1.500 apresentaes. Apesar disso, a compositora ainda se encontrava em dificuldades financeiras, o que a levava  exasperao permanente. Sabe-se que Forrobod rendeu  empresa de Paschoal Segreto  97 mil contos de ris. Os autores do libreto receberam apenas 600 mil-ris, quantia esta absurdamente negada  compositora.
Em 1917, no dia 27 de setembro, Chiquinha funda, juntamente com Viriato Correia, Raul Pederneiras e outros, a Sbat, Sociedade brasileira de autores teatrais, justamente com a finalidade de defender, com rigor, os direitos autorais de seus filiados. Chiquinha j estava na casa dos 80 anos quando realizou, em 1933, seu ltimo trabalho: a msica da pea Maria, de Viriato Correia. Entre 1885 e 1933, musicou 77 peas teatrais, das quais cinco ficaram inditas.

Chiquinha ainda teve coragem e tempo para abraar as causas mais nobres de sua poca, como o Abolicionismo, saindo muitas vezes de porta em porta para recolher donativos que financiariam o movimento popular contra a escravido. A revolucionria Francisca tambm deitou modas, fez seus prprios vestidos, fumou charutos,
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 tornou-se notcia, caiu na maledicncia popular. Mas fez de sua vida um ato de pioneirismo e coragem, alm de muita msica. Chiquinha faleceu no Rio com 89 anos, cercada por uma aura de mito, um cone tanto de transgresso social quanto da consolidao da msica popular. Morreu em seu apartamento no Edifcio Segreto, na Praa
Tiradentes, corao do teatro de revista da poca. Eram seis da tarde de uma quinta-feira, 28 de fevereiro, antevspera de Carnaval.

De to grande importncia quanto Chiquinha - e talvez at maior sob uma tica estritamente musical - Ernesto Julio Nazareth (RJ, 1863 - RJ, 1934) era filho de famlia bastante modesta. O pianeiro (pianista apresentando-se ao pblico em sesses populares) nasceu no morro do Nheco, hoje morro do Pinto, no bairro da Cidade Nova, no Rio de Janeiro. Sua infncia foi marcada por perodos de grandes mudanas e instabilidade social e poltica, como a Guerra do Paraguai, o movimento abolicionista e a instaurao da Repblica.

Aluno aplicado de piano, lanou o primeiro tango brasileiro, "Brejeiro", que no fundo era quase um choro. E assim iniciou uma carreira que o transformaria no compositor
mais original do Brasil, no dizer de Mrio de Andrade: algum que conseguiu ser popular e erudito ao mesmo tempo. Nazareth, contudo, desprezava msica popular, que era obrigado a tocar nos lugares plebeus, como ante-salas de cinemas - onde, alis, era ouvido por gente do porte de Darius Milhaud, que nele se inspirou para compor algumas de suas peas. Rui Barbosa era outro personagem famosssimo que, embora no ligasse muito para cinema, sempre ia ouvi-lo no cinema Odeon.

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Amargurado, e tendo de tocar quase que na rua para sobreviver, o compositor ficou definitivamente surdo, por volta 1933, aps um longo processo de perda de audio que remontava de um acidente na infncia. A surdez lhe causou grande perturbao mental e, poucos anos depois, a conseqente internao no Instituto Neuropsiquitrico, situado  Praia Vermelha. Posteriormente, ele foi transferido para a Colnia  Juliano Moreira, situada em Jacarepagu. Em fevereiro de 1934, saiu da Colnia para um passeio pelas alamedas do sanatrio e, sem ser visto, transps o porto do estabelecimento, desaparecendo. Aps alguns dias de busca, o corpo do compositor foi encontrado nas guas da Cachoeira dos Ciganos.

O festejado pianeiro marcou uma diviso de guas na msica brasileira, apesar de no ser compositor visceralmente popular, sobretudo pelo uso, que ele desejava sempre elitista, do piano. Muitas de suas msicas e choros se incorporaram ao cancioneiro dos chores e lhe proporcionaram seu carter, como "Apanhei-te cavaquinho" e "Odeon",
dois clssicos do repertrio chorstico. Nazareth deixou obra essencialmente instrumental, quase sempre dedicada ao piano, que, entretanto, muitas vezes retratava o ambiente musical das serestas e choros, expressando, ento, atravs do instrumento, a musicalidade tpica do violo, da flauta, do cavaquinho, instrumental caracterstico
do choro. E nisso constituiu-se num artista que soube revelar na msica a alma brasileira, ou, mais especificamente, carioca. A esse respeito, diz o musiclogo Mozart de Arajo:

As caractersticas da msica nacional foram de tal  forma fixadas por ele e de tal modo ele se identificou com o jeito brasileiro de sentir a msica, que a sua obra, perdendo embora a sua funcionalidade coreogrfica imediata, se revalorizou, transformando-se hoje no mais rico repositrio de frmulas e constncias rtmico-meldicas, jamais devidas, em qualquer tempo, a qualquer compositor de sua categoria.
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Na produo musical de Nazareth, destacam-se numericamente os tangos (em torno de 90 peas), as valsas (cerca de 40) e as polcas (cerca de 20), destinando-se o restante a gneros variados como mazurcas, schottisches, marchas carnavalescas etc.  sabido que o compositor rejeitava a denominao de maxixe a seus tangos, distinguindo-se daquele fundamentalmente pelo carter pouco coreogrfico e predominantemente instrumental de sua obra. Deve-se ainda ressaltar em sua produo a influncia de compositores europeus, notadamente de Chopin, cuja obra Nazareth se dedicou a estudar meticulosamente e cuja inspirao se reflete, sobretudo, na elaborao meldica de suas valsas.

Em 1879, Nazareth escreveu a polca "Cruz perigo" (na verdade seu primeiro tango), publicada no ano seguinte pela Casa Viva Canongia, situada na rua do Ouvidor.
Em 1893, a Casa Vieira Machado lanou uma nova composio de Nazareth, o tango "Brejeiro", com o qual alcanou sucesso nacional e at mesmo internacional, a medida  em que a Banda da Guarda Republicana de Paris passou a inclu-la em seu repertrio, chegando at mesmo a grav-la. O primeiro concerto do pianista Ernesto Nazareth realizou-se em 1898, no Salo Nobre da Intendncia da Guerra, iniciativa do Clube de So Cristvo. Tempos depois, na nova sede dessa associao, realizou um  outro concerto, do qual participou ao segundo piano o compositor Ernani Braga. Em 1919, empregou-se na Casa Carlos Gomes - mais tarde Carlos Wehrs -,  fundada por Eduardo
Souto e Roberto Donati, com a funo de executar msicas (das 12 s 18 horas), cujas partituras punham-se  venda; na poca, era essa a maneira mais corrente de tornar conhecidas do pblico as novidades musicais, considerando-se que no havia rdio, os discos eram raros, e o cinema, mudo.

De 1920 a 1924, Nazareth tocou na sala de espera do cinema Odeon (no confundir com o atual cinema na Cinelndia), de propriedade de Francisco Serrador. Os espectadores chegavam  casa

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Ernesto Nazareth. Cavaquinho por que choras?" Choro 1911. Partitura autografada pelo compositor e editada pela Casa Carlos Comes. Biblioteca Nacional , Rio de Janeiro

aproximadamente uma hora antes da sesso, s para desfrutarem da msica executada pelos grandes instrumentistas da poca. No Odeon, por exemplo, tocava a orquestra do maestro Andreozzi, da qual era violoncelista o grande compositor Heitor Villa-Lobos. Nazareth executava peas de Chopin, Schumann, Liszt, Beethoven, alm de Gottschalk,
Artur Napoleo e naturalmente Ernesto Nazareth. Ao cinema Odeon, o compositor dedicou uma de suas composies mais clebres, o tango "Odeon".

A entrada de Nazareth no ambiente musical erudito deu-se em 1922, quando, a convite do compositor Luciano Gallet, participou de um recital no Instituto Nacional de Msica, onde executou os tangos "Brejeiro", "Nen", "Bambino" e "Turuna", para horror dos habitus do Instituto, que reagiram de modo to violento que foi necessria a interveno policial para garantir a realizao do concerto.
Em 1926, a Cultura Artstica de So Paulo organizou uma homenagem ao compositor, que, pelo perodo de um ano, ainda 
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deu recitais no Teatro Municipal e no Conservatrio Dramtico e Musical de Campinas.
Nazareth foi um dos primeiros artistas da Rdio Sociedade (hoje Ministrio da Educao), fundada por Roquette-Pinto; no entanto, apenas em 1932 pde apresentar,
pela primeira vez, um recital s com msicas de sua autoria, realizado no Estdio Nicolas, um concerto precedido por uma conferncia de Gasto Penalva. Neste mesmo ano, dois anos antes do seu falecimento, o pianeiro realizou uma ltima turn, correndo o sul do pas a convite de admiradores gachos. Nazareth foi retomado por diversos compositores e intrpretes eruditos, como Francisco Braga, Villa-Lobos, Francisco Mignone, Radams Gnattali, Eudxia de Barros e Artur Moreira Lima.

Outro pioneiro importante foi o fdho de uma escrava liberta, batizado com o nome do santo do dia, Anacleto Augusto de Medeiros (Ilha de Paquet, RJ, 1866 - RJ, 1907), que entraria para a histria da cultura popular como o mestre fundador da Banda do Corpo de Bombeiros. Contemporneo de Francisco Braga, no Conservatrio de Msica, quando l se formou, em 1886, tocava vrios instrumentos de sopro, tendo preferncia pelo sax-soprano.

Florescendo numa poca em que a msica do povo comeava a ser estruturada, foi um msico inovador, porque responsvel pela definio ou escola harmnica da msica popular, at ento inexistente. Comps inmeras valsas, polcas e schottisches, algumas das quais se tornaram imensamente populares, sendo constantemente executadas por bandas em todo o Brasil. Uma de suas schottisches mais clebres foi "Iara", que mais tarde recebeu versos de Catulo da Paixo Cearense. Foi um dos compositores
mais populares de sua poca.

No entanto, quando se fala em Mestre Anacleto de Medeiros,  muito comum vir logo  mente um  outro dos grandes personagens da histria dos pioneiros, o compositor e flautista Patpio Silva (RJ, 1881 - SC, 1907), que assombraria a primeira dcada do scu-
_Anacleto de Medeiros.
Arquivo Cedoc / Funarte
Patpio   Silva. Arquivo Cedoc
Funarte 


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lo  XX, por dois motivos. Primeiro porque veio a ser um fantstico virtuose da flauta. Alis, no s foi o primeiro msico brasileiro a transpor para flauta peas
escritas para outros instrumentos, mas tambm foi um dos primeiros solistas a gravar discos no Brasil. E segundo porque morreria no auge do sucesso, com apenas 28 anos de idade, ao contrair difteria, durante uma excurso a Florianpolis.

Dentro dessa linha dos primeiros compositores populares para a classe mdia ento emergente,  importante ressaltar ainda o nome de Catulo da Paixo Cearense (MA, 1866 - RJ, 1946), autor fundamental de tantas composies que se incorporaram  antologia maior da MPB. Aos 10 anos, Catulo iria morar com sua famlia no interior do Cear, onde possivelmente aferiria elementos bsicos para sua futura obra sertaneja. Aos 17 anos, chegou ao Rio e, freqentando uma repblica de estudantes no ento longnquo bairro de Copacabana ("um local ermo para se veranear", segundo Joo do Rio, na poca), comeou a se interessar pela msica. Sua primeira composio, a modinha "Ao luar", feita aos 18 anos, deu incio a uma das mais bem-sucedidas carreiras da MPB, na qual se ressalta um fato muitssimo comum aos compositores do povo - ter sido sempre um autodidata.

O prestgio de Catulo se consolidaria, de fato, nos primeiros anos do sculo, com o advento das gravaes mecnicas. Pelos velhos discos da Casa Edison, na voz do
cantor Mrio, o prestgio de Catulo no pararia de crescer. Para que se tenha uma idia da sua influncia, ele foi o primeiro a introduzir o violo  instrumento ento considerado maldito - no antigo Instituto Nacional de Msica, em rumorosa audio (1908), corajosamente promovida pelo maestro Alberto Nepomuceno.

A imorredoura e definitiva composio de Catulo "O luar do serto" (1910, gravada pelo Mrio para a Casa Edison)  usual-
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mente considerada o hino nacional dos coraes brasileiros. A famosa pea trouxe a glria definitiva a seu autor e tambm um "grave desgosto", como chegou a confidenciar ao pianista Mrio Cabral: a acirrada disputa com o violonista Joo Pernambuco (Joo Teixeira Guedes, Jatob, PE, 1883 - RJ, 1947), que se considerou desde logo o autor da msica, fato veementemente contestado por Catulo. Alis, Joo Pernambuco foi no s extraordinrio msico, mas tambm autor de obra curta, mas interessantssima, na qual se destacava um clssico, o choro "Sons de carrilho".

Enquanto Catulo era o grande sucesso na Capital Federal do pas, um Rio ainda acanhado e que dava os primeiros passos para se modernizar como grande cidade ("quando o Rio se limpava da morrinha imperial", no dizer de Carlos Drummond de Andrade), apareceu, em 1912, um menino de calas curtas tocando flauta melhor, mas muito melhor, que toda gente grande. Esse menino virtuose viria a ser o herdeiro de toda a tradio musical inaugurada e cultivada por Nazareth, Chiquinha, Callado, Patpio e Catulo, e tambm seria - pelo menos a meu ver - o estruturador e o patriarca de toda a msica que viria depois dele: Alfredo Vianna da Rocha Filho, o Pixinguinha.

Catulo da Paixo Cearense.
Arquivo Cedoc / 
Funarte 

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Pixinguinha.
Arquivo Cedoc / 
Funarte 


De raiz e de gnio: o comeo do sculo XX
Pixinguinha (RJ, 1897 - RJ, 1976) foi compositor, orquestrador, flautista e saxofonista. Em depoimento dado no Museu da Imagem e do Som, ele resume o comeo de sua vida:
Meu nome completo  Alfredo da Rocha Vianna Filho. Nasci em 23 de abril de 1898, no bairro da Piedade. A rua,  no posso precisar. Para o meu irmo Leo foi  na rua
Alfredo Reis, mas para o Joo da Baiana e o Donga, foi na rua Gomes Serpa. O nmero da casa ningum sabe ao certo. S vendo o registro de batismo feito na Igreja de Santana. Meu pai chamava-se Alfredo da Rocha Vianna e minha me Raimunda da Rocha Vianna. Meu irmo Leo acha que o nome era Raimunda Maria Vianna.

A certido de batismo de Pixinguinha atesta o ano de 1897 como a data correta de seu nascimento. Sua me casou-se duas vezes e teve um total de 14 filhos. O segundo marido, Alfredo da Rocha Vianna, funcionrio dos Correios e Telgrafos como muitos dos pioneiros chores, era msico amador. Possua grande arquivo de choros e com freqncia promovia em sua casa reunio de msicos, entre os quais os clebres chores Irineu de Almeida (conhecido como Irineu Batina), Candinho Trombone, Viriato, Neco, Quincas Laranjeiras, entre outros.

Ainda na infncia, o menino Alfredo recebeu de sua prima Eurdice, conhecida por Santa, o apelido de Pizindim ou
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 Pizinguim (menino bom), nome que, aps vrias transformaes, veio a dar em Pixinguinha, com o qual fez carreira e se tornou conhecido de todos os brasileiros. Noutra verso da histria, o apelido teria vindo de sua av africana, ex-escrava, que mal falava o portugus.

Com quase mil composies, todas elas irretocveis, se bem que algumas  ainda inditas, vale registrar que as duas primeiras msicas de Pixinguinha seriam gravadas por ele mesmo (1917) para a Casa Faulhaber: o choro "Sofres porque queres" e a valsa "Rosa". Essa ltima se imortalizaria gravada por Orlando Silva (1937). Mas seu maior sucesso, indiscutivelmente, ele o obteve com o lado A do mesmo 78 rpm: o choro-cano "Carinhoso", escrito quase vinte anos antes, sem a letra de Joo de Barro, com o nome de "Carinhos". Acusado de ser jazzificado, pelo crtico Cruz Cordeiro que posteriormente confidenciaria o seu arrependimento sobre tal observao -,
Pixinguinha guardou "Carinhoso" at 1937, quando, a pedido da atriz Helosa Helena, Braguinha - o Joo de Barro colocou-lhe a letra que o levaria para o pdio das dez canes mais estimadas no Brasil.

Pixinguinha criou ainda inmeros conjuntos musicais, dos quais se destacou Os Oito Batutas, o primeiro a excursionar fora do Brasil (1922, Paris), levando na bagagem o choro, o samba e o maxixe, todos eles temperados com o melhor da alma brasileira, mulata e travessa. O maestro Alfredo Vianna foi tambm o primeiro msico brasileiro,  j consagrado como flautista, compositor e chefe de orquestra, a fazer arrojados arranjos orquestrais para as marchinhas e sambas de carnaval em plena poca de Ouro da MPB (dcada de 1930).

Pixinguinha comeou seus estudos num colgio particular pertencente ao professor Bernardes, que "dava bolinhos na gente e mandava ficar de joelhos". Transferiu-se para o Liceu Santa Tereza e deste para o Colgio So Bento, onde foi sacristo. Sua numerosa famlia contava com vrios msicos, como seus irmos Otvio

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Jos Fortunato. Viagem dos Batutas a Paris. Revista A Ma, 1922.

Os "Batutas" em Paris

(China), que tocava violo de seis e sete cordas, banjo, cantava e declamava; Henrique e Leo, que tocavam cavaquinho e violo; Edith, pianista, e Hermengarda, que
somente no se tornou cantora profissional por proibio de seu pai. Iniciado na msica pelas mos de seus irmos Leo e Henrique, que o ensinaram a tocar cavaquinho, em pouco tempo passou a acompanhar o pai, que o
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 levava para tocar nos bailes. Por essa poca, a famlia mudou-se para o bairro do Catumbi, Zona Norte do Rio de Janeiro, e os meninos passaram a receber aulas de msica de Borges Leito, seu vizinho de rua. Por volta de 1908, comps sua primeira msica, o choro "Lata de leite". Ainda no Catumbi, a famlia transferiu-se para a rua Elione de Almeida, passando a residir num casaro com oito quartos, quatro salas e um enorme quintal, residncia que se tornou conhecida como a Penso Vianna, devido  bondade de seu pai, que abrigava com freqncia amigos em dificuldades financeiras, como Irineu Batina, msico responsvel pela iniciao de Pixinguinha na flauta.

Desde cedo, a musicalidade de Pixinguinha impressionou o pai, que importou da Itlia uma flauta de prata da marca Balacina Biloro, a mais famosa da poca, feita por encomenda. Com rpido desenvolvimento no instrumento, Irineu Batina, ento diretor de harmonia da Sociedade Danante e Carnavalesca Filhas da Jardineira, levou o aluno para tocar na orquestra do rancho (1911). Neste mesmo ano, Pixinguinha iniciou sua atividade de gravao, atuando como componente do Choro Carioca, registrando para a Casa Faulhaber as composies "Nininha" (polca), "Daina" (polca), "So Joo debaixo d'gua" (tango), "Isto no  vida" (polca), "Salve", (xote) e "O morcego"
(tango), esta ltima, sua primeira gravao como solista, todas composies de Irineu de Almeida. No ano seguinte, Pixinguinha tornou-se diretor de harmonia do rancho
Paladinos Japoneses, tomando parte em outro conjunto conhecido por Trio Suburbano (Pedro S - piano, Francisco de Assis - violino, e Pixinguinha - flauta).

Por volta de 1912, ainda de calas curtas, foi levado por seu irmo China para tocar na Casa de Chope La Concha (prxima da av. Mem de S), onde apresentava-se de
oito  meia-noite. Nessa mesma poca, o violonista Arthur Nascimento - o Tute - levou-o para substituir o flautista Antonio Maria Passos, na orquestra do

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Grupo de Caxang. Da esquerda para a direita, com chapu de pala:  frente - Jacob Palmiri e Vidraa; atrs - China, Joo Pernambuco, Raul Palmiri, Caninha, Pixinguinha e Nola. Revista O Malho, 1914.
Cine-Teatro Rio Branco, da qual se tornou integrante. Apesar da relutncia de um dos scios do teatro em empregar um msico de apenas 15 anos de idade, o sucesso da interpretao de Pixinguinha lhe assegurou o lugar na orquestra. Foi no Teatro Rio Branco, durante a apresentao da pea Morreu o  Neves, que o ator Olmpio Nogueira comeou a chamar Pixinguinha de Carne assada, apelido que pegou durante muito tempo.

Ainda nessa poca, ou pouco depois, passou a integrar o Grupo de Caxang, conjunto organizado por Joo Pernambuco, de inspirao nordestina, tanto no repertrio, como na indumentria. No grupo, cada integrante adotava para si um codinome sertanejo. No carnaval de 1914, o Grupo de Caxang percorreu os principais pontos da avenida Rio Branco, e "Cabocla de Caxang" tornou-se grande sucesso musical. O ano de 1914 trouxe para Pixinguinha o primeiro sucesso como compositor, com a publicao pela Casa Editora Carlos Wehrs do tango "Dominante". Esta foi sua primeira composio gravada - disco Odeon (1915), com interpretao do Bloco dos parafusos. Entre os anos de 1915 e 1917, registrou vrias msicas de sua autoria, atuando tambm em alguns discos apenas como intrprete.

O grande sucesso popular aconteceu no carnaval de 1919, com o samba "J te digo" (com China), lanado pelo Grupo de Caxang em resposta ao samba "Quem so eles" (Sinh), que obteve sucesso no carnaval do ano anterior. A polmica comeou, na verdade, quando Sinh comps "O p de anjo", seu primeiro sucesso para o carnaval, gravado por Chico Alves, que tam-

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Os Oito Batutas sob a influncia do jazz.


bm estreava. A letra da marcha refere-se com ironia aos ps avantajados de China. Passado o carnaval, Isaac Frankel, gerente 
do Cinema Palais, solicitou a Pixinguinha que selecionasse msicos para apresentao na sala de espera do cinema. Foi assim constitudo o conjunto Os Oito
Batutas, uma continuao com menos elementos do Grupo de Caxang. Contratados com a finalidade de tocar na sala de espera do cinema, o grupo tornou-se uma atrao  parte, maior at que os prprios  filmes - o povo aglomerava-se na calada s para ouvi-los -, contando com Ernesto Nazareth, Rui Barbosa e Arnaldo Guinle entre seus admiradores. Os Oito Batutas conquistaram rapidamente a fama de melhor conjunto tpico da msica brasileira, empreendendo excurses por So Paulo, Minas Gerais, Paran, Bahia e Pernambuco. Ainda em 1919, Joo Pernambuco foi incorporado ao conjunto, no qual permaneceu at o final de 1921. Em 1922, patrocinado por Arnaldo
Guinle, o grupo Os Batutas empreendeu turn em Paris, exibindo-se com sucesso, meses a fio na boate Scherazade.

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Os Batutas viajando pelo Brasil. Arquivo da Editora



Em 1928, ao lado de Donga, organizou a Orquestra Tpica Pixinguinha-Donga, conjunto composto s de instrumentos de sopro, criado para realizar gravaes na Parlophon, e que acompanhava cantores como Patrcio Teixeira e Castro Barbosa. Na Odeon, liderava o grupo que conservava o nome de Orquestra Tpica dos Oito Batutas. Em 1928, j com o nome de Jazz-Band Os Batutas, o grupo excursionou pelo sul do pas, estreando em Florianpolis. Em dezembro deste mesmo ano, a Orquestra Tpica Pixinguinha Donga gravou "Carinhoso".

Em 1929, foi inaugurada no Rio de Janeiro a RCA Victor Talking Machine Company of Brazil. A empresa promoveu concurso para orquestrador, no qual Pixinguinha inscreveu-s com uma orquestrao de "Carinhoso", obtendo o primeiro lugar. Foi assim contratado como msico e arranjador exclusivo da Victor. "Carinhoso" foi ainda utilizada como fundo musical no filme Acabaram-se os otrios, de Lus de Barros. Somente em maio de 1937 Orlando Silva faria a primeira gravao cantada da msica a primeira da notvel marca de cerca de duzentas interpretaes, at hoje.
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12 Pixinguinha em Depoimento para a posteridade 1966 aPud: Museu da imagem e do Som; rastros de memria cravo Aibin, Ricardo - Rio de janeiro, Sextante, 2001. pp. 30, 32.



...quando fiz "Carinhoso" (1916 ou 17...), era uma polca.         Polca lenta. Naquele tempo, tudo era polca, qualquer que  o andamento... Mais tarde, mudei (o andamento) para o chorinho. Outros o classificaram como samba... E preciso 
que naquela poca no havia choro, e sim msica de choro,   msica que fazia chorar. Nesse aspecto, polca tambm podia ser choro...12

Em 1927, Pixinguinha casou-se com Albertina da Rocha, estrela da Companhia Negra de Revista. O casal passou a residir em uma casa alugada no subrbio de Ramos. A partir de 1930, ele passou a orquestrar quase todos os discos de carnaval lanados pela Victor, entre os quais, "Ta" (Pra voc gostar de mim), de Joubert de Carvalho, que marca a estria de Carmen Miranda no carnaval, e a marcha "O teu cabelo no nega", de Lamartine Babo e Irmos Valena, cantada por Castro Barbosa.
Em 1933, diplomou-se em teoria musical no Instituto Nacional de Msica. Nesse mesmo ano, Pedro Ernesto o nomeou para o cargo de Fiscal de Limpeza Pblica, desejando que Pixinguinha reunisse os colegas de repartio e fundasse uma banda, a Banda Municipal, que faria sua primeira exibio na posse do primeiro prefeito eleito do Distrito Federal, em 1934, que no seria outro seno o prprio Pedro Ernesto.
Em 1946, Pixinguinha abandonou a flauta, passando a se dedicar ao saxofone. No incio da dcada de 1950 sua carreira entrou em declnio, o que foi revertido em 1954, quando Almirante organizou, em So Paulo, o I Festival da Velha Guarda, reunindo vrios msicos veteranos do choro. No II Festival da Velha Guarda, a caravana carioca formou em carter regular um conjunto denominado Velha Guarda do qual faziam parte Pixinguinha, Donga, Joo da Baiana, entre outros. Em 1962, convidado por Alex Viany para fazer a trilha sonora de seu filme Sol sobre a lama, Pixinguinha

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acabou tornando-se parceiro do poeta e letrista Vinicius de Moraes, lanando com letras os choros "Mundo melhor" e "Lamentos".

Em 1961, Jnio Quadros, logo aps assumir a Presidncia da Repblica, criou o Conselho Nacional de Cultura e, por sugesto do musiclogo Mozart de Arajo, Pixinguinha foi nomeado como um de seus membros. Em 1966, foi um dos primeiros a registrar Depoimento para a posteridade no Museu da Imagem e do Som, num ciclo que, articulado ao movimento de resgate do samba, prestou, enfim, reconhecimento aos maiores talentos da fundao de nossa msica. Em 1967, recebeu a Ordem de Comendador do Clube de Jazz e Bossa, o Diploma da Ordem do Mrito do Trabalho, conferido pelo Presidente da Repblica e o 5o lugar no II Festival Internacional da Cano, no qual concorreu com o choro "Fala baixinho", feito em parceria com Hermnio Bello de Carvalho. Em comemorao a  seus 70 anos, o Conselho Superior de Msica Popular fez realizar uma exposio retrospectiva no MIS. A instituio promoveu ainda um concerto, realizado no Teatro Municipal do Rio de Janeiro, do qual tomaram parte Jacob do Bandolim, Radams Gnattali e o conjunto poca de Ouro e do qual resultaria um LP editado pelo MIS, produzido por Jacob.

Em 1973 faleceu vitimado por problemas cardacos, durante a cerimnia de batismo de Rodrigo Otvio, filho de seu amigo Euclides de Souza Lima, realizada na Igreja
Nossa Senhora da Paz, em Ipanema. Boa parte da crtica no deixou de aproveitar o mote: "O santo da MPB morreu como tinha que ser, numa igreja..."
A trajetria de Pixinguinha, junto com a de outros msicos de sua gerao,  emblemtica do que podem ser consideradas as razes da msica brasileira, na sua produo mais caracterstica - o choro e o samba.
A partir dos ltimos anos do sculo XIX, as principais cidades brasileiras assistiram ao despertar da conscincia das populaes 

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  Carnaval nas ruas do
Guilherme Santos.
Museu da Imagem e do Som. Rio de Janeiro- RJ

mais pobres na sociedade. At 1888 (Lei urea), os escravos eram    discriminados a ponto de estarem proibidos de manifestar sua veia   musical, a no ser em grupos fechados - e ate clandestinos. J como trabalhadores livres da era republicana, eles comearam a disputar lugar na sociedade, o que, no campo do lazer, se evidenciou por   janeiro por uma crescente participao nos festejos carnavalescos.
O carnaval da Belle Epoque, visto nas fotos de Augusto Malta e outros que registraram a virada do sculo XIX para o sculo XX, era uma estranha apropriao  mais uma! - da classe mdia e da classe alta, uma imitao do carnaval europeu, com os prstitos, as batalhas de flores e as quase sempre grosseiras brincadeiras do entrudo
- as guerras com seringas cheias de gua, farinha, tinta, urina etc. A populao mestia, integrada  estrutura econmica da cidade como ambulantes, empregados domsticos, operrios das fbricas, alm de pequenos burocratas, organizou-se em sociedades recreativas, inicialmente chamadas cordes carnavalescos, e posteriormente blocos carnavalescos.

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Enciclopdia da msica brasileira, p. 478.
No ano de 1893 foram criados os ranchos, que passaram a sair no carnaval produzindo um tipo de msica orquestral que geraria um dos gneros musicais mais amorveis da MPB: as marchas-ranchos. Registre-se aqui o nome do fundador do primeiro rancho, o baiano Hilrio Jovino Ferreira, que lhe deu o nome de Rancho Rei de Ouro.

No incio conhecida tambm como marcha de rancho, comeou como msica produzida por grupos de instrumentistas, predominantemente de sopro, das chamadas "orquestras" dos ranchos carnavalescos cariocas de fins da primeira metade do sculo XX, com ritmo mais dolente que o das marchas comuns e maior desenvolvimento da parte meldica.
A partir de fins da dcada de 1920, passa a ser composta por autores profissionais com a indicao de marcha de rancho, figurando como mais antigo exemplo conhecido dessa feio musical a "marcha de rancho com coro"  intitulada "Moreninha", de Eduardo Souto, gravada em 1927 no disco Odeon na 123.208. Aps experincias ainda presas  concepo das marchas de rancho (que pretendiam reproduzir a melodiosa e calma ondulao dos desfiles dos ranchos carnavalescos), o novo estilo encontrou seu modelo mais bem sucedido em 1938, na composio de Noel Rosa e Joo de Barro "As pastorinhas", passando a definir-se como marcha-rancho.13

A populao mais pobre do Rio, especialmente os que descendiam dos guetos da escravido e que habitavam os cortios negros pauprrimos da zona da Cidade Nova e da
Central do Brasil - a Praa XI antiga era o corao daquela regio, nas mesmas imediaes onde hoje est o sambdromo Darcy Ribeiro -, continuava a exercitar-se
nos seus batuques e nas rodas de pernada e de capoeira. Eram, sobretudo, os baianos e seus descendentes, que, da Bahia, vieram para o Rio de Janeiro com o fim da
Guerra dos Canudos, direito que ganharam por lutarem nas tropas contrrias a Antnio

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Conselheiro. Foram morar nos morros cariocas e, a exemplo do arraial do Bom Jesus, apelidaram o agrupamento de casas que foi se formando, ento, de favela. Pois
bem, esta parte da populao no saa no carnaval de forma organizada, mas em blocos desordenados, cujos desfiles terminavam quase sempre em grandes brigas de capoeira e em "terrveis cenas de sangue", segundo o cronista Joo do Rio, que, atento s evolues urbansticas do Rio, fez um paralelo curioso entre a Praa XI dos ex-escravos e a Avenida Central, inaugurada em 1902, e que ele considerava um trao de separao entre o Brasil passado e o novo: "A avenida chic / Eu sou a Central / da elegncia
o Tic / Dou  capital". Notar ainda a delimitao proposta por Nei Lopes14:

Com a estruturao, na cidade do Rio de Janeiro, da comunidade baiana na regio historicamente conhecida como Pequena frica - espao sociocultural que se estendia da Pedra do Vai, no Morro da Conceio, nas cercanias da atual Praa Mau, at a Cidade Nova, na vizinhana do sambdromo, hoje - o samba comea a ganhar feio urbana.

Da msica  base de percusso e de palmas, produzida por esses negros com o nome de batucada, iria nascer o samba, palavra de origem africana (Angola e Congo), provavelmente corruptela da palavra semba, que pode significar, de um lado, umbigada, ou seja, o encontro lascivo dos umbigos do homem e da mulher na dana do batuque antigo;
de outro, tristeza e melancolia (ou quem sabe saudade da terra africana natal, tal como os blues nos Estados Unidos) - como bem cantou Caetano: "A tristeza  senhora/Desde que o samba  samba  assim". Alis, a expresso samba foi publicada pela primeira vez (3/2/1838) por Frei Miguel do Sacramento Lopes Gama, na revista pernambucana Carapuceiro; restringindo-se a definir, ento, mais um tipo de dana ou de folguedo popular de negros.

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Joo Machado Guedes (Joo da Baiana). Pintura da Pedra do Sal no Morro da Conceio, Rio de Janeiro - RJ.

Alm dessas rodas de capoeira e de batucada, quase sempre realizadas nas ruas e praas daquelas imediaes, ficaram clebres as festas que se realizavam nas casas das at hoje reverenciadas Tias Baianas (Tia Ciata - a mulata Hilria Batista de Almeida era dentre todas  a mais festejada). Eram, em geral, senhoras gordas e grandes quituteiras que davam festas para comemorar as datas importantes do calendrio do Candombl. Os festejos duravam at uma semana: os pagodes, justamente nas casas das Tias Baianas, como eram carinhosamente apelidadas, ocorriam em dois tempos, segundo Donga, Joo da Baiana, Pixinguinha e Heitor dos Prazeres, como mais tarde relembraram ao MIS, j que eram todos freqentadores delas e -  exceo de Pixinguinha - filhos de me-de-santo. No fundo da casa ocorria a devoo aos orixs, preservando o ritual das datas do Candombl. Acabadas as obrigaes, os pagodes tinham lugar, mas j em outros cmodos, geralmente nas salas da frente dos cortios decadentes ou dos sobrades abandonados pela burguesia, ento em busca de novos bairros da moda, como Botafogo, Laranjeiras e Humait.
No Museu da Imagem e do Som est o pastel em belssimo estilo primitivo, de autoria de Joo da Baiana, retratando um pagode na Ladeira da Pedra do Sal, Morro da Conceio, onde ficava a casa 
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da tia baiana de sua infncia. Pela janela, ele, menino ainda, testemunhou nada menos do que o nascimento do samba.
Joo Machado Guedes, o Joo da Baiana (RJ, 1887 - RJ, 1974), era o nico carioca de uma famlia de doze irmos e foi o responsvel pela introduo do pandeiro no samba, segundo declarou em depoimento ao MIS, em 1969:

...na poca o pandeiro era s usado em orquestras. No samba quem introduziu fui eu mesmo. Isto mais ou menos quando eu tinha 8 anos de idade e era Porta-machado
no Dois de Ouro e no Pedra do Sal. At ento nas agremiaes s tinha tamborim e assim mesmo era tamborim grande e de cabo. O pandeiro no era igual ao atual. O
dessa poca era bem maior... eu sempre me dediquei ao pandeiro porque tinha amor ao ritmo. Os garotos formavam uma roda de samba e eu  quem tocava melhor o pandeiro.

Seus  avs, ex-escravos, tinham uma quitanda de artigos afrobrasileiros no largo da S. Sua me, conhecida pelo nome de Tia Perciliana, era baiana, donde surgiu seu
apelido, Joo da Baiana, para distingui-lo de outros joes do bairro. Criado na rua Senador Pompeu, no bairro da Cidade Nova, foi, alm de exmio pandeirista, um
dos grandes ritmistas do prato com faca, habilidade que desenvolveu ainda na infncia, por influncia de uma tradio cultivada na Bahia.

Em 1923, comps "Pelo amor da mulata", e no ano seguinte, "Mulher cruel", com Donga e Pixinguinha. No ano de 1928, lanou "Cabide de molambo", gravada por Patrcio
Teixeira. Nesse mesmo ano, ingressou no rdio como ritmista, tocando pandeiro, prato e faca, tendo atuado nas rdios Cajuti, Transmissora, Educadora e Phillips.
Atuou em vrios conjuntos entre os quais o Grupo do Malaquias, o Grupo do Louro, o Conjunto dos Moles e o conjunto Alfredinho no Choro. Em 1932, integrou o Grupo da Velha

_Joo da Baiana, Instituto Cultural
 Cravo Albin



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Guarda, conjunto organizado por Pixinguinha que reuniu alguns dos maiores instrumentistas brasileiros da poca. Realizaram inmeras gravaes na RCA Victor, acompanhando tambm grandes cantores como Carmen Miranda, Slvio Caldas, Mrio Reis, entre outros.

No ano de 1940, Leopoldo Stokowski solicitou a Villa-Lobos que selecionasse e reunisse os mais representativos artistas de Msica Popular Brasileira, para gravao de msicas destinadas ao Congresso Pan-Americano de Folclore. Villa-Lobos escolheu para compor o grupo a nata dos verdadeiros criadores nacionais de msica: Pixinguinha, Cartola, Donga, Joo da Baiana e Z Espinguela. As gravaes realizaram-se na noite de 7 para 8 de agosto de 1940, a bordo do navio Uruguai, atracado no Armazm 4. Foram registradas quarenta msicas, mas apenas dezesseis chegaram ao disco, reproduzidas nos Estados Unidos em dois lbuns de quatro fonogramas cada um, sob o
ttulo "Columbia presents - Native Brazilian music - Leopold Stokowski". Em 1972, Joo da Baiana foi recolhido  Casa dos Artistas, em Jacarepagu, onde morreu dois
anos depois.

Alm de Joo da Baiana, e tambm nas casas das tias baianas, registram-se no s o nascimento do samba, mas outros nomes de precursores de sua histria. O mais antigo deles todos pode ser considerado o mestio Jos Luiz de Moraes (RJ, 1883 - RJ, 1961), apelidado de Caninha porque quando menino vendia roletes de cana na Estrada de Ferro Central do Brasil. Caninha aprendeu a msica dos negros, a batucada sobretudo, nos redutos da Praa XI, nas casas das Tias e nas Festas da Penha. Alis,
muitos anos mais tarde (1932), quando a populao que descendia dos escravos foi obrigada a morar em casebres nos altos morros cariocas, Caninha comps um samba que atestava as origens da MPB: "Samba de morro no  samba,  batucada / L na cidade / A escola  diferente".

Em plena fase herica de nascimento do samba, h que ser registrado ainda o nome de Heitor dos Prazeres. Nascido na Praa XI

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Heitor dos Prazeres
Moenda, 1951, leo
sobre tela; 65 x 81,1 cm. 
Coleo Particular

(1898), onde tambm morreria (1966), Heitor, filho de um modesto Heitor dos Prazeres. marceneiro e lustrador de mveis que tocava clarineta e instrumentos  de percusso, comeou como tocador de cavaquinho. Apesar de trabalhar desde criana, foi preso, aos 13 anos, por vadiagem, passando dois meses na colnia
penal da Ilha Grande. Ritmista e compositor nos pagodes das Tias Ciata e Perciliana, onde era conhecido pelo apelido de Mano Lino, Heitor enveredou pela poca de ouro da msica popular brasileira (a partir dos anos 1930) com poucos, mas estupendos sambas como "Vou te abandonar", "Mulher de malandro" (1932) e a marcha "Pierr
apaixonado" (1936-em parceria com Noel Rosa). Em 1936, iniciou-se como pintor primitivo, condio em que se projetaria nacional e internacionalmente, a ponto de,
certa vez, seus quadros, mostrados em Londres, terem recebido da Rainha Elizabeth a pergunta consagradora: "Quem  este pintor extraordinrio?" Heitor, que seria
premiado na primeira Bienal de So Paulo com o quadro Moenda, passou boa parte da vida como contnuo do antigo Ministrio da Educao e Cultura, emprego vitalcio que lhe fora con-

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Na pagina ao lado: Ernesto dos Santos (Donga). Pelo Telefone, 1917. Samba carnavalesco de grande sucesso. Biblioteca Nacional, Rio do Janeiro - RJ

seguido pelo poeta Drummond, seu confesso e pblico admirador. Heitor,  junto com Cartola e Paulo da Portela, mais tarde fundaria o conjunto Grupo Carioca, alm de fazer junto com eles o importantssimo programa de rdio A voz do morro, em 1941.

Mas o samba s veio a ser registrado com esse nome em disco pelo quarto desses pioneiros, Ernesto Joaquim Maria dos Santos, o Donga (RJ, 1899 - RJ, 1974). O pai
era pedreiro construtor e tocava bombardino nas horas vagas. A me, outra famosa baiana da Cidade Nova, Tia Amlia, gostava de cantar modinhas e promovia inmeras festas e grandes reunies de samba. Donga freqentava tambm os folguedos de Tia Ciata, onde se reunia com Joo da Baiana, Caninha, Sinh, Pixinguinha, Mauro de Almeida, Buci Moreira, entre outros. Seu primeiro instrumento foi o cavaquinho, que comeou a aprender aos 14 anos de idade, ouvindo as msicas de Mrio Cavaquinho, de quem era grande admirador. Pouco depois passou a tocar violo.

Certa  feita, Donga resolveu gravar uma msica composta por ele e pelo cronista carnavalesco do ]ornai do Brasil, Mauro de Almeida, o "Peru dos ps frios", baseada em motivo popular, a qual intitularam "Pelo telefone". Esse fato - aparentemente banal - teria a mais profunda repercusso para a histria do samba porque "Pelo telefone", apesar de ter mais jeito de maxixe do que do samba tal como hoje o reconhecemos,  considerado o primeiro de todos os sambas gravados. Era janeiro de 1917, e a primeira providncia de Donga foi registrar msica e letra na Biblioteca Nacional, o que equivalia a tirar patente da msica. Trocando em midos, significava que uma msica popular estava atingindo o estgio importante de produto comercial passvel de ser vendido e de gerar lucros, o que definia o comeo da profissionalizao da MPB. "Pelo telefone", gravado pela Banda Odeon e logo depois pelo Baiano da Casa Edison, trouxe tambm a Donga um grande aborrecimento ao final da vida - a polmica mantida com Almirante, que insistia na tese de a msica ter sido uma criao coletiva.
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PELO TELEPHONE
Samba Carnavalesco
DE
GRANDE SUCCESSO
por  
ERNESTO DOS SANTOS
(DONGA )

REIS 1$500
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Otvio Viana, o "China" (esq.), irmo de Pixinguinha, e Donga, quando ambos participavam do clebre conjunto "Os Oito Batutas ", a partir de 1919. Arquivo Cedoc
/Funarte
Sinh.
Arquivo Cedoc / Funarte
No entanto Donga comprovou ao longo de uma vida de honradez pessoal e depois de ter feito dezenas de composies, que no carecia de qualquer muleta para ingressar na histria da MPB. Almirante no se deu conta de que a simples iniciativa de Donga, correndo  Biblioteca Nacional para registrar "Pelo telefone", antes de uma fraude, s poderia ser uma declarao de posse da msica, ao menos do seu esprito, da sua metade (que seja), do seu arranjo final e formal. E isso j era o bastante naqueles tempos de pioneirismo e de quase nenhum profissionalismo.
Mas aquele que ficou conhecido como o estruturador do samba - e isso aconteceria no incio da dcada de 1920 - seria um outro muito interessante personagem da histria do samba: Jos Barbosa Silva, imortalizado pelo apelido de Sinh (RJ, 1888 - RJ, 1930). Compositor, pianista, violonista, cavaquinhista, flautista, ele nasceu na casa de na 90 da rua Riachuelo, Centro do Rio de Janeiro, filho de um pintor e decorador de paredes de botequins e de clubes danantes. Manuel Bandeira, em Crnicas da provncia do Brasil, observou: "...o que h de mais povo e de mais carioca tinha em Sinh a sua personificao mais tpica, mais genuna e mais profunda". Sinh foi o compositor mais popular das trs primeiras dcadas do sculo XX. Seu nome est profundamente ligado ao nascimento do samba no Rio de Janeiro daqueles anos, do qual foi um dos pioneiros e  importante fixador. Nascido em pleno centro carioca, desde molecote freqentou as rodas de bomia da cidade.

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Prova disso so os seus primeiros colegas de farras nos anos iniciais do sculo XX, Joo da Baiana e Jos Luiz Moraes, o Caninha, com os quais viu nascer o samba,
nos pagodes das famosas tias e nas sesses de capoeira e batucada na Praa XI e na Festa da Penha. Sinh conheceu o sucesso somente entre 1920 e 1930, ano em que
morreu prematuramente - vitimado por uma hemoptise, a bordo da barca cantareira que vinha da Ilha do Governador para o Rio - em plena baa de Guanabara. Mas esses 10 anos de carreira foram mais que o bastante para que entrasse para a histria do cancioneiro popular como o nosso primeiro sambista profissional. A cognominao que recebeu, Rei do Sam demonstra o enorme prestgio e popularidade de que gozava, aura reforada pelo seu tipo, muito vaidoso e pernstico, apesar de ingnuo.

Sua contribuio para a msica carnavalesca , segundo seu bigrafo Edigar Alencar, "magnfica". Alm disso, foi importante figura na histria do teatro musicado do Rio de Janeiro, sendo pioneiro ao compor sambas para vrias revistas, gnero de teatro muito popular no Brasil desde o sculo XIX. Grande cronista da vida urbana e poltica da capital do pas, Sinh teve o mrito de estabelecer a ponte entre a cultura popular e as classes mdia, aristocrtica e alta sociedade carioca. Comeou a tocar flauta ainda muito pequeno, incentivado pelo pai, um admirador fervoroso de Patpio Silva, Callado e Viriato. Foi no piano do av, entretanto, que o menino revelou seu talento. Contrariando o desejo de seu pai, Sinh nunca chegou a dominar a flauta, mas sim o piano (que o projetou) e o violo. Tocava tambm o cavaquinho, cantava e, embora a voz no fosse muito grande, era dotada de ritmo. Era um autodidata. Nunca dominou a leitura e escrita musicais, o que no impediu que se tornasse um grande pianista, elogiado at mesmo por Augusto Vasseur (professor de renome no Rio de Janeiro daquele tempo e seu amigo), que o considerava um pianista "interessantssimo",
pela
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maneira pessoal de criar levadas rtmicas incomuns. Era um pianeiro nas palavras dos pianistas eruditos da poca, destacando assim o fato de Sinh tocar de ouvido.
Alis, um dos episdios mais anedticos da vida do compositor foi divulgado por Almirante: Sinh estava tocando numa festa na casa de distinta famlia em Botafogo, quando uma mocinha entusiasmada com sua performance mostrou-lhe uma partitura e pediu que ele a executasse, pois gostaria de cant-la. Sinh ficou plido, pois no sabia ler a partitura. Viu o ttulo da msica ("lgie", de Massenet), ps na estante como se fosse toc-la e se saiu com a seguinte prola: "Sinto muito, senhorita, mas no posso executar essa msica. No  me dou com esse autor."
Sinh - com a fama consolidada a partir de "P de anjo " (1919, gravado por Francisco Alves) - comeou a compor para as revistas musicais dos muitos teatros da Praa
Tiradentes, grande centro comunicador e divulgador da msica popular antes do advento do rdio. Nessa poca, o grande sucesso emergente em teatro era Vicente Celestino, no incio da carreira especializado em operetas. Registrem-se ainda os nomes de Cndido das Neves (o ndio, filho do palhao Eduardo das Neves e autor de jias como "Ultima estrofe", "Lgrimas" e "Noite cheia de estrelas") e Zequinha de Abreu (paulista de Santa Rita do Passa-Quatro, autor de pelo menos um clssico no mundo inteiro, o choro "Tico-tico no fub", sucesso na interpretao de Carmen Miranda).

No auge da popularidade, Sinh comeou a freqentar casas de intelectuais, transformando-se no primeiro sambista admirado por figuras proeminentes como lvaro Moreira e Jos do Patrocnio, filho do Tigre da Abolio. Sinh, vaidoso de seus ilustres admiradores, fez sambas dedicados a inmeras personalidades, apesar de ter sempre em seu caminho a pecha de plagiador de sambas dos outros.

Alis, o maior escndalo da carreira de Sinh foi o "Gosto que me enrosco", reivindicado por Heitor dos Prazeres. E isso logo 
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depois, inclusive, de o mesmo Heitor ter questionado a autoria de "Ora vejam s", o que gerou uma das mais acesas polmicas da MPB. Data da, ou seja, do momento em que Heitor dos Prazeres procurou Sinh para reivindicar seus direitos de autor, uma das mais famosas frases da histria da MPB, atestado singular da ingenuidade e malcia dos compositores do povo: "Samba  como passarinho que voa,  de quem pegar primeiro." Ao que Heitor retrucou no s chamando o desafeto de "Sinh dos meus Sambas", nus tambm compondo dois sambas contra Sinh: "Olha ele, cuidado" e "Rei... dos meus sambas".

Dois anos antes de sua morte, surgiria o maior de todos os sucessos de Sinh, "Jura", gravado simultaneamente por Aracy Cortes, a maior estrela do teatro musicado dos anos 1920 e 1930, e por um

Vicente Celestino e Gilda de Abreu.
Arquivo Cedoc / FUNARTF.

76 falta pag
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Compositor e cantor, Ismael Silva nasceu em Jurujuba, comunidade de pescadores na Baa de Guanabara, em 1905. Caula dos cinco filhos, aos 3 anos ficou rfo de
pai e sua me mudou-se para o Rio de Janeiro, onde seria mais fcil arranjar emprego, indo ento morar no Estcio.

Desde pequeno conviveu com grandes sambistas como Mano Edgar, Baiaco, Nilton Bastos, Brancura e Bide. Freqentava as rodas da regio e os encontros de compositores no Caf e Bar Apoio, assim como o morro do Salgueiro e da Mangueira.

Denominado pelo jornalista e pesquisador Lcio Rangel de 0 Grande Ismael Silva, comps seu primeiro samba, "J desisti", aos 15 anos. Em 1927, quando estava internado no Hospital da Gamboa, foi visitado por Bide, portador da proposta de Francisco Alves, que se oferecia para lhe gravar com exclusividade todos os sambas. Com uma condio - que seu nome tambm entrasse na parceria. Ismael aceitou, no sem antes exigir do Chico Viola a incluso do seu parceiro de verdade, Nilton Bastos. E desse trio torto nasceram pginas antolgicas.

Ismael Silva.
Arquivo Cedoc /
funarte

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A compra de sambas era prtica comum nos anos 1920 e 1930, e at mesmo mais tarde. Tanto que Ismael, Noel Rosa, Cartola, Nelson Cavaquinho e outros venderam sambas.
O acordo com Francisco Alves seria rompido em 1935, mas, at l, foi por intermdio do Rei da Voz que Ismael Silva conheceu Noel Rosa, com quem fez belas parcerias.
Vincius de Moraes o apelidou So Ismael em virtude dos seus olhos doces e sua fala educada. Mrio de Andrade, Prudente de Moraes, neto, Srgio Buarque de Hollanda
(pai do Chico) e Anbal Machado, cuja casa costumava freqentar nas concorridas reunies de domingo, eram seus admiradores confessos.

Ismael participaria da fundao da Deixa Falar, a primeira escola de samba do Rio de Janeiro, em 1928, junto com Rubem Barcelos, Bide, Baiaco, Brancura, Mano Edgar e Nilton Bastos, introdutor do surdo dentro da escola. A Deixa Falar - que sairia apenas nos carnavais de 1929, 1930 e 1931 - tinha tanto na forma quanto na timidez
de seu nmero de desfilantes a estrutura dos blocos carnavalescos. As escolas de samba, na verdade, s viriam a se expandir com a criao das duas agremiaes que
se seguiram: a Mangueira, de Cartola, e a Portela, de Paulo da Portela e de Heitor dos Prazeres. Com elas, nasceu a forma definitiva de escolas de samba, passando
a aglutinar sambistas relevantes em seu redor.
Casos curiosos acompanharam a vida de Ismael Silva. Na dcada de 1970, Chico Buarque lhe doou um prmio que recebera do Governo do Estado da Guanabara, entregando a Ismael um cheque que ele, embora vivendo modestamente, demorou a descontar, preferindo exibir aos amigos a assinatura de Chico, como prova de admirao e carinho recprocos, quase se assemelhando  figura descrita por ele em seu famoso samba "Antnico" ("... Que est vivendo em grande dificuldade/ Ele est mesmo danando na corda bamba/ ele  aquele que na Escola de Samba/ Toca cuca, toca surdo e tamborim...").
Ismael Silva, esquecido, quase na misria e vivendo numa casa de cmodos na Lapa, morreu em maro de 1978, ano em

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Maral Francisco
Alves e Bide.
Arquivo Cedoc /
FUNARTE
que a MPB perderia tambm outro grande sambista, lder da raa negra, Candeia.
Mas o grupo ao qual Ismael pertencera, o pessoal do Estcio, entraria para a histria da MPB como consolidador do ritmo e da malcia do samba urbano carioca, at
ento muito influenciado pelo maxixe em sua estrutura formal - como em "Pelo telefone" e em quase todas as obras de Sinh. Ismael, aos 5 anos morador do sop do morro de So Carlos no Estcio de S, desenvolveu a sua extraordinria musicalidade em rodas de sambistas e malandros locais, dentre os quais se citam Alcebades (Bide) Barcelos e Armando Maral, autores de "Agora  cinza", Rubem Barcelos, irmo de Bide, Baiaco, Brancura, Mano Edgar do Estcio e o primeiro grande parceiro de Ismael, Nilton Bastos, morto prematuramente, de tuberculose, aos 32 anos. Alis, em sua homenagem, Ismael Silva, com Noel Rosa e Francisco Alves, comps o samba "Adeus", uma pequena jia do samba dolente nos anos 1930.

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CAPTULO 2
A dcada de ouro

Na passagem dos anos 1920 para os anos 1930, inaugura-se uma dcada que passaria  histria como a Era de Ouro da MPB. No por acaso, o pas tambm viveria anos de intensas mudanas. Depois dos revolucionrios anos 1920, com a fundao do Partido Comunista do Brasil, a Semana de Arte Moderna e as revoltas tenentistas, Getlio Vargas sai dos pampas com suas tropas de lenos vermelhos, e chega ao Rio. E toma o poder na Capital da Repblica, amarrando simbolicamente seus cavalos no Obelisco do centro da cidade. Estava encerrada a Repblica Velha e consumada a deposio do Governo Washington Lus. Nos anos que se seguiriam, aos poucos, o Brasil deixaria
de ser uma plcida nao interiorana e agrria para, algo caoticamente, transformar-se num pas que caminharia para a industrializao e cuja populao iria transferir-se para os centros urbanos.
Os compositores e intrpretes que brotaram e comearam a divulgar seus trabalhos nessa dcada propiciariam carter e esprito  MPB, tendo sua influncia  esttica e estilstica - se tornado parte essencial da identidade de nossa msica at hoje, inclusive possibilitando-lhe manter-se como curso principal, diante das influncias externas que viriam nas dcadas posteriores, a partir da Bossa Nova.

Para o crescimento da MPB, duas modificaes essenciais se tornariam determinantes. Primeiramente, a mudana do sistema de

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Carmen Miranda como garota-propaganda de rdio. Revista  Cruzeiro, 1945.

gravao mecnica para a gravao eltrica, o que permitia o registro fonogrfico de vozes de curta extenso, mas cheias da malcia que o samba exigia. A segunda foi o aparecimento e a espantosa expanso do primeiro veculo de comunicao de massa de nossa histria, o rdio.

Getlio usou o rdio para se comunicar com as massas desfavorecidas, e o fez com enorme eficincia e repercusso. Alm disso, o Governo Vargas enxergou no rdio
um oportuno fator de integrao nacional. Era a primeira mdia na cultura ocidental a ter acesso direto e imediato aos lares das pessoas, acompanhando-as em vrios
momentos ao longo do dia e da noite. A famlia se reunia em torno do rdio ligado na sala. O rdio era o centro gerador de modas e sonhos. Por tudo isso, e pelo
que significou em nossa cultura, como canal da paixo do povo brasileiro, as dcadas de 1930 e 1940 (e parte da de 1950) foram, substancialmente, a Era do Rdio.

A programao radiofnica demandava a cada ms um consumo sempre crescente de novas msicas, compositores e intrpretes. Foi nessa dcada de ouro , que apareceu um sem nmero de grandes intrpretes, personagens que fizeram a prpria integrao nacional atravs de suas vozes - levadas de ponta a ponta ao Brasil pelo milagre das ondas transmitidas sem
fios. Tratava-se dos primeiros mitos da msica - despertando nos ouvintes a vida curiosidade por detalhes e fofocas

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sobre suas vidas, reunindo-os em ardorosos f-clubes, dando-lhes uma voz para incorporar suas paixes secretas. Foram os primeiros dolos brasileiros produzidos pela comunicao de massa.
Entre tantos astros e estrelas, destacam-se, logo ao incio dos anos 1930, Carmen Miranda e Mrio Reis, cantores que foram fruto direto do milagre do microfone -
suas vozes pouco potentes, e no entanto repletas de sutileza e seduo, s puderam ser valorizadas pelos novos equipamentos de amplificao introduzidos nas gravaes, no mundo do espetculo, a partir de 1930.

Logo a seguir, apareceram o seresteiro Slvio Caldas; o meterico mas genial sambista Luiz Barbosa; o ex-alfaiate Carlos Galhardo, que se consagraria como cantor romntico apesar de inaugurar-se no xito pblico com "Boas Festas "(1933), de Assis Valente; o hoje esquecido Patrcio Teixeira, grande sucesso de poca (citado como personagem da MPB em "Quatro estaes", de Lamartine Babo - 1933); Gilberto Alves, considerado uma grande revelao deste perodo, e que se lanou para o sucesso com "Natureza bela", de Felisberto Martins e Henrique Mesquita, considerado o primeiro samba-enredo na discografia da msica popular brasileira; o iluminado Orlando Silva, que a partir de 1935 acendeu a mais forte luz que a MPB j ter conhecido at hoje, pelo menos na sua poca de apogeu (1935-1945); as cantoras Marlia Batista e Aracy de Almeida, sempre disputando a preferncia de Noel; o primeiro dos casais romnticos da MPB - Vicente Celestino e Gilda de Abreu -; e, claro, o mais popular de todos, aquele cuja trgica morte (1952) provocaria uma comoo nacional, o Rei da Voz, Francisco Alves.
Slvio Caldas, Carlos Galhardo, Orlando Silva e Chico Viola seriam a belssima quadra de ases da  interpretao de nosso cancioneiro na dcada de 1930.
Ora, cada uma dessas estrelas, pela importncia que teve no imaginrio popular - e mesmo transcendendo sua poca e seu pas, co-
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mo  o caso de Carmen Miranda - teve luz prpria e ter contribudo para as muitas definies estticas da MPB.
Cantora, atriz e danarina, Carmen Miranda (Maria do Carmo Miranda da Cunha; Portugal, 1909 - EUA, 1955) nasceu na pequena aldeia de Marco de Canavezes, Distrito do Porto, vindo para o Brasil com apenas 18 meses. Seu pai, Jos Maria Pinto da Cunha, que exercia a profisso de barbeiro, imigrou para o Brasil primeiro. A me, Maria Emilia Miranda da Cunha, veio em seguida, trazendo a pequena Carmen e a outra filha mais velha, Olinda. A famlia aumentou no Brasil, com o nascimento de mais quatro irmos (Amaro, Ceclia, Aurora e Oscar). Moraram inicialmente em um quarto de aluguel na rua da Candelria; depois se transferiram para a rua Joaquim Silva, na Lapa, at resolverem abrir uma penso. Encontraram uma grande casa na travessa do Comrcio, nu 13, na Praa XV, e para l se mudaram.

Hoje, esse logradouro do Rio, a Praa XV, que conta boa parte da histria de nosso pas da chegada de D. Joo  Proclamao da Repblica, para quem passa por baixo
do Arco do Telles e avana pela rua de pedras, oferece uma verdadeira viagem no tempo, com seu casario antigo e, transformada em restaurante, a casa onde morou Carmen Miranda.
A me assumiu a direo da penso, fornecendo refeies a empregados do comrcio e aceitando hspedes. O estabelecimento logo passou a ser freqentado por msicos da poca (Pixinguinha e seu grupo eram assduos). Carmen, ainda menina, estudou alguns anos num colgio de freiras (Escola Santa Tereza) que atendia a crianas humildes,
situado na Lapa. Na infncia, era chamada pelo apelido de Bituca, e de Carmen, por seus familiares. Ainda adolescente, aprendeu a costurar com a irm Olinda. Com apenas 15 anos, comeou a trabalhar como balconista de lojas de roupas femininas, de chapus e gravatas. Na Maison Marigny, aprendeu a decorar chapus femininos e logo depois j estava empregada como

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Carmen Miranda e seu descobridor artstico Josu de Barros no incio de sua carreira. ECA/USP

aprendiz na loja La Femme Chic, no Centro do Rio, onde passou a confeccionar chapus orientada por Madame Boss.
Desde menina demonstrou inclinao para a msica, cantando para os amigos em festas, acompanhando os programas radiofnicos de ento e imitando as cantoras que faziam sucesso na poca (como Aracy Cortes). Em 1929, durante uma apresentao num festival beneficente no Instituto Nacional de Msica, Carmen atraiu a ateno do compositor Josu de Barros, depois de ter interpretado uma msica dele, "Chora violo". E foi com duas msicas desse compositor, "No v simbora" e "Se o samba  moda" (em 1930), que estreou em disco. Seu primeiro sucesso foi uma marcha tambm de Josu, "Ii Ioi", lanado no carnaval de 1930, mas famosa mesmo se tornou com a marchinha
de Joubert de Carvalho, "Ta - pra voc gostar de mim", que bateria, depois deste carnaval de 1930, um recorde: 36 mil cpias vendidas.

Carmen estreou em cinema no documentrio Carnaval cantado no Rio, em 1932. E, em 1933, participou do filme Voz do Carnaval de Ademar Gonzaga e Humberto Mauro. J era ento chamada de A pequena notvel epteto que a acompanharia at o final da vida, e que lhe fora dado por Csar Ladeira, em seu programa na Rdio Mayrink Veiga.
Alis, Ladeira no seria apenas uma das vozes mais belas dentre os locutores do rdio, mas tambm um genial criador de apelidos, graas aos quais ajudou muitos artistas a se tornarem populares. Carmen gravou msicas dos principais compositores da poca, e fez dupla com vrios cantores, como Mrio Reis, Chico Alves e Slvio Caldas.
Em 1938, confirmando sua fama, foi eleita a maior cantora do Brasil pelos leitores da popularssima revista Fon Fon, um dos tantos magazines que acompanhavam a programao e a vida radiofnica.

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Na virada da dcada de 1930 para a de 1940, Carmen e O bando da lua (Alusio Oliveira, Hlio Jordo Pereira, Vadeco - Osvaldo de Morais boli -, Ivo Astolfi e os
irmos Afonso e Stnio Osrio) estavam apresentando um show no Cassino da Urea. Carmen e O Bando da Lua j haviam se apresentado antes, ocasionalmente, mas era a primeira vez que organizavam um espetculo especialmente para trabalharem juntos. O empresrio americano Lee Shubert estava assistindo, e quis contrat-la para lev-la aos EUA. Carmen aceitou sob a condio de que O Bando da Lua a acompanhasse. Fechado o acordo, a cantora embarcou (4/5/1939) para iniciar uma carreira de estrondoso
sucesso no cinema e no mundo dos espetculos americanos. A south american girl contracenaria com grandes artistas da poca, deixando sua presena marcada na cultura pop dos EUA - tanto que at hoje, vez por outra,  lembrada por l, como pelo cineasta Woody Allen em A era do rdio.
No entanto, A pequena notvel, de tanto xito artstico, teve uma tumultuada vida amorosa, na qual despontaram vrios dissabores, alm de sua morte sbita e precoce.
Em 1938, quando estava em excurso na Argentina com sua irm Aurora, recebeu a notcia do falecimento de seu pai, o que a fez sofrer uma longa e penosa depresso.
Ao chegar aos Estados Unidos, em 1939, estava contratada para alguns shows, mas l acabou permanecendo por um ano. Em 1940, retornou ao Brasil, a fim de rever os amigos e para o casamento de Aurora, voltando aos EUA meses depois para cumprir novo contrato com o showbiz americano, dessa vez levando a me. Um ano depois, Aurora transferiu-se para os EUA com o marido e a famlia voltou a se reunir.

Luiz. Caricatura de Carmen Miranda. Revista Fon-Fon, carnaval de 1942.


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Carmen Miranda com o Bando da Lua.
Arquivo Cedoc / Funarte


Em 1943, submeteu-se a uma operao plstica no nariz que quase ps fim  sua vida artstica, por culpa do mdico, um charlato. Foi obrigada a refazer a operao com um especialista e, no ps-operatrio, foi constatada uma infeco no fgado, que se espalhou e quase lhe tirou a vida. Em 1947, casou-se com David Sebastian, um assistente de produo norte-americano, com o qual viveu em meio a desentendimentos, o que, segundo seus bigrafos, foi um dos motivos da forte depresso que a acometeu na poca de seu retorno temporrio ao Brasil, em 1954.

Em 1948, a imprensa anunciava sua gravidez, confirmada por ela e pelo marido, que declarou que, se nascesse menino, eles o batizariam de Robert, e Carmen anunciou
que, se fosse menina, chamarse-ia Maria Carmen. Muitos afirmam que a gravidez no ocorreu de fato, tratando-se, antes, de uma desculpa para justificar sua recusa de viajar ao Brasil a fim de receber uma condecorao oferecida pela Cmara de Vereadores do Rio de Janeiro. De qualquer forma, pouco tempo depois, num dia de trabalho exaustivo, foi internada s pressas e, segundo a imprensa, perdeu a criana que iria 
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nascer em maro de 1949.  importante lembrar que, durante sua carreira nos EUA, foram vrias as vozes que no Brasil se levantaram contra ela, acusando-a de estar se americanizando, esnobando a sua terra, e outras bobagens. Carmen Miranda faleceu em sua residncia, em Beverly Hills, Los Angeles, em 5 de agosto de 1955, com apenas 46 anos. A famlia decidiu sepult-la no Brasil, onde foi velada na Cmara Municipal do Rio de Janeiro. O cortejo saiu no Aeroporto do Galeo, s 10:30h da manh do dia 12 de agosto, quando seu corpo chegou ao Brasil, e foi acompanhado por uma multido de fs (cerca de meio milho de pessoas). Ao passar pela Avenida
Rio Branco, uma chuva de papel picado deu  cena mais emoo, reforada pelos carrilhes da Mesbla, que executavam o refro de  "Adeus batucada" (de Sinval Silva), grande sucesso na voz de Carmen. Milhares de lenos brancos foram agitados pela multido ao longo do trajeto at a Cmara Municipal, onde seu corpo recebeu a visitao de centenas de milhares de fs.

Mrio Reis (RJ, 1907 - RJ, 1981), nas palavras do crtico Trik de Souza, foi "o mais carioca dos cantores". Passou a infncia no bairro da Tijuca, onde cursou o
primrio e o ginsio no Instituto Lafayette. Sua me, Alice da Silveira, era de famlia rica, proprietria da Fbrica Bangu de Tecidos, e muito conhecida na sociedade
carioca.

Em 1924, comeou a estudar violo com Carlos Lentine, violonista que integraria, na dcada seguinte, o Regional de Benedito Lacerda. Logo estaria ingressando na
Faculdade de Direito situada na rua do Catete, onde se tornou colega de Ary Barroso. Neste mesmo ano, conheceu Sinh, com quem passou a tomar aulas de violo e a quem j admirava como compositor. Impressionado com a interpretao que Mrio dava a seus sambas, Sinh o convidou a tentar uma gravao, o que aconteceu em 1928.

Em 1933, empregou-se como fiscal de jogo. Por volta de 1936, com apenas 28 anos, abandonou a carreira artstica e assumiu o car-
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go de oficial de gabinete do ento prefeito do Distrito Federal, o cnego Olympio Mello. E se manteve no cargo na gesto do prefeito Henrique Dodsworth, voltando
a cantar e a gravar discos apenas umas poucas vezes, como no espetculo beneficente Joujoux e Balangands, organizado no Teatro Municipal pela primeira-dama Darcy Vargas, em 1939. Mrio Reis  passou a residir no Hotel Copacabana Palace em 1957, e l permaneceu at o fim da vida, ocupando o quarto n" 140. Morreu aos 73 anos,
inconformado com a operao a que teve que se submeter para tratar de um aneurisma. No dia seguinte  sua morte, o crtico Srgio Cabral publicou no jornal O Globo um artigo em que definia Mrio Reis como "o homem que ensinou o brasileiro a cantar".
Portanto, no so  toa o comentrio de Srgio Cabral, nem toda a apreciao que Mrio Reis recebeu dos crticos. Assim como bastante significativa seria a inovao trazida por suas interpretaes. Mrio lanou seu primeiro disco em 1928, registrando "Que vale a nota sem o carinho da mulher" e "Carinhos de vov", ambas composies de Sinh, acompanhado pelos violes do prprio compositor e de Donga. E a, comeou a se destacar pelo seu estilo coloquial de cantar, que contrastava com o de astros como Vicente Celestino e Francisco Alves. A gravao de discos saa ento da era mecnica para entrar na era do sistema eltrico. Os cantores passavam a fazer uso do microfone em vez do antigo autofone. O novo processo favoreceu bastante o estilo de Mrio Reis, mais simples e natural. No entanto, mesmo no sendo um cantor de voz forte, adequava-se perfeitamente  maneira mais operstica do canto de Francisco Alves, com quem formou dupla e realizou cerca de  24 gravaes, no incio da dcada de 1930. Assim, seu estilo de interpretao, antes de uma limitao, era de fato uma opo inovadora.
Segundo os pesquisadores Jairo Severiano e Zuza Homem de Melo, ao romper com a tradio do bel canto italiano, que imperava at ento, Mrio Reis inaugurou um novo perodo na histria do

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Mrio Reis e Francisco Alves 
Arquivo Cedoc / Fun arte

canto popular no Brasil, que passou a ser mais fluente e espontneo. Intrprete ideal para os sambas de Sinh, gravou em 1929 Alves. "Gosto que me enrosco", acompanhado por dois violes, um dos quais  provavelmente executado pelo prprio Sinh. Este samba, cuja autoria foi reivindicada por Heitor dos Prazeres, teve uma verso inicial com letra de Bastos Tigre, intitulada "Cassino Maxixe", lanada na comdia Sorte grande, que inaugurou o Teatro Cassino, em 1926.
Tempos depois, Sinh comps novos versos, dando ao samba o ttulo que permaneceu. Neste mesmo ano, Mrio Reis gravou "Jura", sem dvida, o maior sucesso do compositor Sinh. Lanado por Aracy Cortes na revista Microlndia, reprisado em Miss Brasil, "Jura" foi gravado simultaneamente por Aracy e Mrio Reis, tornando-se uma das msicas mais cantadas no Brasil nos anos seguintes. Ainda em 1929, lanou o samba "Vou  Penha", primeira composio gravada de Ary Barroso,  poca  ainda compositor desconhecido. Em agosto, estreou na Rdio Sociedade, interpretando "Vamos deixar de intimidade", tambm de Ary Barroso. Alis, com o xito da dupla com Chico Alves, surgiram vrias outras duplas de cantores, como a formada por Jonjoca e Castro Barbosa. Em 1931, Mrio gravou com Francisco Alves o samba "Se voc jurar", de Ismael Silva e Nilton Bastos, que tambm foi assinado por Francisco Alves. Ismael e Nilton faziam parte da chamada Turma do Estcio, exatamente o grupo que deu ao samba novas caractersticas como um ritmo menos marcado e mais fluido.
Mrio fez algumas duplas com Carmen Miranda e em 1935 e 1936 interpretou sucessos carnavalescos nos filmes musicais Al, al, Brasil e Estudantes, ambos de Wallace Downey, e Al, al, carnaval, de Ademar Gonzaga, produzido pela Waldow - Cindia. De resto, a par-

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tir do comeo dos anos 1930, observa-se a crescente parceria do cinema com a msica, em filmes que serviam de pretexto para um delicioso desfile de nmeros musicais.
Sendo essencialmente cantor, Mrio Reis chegou tambm a assinar algumas raras composies que gravou, como "Quem ama no esquece". Lus Antonio Giron afirma que Mrio Reis tambm comps com o pseudnimo de Z Carioca, com o qual lanou o samba "Nosso futuro", por ele mesmo gravado, em 1932.

Mrio Reis evitava entrevistas, fotografias e aparies pblicas. E por isso mesmo nunca chegou a ser um cantor profissional no estrito sentido do termo. Aps ausncia
das gravaes por um perodo de trs anos, retornou ao disco com "Joujoux e Balangands", marcha de Lamartine Babo, grande sucesso do espetculo beneficente de mesmo nome realizado no Rio de Janeiro no ano de 1939, com direo musical de Radams Gnattali. A composio mostra um dilogo musical entre um brasileiro e uma francesa, vividos no palco e no disco por Mrio Reis e Mariah (pseudnimo da socialite Maria Clara Correia de Arajo). A gravao recebeu orquestrao de Pixinguinha no lugar da realizada por Radams para o espetculo, que era extensa demais para o disco.

Depois disso, suas aparies foram escasseando, o que no impediu que, at pelo reconhecimento dos artistas mais jovens, fosse chamado, na dcada de 1960, para interpretar "O grande amor", de Antnio Carlos Jobim e Vincius de Moraes, e, posteriormente, "A banda", de Chico Buarque, que criou ainda para o intrprete, especialmente, o samba "Bolsa de amores", cuja letra remete a antigos sambas de Noel Rosa e Sinh ou, como prefere o pesquisador e bigrafo Lus Antonio Giron, lembra sambas da
Turma do Estcio. A comparao entre a "moa fria e ordinria" com o mercado de aes na poca em que se vivia o Milagre Brasileiro fez com que o samba fosse taxado de ofensivo  imagem da mulher brasileira, e censurado (a gravao de "Bolsa de amores" s seria lanada mais de dez

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Slvio Caldas
arquivo cedoc /Funarte

anos aps a morte do cantor, em 1993, no CD Mrio Reis canta suas  criaes em hi-fi"). Inconformado com a censura ao samba, Mrio  Reis insistiu para que a faixa fosse mantida no disco, ainda que sem o som da gravao, numa clara atitude de protesto. O disco foi lanado num show no Golden Room do Copacabana Palace, em trs apresentaes, com casa lotada, tendo sido aplaudido de p por mais de dez minutos. Foi uma de suas ltimas aparies pblicas.

Slvio Caldas (RJ, 1908 - SP, 1998), nosso grande seresteiro, o Caboclinho Querido (outro apelido dado por Csar Ladeira), era filho de um afinador de pianos. Cantor
e compositor, nasceu no bairro carioca de So Cristvo. Slvio apresentou-se pela primeira vez em pblico no Teatro Fnix, aos 5 anos de idade e ainda na infncia
saa no carnaval, cavalgando o pescoo dos remadores do So Cristvo, no bloco Famlia Ideal. Aos 9 anos de idade, trabalhou numa garagem, iniciando-se na mecnica.
J na adolescncia, dominando a profisso, empregou-se em vrias oficinas mecnicas de So Paulo, tendo sido, ainda, chofer e lavador de carros. Mas o que mais gostava
era de cantar. Em 1927, Slvio voltou ao Rio de Janeiro, onde se apresentou na Rdio Mayrink Veiga a convite de Antnio Carlos, conhecido por Milonguita. Nessa poca,
torna-se amigo dos compositores Uriel Lourival e Cndido das Neves. Dois anos mais tarde, ele transferiu-se para a Rdio Sociedade, sem, no entanto, ter abandonado a profisso de mecnico (encarregava-se da manuteno de 20 caminhes utilizados na construo da estrada Rio-So Paulo). Os ltimos 40 anos de sua vida foram passados em seu stio na cidade de Atibaia, em So Paulo.
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Com uma longa  carreira como cantor,  autor do clssico "Cho de estrelas", em parceria com Orestes Barbosa (1893 - 1966). Alis, Orestes, outro nativo de Vila Isabel, e assduo freqentador do famoso Caf Nice, foi parceiro de grandes compositores como Custdio Mesquita, o grande pianista Non, Noel Rosa, Nssara, Francisco Alves, Wilson Batista, Ataulfo Alves e Slvio Caldas).

O Caboclinho Querido, j no final da dcada de 1920, passou a atuar na Rdio Sociedade, tendo como colegas os cantores Gasto Formenti, Francisco Alves, Patrcio
Teixeira, entre outros. Logo trabalharia no Teatro Recreio integrando a revista Brasil do amor, de Ary Barroso e Marques Porto, estrelada por Margarida Max. Ao comecinho da dcada de 1930, ei-lo gravando seu primeiro sucesso, o samba "Faceira ", de Ary Barroso.

Logo depois, em 1933, obtm sucesso carnavalesco com a marcha "Segura esta mulher", novamente de Ary Barroso, e com o samba-cano "Maria", clssico da MPB de autoria tambm de Ary Barroso e de Lus Peixoto, composta para a pea teatral Me deixa Ioi, uma homenagem  atriz portuguesa Maria Sampaio, estrela da pea. Em 1934, lanaria o samba "Na aldeia", primeira composio sua gravada, uma parceria com Carusinho e De Chocolat.

No ano seguinte, aparece o primeiro sucesso da dupla de compositores Slvio Caldas e Orestes Barbosa, que iria produzir 15 grandes canes - "Serenata", adotada
por Slvio como marca musical de suas apresentaes,  um exemplo tpico de modinha, com caracterstico lirismo e beleza. Ainda da parceria, Caldas gravaria neste mesmo ano as valsas "Santa dos meus amores" e "Torturante ironia". Nesse mesmo ano atuou no filme Favela dos meus amores, de Humberto Mauro, e fez sucesso com "Boneca", de Benedito Lacerda e Aldo Cabral, "Inquietao", de Ary Barroso e "Minha palhoa".

Foi em 1937 que surgiu a obra-prima da dupla  Silvio-Orestes, a cano "Cho de estrelas", cujo ttulo original era "Sonoridade aca-
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bou" (modificado, e muito bem, pelo poeta paulista Guilherme de Almeida), que s se tornaria sucesso nacional quando de sua segunda gravao, realizada na dcada de 1950. Composta por Slvio Caldas sobre um poema em decasslabos - que Orestes relutou em consentir que fosse musicado -, a obra foi citada em uma crnica de Manuel Bandeira que assim terminava: "se se fizesse aqui um concurso... para apurar qual o verso mais bonito de nossa lngua, talvez eu votasse naquele de Orestes 'tu pisavas os astros distrada'".

Em 1937, atravessando grande fase em sua carreira, Slvio lanou "Da cor do pecado", samba de autoria de Boror. Com uma harmonia e melodia elaboradas, o samba malicioso e brejeiro possui uma das letras mais sensuais da MPB. Em 1938, ele foi escolhido Cidado samba e fez sucesso com a marcha carnavalesca "Pastorinhas", de Joo de Barro e Noel Rosa, que havia sido lanada com o ttulo de "Linda pequena "no ano anterior. Ainda nesse ano, embora relutasse, gravou a valsa "Deusa da minha rua", composio de Newton Teixeira e Jorge Faraj. Segundo relato de Newton: "tive que tirar Slvio de uma roda no Caf Nice e praticamente arrast-lo ao estdio". Apesar
da relutncia, a msica foi um grande sucesso, contando com brilhante interpretao do cantor. Slvio, campeo em vrios carnavais, venceu o concurso oficial do carnaval desse ano com a marcha "Florisbela", de Nssara e Frazo, que teve como segunda colocada a marcha "Jardineira", de Benedito Lacerda. No ano seguinte, mais um grande xito com o fox-cano "Mulher", da dupla Custdio Mesquita e Sadi Cabral, considerada uma das composies mais elaboradas de Custdio Mesquita, por suas modulaes e harmonizao sofisticada para a poca. Nesse mesmo ano, destacou-se com "Morena boca de ouro" e "Trs lgrimas", ambas de Ary Barroso. Ou seja, quase
tudo o que gravava virava sucesso...

J ao final de carreira, em 1989, participou no Rio do derradeiro espetculo montado em sua homenagem no Teatro Joo Caetano. Com temporada de duas semanas, o show celebrava os 80 anos do

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cantor e contava, alm de msicos como Altamiro Carrilho e Orlando Silveira, com a presena em palco do Rancho Azulo da Torre, de Santa Cruz. Em 1992, Slvio Caldas recebeu no Rio a Medalha Machado de Assis, concedida por unanimidade pela Academia Brasileira de Letras, por sugesto do escritor Jorge Amado.

O cantor Carlos Galhardo (Buenos Aires, Argentina, 1913 - RJ, 1993) era filho de italianos. Com 1 ano de idade, a famlia transferiu-se para o Rio de Janeiro, cidade
onde passou a infncia. O pai era comerciante e no Rio de Janeiro passou a trabalhar em loterias no bairro do Rio Comprido. Carlos, ou Catello, como foi registrado, perdeu a me aos 8 anos de idade. Em 1921, ingressou em uma escola pblica onde cursou o primrio. Foi aprendiz de alfaiate, ofcio que exerceu enquanto continuava os estudos, tendo cursado apenas o primrio. Aos 16 anos de idade, empregou-se em uma charutaria, voltando pouco depois a seu ofcio de alfaiate. Embora no gostasse do ramo, passou por vrias alfaiatarias do Rio e, numa delas, trabalhou com Salvador Grimaldi, alfaiate e bartono com quem costumava ensaiat duetos de pera. Em
casa tambm cantava canes italianas e rias de pera, mas s teve a primeira oportunidade em 1932, quando foi ouvido por Francisco Alves, Mrio Reis e Lamartine
Babo em uma reunio social. Os trs o aconselharam a tentar o rdio e logo faria um teste cantando o samba "At amanh", de Noel Rosa. Foi de imediato contratado
pela gravadora Victor, inicialmente fazendo parte do coro que acompanhava as gravaes.

Carlos Galhardo lanou seu primeiro disco em 1933, com as marchas "Voc no gosta de mim", dos Irmos Valena, e "Que  que h", de Nelson Ferreira. Por essa poca
foi procurado pelo compositor Assis Valente, que tinha um samba aceito na RCA Victor e estava em busca de um intrprete. Ofereceu a msica a Galhardo, que gravou ento "Pra onde ir o Brasil?" e " duro de se crer". A partir da, passou a interpretar diversos sambas, principalmente os de Assis Valente.


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Lus Barbosa.
Arquivo Cedoc /FUNARTE

"Boas festas", composta no Natal de 1932 por um solitrio Assis, no quarto onde morava na Praia de Icara (Niteri), se tornaria cano natalina extremamente conhecida dos brasileiros e uma das poucas do gnero que conseguiu sobreviver. Seu sucesso foi de extrema importncia para Assis e tambm para Galhardo, *% ambos em incio de carreira  poca do lanamento.
J no carnaval de 1934, o cantor obteve enorme sucesso com "Carolina", marcha de Bonfiglio de Oliveira e Herv Cordovil. No ano seguinte, fez vrias gravaes para
a Columbia, dentre as quais "Boneca de pano" e "Mariana", marcha de Bonfiglio de Oliveira e Lamartine Babo, alm de estrear como cantor romntico com "Cortina de
veludo", valsa-cano de Paulo Barbosa e Osvaldo Santiago que marcou poca no Rio de Janeiro.
Em 1936, Galhardo alcana grande sucesso com a gravao de "Italiana", valsa de Paulo Barbosa, Jos Maria de Abreu e Osvaldo Santiago. A partir dessa gravao, a carreira do cantor foi repleta de xitos, tornando-se um dos quatro grandes cantores da era do rdio, ao lado de Orlando Silva, Slvio Caldas e Francisco Alves.
Entre outras faanhas, foi quem praticamente descobriu Nelson Gonalves, levando para o rdio o grande intrprete de "Renncia" (Roberto Martins e Mrio Rssi) e "Normalista" (Benedito Lacerda e David Nasser), entre outras.

Depois de muitas aparies no cinema, gravou a marcha "Alala-", de Haroldo Lobo e Nssara, outro enorme sucesso no carnaval de 1941. Em 1952, passou a trabalhar  na Rdio Mayrink Veiga

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e na Rdio Mundial. Nessa poca foi a Portugal, apresentando-se l pelo perodo de um ano. Em 1953, foi eleito Rei do disco pela Revista do disco, tendo sido um
dos cantores que mais vendeu discos no Brasil. Tanto que sua vendagem de discos de 78 rpm (cerca de 580 gravaes) s foi menor do que a de Francisco Alves.

Em 1983, Galhardo participou de seu ltimo espetculo montado, o show Ala-la-, em homenagem a Nssara, que tambm atuava, apresentado na Sala Funarte-Sidnei Miller.
O cantor seria imortalizado como O rei da valsa e O cantor que dispensa adjetivos.
Nascido de uma famlia de artistas, o cantor e compositor Lus Barbosa (RJ, 1910 - RJ, 1938) era irmo do compositor Paulo Barbosa, do humorista e cantor Barbosa
Jnior e do radialista Henrique Barbosa. Apesar de morrer to jovem, com apenas 28 anos, vtima da vida bomia que lhe valeu uma tuberculose, fez carreira marcante na msica popular brasileira dos anos 1930.
Sua marca registrada era o chapu de palha, que utilizava como instrumento rtmico enquanto cantava. Criou escola. Segundo registra Srgio Cabral em No tempo de Almirante, Lus Barbosa foi o inventor do breque no samba. Diferente do estilo de Moreira da Silva, Lus Barbosa parava o samba, no para falar, mas para improvisar um novo verso  letra. "Ele acelerava ou diminua a cantoria para encaixar frases absolutamente inesperadas, sempre dentro do ritmo, sem sair da rima e com muito esprito." Foi o intrprete do primeiro jingle comercial cantado do rdio brasileiro, apresentado no Programa Case e criado por Nssara: "Oh! Padeiro desta rua!/Tenha sempre na lembrana /No me traga outro po/ Que no seja o po Bragana".

Lus comeou cantando na Rdio Mayrink Veiga do Rio de Janeiro, no Esplndido Programa, de Valdo Abreu, em 1931 e ganhou projeo a partir de suas interpretaes de "Caixa econmica", de Nssara e Orestes Barbosa, e "Seu Librio", de Joo de Barro e Alberto Ribeiro, que lanou no rdio. Ainda em 1931,
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gravou os seus primeiros discos: os sambas "Meu santo", de Pedro Brito, "Silncio", de Vadico e "Sou jogador", de sua autoria, alm das marchas "Vem, meu amor", de Pedro Brito e Milton Amaral, e "Pega", tambm de sua autoria. Foi ele quem gravaria em 1933   o   primeiro   samba de
Wilson Batista, "Na estrada da vida". Em 1936, fez sucesso com a gravao da marchinha "! ! No!", de Antnio Almeida e A. Godinho, que inicialmente
era um jingle da Drogaria Sul- Americana, do Rio de Janeiro. Em 1937, Lus Barbosa gravou o clebre samba de Ary Barroso "No tabuleiro da baiana", em dupla com Carmen Miranda. Esse foi seu grande
sucesso em disco. Na gravao original, ele improvisou o breque "Mentirosa, mentirosa, mentirosa...".
Patrcio Teixeira (RJ, 1893 - RJ, 1972) alcanou grande popularidade atuando no rdio, em gravaes e concertos. Era um especialista no repertrio de canes folclricas brasileiras. Atuou no meio dos chores, tendo por companheiros Pixinguinha, Donga, Joo Pernambuco, Catulo da Paixo Cearense, entre tantos outros. A partir de 1918, Patrcio fez registros para a Odeon, Parlophon, Columbia, Victor, tornando-se, desde ento, muito conhecido, at porque sua discografia  extensa, constando de um
vasto repertrio de modinhas, emboladas, toadas sertanejas, entre outros gneros da msica brasileira.

Carlos Galhardo.
Arquivo Cedoc /Funarte
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A partir de 1926, o j cantor dedicou-se ao ensino de canes brasileiras acompanhadas ao violo, tendo sido professor de toda uma gerao de senhoritas da elite carioca, dentre as quais a cantora e violonista Olga Praguer Coelho, que alcanou grande sucesso nacional e internacional a partir da dcada de 1930. Em 1927, gravou "Casinha pequenina" (domnio pblico) e "Caboca bunita", de Catulo da Paixo Cearense. No ano seguinte, gravou com os Oito Batutas o samba "P de mulata", de Pixinguinha,
excursionando pelo Brasil neste mesmo ano com Pixinguinha e Donga. Entre os anos de  1928 e 1956, Patrcio fez inmeras gravaes para a Odeon, destacando-se "Gavio caludo", de Pixinguinha (1929), "Cabide de molambo", de Joo da Baiana (1932), "Desengano", de Haroldo Lobo e Milton de Oliveira (1938), e ainda a cano "Azulo", de Hekel Tavares e Lus Peixoto, entre tantas outras. Alm de Olga Praguer Coelho, entre suas alunas destacam-se Linda Batista, Aurora Miranda e posteriormente a cantora Nara Leo, a musa da Bossa Nova dos anos 1960. Passou o fim de sua vida hospedado em uma chcara em So Conrado, a Vila Riso, de propriedade de seu amigo Osvaldo Riso, que o homenageou com um busto de bronze erguido no jardim.
Por muitos, e por boa parte do pblico da poca, considerado o maior cantor brasileiro do seu tempo, e uma das vozes mais comoventes da MPB, Orlando Silva (RJ, 1915 - RJ, 1978) nasceu na estao do Engenho de Dentro, modesto subrbio carioca. O pai era violonista e, segundo depoimento de Orlando ao MIS, participou de uma das formaes do conjunto de Pixinguinha, Os Oito Batutas, no viajando para o exterior com o conjunto porque na poca j era pai de trs filhos. Jos Celestino faleceu de gripe espanhola quando Orlando tinha apenas 3 anos de idade. O cantor teve cinco irmos, mas seria ele o nico com vocao musical.

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Em todas as apresentaes de escola o menino Orlando era convocado para cantar, o que fazia escondido, por causa da sua grande timidez. Ao voltar do colgio, subia em um p de amora e passava horas cantando, atendendo a pedidos dos vizinhos. Certa vez, em um dos domingos de outubro na Festa da Penha, ainda de calas curtas, comeou a cantar l de sua rvore, e o lugar passou a ser procurado... "aquele onde se apresenta o tal menino".

O menino seria entregador de marmitas, operrio em uma fbrica de cermicas, aprendiz de cortador na fbrica de calados Bordalo, situada na esquina da rua Buenos
Aires, entregador de encomendas da Casa Reunier. Ainda adolescente, sofreu um acidente ao tentar tomar um bonde em movimento que lhe causou a perda dos quatro primeiros dedos dos ps e transtornos para o resto da vida. Acredita-se que, nessa poca, Orlando iniciou seu envolvimento com a morfina, droga utilizada para acalmar a intensa dor causada pela amputao dos dedos.

Aps seu restabelecimento, tornou-se trocador de nibus, uma das poucas funes que podia desempenhar sentado. Por sugesto do motorista do nibus, o portugus  Conceio, Orlando se apresentou em um circo que se assentara em frente  empresa. O filho do dono da empresa, Jos Correia Lopes (Zez), impressionado com a voz de Orlando,
tirou-o do nibus, passando-o para os servios de escritrio.

O irmo, Edmundo, grande incentivador de sua carreira, fez com que Orlando fosse  Rdio Cajuti, onde comeou a ensaiar com o violonista Brito, preparando nmeros
para apresentar a Bevilacqua, o diretor da rdio. Depois de trs, quatro tentativas de encontrar o diretor, numa das vezes foi ouvido pelo compositor Boror, que
o levou ao Caf Nice para apresent-lo a Francisco Alves.
Foram at o carro de Chico Alves e Orlando comeou a cantar um samba de Ary Barroso. Em seguida cantou a valsa "Mimi".

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Orlando Silva.

Arquivo Cedoc /Funarte

Entusiasmado, Chico marcou um teste na Rdio Guanabara, para ouvi-lo ao microfone. O sucesso foi de tal ordem que Francisco Alves o convidou a estrear em seu programa.
Isso ocorreu em 1934. Orlando Silva tinha ento 17 anos e chegou a ser apresentado com o pseudnimo de Orlando Navarro, que o cantor logo recusaria.

A consagrao no rdio seria no Programa Case, do qual participavam todas as grandes estrelas da poca. Em 12 de setembro de 1936, participou da inaugurao da Rdio Nacional e teve seu contrato de exclusividade assinado 11 dias antes da inaugurao. Em 1937, com a gravao de "Lbios que beijei" e "Juramento falso" (ambas de
J. Cascata e Leonel Azevedo), orquestradas por Radams Gnattali - segundo depoimento do prprio Orlando: "O Brasil tomou conhecimento de que havia mais um, a ningum me segurou mais".

Sua escalada para a fama, muitssimo merecida, foi to rpida, que j em 1937, excursionando a So Paulo pela primeira vez, uma apresentao pblica reuniu 10 mil pessoas para ouvi-lo, com o comrcio local praticamente fechado para prestigi-lo e aplaudi-lo. Um absoluto fenmeno para a poca. De volta  Radio Nacional, o
locutor Oduvaldo Cozzi lhe atribuiu o aposto de O cantor das multides, seu ttulo para toda a vida.

Orlando foi o primeiro intrprete de "Carinhoso", de Pixinguinha, com a letra de Joo de Barro, passando a utilizar a msica como prefixo de suas audies, num disco
que tinha a valsa "Rosa", tambm de Pixinguinha e Otvio de Souza, como lado B. "Rosa"
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Orlando Silva
Arquivo Ckdoc / funarte

era a msica preferida de D. Balbina, me do cantor, razo por que  depois de sua morte ele jamais voltaria a interpret-la.

Em 1940, j no auge da fama, iniciou uma histria de amor com a atriz Zez Fonseca, relacionamento turbulento que perdurou at aproximadamente 1943. Acredita-se
que por essa poca o cantor tenha voltado a utilizar a morfina, comprometendo assim sua bela voz e a carreira artstica. Em 1947, j liberto das drogas, uniu-se a Maria de Lourdes, com quem viveu harmoniosamente at seus ltimos dias.

Contratado exclusivo da Nacional, foi dos raros cantores a ter um programa s seu nessa emissora, quando passou a se apresentar s quintas-feiras. A cada semana, Orlando tinha um convidado, e alguns nomes internacionais em visita ao Rio, como Pedro Vargas, Jean Sablon, entre outros, compareceram ao programa.

Em 1938, participou do filme Banana da terra, dirigido por J. Rui, interpretando a marchinha "A jardineira", de Benedito Lacerda e Humberto Porto. Neste mesmo ano, estourou no carnaval com "Abre a janela", de Arlindo Marques Jnior e Roberto Roberti. Segundo depoimento do cantor, o termmetro musical do carnaval carioca era o bloco que saa da Casa da Moeda; o que eles cantavam na avenida estourava no carnaval. Nesse ano, saram cantando "Abre a janela", o que causou enorme emoo em Orlando Silva.
Quando sua carreira entrou em declnio em meados dos anos 1940, por envolvimento com drogas e por turbulncias amorosas com Zez Fonseca, desentendeu-se com a direo da Victor, da qual se afastou, e em 1945 rescindiu seu contrato com a Rdio Nacional. A luta  contra as drogas e a retomada do respeito prprio foram um drama que marcou, a ferro e

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fogo, a vida deste grande cantor, talvez a mais bela voz dentre todos os cantores do Brasil.
Cantora, compositora, instrumentista (violo e piano), Marlia Batista (RJ, 1918 - RJ, 1990) era filha do mdico do exrcito Renato Hugo Batista e da pianista Edith
Monteiro de Barros Batista. Tinha dois irmos, Renato e Henrique. Herdeira de tradicional famlia da sociedade carioca, neta do poeta e baro Lus Monteiro de Barros, Marlia mostrou desde menina seu interesse pela msica. Aos 6 anos, ganhou o primeiro violo. E foi por acaso: o barbeiro da famlia, numa visita  sua casa para cortar os cabelos do pai e do irmo, esqueceu l o seu instrumento. A menina no largou nunca mais o violo, que seria uma de suas eternas paixes.
Rompendo a tradio de tantos cantores e compositores nossos, humildes, sem instruo e autodidatas, ela estudou no Instituto Nacional de Msica (atual Escola de Msica da UFRJ), onde se formou em teoria, solfejo e harmonia, apesar de abandonar o curso de piano no 4- ano. Comeou a estudar violo com Josu de Barros aos 12 anos, por iniciativa do prprio violonista, que depois de ficar encantado com um recital da menina no Cassino Beira-mar, fez questo de ministrar-lhe aulas de graa.
Depois, estudou violo clssico com o virtuoso Jos Rebelo, j que sua inteno era tornar-se uma concertista.

No entanto, o interesse pela msica popular sempre foi mais forte. Depois da morte de Noel Rosa, foi a Marlia que D. Martha, a me do compositor, deu os manuscritos do filho. Marlia entregou-os s mos de Almirante, que os conservou cuidadosamente. Em 1945, interrompeu a vida artstica para se casar e s retornou em 1950.
Marlia Batista destacou-se como intrprete e divulgadora da obra de Noel Rosa, que conheceu em 1932, quando, com apenas 14 anos, foi convidada para cantar no espetculo Uma hora de arte,
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no Grmio Esportivo Onze de Junho. Tornaram-se grandes amigos e at hoje os historiadores da MPB se perguntam se Marlia no teria sido a intrprete favorita de Noel.
Em 1932, gravou seu primeiro disco, com composies suas em parceria com seu irmo Henrique Batista: o samba "Pedi, implorei" e a marcha "Me larga". Na ocasio, Marlia foi acompanhada pelo violo de Rogrio Guimares e o bandolim de Joo Martins. Em 1933,  convidada por Almirante para fazer parte do oitavo Broadway  Cocktail (show que precedia o filme no Cine Broadway), ao lado de grandes nomes da msica popular de ento: Slvio Caldas, Jorge Fernandes e Rogrio Guimares. O sucesso foi tanto que a jovem cantora recebeu convite de Ademar Cas para integrar o famoso Programa Cas, na Rdio Phillips, com um contrato altssimo para a poca (45 mil-ris). No Programa Cas,  em dupla com Noel Rosa, ficaram famosos os improvisos com o samba "De babado" (De babado sim/ Meu amor ideal/ Sem babado, no...) de Noel e Joo da Mina, e dos versinhos das propagandas de anunciantes do programa. Os improvisos, s vezes, chegavam a durar 10 minutos sem repetio de versos, criados na hora por Marlia e o parceiro Noel. Marlia chegou a compor um prefixo para sua participao no programa: "Fala o Programa Cas!/ Veja se adivinha quem .../ Fao a pergunta por troa/ pois todo mundo j conhece/ A garota da voz grossa.").

Em 1935, depois de vrias gravaes de sucessos de autoria de Noel Rosa, recebeu o ttulo de Princesinha do samba. Marlia integrou o elenco da Rdio Nacional, desde
a sua inaugurao, em 12 de setembro de 1936, e participou do programa de apresentao do novo programa de Almirante, em seu retorno  Rdio Nacional, em maro de 1944. Depois de longo afastamento, ela s voltaria  carreira artstica na dcada de 1950, sempre interpretando e divulgando bastante a obra de Noel Rosa, pelo que
a MPB ficou devendo muitssimo a Marlia Batista.

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Programa Case. Da esquerda para a direita: Mrio Moraes, Ciro de Souza, Henrique Batista, Marlia Batista, Fernando Pereira, Renato Batista e Noel Rosa,

Arquivo Cedoc /Funarte


Aracy de Almeida (RJ, 1914 - RJ, 1988), juntamente com Marlia Batista,  apontada como a melhor intrprete da obra de Noel Rosa. Nasceu e cresceu no Encantado, bairro do subrbio do Rio de Janeiro. Seu pai, Baltasar Teles de Almeida, era chefe de trens da Central do Brasil. Ainda jovem, Aracy cantava no coro da igreja Batista da qual seu irmo Alcides era pastor. Menina pobre, desde os tempos de criana sonhava em ser cantora de rdio, o que acabou acontecendo a partir de seu
encontro com o compositor Custdio Mesquita, para quem cantou "Bom dia, meu amor ", de Joubert de Carvalho e Olegrio Mariano. Seu talento para cantar sambas e msicas carnavalescas fez com que fosse apelidada por Csar Ladeira de O samba em pessoa.
Nos anos 1950 - momento decisivo, em que a Bossa Nova ofuscou o samba, o qual seria retomado logo na dcada seguinte -, foi a responsvel pelo ressurgimento do nome de Noel Rosa para o grande pblico, gravando e regravando muitos de seus sucessos. Aps sua morte, a remasterizao de antigas gravaes e o relanamento em CD de antigos sucessos redimensionam a sua importncia como intrprete.

Essa grande sambista na intimidade era apreciadora de msica clssica e se interessava por leituras de psicanlise, alm de ter em sua casa quadros de importantes pintores brasileiros como Aldemir Martins e Di Cavalcanti. Os que conviviam com ela a viam como uma mulher lida e esclarecida, e tambm uma grande amiga, a quem os mais prximos tratavam por Araca. Dela, Noel Rosa disse, em 1933, numa entrevista a Orestes Barbosa, para A Hora: "Aracy de Almeida , na minha  opinio, a pessoa que interpreta com exatido 
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Aracy de Almeida. Arquivo Cedoc / funarte

o que eu produzo." O samba "Palpite infeliz", de Noel Rosa, parte da histrica polmica com Wilson Batista, tornou-se sucesso na voz de Aracy, que o gravou em 1936.
Em 1937, Aracy de Almeida gravou ainda "Eu sei sofrer", uma das clebres parcerias de Noel Rosa com o compositor paulista Vadico, e tambm "Ultimo desejo", um dos
mais conhecidos sambas de Noel Rosa, que morreu antes de poder ouvir a gravao, realizada semanas antes da morte do Poeta da Vila.
J em 1969, com o samba de novo esquentando as noites e como demonstrao do reconhecimento de sua importncia pelas geraes mais novas, vamos encontr-la se apresentando
na boate paulista Canto Terzo, e participando do show Que maravilha!, ao lado de Jorge Ben (depois Jorge Benjor), Toquinho (que naquele ano iniciaria sua parceria com Vincius de Moraes) e Paulinho da Viola, no Teatro Cacilda Becker, em So Paulo. Nas dcadas de 1970 e 1980, Aracy de Almeida ficou conhecida por grande parte do pblico como jurada de programas de auditrio, aparecendo como uma senhora rabugenta, sempre de culos escuros e mau humor. Na verdade, tratava-se de um personagem
criado pela cantora para atrair a ateno do telespectador. No fundo, no era nada daquilo. Porque sempre foi mesmo a mais completa cantora do samba urbano carioca.




Vicente Celestino (RJ, 1894 - SP, 1968), este filho de calabreses que no comeo da carreira trabalhou em musicais no teatro, como Juriti, de Viriato Correia, com msica de Chiquinha Gonzaga (na pea trabalhava ainda um jovem ator: Procpio Ferreira), foi um
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dos primeiros mais vendidos em discos, no Brasil - lanou entre 1928 e 1930, 19 discos, com 35 msicas. Casou-se em 25 de setembro de 1933 com a atriz e cantora
Gilda de Abreu (Frana, 1904 - RJ, 1979), cerimnia que teve grande repercusso popular e ocorreu no palco onde encenavam,  noite, A cano brasileira. Cinco meses antes, haviam se conhecido ali mesmo naquele palco, representando a opereta de Lus Iglsias, Miguel Santos e Henrique Vogeler, montada no Teatro Recreio, no Rio de Janeiro. A noite, Gilda usaria o mesmo vestido em uma cena do espetculo, repetindo, com uma revoada de pombos e ao som da marcha nupcial, a emoo do casamento para o pblico do teatro - por essas e outras, Gilda e Celestino se tornariam o casal mais popular da MPB (e do cinema) dos anos 1930.

Celestino tinha uma voz operstica, um tenor nato, e uma bela estampa de gal. Lanou um estilo caracterizado pelo romantismo exarcebado, comovendo e arrebatando um grande pblico durante a primeira metade do sculo XX, mas tambm dando o timbre do que seria o estilo habitual de interpretao da MPB naqueles anos, quando j ento surgiam os primeiros microfones eltricos.

Com Gilda, Vicente Celestino fez dupla em interpretaes e no cinema - ela era atriz e diretora de cinema, e algumas composies de Celestino ("O brio", 1936, e "Corao materno", no ano seguinte) inspiraram filmes de Gilda. Curiosamente, "Corao materno" foi gravada no LP manifesto Panis et circensis (1968), por Caetano Veloso, com arranjo de Rogrio Duprat, como estratgia de afirmao do tropicalismo. Sempre fiel a seu estilo, Vicente chegaria a gravar sambas e clssicos da Bossa Nova, como "Se todos fossem iguais a voc", de Tom Jobim e Vincius de Moraes. Gilda foi a estrela de Bonequinha de seda, dirigido por Oduvaldo Viana, filme inspirado na valsa com o mesmo ttulo e de sua autoria, grande sucesso na voz de Vicente Celestino.
Mas, dentre todos eles, um se destacaria dos demais em seu tempo: o Rei da Voz, Francisco de Morais Alves, o Chico Viola, ou Francisco Alves (RJ, 1898 - SP, 1952),
o mais popular de todos os cantores de sua poca. Chico era tambm compositor, apesar de ser incerto o nmero de composies em que sua parceria foi real e em quantas seu nome foi apenas colocado. Essa, de resto, era prtica comum na poca, ou seja, quando Francisco Alves inclua uma msica em seu repertrio, isso representava razovel garantia de sucesso para a composio. E em contrapartida, entrava tambm na parceria.

Chico Viola nasceu no bairro carioca da Sade, filho de portugueses. O pai, Jos Alves, veio para o Rio de Janeiro, onde abriu um botequim. Alguns anos mais tarde trouxe a esposa, Isabel, e a filha. Chico passou uma infncia tranqila nas ruas de seu bairro, mas aos 9 anos de idade a famlia mudou-se para a rua Evaristo da
Veiga, onde passou a freqentar o colgio. Por essa poca, costumava assistir aos ensaios das bandas de msica de Batalhes da Polcia Militar que ocorriam na vizinhana, j antecipando seu gosto pelo canto.
 Chico comeou a aprender violo com a irm Nair, de quem ganhou de presente o primeiro instrumento. Em 1916, empregou-se na fbrica de chapus Mangueira, onde permaneceu
por aproximadamente um ano. Decidido a ser cantor, fez seu primeiro teste com o maestro Antnio Lago, pai do ator Mrio Lago. Foi aprovado, mas ainda assim preferiu tomar aulas de canto com o bartono Sante Athos por um perodo de trs meses.
 Em 1918, nosso jovem foi admitido na Companhia Joo de Deus-Martins Chaves, que ocupava o Pavilho do Mier, indo pouco depois para o circo Spinelli. No ano de 1920, passou a trabalhar como chofer de txi e tambm casou-se com Perptua Guerra Tutoya, Ceei, de quem se separou pouco depois. Logo conheceu Clia Zenatti, que seria sua companheira por um perodo de 20 anos, e finalmente, em 1948, apaixonou-se por Iraci, sua companheira dos ltimos quatro anos de vida.

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Francisco de Moraes Alves. Capa  da revista Ritmos, n" 1, fevereiro de 1949.
Museu da Imagem e do Som, RJ

Francisco Alves morreu vitimado por um acidente na Estrada Rio- So Paulo. Voltando de uma viagem  capital paulista, tendo ao lado o amigo Haroldo Alves, dirigia o seu Buick quando foi atingido por um caminho que vinha na contramo. O cantor morreu instantaneamente, prximo  cidade de Pindamonhangaba. No trajeto at o Rio de Janeiro, o caixo foi sendo recoberto de flores pelo povo.

Um dos mais famosos cantores brasileiros de todos os tempos,  teve uma carreira de 35 anos ininterruptos de atividade. Em 1919, gravou seu primeiro disco atravs do selo Disco Popular, de Joo Gonzaga, filho da pianista e compositora Chiquinha Gonzaga. Acompanhado por Sinh e tendo como coristas suas sobrinhas e seu amigo
Juvenal Fontes, gravou as msicas "P de anjo" e "Fala meu louro", ambas composies de Sinh que fariam razovel sucesso naquele ano.
 Enquanto sustentava-se com seu trabalho como taxista, mantinha suas apresentaes em teatros onde recebia por noite de trabalho. Por essa poca, atuou com
a Companhia Batista de Oliveira (pai da atriz Amlia de Oliveira), no Politeama de Niteri. A convite do empresrio Jos Segreto,  apresentou-se com a Companhia
de Teatro So Jos, ao lado de Otlia Amorim e Vicente Celestino, cantor a quem imitava. Em 1924, gravou  na Odeon dois discos de carnaval, com um samba de Sebastio Santos Neves, 'Mido" e duas marchas de Freire Jnior, "Mile. Cinma" e "No me passo pra voc". Em 1927,

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 levado por Freire Jnior, tornaria a gravar na Odeon, dessa vez 11 discos seguidos que alcanaram o sucesso, tornando-se Francisco Alves a maior estrela da gravadora, recordista em gravaes e vendagem de discos. O cantor se tornou o maior lanador das msicas de Sinh, que se consagraria como o grande compositor da dcada de 1920.

Chico foi o primero artista brasileiro a gravar pelo sistema eltrico, inaugurado pela Odeon em julho de 1927, com a gravao de duas composies de Duque, o samba "Coisas do m" e a marcha "Albertina". Manteve-se na Odeon transferindo-se pouco depois para a Parlophon (subsidiria da primeira), momento em que adotou o pseudnimo
de Chico Viola.
Ainda em 1928, fez sucesso com as gravaes de "Amar a uma s mulher", samba carnavalesco de Sinh e "A voz do violo", composio de sua autoria e de Horcio de Campos. A letra foi composta originalmente para a revista No  isso que eu procuro, encenada pela companhia de Jardel Jrcolis. No tendo alcanado sucesso, foi musicada por Francisco Alves, o que logo se tornaria um marco na carreira do artista, que a regravaria ainda mais quatro vezes. Nesse mesmo ano, conheceu a turma de compositores do Estcio, tendo ficado amigo de Ismael Silva, de quem gravou quase toda a produo. Passou ainda a comprar sambas desses compositores, dentre os quais Alcebades Barcelos (Bide), de quem adquiriu o samba "A malandragem".
Por essa poca, Chico estreou no rdio, atuando na Rdio Sociedade do Rio de Janeiro. No ano de 1930, formou dupla com o cantor Mrio Reis, alcanando grande sucesso.

Em 1932, excursionou por Buenos Aires com Mrio Reis, Carmen Miranda, Luperce Miranda e Tute. No ano seguinte, assinou contrato com a Rdio Mayrink Veiga e destacou-se com a gravao de "Fita amarela", de Noel Rosa, sua ltima gravao em dupla com Mrio Reis, que fez grande sucesso no carnaval de 1933.

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Em 1934, deixou a Odeon, passando ento a gravar na Victor, e nesse mesmo ano fez sua primeira apario no cinema, participando de Al, al, Brasil, da Waldown-Cindia, dirigido pelo americano Wallace Downey. O filme s estrearia em 1935, com roteiro de Joo de Barro (Braguinha) e Alberto Ribeiro. Ainda em 1934, excursionou ao sul do Brasil ao lado de Noel Rosa, Mrio Reis e do pianista Non, que seria seu grande acompanhador. Um dos pontos mais altos da carreira de Chico Alves, contudo,  ocorreira em 1939, quando fez a primeira gravao de "Aquarela do Brasil", de Ary Barroso, com arranjo de Radams Gnattali. Dois anos aps o lanamento de "Aquarela do Brasil", fez sucesso com a gravao de "Canta Brasil "(Alcir Pires Vermelho e David Nasser), que consolidaria o prestgio do gnero samba-exaltao. Sobre a msica, Alcir contava que "fez a melodia numa viagem de bonde do Centro  Tijuca, depois de receber a letra de Nasser num encontro casual na avenida Rio Branco". "Canta Brasil" foi gravada por Francisco Alves na Odeon, com acompanhamento da Orquestra da Rdio Nacional. Nesse mesmo ano, alcanou grande xito com a valsa "Eu sonhei que tu estavas to linda", de Lamartine Babo e Francisco Matoso. Em julho de 1941, Chico retornou  Odeon, gravadora onde permaneceu at 1952, ano de sua morte.

Sobre Francisco Alves compositor, observou o musiclogo Vasco Mariz:

Mesmo que, com exagero, lhe fosse negada a autoria de todas as suas msicas, e realmente no h dvida de que muitas delas foram compradas a diversos compositores, uma ficaria, pelo menos, para lhe dar tambm um ttulo de glria neste setor: a melodia com que revestiu os versos de Horcio de Campos e que seria, alis, o seu prefixo musical, "A voz do violo".


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Alm de seu valor como intrprete, Francisco Alves, com o peso de sua popularidade, e mesmo com a aura romntica de sua trajetria at a trgica morte, foi um dos fundamentos que construiu a mitologia em torno do estrelato na MPB.

Os compositores 	que deram alma  MPB

Exatamente no ano zero da poca de ouro - 1930 - apareceu o primeiro sucesso de um jovem mineiro de Ub e que viria a ser o compositor mais famoso do Brasil durante pelo menos trs dcadas: Ary de Resende Barroso (MG, 1903 - RJ, 1964). Poltico brigador, reconhecido como excelente pianista, atuou tambm como chefe de orquestra.
Suas caractersticas principais eram do conhecimento do pas inteiro: bomio inveterado e defensor intransigente da autenticidade da MPB, lutando contra os ritmos estrangeiros e sua crescente influncia.

Filho de Joo Evangelista Barroso, deputado estadual e promotor pblico em Ub, e de Gabriela Augusta de Resende, aos 6 anos de idade perdeu a me (de apenas 22 anos de idade), vitimada por tuberculose. Dois meses depois, o pai faleceu vitimado pela mesma doena. O menino Ary foi criado pela av, Gabriela, e pela tia Ritinha, sua primeira professora de piano. Devido s dificuldades financeiras, Ary passou a ajudar a tia, fazendo ao piano fundo musical para filmes no Cinema Ideal. Pouco depois, empregou-se como caixeiro da loja A Brasileira, onde chegou a permanecer por um perodo de seis meses. Cursou o primrio na escola do professor Ccero Galindo, seguindo seus estudos no Ginsio So Jos. Deste, por seu comportamento pouco disciplinado, passou pelos ginsios de escolas nas cidades de Viosa, Leopoldina e
finalmente Cataguases, onde concluiu o curso. Por essa poca, j freqentava a bomia local, era goleiro do Botafogo Futebol Clube de Ub e des-

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Ary Barroso com Carmen Miranda. Arquivo Cedoc / Funartk
filava no bloco Ubaenses e Estrelas, contrariando a famlia que saa no bloco Drages e Opalas. O jovem Ary logo deixaria Ub e passaria a residir no Rio de Janeiro, onde prestou vestibular para a Faculdade de Direito da Universidade do Rio de Janeiro.
Chegando ao Rio (1921), foi ser pianista, profisso que exercia por amor e por sobrevivncia, at que, contratado para musicar peas de teatro, iniciou-se como compositor, quando escreveu toda a partitura para a pea Brasil do Amor (1929), onde estrearia Slvio Caldas, cantando o samba "Faceira". O samba, por sinal, s foi gravado, em 1931, registro que marca a estria do grande cantor carioca em gravaes, assinalando o incio de uma das mais bem sucedidas carreiras do Brasil, no s porque Caldas soube escolher e definir repertrio como poucos, mas igualmente pela conteno e natural elegncia em interpretar qualquer gnero musical. Enquanto cursava a faculdade no perodo da manh, voltou a fazer fundo musical para cinema mudo, trabalhando das 14 s 18 horas no Cinema Iris e das 20 s 22 no Cinema Odeon. Com a carga intensa de trabalho, o curso iniciado em 1922 foi interrompido inmeras vezes. Ary s se formou em 1930, na mesma turma do cantor Mrio Reis.
Estimulado pelo compositor Eduardo Souto, a nica influncia que o vaidoso Ary chegou a confessar, estria no carnaval de 1930 com o primeiro sucesso, a marchinha
"D nela", que ganhou o carnaval. A partir de "D nela", gravada por Chico Alves, ento j quase uma consagrao, Ary Barroso viria a ser um dos mais prestigiados compositores da dcada de ouro, compondo inmeros sambas, canes e marchinhas durante os anos 1930. No ano de 1932, ingressou na Rdio Phillips a convite de Renato Murce, no programa Horas do outro mundo, atuando a princpio como pianista e assumindo 
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pouco depois as atividades de locutor, humorista, animador e locutor esportivo. A carreira de Ary no rdio seria uma das marcas de nossa cultura popular. So inmeros os artistas que foram lanados em seus programas - como Angela Maria e Lcio Alves -, alm da referncia que, no rdio e depois na tev, ele constituiu, para o mundo musical.
Da Rdio Phillips, transferiu-se para a Mayrink Veiga e, posteriormente, para a Cosmos, em So Paulo. Para uma revista de Lus Peixoto e Freire Jnior, Ary comps
uma msica, cujos versos foram trocados por Peixoto. Nasceu assim a composio "Maria", feita para a pea teatral Me deixa Ioi, uma homenagem  atriz portuguesa
Maria Sampaio, estrela da pea. J no ano de 1937, lanou o programa Calouros em desfile, na Rdio Cruzeiro do Sul, onde exigia que os candidatos interpretassem
exclusivamente msica brasileira e que anunciassem corretamente o nome dos compositores. O programa passou para a Rdio Tupi, ocasio em que instituiu o gongo, implacavelmente tocado quando o calouro desafinava.

Em 1939, Ary iniciaria uma nova fase, a do samba-exaltao, que servia como uma luva s intenes nacionalistas do Estado Novo de Getlio, ento namoriscando os
pases do Eixo. Essa fase foi inaugurada com uma composio que correria muito cho e que se transformaria na msica brasileira mais ouvida e executada no exterior, "Aquarela do Brasil", um smbolo sonoro do Brasil em todo mundo; ou pelo menos durante 25 anos ininterruptos, at a chegada da "Garota de Ipanema", nos anos 1960.
Lanada por Aracy Cortes na revista Entra na faixa, de Ary e Lus Iglesias, e sendo inadequada  voz da cantora, a msica no fez sucesso. Pouco depois, foi apresentada
pelo bartono Cndido Botelho no espetculo Joujoux e Balangands. A primeira gravao da msica foi realizada por Francisco Alves, com portentoso arranjo de Radams Gnattali - que ser citado novamente em inmeros momentos fundamentais de nossa msica.
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Ary, alis, chegou a trabalhar nos Estados Unidos e a ser apontado para um Oscar da Academia de Hollywood. Ao voltar dos estdios Disney, envolveu-se com a poltica, tendo sido, em 1946, o segundo candidato mais votado da direitista Unio Democrtica Nacional (UDN) nas eleies para a Cmara de Vereadores do Rio de Janeiro. Na tribuna, venceu uma grande batalha pela construo do Estdio do Maracan. Ary tambm participou ativamente no campo da arrecadao do direito autoral, como membro da UBC (da qual foi primeiro presidente, em 1942), da Sbat e da Sbacem. Como locutor de futebol, ficaria famoso pela flautinha que tocava a cada gol que narrava.
Alm disso, no escondia sua paixo pelo Clube de Regatas do Flamengo, a ponto de, quando o clube jogava, comportar-se ao microfone muito mais como um torcedor do que como locutor (chegava a interromper a locuo dizendo que no queria nem ver o que ia acontecer quando um atacante adversrio ameaava a meta rubro-negra; se de fato fechava os olhos, no sabemos).

Em I960, Ary elegeu-se vice-presidente do departamento cultural e recreativo do Flamengo e, pouco depois, adoeceria de cirrose heptica, doena da qual se restabeleceu em 1962, retomando seu programa Encontro com Ary, apresentado pela TV Tupi e transmitido aos domingos. Em 1963, a Ordem dos Msicos do Brasil ameaou proibir a execuo de suas composies, por desentendimento entre as sociedades arrecadadoras UBC e Sbacem. Em represlia  deciso, a imprensa e o meio musical chegaram a realizar uma semana de desagravo, que incluiu concentrao popular na praa Serzedelo Correia. Neste mesmo ano, sofreu nova crise de cirrose, tendo sido internado na Casa de Sade So Jos, onde teve uma breve recuperao. Pouco depois, sofreu uma recada e foi internado no Instituto Cirrgico Gabriel de Lucena, onde faleceu dormindo, em meio ao carnaval (1964), presumivelmente, no mesmo momento em que a Imprio Serrano desfilava com o samba-enredo que levou para a avenida naquele ano:


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"Aquarela Brasileira". Sua fama sobrevive em sua monumental discografia e atravs das oitocentas gravaes existentes da "Aquarela do Brasil" em todo o mundo.
O segundo dos grandes compositores da Era de Ouro foi Noel Rosa. Como Ary, Noel vinha da classe mdia, o que est a demonstrar, de maneira muito categrica, que o campo do entretenimento, a partir do rdio e da gravao eltrica, tornava-se um veculo cada vez mais promissor de profissionalizao, de prestgio e de reconhecimento populares.

Noel de Medeiros Rosa (RJ, 1910 - RJ, 1937), o Poeta da Vila, veio ao mundo no corao de Vila Isabel. E o dia de seu nascimento o marcaria traumaticamente para o resto dos seus 26 anos e meio de vida - o defeito fsico no queixo, ocasionado pelo afundamento do maxilar inferior no momento do parto, provocado pelo frceps, alm de uma pequena paralisia na face direita, que o deixou desfigurado, apesar das cirurgias sofridas aos 6 e 12 anos de idade. Noel nasceu, viveu e morreu na mesma residncia, na rua Teodoro da Silva, em Vila Isabel.
Quando tinha apenas 13 anos, comeou a tocar bandolim de ouvido e tambm o violo, que aprendeu a manejar com a ajuda do pai. J dominando o instrumento, fazia serenatas com o irmo no bairro de Vila Isabel, em 1925. Sem deixar de lado o violo e as serenatas, ao terminar o ginsio Noel preparou-se para a Faculdade de Medicina, que viria a abandonar em 1932, deixando dessa experincia o samba anatmico "Corao", gravado no ano seguinte. Em 1929, moradores de Vila Isabel e alunos do Colgio Batista formaram um grupo musical, Flor do Tempo, que se apresentava em festas locais. Quando foram convidados para gravar, o grupo foi reformulado, mudando o nome para Bando de Tangars. Aos integrantes originais do Flor do Tempo (Joo de Barro, Almirante, Alvinho e Henrique Brito), juntou-se Noel Rosa, que j tinha fama de bom violonista no bairro. A primeira gravao do Bando dos Tangars

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Noel Rosa.
Arquivo Cedoc / Funarte


foi o samba "Mulher exigente", seguido por uma embolada e um cateret, todos de autoria de Almirante.
Mas a primeirssima composio do poeta foi a embolada "Minha viola" (1929), feita na esteira da influncia do fluxo de msica nordestina - trazida por Catulo e depois pelos Turunas da Mauricia, de Augusto Calheiros e Luperce Miranda. A embolada passaria em brancas nuvens, o que no ocorreria com o samba "Com que roupa"
(1931) que, gravado pelo prprio Noel, j refletia uma pgina da vida do compositor, como, de resto, quase todas suas composies.
A partir do seu primeiro sucesso no carnaval de 1931, Noel faria para mais de vinte msicas, algumas delas clssicos at hoje como "Trs apitos", "Cordiais saudaes" e "Cago apaixonado". J ento seu estilo estava cristalizado - Noel cantava o simples das coisas e dos fatos cotidianos. Foi o poeta dos versos escorreitos e despojados de preciosismo, o cronista musical mais preciso e enxuto de sua poca, que traria para o comeo dos anos 1930 a simplicidade e o bom gosto, to revolucionrios quanto a ento contempornea Semana de Arte Moderna de 1922. Alis, qualquer anlise mais profunda que se faa sobre a potica de Noel revela que ele trouxe para seus versos
muita coisa dos cnones modernistas de 1922, sobretudo ao comentar (apaixonadamente,  certo, mas isso j era o seu toque particular) o cotidiano, e ainda na liberdade dos versos e das palavras empregadas.
No ano seguinte, Noel teve dois encontros musicais importantes - Ismael Silva, seu parceiro em dez sambas, e o musicista paulista Oswaldo Gogliano, o Vadico, com
quem tambm fez pelo menos dez obras-primas, entre as quais
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Ilustrao  do samba 'Onde est a honestidade", de Noel Rosa.
Museu da Imagem e do Som, RJ

"Feitio de orao", "Conversa de botequim", "Dama de cabar" e especialmente o "Feitio da Vila", um hino ao bairro onde nasceu e morreu, que acabou inserido na clebre polmica musical mantida com o sambista Wilson Batista.
A  pesquisadores mais argutos como Joo Mximo e A. Didier, seus bigrafos, no poderia mesmo passar despercebido que a vida de Noel foi quase toda registrada em
seus sambas; difcil  uma msica sua que no tenha uma histria especfica. E suas composies que falam de amor comprovam que Noel apaixonou-se por muitas mulheres.
Numa noite de So Joo, no Cabar Apoio da antiga Lapa, ele conheceu a bailarina Ceci, uma jovem campista de 16 anos que trabalhava num cabar da Lapa e de quem
o poeta seria enamorado at morrer. Para Ceei, Noel fez "Pr que mentir", "0 maior castigo que te dou", "Dama de cabar", "Silncio de um minuto", "Ilustre visita"
("S pode ser voc"), e ainda o pstumo "As pastorinhas".
Apesar de casar-se em fins de 1934 com a jovem Lidaura, a vida de Noel s registrou uma nica mudana: saiu de seu quarto uma cama de solteiro e entrou uma de casal.
A bomia, as noites dissipadas, a bebida e o cigarro acabaram por lhe destruir os pulmes j enfermos. Noel morreu apenas 6 anos depois de seu primeiro sucesso,
"Com que roupa".

Pouco antes (maro de 1937), voltando de um ms nas montanhas (Friburgo) em busca de melhor clima para a doena, o poeta visitara Ceei, sua grande paixo.
Triste e amargurado, deu-lhe os


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1 Ver No tempo de Noel Rosa, de Almirante, c Noel Rosa, uma biografia, de Joo Mximo c Carlos Didicr.

versos do samba "ltimo desejo" (gravado dias antes de sua morte por Aracy de Almeida), no qual vaticina de modo proftico o seu prprio fim e relembra o incio de seu amor tumultuado com Ceei: "Perto de voc me calo / Tudo penso, nada falo / Tenho medo de chorar / Nunca mais quero teu beijo / Mas meu ltimo desejo / Voc no pode negar."
Noel morreu na noite do dia 4 de maio de 1937, enquanto em frente  sua casa se comemorava o aniversrio de uma vizinha numa festa em que tocavam suas msicas. Diversas verses sobre sua morte foram publicadas em diferentes jornais e biografias, onde se fez referncia at a um ataque cardaco.1 Ao enterro compareceram muitas personalidades
da msica e do rdio. A beira de seu tmulo, Ary Barroso fez um discurso emocionado, homenageando o amigo e parceiro. Contudo - e isso sempre foi muito comum no Brasil - seu nome ficou esquecido durante a dcada de 1940, at que Aracy de Almeida, em 1950, passou a cantar na famosa boate Vogue, incorporando sambas inditos de Noel ao seu repertrio. Desde a, o compositor foi redescoberto e passou a ser homenageado pelo pblico, pela crtica e por autoridades, como no caso do busto inaugurado na praa Tobias Barreto. O pequeno monumento hoje se encontra na praa Baro de Drumond, Vila Isabel - com toda justia! Alm deste, a comunidade de Vila
Isabel inaugurou um monumento no cemitrio So Francisco Xavier, onde est o tmulo do compositor, em comemorao ao cinqentenrio do nascimento do Poeta da Vila.
O ano seguinte ao aparecimento pblico de Noel (1931) traria os primeiros sucessos de um outro compositor extraordinrio: Lamartine de Azeredo Babo (RJ, 1904 - RJ,
1963), o adorvel Lal, como era chamado pela gerao Caf Nice.
O Caf Nice, o caf-bar mais famoso da histria da MPB, ficava na antiga galeria Cruzeiro (onde hoje est o edifcio Regina Feigl, na avenida Rio Branco, artria
principal do centro histrico do Rio).

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Ali os bomios, compositores, msicos e intrpretes tinham o seu Lamartine Babo. ponto de encontro na cidade. Por incrvel que parea, tomavam-se arquivo da editora um ou dois cafezinhos durante horas, j que bebidas alcolicas, to a gosto da turma da msica, quase no se serviam ali. Lamartine e Alberto Ribeiro diziam que era por isso mesmo que o pessoal ia l, ou seja, porque todos podiam conversar de cara limpssima, armavam-se as parcerias, escolhiam-se intrpretes e se negociavam msicas antes da bebedeira que viria nas infalveis esticadas logo a seguir. Mas em outros bares...

Lamartine talvez tenha sido o mais completo e o mais visceralmente carioca dos compositores populares que desabrocharam na Era de Ouro. Desde adolescente, tomou por hbito cultivar e observar o canto do povo e da cidade. Como resultado, veio a transformar-se no maior compositor do canto coletivo, que  exatamente o exercitado nos trs dias de carnaval. Lamartine - mais do que ningum - redescobriu e recriou a alma das ruas, produzindo o mais sensacional repertrio carnavalesco que a MPB registra.

Alis, Lamartine inovou todo o arcabouo literrio da MPB com um non-sense insupervel. Ele manuseou com intimidade o surreal e o absurdo, o que talvez seja a sua contribuio esttica mais importante para a cultura musical do pas. Na marchinha "Histria do Brasil", ele se sai com esta prola, um verdadeiro painel surrealista e premonitoriamente tropicalista: "Quem foi que inventou o Brasil / Foi Seu Cabral / No dia 22 de abril / Dois meses depois do carnaval." Lamartine conclui essa obra-prima da poesia popular do absurdo assim: "Depois Ceci amou Peri / Peri beijou Ceci /


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Ao som do Guarani / Do Guarani ao Guaran / Surgiu a feijoada / E depois o Parati."

Radialista famoso, ele integrou o Trio do osso no trem da alegria, um dos programas radiofnicos mais apreciados da era de ouro do rdio. Lamartine foi um compositor completo e - mesmo com seu definitivo repertrio carnavalesco - comps para o chamado perodo de meio de ano um grande nmero de msicas, em quase todos os gneros musicais. Fez msicas famosssimas como a valsa "Eu sonhei que tu estavas to linda" ou "S ns dois no salo e uma valsa" ou "Alma dos violinos", alm de canes, como "No rancho fundo" e "Serra da Boa Esperana", sempre guardadas nos coraes brasileiros e nas gargantas de qualquer seresteiro que se preze. Lamartine teria seguidores nas dcadas subseqentes, como Haroldo Lobo ("All-la-" - parceria com outra grandssima figura de letrista e caricaturista, o Antnio Nssara -, "Emilia",
"O passarinho  do relgio", "Pra seu governo", ou o pstumo "Tristeza", com Miltinho) e Joo Roberto Kelly, autor de grandes sucessos no perodo final das marchinhas carnavalescas (anos 1960 e 1970), antes do advento da msica das Escolas de Samba, a partir dos 1970-1980 ("Cabeleira do Zez", "Israel", "Rancho da Praa XI").
Ainda nessa mesma linha, devem ser citadas figuras do porte de Jota Jnior, parceiro de Braguinha em vinte composies e autor de sucessos como "Confete" e "Favela amarela", ou Luiz Antnio, compositor de talento quase sempre voltado para os problemas sociais, como "Lata d gua" e "Sapato de pobre" (ambas com Jota Jnior) ou "Patinete no morro", dignas de qualquer antologia do melhor samba carnavalesco.
 Alis, Lamartine era da classe mdia carioca, mas sua famlia vivia em ambiente extremamente musical: sua me e irms tocavam piano, sua casa era freqentada por msicos como Ernesto Nazareth e Catulo da Paixo Cearense. Ainda no ginsio, comps um foxtrote, "Pindorama", um desafio de fazer msica usando ape-

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nas as notas sol, d, mi. Em 1917, fez sua primeira valsa, "Torturas de amor", em homenagem a  seu pai que faleceria neste mesmo ano. No ano de 1919, comps a "Ave-Maria", feita exclusivamente para seu casamento, que alis nunca se realizou. Lamartine casou-se, posteriormente, mas apenas em cerimnia civil, com Maria Jos Babo, com quem no teve filhos.
Por incrvel que possa parecer, Lal fez at msicas religiosas, inclusive um "Hino do jubileu episcopal". Concludo o ginsio, e em virtude de dificuldades econmicas
pelas quais sua famlia passava, foi obrigado a empregar-se como office-boy da Light, o que lhe permitia vez por outra freqentar as torrinhas do Teatro Municipal, do Teatro Lrico e do So Pedro de Alcntara (atual Teatro Joo Caetano). Neste mesmo ano, ainda sem formao tcnica musical, comps Cibele, sua primeira opereta.
A esta seguiram-se Viva o amor iniciada em 1926 e concluda em 1940, onde estava includa a valsa "Eu sonhei que tu estavas to linda" (parceria com Francisco Mattoso) e Lola, que no entanto no foram encenadas.
Logo colaborou com o teatro de revista, para o qual comps "Agenta, seu Filipe". Por volta de 1923, suas qualidades de bom humor e facilidade de inventar piadas, transformaram-no em colaborador da revista Dom Quixote, que, dirigida por Bastos Tigre, era uma publicao especializada em humorismo, stiras e crticas aos costumes da poca. No ano seguinte, passou a escrever em Paratodos e Shimmy, usando os pseudnimos de Frei Caneca, Poeta Cinzento, T. Mixto, Janeiro Ramos, entre outros.
Sua amizade com Eduardo Souto, compositor e proprietrio da Casa Carlos Gomes que financiava a sada de blocos para exibies na Festa da Penha e nas batalhas de confete que antecediam o carnaval, o levou a sair pela primeira vez num desses blocos, o Tatu subiu no pau, cantando a marchinha "No sei diz", de Eduardo Souto.
A partir de 1925, comeou a compor para os ranchos da poca dentre os quais Recreio das Flores, Africanos, Jardim dos Amores e Ameno Resed,

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conquistando algum sucesso com a marchinha "Foi voc". Por essa mesma poca, tornou-se assduo colaborador do teatro de revista. Comps msicas para peas musicadas como Prestes a chegar, E da pontinha, Paulista de Maca e Vai haver o diabo.

Em 1928, escreveu a burleta Este mundo vai mal, que obteve grande sucesso e colaborou na revista Vai haver o diabo, que estreou em novembro do mesmo ano. No ano seguinte, iniciou sua carreira no rdio, na Educadora, onde cantava com sua voz de falsete acompanhado pelo piano de Ary Barroso, contava piadas e fazia esquetes.
Em pouco tempo (1930), teve seu prprio programa, Horas Lamartinescas, onde se apresentavam entre outros  Noel Rosa e Marlia Batista.
Sua estria para o sucesso foi com "O teu cabelo no nega" (gravao de Joo Perra de Barros, carnaval de 1932), que gerou uma polmica com os irmos Valena  autores pernambucanos de frevos que reivindicaram em juzo, e ganharam, o direito de assinar a msica, cuja primeira parte  toda deles. No ano seguinte, estreou em So Paulo com a pea Na penumbra, feita em parceria com De Chocolat e montada pela Companhia Negra de Revista, espetculo que contava com a participao de Pixinguinha.
Dentre os tantos xitos carnavalescos do Lal, podem-se citar maravilhas como: "A E I O U", "Linda morena", "Marchinha do grande galo", "A tua vida  um segredo",
"Moleque indigesto", "Ride palhao".
Lal encerraria sua carreira de compositor com o sucesso "Os rouxinis" e ainda com "Ressurreio dos velhos carnavais" (1961) e "Seja l o que Deus quiser" (1963).
Nesse mesmo ano, Carlos Machado produziu na boate Golden Room do Copacabana Palace o show O teu cabelo no nega,  baseado na vida de Lamartine. Lal assistiu aos ensaios, mas no chegou a ver a montagem do espetculo. Faleceu dias antes da estria, vitimado por um ataque cardaco.
Outro rei do carnaval da poca foi o grande Braguinha. Carlos Alberto Braga, Joo de Barro (RJ, 1907 -), autor de jias carna-
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valescas como "Touradas em Madri", "Gato na tuba", "Yes, ns temos banana", "Balance", "Chiquita bacana", "Vai com jeito", alm de clssicos do perodo ento chamado de "meio de ano" como "Carinhoso" e "Copacabana". Compositor, autor, cantor, roteirista, dublador, produtor, este primognito de um casal de classe mdia passou uma infncia feliz, morando nos bairros cariocas da Gvea e Botafogo. Mas o principal cenrio de sua infncia foi o bairro de Vila Isabel. Entre os amigos, passou a ser chamado de Braguinha, nome pelo qual tornou-se conhecido tambm no meio musical.
Desde pequeno, costumava cantar acompanhado ao piano pela av. Estudou inicialmente em uma escola pblica, indo depois para o Colgio Santo Incio, dirigido por padres jesutas, em Botafogo. Transferiu-se, depois, para o Colgio Batista. Foi l que conheceu e tornou-se amigo do violonista Henrique Brito. A amizade despertou em Braguinha o interesse pela msica, que tentou aprender alguns acordes com o amigo. Estudou Arquitetura na Escola Nacional de Belas-Artes, razo pela qual adotou
o pseudnimo de Joo de Barro, em homenagem ao passarinho que constri sua prpria casa, mas motivado principalmente pelo fato de o seu pai desaprovar que o nome da famlia ficasse circulando no ambiente da msica popular, ento extremamente malvisto naquele comeo dos anos 1930.

Em 1931, matriculado no 3a ano, Braguinha resolveu deixar a Arquitetura e dedicar-se  composio, mas seu processo para compor costumava ser o assobio, pois nunca teve uma formao musical formal. Sua musicografia completa, que inclui verses e msicas compostas para histrias infantis, passa dos quatrocentos ttulos, que , sem dvida, uma das maiores obras feitas por um compositor em nossa msica popular.
Seus parceiros mais constantes foram: Alberto Ribeiro (19021971), mdico homeopata e grande amigo, alm de Alcir Pires

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Braguinha. Arquivo Cedoc: / funarte

Vermelho, Antnio Almeida e Jota Jnior. E fato inquestionvel que, sem Braguinha, o carnaval brasileiro no teria sido musicalmente o que foi. O cinema brasileiro tambm lhe deve, pois ele muito contribuiu como roteirista e compositor em filmes que se tornaram memrias musicais do Brasil. Infelizmente, muitas dessas obras encontram-se perdidas.
Ainda no colgio, fundou o conjunto Flor do Tempo, com apoio do comerciante Eduardo Dale, que gostava de lev-los para apresentaes em sua bela casa, quando recebia visitas de amigos. Cerca de um ano e meio depois, em 1929, mudaram o nome do grupo para Bando de Tangars. Foi nessa poca que o jovem Noel Rosa, um colega de Almirante, integrou-se ao conjunto. Ainda em 1929, o grupo gravou o primeiro disco, ocasio em que Braguinha trocou seu nome para Joo de Barro.
No carnaval de 1930, o grupo obteve um sucesso extraordinrio com o samba "Na Pavuna", de Homero Dornellas e Almirante, que fazia ento o solo vocal. Em 1930, estreou em disco como compositor com "Dona Antonha", gravada por Almirante para o carnaval, pela Parlophon. Paralelamente ao trabalho com o grupo, Braguinha tentaria a carreira de cantor. No mesmo ano, gravou o primeiro disco solo pela gravadora Parlophon, com "Minha cabrocha", de Lamartine Babo. Em 1931, gravou "Cor de prata", tambm de Lamartine Babo, pela
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Parlophon. Pouco tempo depois, desistiu da carreira de cantor, para abraar apenas, e com paixo, a composio.
Por volta de 1934, conheceu Wallace Downey, um americano que o conduziu ao cinema e  indstria de discos. A partir desse encontro, o compositor passou a ter intensa participao como roteirista e assistente de direo em filmes da Cindia. Juntamente com Alberto Ribeiro, escreveu argumentos e composies para a trilha sonora de vrios filmes, dentre os quais Al, al, Brasil e Estudantes, cuja figura principal, Mimi, foi interpretada por Carmen Miranda.

Em 1976, o seu repertrio de discos infantis atingiu a marca dos cinco milhes de cpias vendidas. Na gravadora Continental, Braguinha criou o selo Disquinko, e como produtor dos primeiros disquinhos coloridos para crianas lanou no s adaptaes suas das histrias infantis, como tambm de Elza Fiza, Jota Jnior, etc.
O compositor teve alguns espetculos montados em sua homenagem: Yes, ns temos Braguinha, em 1968, no Teatro Casa Grande, organizado por Sidnei Miller e Paulo Afonso Grisoli. O Rio amanheceu cantando, na boate Vivar, em 1975, com Elizeth Cardoso, Quarteto em Cy e MPB - 4 em cena e Viva Braguinha, tendo em cena o prprio Braguinha, acompanhado pelo conjunto Coisas Nossas e Micha, na Sala Sidnei Miller. Em 1983, includo no Projeto Pixinguinha, correria todo o norte e nordeste do Brasil. Em
1984, no ano da inaugurao do Sambdromo, teve sua grande consagrao carnavalesca: saiu desfilando na Mangueira, escola de samba carioca, ocasio em que foi tema
do enredo mangueirense. A escola consagrou-se campe com o enredo intitulado Yes, ns temos Braguinha, que deu nome ao samba cantado em massa pelos espectadores que estavam na Marqus de Sapuca.
O ano de 1933 traz para a cena artstica outro dos grandes compositores que iluminaram a Era de Ouro, Araulfo Alves de Souza (MG, 1909 - RJ, 1968), filho de lavradores muito pobres
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2Depoimento para a posteridade gravado no Museu da Imagem e do Som (Rio, 1966).
que mal tiveram condies de lhe dar a educao primria. Seu pai, Severino, tinha o apelido de Capito - embora nunca tivesse sido militar - e tocava viola, sanfona
e fazia repentes. Ainda com 8 anos, Ataulfo j gostava de improvisar com Severino, que faleceu quando ele tinha apenas 10 anos. O menino seria leiteiro, condutor
de bois, apanhador de malas na estao, moleque de recados, carregador de marmitas, marceneiro, engraxate, plantador de caf, arroz e milho. J rapazola, chegou ao Rio para tentar a vida (1927) e logo foi morar no Estcio dos malandros sambistas. Ali, Ataulfo tambm exerceria as mais modestas profisses, desde office-boy at a de prtico de farmcia. "Eu organizei um conjunto, um grupo. J tocava violo, j tinha meu cavaquinho, meu bandolinzinho, j fazia meu d maior acertadinho, direitinho. Conforme eu manipulava as plulas, manipulava tambm o samba."2
Mas a msica popular era atrao sempre mais forte do que os mltiplos trabalhos em que se metia. Logo Ataulfo comeou a participar das noites de samba e de bomia
do Estcio, e foi assim que se iniciou como compositor. Aos 19 anos, conheceu uma jovem de nome Maria do Carmo, amiga das filhas do patro, e que morava na travessa
do Comrcio, 24. A moa vivia dizendo que um dia seria artista. Ataulfo achava graa. A jovem era, simplesmente, aquela que se tornaria o mito Carmen Miranda.

Com efeito, Ataulfo confirmaria para o Brasil nas trs dcadas seguintes uma das grandes obras solitrias da msica popular brasileira. Por que solitria? Porque
toda sua obra guarda uma impecvel e elegante unidade estrutural, no apenas na chancela meldica (qualquer observador mais atento  capaz de reconhecer de longe uma melodia ataulfiana), mas tambm, e o que  um fato igualmente singular, no que toca ao seu estilo potico-literrio. Ou seja, Ataulfo Alves colocou melodias usualmente tristes, a servio de letras no mais das vezes melanclicas e saudosas. Dir-se-

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ia, em termos de esboo pessoal de anlise, que a ancestralidade negra de Ataulfo lhe conferiu todo o banzo, o semba de suas melodias. Seu prprio temperamento retrado
e mineiro, a pobreza dos pais e de sua infncia, e ainda, quem sabe, suas primeiras decepes amorosas - como ele confidenciava a amigos muito chegados - lhe tero dado a tristeza intrnseca de suas letras, em que no mais das vezes existem preciosos achados poticos.
Um leno branco foi a sua marca registrada. Com ele, Ataulfo costumava reger o seu conjunto. Sempre muito educado, gentil e refinado, vestia-se com elegncia. Comeou a compor por volta de 1929, quando tinha 19 anos e era diretor de harmonia do bloco Fale quem quiser, organizado no bairro do Catumbi. Em 1933, Alcebades Barcelos, o Bide, depois de ouvir algumas composies de Ataulfo, levou-o ao escritrio de Mr. Evans, um personagem americano muito citado na poca, diretor da RCA Victor.
Nessa reunio, Evans, entusiasmado com o que ouvia, telefonou para uma de suas contratadas, Carmen Miranda, que rapidamente veio ao encontro dos trs. Ao ver Ataulfo, Carmen reconheceu-o de imediato como o rapaz que trabalhava na farmcia do pai de uma amiga. Surpresa, perguntou: "Mas voc no  aquele moo l da farmcia?" "Perfeitamente",
respondeu Ataulfo. "Mas voc no era compositor!", exclamou Carmen. "Voc tambm no era cantora!", replicou Ataulfo. Os dois riram muito e explicaram para Evans as condies em que haviam se conhecido.
Ataulfo Alves. Arquivo Cedoc /Funarte

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Carmen escolheu e lanou no mesmo ano o samba "Tempo perdido", em disco que trazia tambm uma marchinha de Almirante, "Sexta-feira". Apesar de no ter sido sucesso, o samba lanou Ataulfo como compositor, e ele passou a ser apadrinhado por Almirante e Bide. Em 1935, alcanou seu primeiro sucesso com o samba "Saudade do meu barraco", gravado por Floriano Belham. Logo, o Bando da Lua gravou sua marchinha "Menina que pinta o sete", em parceria com Roberto Martins.

Ataulfo comeou a ganhar dinheiro desde o seu primeiro sucesso: "Naquela poca um disco fazia sucesso quando vendia mil ou mais de mil cpias. Os outros compositores ganhavam $100 (cem ris) por face, mas eu, no sei por que, j comecei ganhando $200 (duzentos ris)." E foi ganhando fama tambm, tanto que em seguida Slvio Caldas gravou o samba "Saudade dela" e Carlos Galhardo lanou a valsa "A voc" e ainda o samba "Quanta tristeza". Galhardo, alis, seria o cantor a lanar o maior nmero de msicas de Ataulfo.

Em 1936, o compositor lanou as primeiras parcerias com Bide, os sambas "Ironia" e "No mando em mim", gravados por Odete Amaral, e algum tempo depois Orlando Silva gravaria o samba "Errei, erramos". Ataulfo passou a compor com outros parceiros, alm de Bide: Claudionor Cruz, Joo Bastos Filho e J. Pereira. Venceu os concursos dos carnavais de 1940 e 1941, com os sambas "Oh, Seu Oscar" e "O bonde de So Janurio", ambos em parceria com Wilson Batista. O nome Oscar era usado como gria pelo pessoal que freqentava o famoso Caf Nice, significando sujeito tolo, ingnuo, paspalho. O samba foi gravado por Ciro Monteiro, em 1940. J "O bonde de So
Janurio"  um dos primeiros sambas que adotaram o tema de exaltao ao trabalho e condenao da malandragem, sugeridos pelo DIP (Departamento de Imprensa e Propaganda, da ditadura Vargas), que na poca preocupava-se com a grande quantidade de sambas fazendo apolo-

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gia da vadiagem. O samba foi gravado com sucesso por Cyro Monteiro e acabou inspirando uma famosa pardia (que pode ter sido do prprio Wilson Batista, um flamenguista doente) que dizia: "O bonde de So Janurio/ leva um portugus otrio/ pra ver o Vasco apanhar...".
Ataulfo fez sua primeira gravao como intrprete, em 1941, lanando os sambas "Leva, meu samba" e "Alegria na casa de pobre", esse em parceria com Abel Neto.
Logo depois, comporia a obra-prima "Ai que saudades da Amlia", em parceria com o Mrio Lago, outra grande figura, misto de poeta, ator e autor de teatro e rdio.
Mrio j fora letrista de outro estrondoso sucesso na voz de Carmen Miranda, "Aurora" (com Roberto Roberti), e tambm de "Nada alm", com Custdio Mesquita.

Os versos de "Amlia "foram inspirados a Mrio por uma empregada de Aracy de Almeida que tinha esse nome. Em depoimento ao MIS, Ataulfo contou que acabaria por cortar muita coisa dos versos do parceiro, o que originou uma briga entre eles, logo tornada sem efeito pelo sucesso do samba. Disse ainda Ataulfo que mostrou a msica a vrios cantores da poca, que se recusaram a grav-la porque todos a consideraram um "samba desinteressante e menor". Foi por isso que ele se arriscou mais uma vez como cantor, registrando o samba em disco, acompanhado por sua Academia de Samba, mais tarde o conhecidssimo grupo Ataulfo Alves e suas pastoras.

Em 1944, a dupla comps um dos grandes sucessos do carnaval daquele ano: "Atire a primeira pedra". Gravado por Orlando Silva, o samba foi cantado por Emilinha Borba no filme Tristezas no pagam dvida se, segundo Mrio Lago, foi o responsvel pelo nico pileque da vida de Ataulfo Aves. Mrio chegou ao Caf Nice, desavisado do
sucesso que o samba j ia fazendo, e encontrou Ataulfo alto. 0 sambista o recebeu dizendo: "Parceiro, estamos outra vez na boca do povo...".

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Mrio Lago estudou para ser pianista clssico, mas, aos 13 anos, depois de assistir a um concerto de Arthur Rubinstein no Teatro Municipal do Rio de Janeiro, decidiu abandonar o projeto. Concluiu que teria de abdicar de muita coisa para atingir o nvel de um intrprete como aquele e decidiu, talvez no a contragosto, largar a
disciplina das escalas e do metrnomo e abraar de vez o samba e a vida bomia. Declararia certa vez: "A Lapa foi o cho de todos os meus passos. Na busca de caminhos e no encontro de atalhos... Conheci-a  em muitas realidades e em diversos tempos." E isso j definiria bem essa grande personalidade carioca, sua vida e seu trabalho.
Mesmo na dcada de 1950, quando o samba no tinha quase vez, a carreira de Ataulfo manteve-se sempre acesa - ocorre que a msica de Ataulfo encaixava-se perfeitamente no esprito do momento, marcado por composies cuja temtica era a fossa, a dorde-cotovelo. "Nas viagens que fao pelo Brasil, ouvindo cantigas da roa, s vezes
ouo alguma que de certo jeito parece com um samba meu; acho que guardei na memria, sem saber, muita toada da roa e isso tem influncia no meu samba;  por isso
que ele  assim triste", dizia Ataulfo. Com suas pastoras (Olga, Marilu e Alda), ele continuou se exibindo em shows, rdios, boates e teatros, compondo maravilhas
como "Fim de comdia", "Errei sim", "Vai na paz de Deus", "Entre ns tudo acabado", "Pois ", "Mulata assanhada" (um raio de sol em sua tristeza que lanava o cantor
Miltinho em 1960) e "Na cadncia do samba "-quando profeticamente Ataulfo dizia: "Quero morrer / Numa batucada de bamba / Na cadncia bonita do samba / O meu nome/ Ningum vai jogar na lama / Diz o dito popular / Morre o homem / E fica a fama."

E ficou mesmo a fama,  quando o Mestre Ataulfo morreu inesperadamente, vitimado por uma lcera de duodeno que ele considerava de estimao.

Dorival Caymmi
_Rodney Suguita / Folha Imagem Digital
 apenas no penltimo ano da dcada de ouro (1938) que chega para o cancioneiro do povo um dos maiores compositores dos opulentos anos 1930: Dorival Caymmi.

Caymmi nasceu em Salvador (1914). O pai era funcionrio pblico e tocava violo, bandolim e piano. Em 1930, interrompeu os estudos e foi trabalhar no jornal O imparcial. Saindo do jornal, passou a trabalhar como pracista, vendendo bebidas, mas logo perderia o emprego porque, junto a amigos, resolveu experimentar as amostras de bebidas.
Passou ento a desenhar tabuletas para casas comerciais. Por essa poca, comps sua primeira cano, denominada "No serto". No ano seguinte, comeou a tomar aulas de violo com seu pai e com seu tio Cici. Em 1934, participou de programas na Rdio Clube da Bahia. O radialista Giberto Martins, que tinha ido a Salvador com o
cantor Leo Vilar, iniciou nova fase no rdio baiano que at ento s irradiava discos. Gilberto assumiu a direo da Rdio Clube e no perdeu tempo: lanou o compositor
com o programa Caymmi e suas canes praieiras. Mas a tentao de Caymmi estava mesmo na Capital Federal. Por isso, aos 24 anos, decidiu tentar a sorte no
Rio. A bordo de um Ita do Norte, aqui chegou(1938) e logo seria apadrinhado por Assis Valente
- o primeiro compositor baiano de sucesso no Rio - e por Lamartine Babo. O jovem violonista e cantor estreou como free lancer na Rdio Tupi, de onde sairia contratado pela Rdio Nacional. A cantaria uma msica que depois daria muito o que falar, um samba brejeiro, inspirado estilstica e literariamente em peas anteriores de Ary Barroso, chamado "O que  que a baiana tem?".

O sucesso de Caymmi se esboou quando o cineasta Wallace Downey apostou nele para substituir, de um dia para o outro, o quadro em que

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Carmen Miranda filmaria cantando "Na Baixa do Sapateiro", de Ary, que havia se desentendido com Downey e retirara sua msica do filme. Dessa maneira, "O que  que a baiana tem?" entrou em Banana da terra (1939), mais um dos famosos abacaxis feitos para serem exibidos antes do carnaval.

Os filmusicais dos anos 1930 e 1940 eram chamados de abacaxi - como nos anos 1950, de chanchadas - porque tinham no tnue enredo apenas o pretexto para exibir um grande nmero de quadros musicais com os intrpretes mais famosos do carnaval de cada ano. Era um tempo em que ainda no havia tev. Os abacaxis representavam a grande oportunidade para os fs brasileiros verem os artistas interpretando as msicas que os haviam conquistado, transmitidas pelo rdio.
Da tela para o registro fonogrfico foi um pulo, e logo Caymmi gravaria a msica, tocando seu violo e cantando em dupla com Carmen Miranda, a rainha absoluta da
Era de Ouro. O Senhor do Bonfim o protegia...
E curioso e importante notar na obra de Caymmi uma fidelidade s suas razes - ao povo da Bahia,  magia de sua cidade natal e  solidez dos vultos populares que a povoam e lhe do carter. Caymmi talvez seja o maior menestrel que uma cidade brasileira jamais teve e se pode dizer, com toda certeza, que os mistrios e belezas
da Bahia se popularizaram pelo seu canto. Foram dezenas de peas que divulgaram sempre e sempre sua Bahia "Samba da minha terra" tornou clssica a expresso: "Quem no gosta de samba / Bom sujeito no  / E ruim da cabea / Ou doente do p." A msica foi gravada pelos Anjos do Inferno, alis, o ltimo fonograma de sucesso do grupo realizado no Brasil, e posteriormente (1961), por Joo Gilberto, acompanhado pelo conjunto de Walter Wanderley. Joo Gilberto a regravaria mais tarde (1964) em registro ao vivo realizado em show no Carnegie Hall. J em "365 igrejas", Caymmi cita um aspecto urbanstico impor-
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tante de Salvador, as slidas igrejas coloniais, um dos tesouros artsticos mais valiosos da arte brasileira. Em "Dois de fevereiro" e "Festa de rua", refere-se
a um outro ponto alto de sedimentao cultural da Bahia: os festejos populares, em que o sincretismo religioso de origem africano-portuguesa  uma constante. Em
"Saudade de Itapo" e "A lenda do Abaet", insiste nos belos conjuntos paisagsticos da cidade de Salvador, partindo deles para cantar as lendas do povo da Bahia,
to frteis de imaginao e mistrio.

Desses retratos da Bahia, em que Caymmi recria diversos ngulos de sua cidade, no poderia faltar a culinria. Baiano sestroso e cozinheiro curioso, conhecedor da
arte e dos segredos da espantosa comida tpica baiana, Caymmi fez o samba "Vatap", descrevendo com originalidade e bom gosto como se deve proceder para a criao de um vatap, o principal dos pratos tpicos da formidvel culinria afro-baiana.

Esse amor to devotado e fiel  Bahia revitaliza-se com exatido no samba "Voc j foi  Bahia?", que valeu mais para a Bahia do que todas as sofisticadas e carssimas campanhas publicitrias a que assistimos.

Caymmi atingiria o melhor  de sua obra nas chamadas canes praieiras. Baseadas na paisagem humana e fsica das praias da Bahia,  so muitssimo inspiradas nas cantigas praieiras do povo baiano, cantigas folclricas transmitidas oralmente de gerao a gerao, o que, nas mos de Caymmi, resultou numa das mais belas colees de canes sobre o mar que este pas ou qualquer outro tem notcia. "Noite de temporal", " doce morrer no mar", "A jangada voltou s", "Quem vem pra beira do mar", "O vento", "Pescaria (Canoeiro)" e, especialmente, "O mar", constituem um conjunto capaz de engrandecer e honrar qualquer msica. De qualquer pas do mundo. Alm do cancioneiro majestoso, Caymmi ainda premiou o Brasil com seus filhos Nana, Dori e Danilo, grandes artistas, a partir dos anos I960.

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O fino da antiga bossa

Muitas outras personalidades, algumas trgicas, povoaram o mundo da msica, nesse tempo quase apagado da memria popular (mas vez por outra revivido por quem vaibuscar boa inspirao para rearejar a MPB) pela ruptura esttica e sociocultural que representou a Bossa Nova.
Impossvel, por exemplo, lembrar a Era de Ouro sem citar uma famosa polmica musical - talvez a mais famosa dentre todas as mantidas dentro da MPB. E com ela nos
detemos num compositor chamado Wilson Batista. O outro participante da polmica foi Noel Rosa.
Wilson (RJ, 1913 - RJ, 1968) comeou a vida muito cedo na baixa bomia do Rio. Aos 18 anos, j aparecia como sambista nos cabars da Lapa antiga e nas zonas de baixo meretrcio. Ele retomaria no s estilstica mas tambm socialmente a obra de Ismael Silva, j que, ao comeo dos 1930, os compositores de classe mdia tomaram quase que de assalto o ambiente artstico, relegando os sambistas analfabetos, oriundos das classes mais modestas, a um plano inferior. A polmica Batista X Noel, disfarada na oposio entre o tradicional Estcio e a novidade esfuziante de Vila Isabel, tinha exatamente como fundo este significado sociocultural.

Certo  que Wilson influenciou importantes sambistas do seu meio, como Geraldo Pereira, Paulo da Portela, Gordurinha, Z da Zilda, Raul Marques, Bucy Moreira, Rubem Soares, e at mesmo compositores mais sofisticados, como Roberto Martins, Marino Pinto, Pedro Caetano ou Claudionor Cruz. Semi-analfabeto, de origem humilde, Wilson
comeou a pontificar nos lugares em que Ismael, Nilton Bastos, Baiaco, Bide, Brancura, Alvaiade, etc. eram os reis: a bomia e a malandragem do Estcio de S e da Lapa antiga, seu hbitat, sua escola de vida e samba. No comecinho de carreira, Wilson s vivia da msica e da devoo das empregadas do-

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mestias do bairro, que virtualmente o sustentavam com almoos e jantares subtrados das casas dos patres. Por isso tudo,  bem fcil entender por que o primeiro sucesso de Wilson Batista como compositor faria a apologia da malandragem (no melhor estilo de Ismael e do seu "O que ser de mim": "Se eu precisar um dia / De ir pro batente / No sei o que ser / Pois vivo na malandragem / E vida melhor no h...). Intitulou-se "Leno no pescoo", cujos versos simples traavam um exato retrato do malandro carioca da dcada de 1930. O samba obteve tanto sucesso pblico na gravao de Slvio Caldas (1933), que Noel Rosa, ento j muito respeitado e com inmeros
sambas j gravados, resolveu contestar essa exaltao  malandragem. O retrato do malandro Wilson tambm definidor preciso de um contexto scio antropolgico da sociedade bomia de ento - era o seguinte: "Meu chapu de lado / Tamanco arrastando / Leno no pescoo / Navalha no bolso / Eu passo gingando / Provoco desafio / Eu tenho
orgulho de ser vadio." A que Noel retrucou com "Rapaz folgado": "Deixa de arrastar o teu tamanco / Pois tamanco nunca foi sandlia / Tira do pescoo o leno branco
/ Bota sapato e gravata / Joga fora esta navalha que te atrapalha"...
Como rplica, Wilson comporia "Mocinho da Vila", em que confirmava a apologia do malandro e atacava Noel diretamente: "Voc, que  mocinho da Vila / Fala muito em violo, barraco e outros fricotes mais / E se no quiser perder o nome / Cuide do seu microfone / E deixa quem  malandro em paz / Injusto  o seu comentrio /
Fala  de malandro quem  otrio." Noel lanou uma trplica esmagadora e imorredoura para a MPB, "Palpite infeliz", em que afirmava conclusivamente "Quem  voc, que no sabe o que diz / Meu Deus do cu, que palpite infeliz".
Wilson Batista, naquela poca pouco mais que um malandro frajola de 20 anos apenas, voltou  carga com um samba custico e por certo muito deselegante, intitulado
"Frankenstein da Vila", em que
Wilson Batista. Arquivo Cedoc / funarte

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atacava Noel com grosseria: "Boa impresso nunca se tem / Quando se encontra um certo algum / Que at parece um Frankenstein / Mas como diz o refro / Por uma cara feia / Perde-se um bom corao." Quando a disputa atingiu o tom em que Wilson ridicularizava a deformidade de Noel, o compositor da Vila no quis mais prosseguir no terreno da polmica explcita. Respondeu indiretamente com um samba lrico e sentimental, legtima obra-prima, o "Feitio da Vila": "Quem nasce l na Vila, nem
sequer vacila, ao abraar o samba..." Wilson Batista voltou  carga, contudo, com mais uma msica em que falava tanto mal de Vila Isabel quanto das vantagens cantadas em "Feitio da Vila'. Em "Conversa riad', a ironia era veemente e direta: " conversa fiada / Dizer que na Vila tem feitio / Eu fui ver pra crer / E no vi nada disso". Noel calou se de vez, mas Wilson ainda insistiria com "Terra de cego", no qual faria a ltima agresso a Noel: "Perca essa mania de bamba / Todos sabem qual  / O teu diploma de samba / s o abafa da Vila, bem sei/ Mas em terra de cego / Quem tem um olho  rei."
Outro dos muitos compositores da poca de Ouro que merecem citao  Herivelto Martins (RJ, 1912 - RJ, 1992), que estreou em 1935 com as atividades poliformes de
compositor, cantor e arregimentador de conjuntos. O mais famoso foi o Trio de Ouro, que lanou Dalva de Oliveira, sua solista e mulher at 1949, quando o casamento acabou rumorosamente - gerando uma polmica pblica e tambm musical.
Herivelto  autor de algumas obras-primas do nosso cancioneiro, especialmente "Ave Maria no morro" e "Caminhemos", ambas de repercusso internacional, alm de "Praa XI ", 'Que rei sou eu", "Isaura", "A Lapa" e "Minueto", clssicos de carnaval.
Outro compositor relevante nos anos 1930 foi Joubert de Carvalho ( MG, 1900-RJ, 1977). Em 1919, j no Rio de Janeiro, entrou para a faculdade de medicina e em 1922 gravaria seu primeiro sucesso: "O prncipe", um foxtrote. Comps sambas, tangos,

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maxixes, foxes e musicou dois poemas de Olegrio Mariano, "Cai, cai balo" e "Tutu maramb", em 1928, iniciando uma parceria de mais de vinte msicas. Cantores como Francisco Alves e Gasto Formenti gravaram suas msicas, mas foi a ento novata Carmen Miranda a responsvel pelo grande sucesso de "Ta", lanada em 1930 com o ttulo "Pra voc gostar de mim". Em 1932, obteve outro grande sucesso com a cano "Maring", cantada pelos operrios que construram uma nova cidade no norte do Paran, razo pela qual, em 1947, ao ser inaugurada, a cidade recebeu o nome de Maring.
Suas msicas foram gravadas pelos melhores intrpretes dos anos 1930-40 como Orlando Silva, Slvio Caldas, Carlos Galhardo, Francisco Alves.
Cumpre ainda traar breve perfil de Jos de Assis Valente (BA, 1911 - RJ, 1958), um cronista carioca de mo cheia, apesar de ter nascido na Bahia, e que foi autor
de repercusso dentro e fora da Era de Ouro. Suas msicas so gravadas at hoje: "Brasil pandeiro" (1943), "Boneca de pano "(1953), "Boas Festas "(1933, seu sucesso
inicial). Alm dos maravilhosos sambas-crnicas, a maioria dos quais imortalizados entre 1936 e 1940 por sua grande intrprete, Carmen Miranda: "Uva de caminho", "Recenseamento", "E o mundo no se acabou", "Camisa listrada". Ou mesmo a jia "Fez bobagem", que Aracy de Almeida gravou num dos registros mais inspirados de sua excepcional carreira de intrprete. Assis se suicidou num banco da Praa Paris (RJ), j pobre e esquecido, quando s se falava da Bossa Nova, naquele final dos anos de 1950.
Herivelto Martins constituiu o Trio de Ouro, ao lado de Nilo Chagas e Dalva de Oliveira.
Arquivo Cedoc / Funarte

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Outro perfil indispensvel atendia pelo nome de Custdio Mesquita. O sedutor pianista e maestro Custdio Mesquita Pinheiro (RJ, 1910 - RJ, 1945) foi autor de obra pequena, mas sofisticada, que teve grandes intrpretes como as irms Carmen e Aurora Miranda, Orlando Silva e Slvio Caldas. "Se a lua contasse" marca a estria
de Aurora, enquanto canes como "Os rios correm pro mar", "Mulher", "Me Maria", ou "Algodo" assinalam um dos pontos mais altos do intrprete Slvio Caldas em disco. Isso alm do clssico "Saia do caminho", que j recebeu dezenas de regravaes desde o disco original de Aracy de Almeida.
No h como deixar de aceitar o fato de que o Rio - Capital Federal - foi o epicentro vital da Era de Ouro. Mas outros compositores, se bem que tivessem obtido repercusso nacional atravs do Rio de Janeiro, nunca deixaram de morar em seus estados de origem. Trs deles so emblemticos: Capiba, morando no Recife, Lupicnio Rodrigues, em Porto Alegre, e Waldemar Henrique, em Belm do Par.
Capiba (Loureno da Fonseca Barbosa, PE, 1904 - PE, 1998)  autor de dezenas de frevos e canes que no extrapolaram os carnavais de Recife - Olinda. Mas h peas
que, via Rio, se imortalizaram no cancioneiro popular ("Maria Bethania", "Valsa verde", "Cais do porto"). Como seu conterrneo Nelson Ferreira nos frevos de rua, Capiba  o compositor oficial dos mais belos frevos canes e de muitos maracatus, os trs gneros musicais mais conhecidos de Pernambuco, dotados de grande dinamismo, beleza e arrebatadora energia.

J Lupicnio Rodrigues (RS, 1914 - RS, 1974), construiria uma obra solitria, cuja personalidade de chancela autoral faz lembrar Ataulfo Alves. Lupe estreou para
o reconhecimento pblico do pas com o samba "Se acaso voc chegasse" (1938), responsvel pelo lanamento do magnfico sambista Cyro Monteiro. Logo depois, sua obra tomaria a marca registrada que a consagrou: sambas-can-
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es, narrando a vida dos cabars e de suas trgicas mulheres, embrulhadas numa tnica potica de versos originalssimos ("Maria Rosa", "Cadeira vazia", "Nervos
de ao", "Vingana", "Nunca" e tantos mais).

Waldemar Henrique (PA, 1905 - PA, 1996) foi o mais retrado e sofisticado dos trs. Msico, pianista e maestro, o tmido Waldemar construiria o melhor de sua obra com canes semicamersticas sobre as lendas dos ndios da Amaznia ("Tambataj", "Curupira", "Boi-Bumb", "Foi Boto, Sinh"), se bem que tivesse comeado no Rio com o samba-exaltao "Meu Brasil" (gravao de Chico Alves), em plena dcada de 1930. Mais tarde, em 1958, seria o primeiro compositor a musicar o clebre poema "Morte e vida Severina", de Joo Cabral de Mello Neto.
Lupicnio Rodrigues.
Arquivo Cedoc / Funarte

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CAPTULO 3

No vo da Asa Branca a Princesinha do Mar.
 E  corte do rdio
Talvez seja difcil para as geraes mais novas, que com desenvolta naturalidade j se consideram cidados do Terceiro Milnio, perceberem o que foi viver num mundo em guerra.  que a Segunda Guerra, fora dos livros de histria e dos filmes, pode parecer algo distante. No que a bno da paz tenha finalmente se instalado na humanidade,  claro. Mas, mesmo neste nosso pas, to afastado do palco principal das batalhas - e mesmo quando o inimigo, nos primeiros anos do conflito, parecia aterrorizador, invencvel - no se podia deixar de sentir que estvamos em guerra. Que o mundo inteiro estava ameaado.
Assim, o incio da dcada de 1940 envolveu o Brasil no sofrimento e na angstia, nos dolorosos reflexos da Segunda Guerra, atingindo em cheio a parte musical da
alma do povo. As rdios se ocupavam mais e mais em transmitir as notcias dos combates, e a todo  momento ficvamos na expectativa de que a programao fosse interrompida por um locutor de voz grave e vibrante anunciando novos desastres.  claro que a msica popular ia se ressentindo, como no podia deixar de ser, carecendo de qualidade e quantidade. De fato, os prprios compositores e intrpretes no encontravam no clima de consternao e preocupao em que vivia o povo os tantos elementos de alegria
para faz-lo cantar. Mas, ainda assim, o Brasil cantou entre 1939 e 1945.

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Capa do Jornal Dirio da Noite, anunciando
fim da II Guerra Mundial. 07/5/1945, Ano XXI, n 6275.

Enquanto a Europa saa devastada da guerra, os Estados Unidos, com a aura de grandes vencedores do confronto, impunham-se como referncia  imaginao de pessoas em quase todo o lado ocidental do planeta. Junto a isso, os EUA viviam um momento de expanso econmica, conquistando mercados anteriormente nas mos das naes europias, exportando em massa seu poderoso parque industrializado, atrs do qual vinha a indstria de entretenimento,
que representava a consolidao da hegemonia cultural norte-americana no mundo: os filmes, os discos e a msica pop, com todos os seus modismos, tornados ainda mais sedutores pelas engenhosas campanhas do marketing meticuloso com que eram veiculados.
Finda a guerra, o ressurgimento da MPB nos anos 1940 e 1950 caracterizou-se por dois fenmenos fundamentais. Em primeiro lugar, a diversidade e at mesmo o isolamento de tendncias. Em segundo lugar, um fenmeno bastante coerente com o primeiro, assistimos  quebra da matriz urbana de nossa msica, com o surgimento de uma  outra raiz, bastante poderosa e que se mostrou deliciosamente frtil, at hoje. Assim, se as noites bomias de Copacabana e da Paulicia embalavam-se na melancolia do samba-cano, todo um outro pblico recebia em cheio, e com delcias, a exploso solar do baio. Se as Rainhas do Rdio causavam delrios dos fs com suas marchinhas,
o samba de raiz entrava num perodo de penoso ostracismo. E o curioso  que, apesar de serem tendncias contemporneas, acontecendo no mesmo

RENDERAM-SE INCONDICIONALMENTE
TODAS AS FORCAS GERMNICAS

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espao urbano (o baio, embora representasse uma ruptura no monolitismo dos gneros oriundos da metrpole, exprimia tambm a afluncia da migrao nordestina para os grandes centros), tinham pblicos prprios, diferenciados, e cantavam vivncias distintas... de um mesmo tempo. Por certo evidenciando como o Brasil  recortadode contrastes e distncias culturais.
Note-se que os intrpretes principais no buscavam abranger todas essas manifestaes (hoje, por exemplo, se alguns deles lanassem seus CD's, veramos presente nas faixas um pouco de tudo que estivesse em evidncia). Pelo contrrio, procuravam caracterizar-se, ganhar identidade diante do pblico - e era isso que funcionava na poca, at porque a sntese, a soma, no era uma preocupao como hoje em dia, em que entra em jogo, inclusive, a necessidade de no se exclurem segmentos do mercado em grandes lanamentos. Foram, portanto, os anos em que a MPB comeou a se diversificar, mas ainda sem os encontros entre gneros, que caracterizaria nossa
msica a partir da dcada de 1960.
Veio l do serto
Foi exatamente em 1945, como que a saudar o final da guerra, que surgiu para o sucesso uma figura de rarssima importncia dentro do cancioneiro do povo. E que sustentaria o ritmo e as origens brasileiras pelos anos de crise para a MPB que o fim da guerra indiretamente trouxe, com a avalanche de msicas importadas. Essa figura rara e excepcional teve decisiva participao histrica dentro da afirmao de uma cultura nacional mais ligada s fontes telricas do prprio Brasil. Chamou-se Luiz
Gonzaga do Nascimento (PE, 1912 - PE, 1984). Segundo um dos bigrafos de Luiz, Gildson Oliveira, uma de suas irms, Socorro Janurio, dizia que ouvira da me que "s tivera o direito de ganhar o filho, porque ele
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seria do povo at a morte". Ainda segundo Gildson, quando Luiz tinha de 6 a 8 meses, uma cigana teria olhado para ele e predito que "ele ser do mundo; vai andar tanto, pra cima e pra baixo, que criar feridas nos ps".

Gonzaga iniciou-se nos segredos da sanfona acompanhando seu pai, o humilde sanfoneiro Janurio, profissional respeitado em toda aquela desrtica regio de Pernambuco.
Com 7 anos, j pegava na enxada, trabalhando na lavoura, mas nas horas vagas ficava vendo o pai tocar sanfona. Seu pai, , alm de tocador de fole, tambm consertava instrumentos. A famlia sempre comparecia a festas religiosas, batizados, casamentos e forrs, todos animados com bandas de pfanos, zabumba e concertina, alm do fole de oito baixos, muitas vezes tocado por Janurio. Com 12 anos de idade, Gonzaga j acompanhava o   Luiz Gonzaga pai animando folguedos em diversos terreiros pelo serto do   Arquivo Cedoc / Araripe, onde fica a cidade de Exu. E foi com o pai que aprendeu a afinao dos foles de oito baixos.

J no Rio em 1939, passou a apresentar-se no bar Espanhol, no Mangue, zona de baixa prostituio carioca, alm de tocar em festas de subrbio, bares da Lapa e tambm nas docas, onde corria o chapu para arrecadar uns trocados. Comeou a aprimorar seu repertrio tocando msicas da moda, como tangos, valsas e foxtrotes.

Certa noite, no bar Cidade Nova, no Mangue, conheceu um grupo de estudantes cearenses que lhe pediu para tocar alguma coisa nordestina, o que ele at ento no fizera, tentando adaptar-se ao modo de vida carioca e escondendo suas razes. Preparou ento as msicas "P de serra", uma polca mais tarde gravada com o ttulo de"Xamego", e "Vira e mexe", msica de sua terra natal. O sucesso da apresentao de "P de serra" foi imediato: o pblico aplaudiu delirantemente e at mesmo os passantes da rua se aproximaram, lotando o bar. E logo comparecia ao programa de calouros de
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Ary Barroso - no qual j estivera outras vezes, sem muito destaque - impulsionado tambm pela necessidade de dinheiro para ajudara famlia vitimada pela seca no
Nordeste, conforme lhe noticiara o irmo Jos Janurio, que o procurara em busca de ajuda. No  Calouros em desfile, em vez do repertrio da moda, apresentou o "Vira
e mexe" e foi um sucesso, obtendo a nota mxima 5, raramente dada a algum pelo exigente Ary Barroso, e o prmio de 150 mil ris.
Gonzaga conseguiria gravar seus primeiros discos como sanfoneiro, levado  Victor pelas mos do cantor Bob Nelson. J no primeiro 78 rpm (1941) gravaria "Vira e
mexe", definido por ele como um "choro nordestino", um xamego, assim chamado, talvez, em referncia  sensualidade com que era tocado. Gonzaga apropriou se do termo e muitas de suas composies passaram a ser apresentadas como xamego, o que consolidaria as bases no s de sua futura carreira como tambm da extraordinria msica com cheiro, sotaque e alma sertanejos que ele daria ao Brasil, da por diante. J ento, Csar de Alencar o tinha como O maior sanfoneiro nordestino do Brasil, e logo depois ganharia do violonista Dino, mais tarde conhecido como Sete cordas, o apelido de Lua, devido a sua cara redonda. O apelido seria popularizado por Csar de Alencar e Paulo Gracindo na Rdio Nacional.

Luiz Gonzaga registrou, durante 4 anos consecutivos (os anos da Guerra), cerca de 70 msicas, to-somente como solista de sanfona. Uma das ltimas msicas do compositor, antes de transformar-se em cantor e em sucesso nacional, foi composta em janeiro de 1945, e at hoje  lembrada, a "Dezessete e setecentos". Alis, esta msica, agora em ritmo de samba, lanaria naquele mesmo ano para o sucesso o pernambucano Manezinho Arajo (PE, 1910 - SP, 1993), o Rei da embolada, autor entre outras composies de "Adeus, Pernambuco", por sua vez gravada em 1952, alm da admirvel embolada "Onde vai, valente?", sucesso da cantora Marlene.


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Humberto Teixeira.
Arquivo Cedoc / Funarte

Logo depois de "Dezessete e setecentos", Gonzaga gravou pela primeira vez como cantor, o que significaria o verdadeiro comeo de sua enorme popularidade em todo o Brasil. "Dana Mariquinha" lanou o melhor, mais autntico e mais poderoso cantor das coisas e do povo do Nordeste.
Mesmo com o sucesso, Gonzaga continuava procurando algum que o ajudasse a expressar melhor seu sentimento de nordestinidade. Foi em 1945 que se encontrou pela primeira
vez com Humberto Teixeira, compositor e poeta cearense. E logo nessa oportunidade, surgiu em dez minutos o esboo do xote "No meu p de serra", lanado em novembro do ano seguinte. Mas a grande contribuio dessa dupla para a MPB ainda estaria por vir.
Humberto Teixeira (CE, 1916 - RJ, 1979) nasceu no interior do Cear e logo aprenderia a tocar bandolim e flauta. Iniciou a carreira artstica tocando como flautista-aluno na Orquestra Iracema, regida pelo maestro Antnio Moreira. Em 1931 mudou-se para o Rio de Janeiro e poucos anos depois foi um dos vencedores do concurso de msicas carnavalescas promovido pela revista O malho. Ao lado de msicas de Ary Barroso, Cndido das Neves, Jos Maria de Abreu e Ari Kerner, classificou "Meu pedacinho".
Mesmo assim, no conseguiu gravar e seguiu compondo valsas, toadas, modas e canes, editadas para piano pela casa A Guitarra de Prata. Em 1945, Orlando Silva gravou os sambas "S uma louca no v" e "Samba da roa", ambos de parceria com Lauro Maia, outro cearense, criador do balanceio, ritmo que j sugeria um baio atualizado no estilo Gonzaga/Teixeira. O encontro de Humberto Teixeira com Gonzaga aconteceu em agosto daquele mesmo ano.

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Gonzaga e Humberto Teixeira chegaram  concluso de que, entre os ritmos do Nordeste, um deles, desconhecido no Rio, seria o mais estilizvel e urbanizvel de todos:
o baio. Um gnero, no entanto, restrito a sua regio de origem, como observou o prprio Gonzaga, consciente da ousadia do que estava pretendendo realizar: "...baio
telrico e imortal. Nesse  baio esquecido e circunscrito quele nosso Nordeste sofredor, e que ningum soube at hoje ou se atreveu a lan-lo aqui com as roupagens que ele merece". Comearam ento a trabalhar para lan-lo nacionalmente, produzindo um baio em estilo prprio, substituindo os instrumentos originais - viola, pandeiro, botijo e rabeca - por acordeom, tringulo e zabumba.
O termo baio deriva de baiano, uma dana popular nordestina. Em fins do sculo XIX, j era conhecido no interior do Nordeste, sendo executado em sanfonas pelo serto, sempre em unidades de compasso par, numa batida uniforme feita para danar. A primeira msica da dupla Gonzaga e Humberto Teixeira, apropriadamente intitulada "Baio",
veio apresentar o gnero formalmente s novas platias: "Eu vou mostrar pra vocs / Como se dana o baio / E quem quiser aprender /  favor prestar ateno!"...
Houve, a partir da, uma reviravolta nos rumos da MPB, que ento oscilava entre os sambas-cano e os ritmos importados diretamente dos Estados Unidos. O Brasil
foi surpreendido por algo inteiramente novo, cheirando ao perfume da raiz e do cho brasileiros - e que at hoje ecoa, influenciando artistas e tendncias musicais.
O ritmo bulioso, alegre e descontrado do baio, com todo o Nordeste dentro dele, atravs de suas histrias e de seu povo, foi a moldura formal para os xitos da dupla Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira, que se sucediam: "Paraba" (Quando lama virou pedra e mandacaru secou / Quando ribaixo de seca bateu asas e voou...), "Joazeiro"
(Joazeiro, Joazeiro me arresponda por favor / Joazeiro, velho amigo, onde anda meu amor), "Mangaratiba", "Qui nem jil",

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"Assum preto", "Respeita Janurio" (um dos mais comoventes retratos paternos j feitos por qualquer compositor no Brasil: "Luiz, respeita Janurio / Luiz, respeita
Janurio / Luiz, tu pode ser famoso / Mas teu pai  mais tinhoso / E com ele ningum pode, Luiz / Respeita  os oito baixos de seu pai").

A toada "Asa branca" surgiria em 1947. De todas as msicas compostas em parceria com Humberto Teixeira, esta, em especial, viria a obter um sucesso que vararia as
dcadas, sobretudo no Nordeste, incorporando-se s canes imortais dos coraes brasileiros. "Asa Branca" se transformaria em hino contundente dos sofrimentos da populao nordestina vitimada pela seca: "Quando olhei a terra ardendo / Qual fogueira de So Joo / Eu perguntei a Deus do Cu / Por que tamanha judiao."
Em poucos anos, o baio se afirmaria como um gnero popularssimo, alm de uma referncia de brasilidade no exterior - tanto que atraiu os principais intrpretes
da poca e obteve sucesso em vrios pases europeus, sendo at utilizado pelo cinema italiano nos anos 1950. E tanto que, no comeo desses anos, Gonzaga lanaria,
em parceria com Zdantas, o baio "A dana da moda", justamente anunciando que "No Rio est tudo mudado", uma meno s mudanas de comportamento introduzidas pelo baio. Inmeros artistas, entre os quais Ivon Curi, Marlene, Isaura Garcia, Jamelo, Emilinha Borba e Carmlia Alves. passaram a gravar msicas da dupla Gonzaga/Humberto Teixeira. Para que se tenha uma idia do prestgio de Gonzaga, em um nico ano, foram sucessos seus o xote "Cintura fina" e a toada "A volta da Asa branca", parcerias com Zdantas, alm da toada "Boiadeiro", de Klcius Caldas e Armando Cavalcanti.

De sua parceria com Zdantas, gravou a marcha junina "So Joo na roa", a toada "Acau", e dele com Herv Cordovil, o baio "Baio da garoa" e o xaxado "Xaxado", outro manifesto musical, destacando a nova dana lanada por Gonzaga dois anos antes.

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Zdantas e Gonzaga. Arquivo Cedoc / funarte

Todas se tornaram sucesso. Da parceria com Herv Cordovil surgiria tambm "A vida do viajante", que viria a ser, muito posteriormente, um dos prefixos da carreira do Rei do Baio, nos versos que dizem "Minha vida  andar por este pas". Por essa poca, trocou definitivamente o terno de casimira por um gibo de couro,
o sapato de verniz por sandlias (as tpicas alpercatas) e a gravata por uma cartucheira atravessada no peito, adotando ainda um chapu de couro afundado na cabea,
para afirmar com smbolos externos sua nordestinidade. O que nem carecia, pela visceralidade de seu canto.
J no final dos anos 1950, ocorriam mudanas musicais no pas, entre as quais a ecloso da Bossa Nova, dando incio ao declnio da carreira de Gonzaga. Com novos gostos esttico-musicais impondo-se no rdio, suas composies foram perdendo espao, e Gonzaga voltou-se para as platias do interior para as quais sempre foi o Rei do Baio.

No entanto, evidenciando o reconhecimento de sua importncia, ao final dos anos 1960 gravaria o compacto com a composio "Pra no dizer que no falei das flores" de Geraldo Vandr. Na mesma poca Gilberto Gil, em entrevista concedida a Augusto de Campos, afirmava que Luiz Gonzaga fora "a primeira grande coisa significativa do ponto de vista da cultura de massa no Brasil". De fato, Gonzaga no apenas lembrou  Msica Popular Brasileira, num momento crucial, a riqueza de suas muitas razes, quanto, no cenrio dessa mesma MPB, abriu os coraes e ouvidos dos grandes centros urbanos para musicalidades interioranas. No seria de modo algum exagero
afirmar que a msica do nosso Lua deu oportunidade a que outros sotaques, temas e ritmos fossem aceitos posteriormente nos grandes centros, sem preconceito e mesmo com carinho, em diver-
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Emilinha Borba e Luiz Gonzaga, dcada de 1950.
Biblioteca Nacional, RJ
sas ondas que se sucederam ao longo das dcadas.
Em 6 de junho de 1989, Gonzago participou de seu ltimo show, uma homenagem que artistas de todo o Brasil lhe prestaram no Teatro Guararapes, em Recife. Estava com a agenda de So Joo repleta quando foi internado no Hospital Santa Joana no Recife, vindo a falecer no dia 2 de agosto. Quando do transporte de seu corpo at o aeroporto, de onde seguiria para uma viglia no Cear, ao passar pelas ruas do Recife a multido que se aglomerava nas ruas gritava "Hei, hei, Luiz  nosso rei".
E, de fato, ao chegar a Juazeiro do Norte, no Cear, para ser abenoado no Memorial de Padim Cio, o corpo de Luiz Gonzaga recebeu homenagens dignas de um rei. Milhares de pessoas se aglomeraram nas ruas e o cortejo fnebre teve de percorrer um extenso trajeto para que o povo se despedisse dele. Depois seguiu para Exu, onde ocorreu o sepultamento. Em sua cidade natal, foi novamente reverenciado pelo povo nas ruas, que acompanhou o fretro cantando suas msicas ao som dos sanfoneiros Dominguinhos, Valdones, Jos Torres de Menezes, Janduhy Finizola, Jos Marques Filho e Z Manu, entre outros. Na hora do sepultamento, a multido composta de cerca de 20 mil pessoas entoou em coro a "Asa branca", canto de despedida ao Rei do Baio.


A fora, a graa e a veemncia de Luiz Gonzaga determinariam ainda o aparecimento de dezenas de intrpretes e compositores, o principal dos quais foi Jackson do Pandeiro (Jos Gomes Filho, PB,


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Jakson do Pandeiro
Folha Imagem 
1919 - RJ, 1985), que exibiria um sentido rtmico para cantar cocos (gnero musical nordestino de andamento bem mais acelerado que o baio) nunca mais igualado.

A me de Jackson, Glria Maria da Conceio, conhecida como Flora Mouro, era cantadora de coco, uma das mais requisitadas nas festas da cidade de Lagoa Grande.
Flora Mouro tocava o ganz e cantava, acompanhada por Joo Feitosa, que tocava a zabumba. Desde cedo Jackson viu e ouviu a me cantando cocos. Aos 8 anos, percebendo a me entristecida, pelo fato de o zabumbeiro no ter aparecido para a apresentao, pegou a zabumba e comeou a tocar. Jackson queria tocar sanfona, mas era um instrumento muito caro. Sua me lhe deu, ento, de presente, um pandeiro.

Em 1939, ele j  encontrado fazendo dupla com Jos Lacerda, irmo mais velho de Genival Lacerda, usando o nome artstico de Jack do Pandeiro. Mais tarde mudaria o nome para Jackson, porque era mais sonoro no rdio. Veio para o Rio de Janeiro no comeo dos anos 1950, e aqui gravou seus primeiros discos, que logo viraram grandes sucessos, como o coco "Sebastiana" e o xote "l a 2", de Rosil Cavalcanti, e o rojo "Forr em Limoeiro", de Edgar Ferreira. Em 1959, gravou a marcha "Quem no chora no mama", de Paquito e Romeu Gentil, hino extra-oficial, mas de corao, do at hoje popularssimo Cordo do Bola Preta. No mesmo ano, gravou outro samba, desta vez de Gordurinha (que ganhou esse apelido dos amigos por deboche da sua magreza) e Almira Castilho, mulher de Jackson, em nome de quem ele registrou vrias de suas
composies: "Chiclete com banana ". Que, alis, se tornaria um de seus maiores sucessos e seria regravada posteriormente por Gilberto Gil. Mas inmeros outros cantores gravaram obras suas, como Djavan, Geraldo Azevedo, Genival Lacerda, Cascabulho, Leila Pinheiro, Mestre Ambrsio e Moraes Moreira, alm dos diversos cantores e compositores
que se declaram influenciados por seu trabalho. De fato, os crticos tm se espantado ao pesquisar sua obra, pela facilidade por ele

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apresentada para cantar os mais diversos gneros musicais como Jackson do Pandeiro. baio, coco, samba-coco, rojo e marchinhas de carnaval. Dominguinhos e Severo, msicos que tocaram com ele, o consideram como um grande sanfoneiro de boca. Nas apresentaes em cabars destacava-se sua enorme capacidade jazzstica, e em seus shows mostrava uma performance toda especial, mistura de malandro carioca e nordestino. Sua maneira de dividir msica tornou-se famosa, o que gerou uma clebre observao de Jacob do Bandolim que dele disse ser o cantor com maior sentido de ritmo do pas.
Em 1982, ao apresentar um show em Santa Cruz de Capiberibe, sentiu-se mal, mas mesmo enfartado prosseguiu cantando. Pobre e quase esquecido pela mdia, morreria pouco depois de embolia pulmonar.
Os ritmos do Nordeste - Gonzaga e o baio  frente,  claro - tiveram tanto xito que at o esboo de uma corte foi desenhada nos anos 1950: o Rei Luiz Gonzaga,
uma rainha, a cantora carioca Carmlia Alves, festejada intrprete que contabiliza inmeros sucessos individuais, o prncipe, Lus Vieira, que muitas vezes apresentou-se
ao lado de Gonzago e teve composies suas gravadas

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por grandes nomes como Dolores Duran e ngela Maria, entre outros, e at uma princesa, a cantora Claudete Soares, depois ligada  Bossa Nova e  msica romntica
em geral.

Alm da realeza do baio, outros sditos, mais ou menos nobres a ele se agregariam: Valdir Azevedo, que conheceu seu maior sucesso com o baio "Delicado", ele que foi o autor do antolgico choro "Brasileirinho"; o tambm poeta e folclorista Z do Norte, que nos deixou editadas mais de 100 composies; Z Gonzaga (irmo de Luiz) e at Vanja Orico, cantora e atriz internacional (lanada por Federico Fellini na Itlia, em 1948), que colheu um triunfo mundial com a trilha de O cangaceiro (Lima Barreto, 1953), especialmente "Mui rendeira". Alis, Vanja Orico gravou vrias canes brasileiras na Europa, sendo muitas da dupla Marcos  e Paulo Srgio
Valle "Viola enluarada" teve verso em francs que fez grande sucesso em diversos pases europeus. Em 1981, Vanja lanou um disco muito original, no qual incluiu
"Lamento de um homem s", de Carlos Lyra e Vincius de Moraes, "Varandas antigas", de Kleidir Ramil e Fogaa, "Quem d mais", de Noel Rosa e "Acorda, Maria Bonita", adaptao do folclore brasileiro feita por Marcus Vincius. Neste disco, aparece um texto consagrador de Antnio Houaiss sobre a cantora: "Ninfa, mito, espera, verdade, beleza, certeza. O fato  que ser Brasil chegou em voc a um ponto de cristalizao que, se algum fizer uma equao Brasil - Vanja - Mulher, estarei a de corao."
Estar na fossa
Curiosamente,  possvel fazer uma leitura dos percursos da MPB acompanhando sua ambientao. Ou cenrios. Se a raiz afro-brasileira deu o samba cujo hbitat era
a Sade, a Lapa e o Estcio numa vertente, ou Vila Isabel noutra, a prxima mutao urbana da MPB, avanando j para dentro dos anos 1950, vai se deslocar para a
Zona
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Sul do Rio de Janeiro. Mais especificamente, Copacabana, bairro da moda, ento, de classe mdia e classe mdia alta.
Tambm os personagens emblemticos passam a mudar, junto com o ambiente. L, o malandro festeiro, aqui, um bomio de outro tipo, contaminado por certa melancolia romntica e at mesmo, em alguns casos, trgica, mas sempre mais sofisticada em termos comportamentais.
Copacabana, A Princesinha do Mar, de dia pacato bairro de boas famlias,  noite mudava de esprito. E nas boates, varando madrugadas, os bomios da fossa cantavam agora o amor, procurando, em vez de seduzir a pessoa amada,  moda brejeira de Noel Rosa, matar a necessidade de pr para fora a dolorosa saudade do ser amado, falando do adeus e da solido: "Ah, voc est vendo s/ Do jeito que eu fiquei/ e que tudo ficou./ Uma tristeza to grande/ Nas coisas mais simples/ que voc tocou". ("Por causa de voc", Dolores Duran.)

No que tivessem inventado a melancolia na MPB - isso os sambistas da dcada de 1930 e 1940 j haviam fixado para sempre. Mas havia um  certo sentido de inelutvel
e, ao mesmo tempo, de sedutora decadncia ou desencanto, como se o amor tivesse como desfecho sempre a desiluso - algo que abrangia no apenas a msica, mas a vida de muitos de seus intrpretes e compositores. E aqueles poetas da noite estavam ali, como que almas perdidas, buscando algo que no ntimo sabiam que nunca iriam alcanar.
A esse estado de nimo, to tpico nas noites intelectuais dos anos 1950, correspondia o samba-cano. De certo modo, j fora prenunciado em peas como "Copacabana" (Braguinha-Alberto Ribeiro) e "Marina" (Dorival Caymmi), dotadas das caractersticas  principais de um samba mais lento e mais sofisticado, sobretudo na roupagem orquestral. Mas o samba-cano mais padronizado s viria mesmo a tornar definitiva sua forma estrutural no comeo dos anos 1950. E a com caractersticas, quer  literrias, quer orquestrais, bem mais especficas. Essas caractersticas literrias se aproximavam

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- de algum modo - das propostas poticas europias do ps-guerra, sobretudo aquelas envolvidas pela filosofia existencialista, de certo desencanto com o mundo, sob o peso dos horrores da Guerra, misturadas com a temtica dos boleros e dos cabars latino-americanos, com seus coraes despedaados, e cujas origens literrias remotas esto no tango argentino lacrimogneo e quase sempre trgico. No conjunto, ainda como uma afirmao de nosso meio cultural, as caractersticas orquestrais e meldico-harmnicas do samba-cano tpico dos anos 1950 so muito mais latino-americanas - e mesmo brasileiras, como descendendo do temperamento desesperanado
das modinhas dos sculos anteriores, sobretudo o XIX, e herdeiro da tristeza-senhora dos sambas lentos e das canes desalentadas dos anos 1930 e 1940 - do que norte-americanas.
Como todo modismo que se preze, o samba-cano dos anos 1950 foi como uma enxurrada, um rio caudaloso que agregou lixo, sujeira e muitos nomes sem valor. Mas podemos destacar e resumir em seu curso, to desigual em qualidade, dois nomes de primeirssima linha, a melhor expresso do samba-cano dos anos 1950: Antnio Maria e Dolores Duran.
Antnio Maria de Arajo Moraes (PE, 1921 - RJ, 1964) ingressou adolescente na Rdio Clube de Pernambuco como locutor e apresentador de programas musicais. Sempre exerceu, a partir de ento, a profisso de radialista, e foi nela, j no Rio, que comeou a fazer jingles comerciais, primeiras manifestaes do compositor que estouraria em 1952. Em verdade, o ano de 1952 foi o ano bom de sua vida - por sinal  belamente biografada pelo jornalista Joaquim Ferreira dos Santos quando uma msica sua, gravada por uma cantora inteiramente desconhecida, de voz grave e sem grande extenso vocal chamada Nora Ney, repercutiria em todo o pas, lanando cantora e compositor.
Era "Ningum me ama", considerado at hoje um clssico da chamada msica de fossa e de dor-de-cotovelo, prottipo do samba-cano.

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Nora Ney. Arquivo Cedoc /funarte

Ou ainda, segundo Jairo Severiano, "o paradigma do samba-defossa e de um sucesso nacional".
Nora Ney (1922), carioca de Olaria, comeou a vida artstica cantando sucessos estrangeiros porque achava que, devido a uma falha de dico sua nos erres, no poderia cantar em portugus. Fazia parte do F-clube Sinatra-Farney, que promovia festas na residncia do cantor Dick Farney, tendo  bateria seu irmo, o ator de cinema Cyl Farney. Nesses encontros informais, a jovem j mostrava talento, cantando com os outros participantes (como Johnny Alf e Carlos Guinle) os sucessos de Frank
Sinatra e Dick Farney. Esses saraus acabaram sendo o passaporte para sua profissionalizao. Anos depois, j a encontramos sendo convidada por Almirante para substituir
a cantora Aracy de Almeida (que estava de frias), nos programas da Rdio Tupi. Apesar de sua insegurana em cantar msica brasileira, Almirante e o produtor Haroldo Barbosa tanto insistiram que ela passou a interpretar as msicas de Noel Rosa, sucessos na voz de Aracy ("ltimo desejo" e "O X do problema", entre outras). Saindo-se muito bem, Haroldo Barbosa decidiu alavancar sua carreira, escolhendo um repertrio de msicas s de compositores do primeiro time: Caymmi, Noel Rosa, Ary Barroso e Carioca. Logo Haroldo estaria afirmando entusiasmado: "Voc no vai cantar nunca mais msica estrangeira". Por conta disso, a cantora declarou que atribui a Haroldo
Barbosa seu ingresso na msica popular brasileira. O mais curioso  que Haroldo Barbosa, que lanou humoristas como Srgio Porto, o Stanislaw Ponte Preta, e Chico
Ansio, era um especialista em fazer verses de msicas estrangeiras, tendo escrito muitas delas para o prprio Rei da Voz, Francisco Alves.

Em seu primeiro disco, no incio dos anos 1950, Nora gravou "Menino grande", do ento desconhecido compositor Antonio Maria. E logo no mesmo ano "Ningum me ama", interpretao que marcou definitivamente sua carreira de cantora das dores amorosas. Com esse disco, a cantora conquistou o primeiro Disco de

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Ouro da histria da fonografia brasileira, inspirando at o cantor Nat King Cole a regravar a msica.
Por conta da firmeza de seus ideais polticos, Nora e o marido, Jorge Goulart, seriam muito perseguidos pelo spero governo militar que se instalou no pas nos anos 1960, acusados de simpatias pelos comunistas, a ponto de verem negado seu direito ao trabalho. Foram eles os primeiros cantores a serem demitidos da Rdio Nacional (estatal) em maro de 1964, vitimados pela perseguio poltica.

Mas "Ningum me ama", de Antnio Maria, acrescenta outro nobre personagem  histria da MPB - um personagem com descendncia igualmente importante -, o amigo e conterrneo de Antonio Maria, com quem ele assinou a composio, o poeta, compositor e jornalista Fernando Lobo (PE, 1915 - RJ, 1996), pai de Edu Lobo.
Em "Ningum me ama", Maria e Fernando atingiram um dos pontos mais amargos e pungentes da potica musicada: "Vim pela noite to longa de fracasso em fracasso / E
hoje descrente de tudo me resta o cansao / Cansao da vida, cansao de mim / Velhice chegando, e eu chegando ao fim." No  portanto  toa que tanto a cano quanto seus compositores se tornaram emblemticos do estilo de sua poca. Bomio, homem da noite, amante das ruas e das madrugadas do Rio e de So Paulo, Antnio Maria era jornalista assduo nas melhores redaes do Rio, nas quais assinou as primeiras colunas individuais brasileiras que tratavam simultaneamente de todos os assuntos, sobretudo da noite e do bem comer. Maria, esprito crtico, um intelectual, produziria crnicas e poemas memorveis nos quais a observao amargo-irnica do cotidiano era a constante fonte de inspirao: "Na vida a gente ama vinte vezes; uma por inexperincia e dezenove por castigo" ou "A nica vantagem de morar sozinho  poder ir ao banheiro e deixar a porta aberta". Produtor dos primeiros programas de televiso e dos melhores shows humorsticos na antiga Rdio Mayrink Veiga, Maria criou msicas que marcariam a fundo a dcada de 1950, como "Manh


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de Carnaval" (para o filme Orfeu Negro, 1959, com Luiz Bonf), "Se eu morresse amanh de manh" e "Valsa de uma cidade", com Ismael Neto.

Numa madrugada quente de outubro de 1964, ano de muitas perdas no Brasil, inclusive das liberdades individuais, Maria foi vitimado por um enfarte que lhe tirou instantaneamente a vida, em frente ao bar Le Bistr, em Copacabana, como a fazer um contraponto final de sua vida bomia.
Por essas estranhas coincidncias do destino, foi exatamente uma composio de Antnio Maria que lanaria o segundo dos nomes prioritrios do samba-cano: Dolores Duran (RJ, 1930 - RJ, 1959). Dolores, anjo da noite, comeou exclusivamente como cantora, estreando (1954) no sucesso com uma msica que entrou em todas as paradas: a "Cano da volta", de Antnio Maria e Ismael Neto.

Nascida de uma famlia pobre num bairro igualmente pobre no Rio, a Sade, aos 10 anos resolveu participar do programa de calouros de Ary Barroso. Dolores (Adilia
Silva  Rocha) escolheu a msica "Vereda tropical", que interpretou fantasiada de mexicana, com letra em portugus e espanhol. Tirou nota mxima e ganhou o elogio de Ary, alm do prmio de 500 mil-ris. E o melhor: passou a ser chamada para vrios programas da poca, comeando a aparecer para o pblico como cantora de msicas estrangeiras, principalmente boleros. Tinha 16 anos e, a partir de ento, deu-se a si prpria um outro nome, Dolores Duran, influenciada pela indeterminao entre o bolerismo, o francesismo e o americanismo da poca. Em sua vida bomia, fez amizades com personagens famosos da crnica carioca: Srgio Porto, o Stanislaw Ponte
Preta, Antnio Maria, Nestor de Holanda e Mister Eco, que a levaram a freqentar e se apresentar em vrias boates, como Vogue, Beguine, Little Club, Baccarat, Casablanca,
Acapulco e Montecarlo.

Num desses shows no Vogue, Csar de Alencar estava presente e a convidou para trabalhar em seu clebre programa que ia ao ar nos

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Dolores Duran. Arquivo Cedoc /funarte

sbados  tarde pela Rdio Nacional. Dolores gravaria o primeiro disco em fins de 1951, lanando para o carnaval do ano seguinte os sambas "Que bom ser", de Alice Chaves, Salvador Miceli e Paulo Marques e "J no interessa", de Domcio Costa e Roberto Faissal. Em seguida vieram as gravaes dos sambas-canes "Outono", de Billy Blanco e "Lama", de Paulo Marques e Alice Chaves. O sucesso aconteceu pouco depois, com "Cano da volta", de Antnio Maria e Ismael Neto, e "Bom  querer bem", de Fernando Lobo.

Sua primeira composio foi uma parceria com Tom Jobim, "Se  por falta de adeus", gravada por Dris Monteiro, outra musa da fossa. A parceria com Jobim viria a
se repetir, com enorme sucesso, em "Por causa de voc", que tem uma histria... Era maro de 1957. O jovem compositor Tom Jobim casualmente mostrou a Dolores uma
composio feita h poucos dias em parceria com Vinicius de Moraes. A cantora ficou encantada com a melodia e ali mesmo escreveu outra letra. Jobim tocou no piano a msica e ela cantou seu poema. Ao terminarem, Dolores escreveu o seguinte bilhete para Vinicius: "Esta  a letra que fiz para esta msica. Se no concordar,  covardia!" O poeta, sem hesitar, rasgou sua prpria letra, admitindo que a de Dolores era bem melhor. Em 1958, a prpria cantora gravaria a msica ("Ah! Voc est vendo s/ Do jeito que'u fiquei/ E que tudo ficou...").

Logo depois, dispararia a compor: "Fim de caso ", 'Pela rua", "Castigo", um samba-cano que alcanou grande xito na voz de Marisa Gata Mansa, alm do seu grande
sucesso: "A noite do meu bem", que gravou pouco antes de falecer. Sem dvida, o grande encontro que Dolores teve com ela mesma foi quando comeou a compor as suas msicas (msica e letra) - sintetizadas por "A noite do meu bem", cujos versos so usualmente considerados dos mais belos j compostos na MPB: "Hoje, eu quero a paz de criana dormindo / E o abandono de flores se abrindo / Para enfeitar a noite do meu bem".
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Pessoalmente sem sorte no amor, a obra de Dolores rene um pequeno mas seletssimo nmero de obras-primas, que comps com ou sem parceiros, dentro do seu jeito melanclico, triste e angustiado de ver a vida, resumido  perfeio numa de suas ltimas letras, quase proftica, e to representativa de toda a problemtica dos poetas dos anos 1950 na MPB, os poetas da angstia e da solido do ps-guerra ("Eu quero qualquer coisa verdadeira / Um amor, uma saudade, uma lgrima, um amigo / Ai, a solido vai acabar comigo").
 Na madrugada de 23 de outubro de 1959, depois de um show na boate Little Club, a cantora saiu com amigos para uma festa no Clube da Aeronutica. Depois da festa,
resolveram dar uma esticada na noite. A cantora chegou em casa s sete da manh. Ao dirigir-se para seu quarto, disse  empregada: "No me acorde, estou muito cansada. Vou dormir at morrer." De fato, morreu ainda naquela manh, enquanto dormia. Alguns de seus poemas seriam musicados por Ribamar depois de sua morte, inclusive "Ternura antiga ". S muito tempo depois, passaria a ser cultuada como a grande compositora e personalidade de seu tempo que foi, principalmente aps o LP em que Lcio Alves gravou exclusivamente composies suas.

A realeza do rdio
Enquanto uma Copacabana ternamente melanclica e o ambiente enfumaado das boates da moda davam o tom do que havia de mais chique na vida noturna no Rio de Janeiro e So Paulo, havia um outro mundo, iluminando a imaginao popular e despertando arrebatamentos at ento inditos na MPB: o rdio - com seus reis e rainhas, e tambm suas altas-patentes.
Nada como sonhar em tornar-se um astro ou estrela do rdio, nos dourados anos 1950. Parecia tiro e queda para o jovem sonhador alcanar dinheiro e popularidade,
at porque as rdios disputa-
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vam ciumentamente nomes, que contratavam para os seus casts exclusivos. Assinar um contrato desses significava um estmulo decisivo, mas tambm obrigatrio, para
a carreira dos artistas. Ser contratado/a, e assim participar intensamente da programao da emissora, era consolidar a popularidade, ou, no caso dos artistas descobertos pelos diversos programas de calouro, embicar para o sucesso. Alis, se tantos sambistas do passado, nomes fundamentais de nossa msica, haviam morrido na misria e no esquecimento, e muitos sobreviviam na poca com enormes dificuldades financeiras, era a primeira vez que a possibilidade de fazer fortuna aparecia associada ao ofcio da msica. O caso  que dezenas de mooilas sonhavam e sonhavam com o estrelato radiofnico, na esteira das duas maiores popularidades da poca, Marlene e Emilinha Borba.
A paulista Marlene era estrela absoluta do programa Manoel Barcelos; a carioca Emilinha reinava no Cesar de Alencar. At as Foras Armadas se dividiam: Marlene era favorita da Aeronutica e Emilinha, da Marinha. A disputa era de tal ordem acirrada que sugeria um surrealista Tratado de Tordesilhas musical nos anos 1950, dividindo o Brasil entre fs de Emilinha e Marlene.

De origem italiana, Marlene (SP, 1924) comeou como caloura aos 16 anos, no programa Hora do estudante, da Rdio Bandeirantes de  So Paulo, mas estreou profissionalmente cantando na Rdio Tupi paulista, onde Vitria Bonaiutti adotou seu nome artstico, inspirado na atriz Marlene Dietrich. Mudou-se para o Rio de Janeiro em 1943 e conseguiu trabalho no Cassino de Icara, Niteri (RJ). Logo depois, assinou contrato com a Rdio Mayrink Veiga e com o Cassino da Urca, integrando seu cast at o fechamento dos cassinos, com a proibio do jogo, em 1946.

Foi nesse ano que gravou seu primeiro disco, interpretando "Swing no morro", de Felisberto Martins e Amado Rgis, e "Ginga, ginga, morena", de Joo de Deus e Hlio Nascimento. Pouco depois, a encontramos fazendo apresentaes na boate do Golden Room do

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Marlene
Museu da Imagem e do Som, RJ
Copacabana Palace - onde passou de crooner  estrela - acompanhada por Ben Nunes (piano), Abel Ferreira (clarineta), Vidal (contrabaixo), Meneses (guitarra),
alm de outros msicos.

Sua carreira decolou com a ida para a Rdio Nacional do Rio de Janeiro, em 1948. Estreando no Programa Csar de Alencar, j no ano seguinte era eleita pela primeira
vez Rainha do Rdio, em concurso promovido pela Associao Brasileira de Rdio (ABR). Com o prestgio do ttulo, ganhou um programa s seu na Rdio Nacional intitulado Duas majestades. E um novo horrio no Programa Manuel Barcelos, onde permaneceu como estrela at o fechamento da Rdio Nacional.

Ao ser eleita novamente, em 1950, Rainha do Rdio, rompendo a sucesso de vitrias das irms Linda e Dircinha Batista, iniciou-se


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ento a clebre disputa entre os seus fs e os de Emilinha Borba, muito explorada pela imprensa da poca, que s seria desfeita quando as duas resolveram gravar algumas msicas em dupla.
Em 1959, a convite da cantora francesa Edith Piaf, tornou-se a primeira brasileira a apresentar-se no Teatro Olympia, de Paris. Participou tambm de diversos filmes
nacionais (Coraes sem piloto, de Lus de Barros; Pif-paf, de Ademar Gonzaga e Lus de Barros; Cados do cu, de Lus de Barros, Tudo azul, de Moacir Fenelon e muitos outros).
Entre seus maiores sucessos esto "Z Marmita", de Brasinha e Lus Antnio; "Lata d'gua" e "Sapato de pobre", ambos de Lus Antnio e Jota Jnior, sambas que estourariam no Carnaval; "Qui nem jil", de Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira; "Mora na filosofia", de Monsueto e Arnaldo Passos; "E sempre o papai", de Miguel Gustavo; "Nasci para bailar", de Joel Almeida e Fernando Lobo; e "Marlene, meu bem", de Mrio Lago, entre muitos outros.
J Emilinha Savanah Borba (RJ, 1923) passou grande parte da sua infncia na Mangueira. Em seguida, mudou-se com a famlia para o bairro de Jacarepagu. Desde menina gostava de cantar e imitar as grandes cantoras do rdio, como Carmen Miranda. Apesar da relutncia da me, j aos 14 anos comeava a freqentar programas de calouros, ganhando seu primeiro prmio, na Hora juvenil, da Rdio Cruzeiro do Sul. Conseguiu nota mxima no programa Calouros de Ary Barroso, interpretando "O X do problema",
de Noel Rosa.
Emilia gravou sua primeira participao em disco pela Columbia, em 1939, cantando a marchinha "Pirulito", em dupla com Nilton Paz, a convite do compositor Joo de
Barro, autor da msica. Seu nome, entretanto, no saiu no selo do disco. Nesse ano ainda, por intermdio de Carmen Miranda, foi contratada pelo Cassino da Urea, como crooner. Na ocasio, Carmen emprestoulhe um vestido e sapatos-plataforma, para que a jovem Emilinha,


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Emilinha Borba 
Sentada no trono de
Rainha do Rdio em 1952.
Museu da Imagem e do Som, RJ.

que teve de alterar seu registro de nascimento por ainda ser menor   de idade, fizesse seu teste. Foi aprovada, e viria a se tornar uma das principais atraes do Cassino.
Em 1941, j com o nome artstico de Emilinha Borba, gravou "O fim da festa", de Nelson Trigueiro e Nelson Teixeira, e "Eu tenho um cachorrinho", de Oswaldo Santiago e Georges Moran. No incio dos anos 1940 entrou para o cast da Rdio Nacional e, durante os 27 anos que l permaneceu, consagrou-se como uma das cantoras mais queridas
e populares do Brasil - foi a campe absoluta em correspondncia por 19 anos consecutivos (at quando durou a pesquisa naquela emissora). Sua popularidade sempre esteve associada ao programa de Csar de Alencar, lder em audincia da maior emissora da Amrica do Sul, a PRE 8, e que era transmitido para todo o Brasil aos sbados  tarde.

Gravou vrios sucessos de autoria de Haroldo Barbosa, como "Rumba de Jacarepagu" e "Tico-tico na rumba", e em 1949 estourou no carnaval com a marcha "Chiquita bacana", de Joo de Barro e Alberto Ribeiro. Naquele ano, perdeu o tradicional concurso para Rainha do Rdio do ano para a grande rival Marlene. Em seguida, com a marchinha "Tomara que chova", de Paquito e Romeu Gentil, grande sucesso do carnaval de 1951, alcanou um dos pontos altos de sua carreira.
Popularssima, foi capa por mais de cinqenta vezes da ento famosa Revista do Rdio, Emilinha teve tambm intensa participao em filmes, dentre os quais: Poeira de estrelas, de Moacir Fenelon; Estou a, de Jos Cajado Filho; Aviso aos navegantes, de Watson Macedo e Barnab, tu s meu, de Jos Carlos Burle. Por problemas de sade, afastou-se da vida artstica entre 1968 e 1972, quando ento voltou a se apresentar em shows, tanto em teatros, como em praas pblicas.

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A disputa ingnua, mas ardorosa, entre os fs-clubes de Marlene e Emilinha  um fenmeno at sociolgico da histria da cultura popular brasileira, que s pode ser
entendido a partir de um pas que vivia entre uma poca de esperana de prosperidade que no chegava nunca e a ocultao renitente de graves injustias sociais que persistiriam at hoje. Um pas cujos maiores traumas coletivos de at ento tinham sido a derrota na final da Copa do Mundo de 1950, em pleno Maracan, contra o Uruguai, e a perda do ttulo de Miss Universo pela baiana Martha Rocha, por culpa das inesquecveis duas polegadas a mais. Era ento um pas que desfilava em passarelas.
Que sofria, mas no sabia.
Nossa constelao de estrelas e o glamour Az uma Capital Federal (o Rio) quase imaginria, cuja existncia se resumia s vozes no rdio e s capas das revistas ilustradas, brilhavam intensamente, provocando repercusses profundas nas mocinhas de pequena classe mdia brasileira, que nas estrelas do rdio viam a realizao de seus sonhos inatingveis de sucesso e beleza.
Alm de Marlene e Emilinha, foram muitas as estrelas que encarnaram essa era de sonhos, de glamour, de felicidades inatingveis, de quimeras hiperblicas.
As irms Linda (SP, 1919 - RJ, 1988) e Dircinha Batista (SP, 1922 - RJ, 1999) eram filhas do humorista e ventrloquo Joo Batista Jnior e de Emilia Grandino de
Oliveira. De famlia tradicional, nasceram no bairro paulistano de Higienpolis. Na verdade, seus pais j moravam no Catete, Rio de Janeiro, mas a av materna, Dona
Florinda,  fazia questo que todos os seus netos nascessem em sua casa. O pai, que era capaz de imitar vinte e duas vozes sem abrir os lbios, resolveu ir para o
Rio de Janeiro, j que na Capital Federal encontraria mais perspectivas de trabalho.
A pequena Florinda (Linda) aos 10 anos j estudava violo com Patrcio Teixeira. Nessa poca, comps sua primeira msica intitulada "To sozinha" e, ainda menina,
costumava ser levada pela

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Linda Batista. 
Arquivo Ckdoc / funarte

empregada da famlia  gafieira Corbeille de Flores, que ficava perto de sua casa. Tinha uma personalidade carismtica, temperamental e excntrica.
O pai de Dircinha e Linda faleceu em 1943, o que provocou uma breve interrupo na carreira das duas. Na verdade, as irms, que se apresentavam juntas com freqncia, tiveram trajetrias muito semelhantes. Foram, depois de Carmen Miranda, as primeiras estrelas de grande popularidade em todo o Brasil. Ao fim da Dcada de Ouro era difcil encontrar quem no ouvisse seus programas de rdio.
Comearam carreira artstica muito cedo. Na adolescncia, Linda (como passou a ser chamada) acompanhava Dircinha com seu violo, apresentando-se em programas de
rdio. J eram conhecidas como as Irms Batista porque resolveram adotar o sobrenome do pai. Em 1936, por causa de um atraso da irm, Linda teve que substitu-la cantando no programa de Francisco Alves, na Rdio Cajuti. Na ocasio interpretou "Malandro", de Claudionor Cruz, iniciando uma carreira de muito sucesso. Soube-se
depois que o atraso havia sido combinado entre seu pai e Francisco Alves, pois este a queria cantando em seu programa e Linda era tmida demais, na poca, para aceitar
fazer o nmero. Logo depois, foi contratada pela Rdio Nacional do Rio de Janeiro. Na mesma poca, fez uma excurso de grande repercusso ao Nordeste. Em 1937, foi
eleita a primeira Rainha do Rdio, ttulo que manteve por 11 anos (at 1948).
Seu estilo de estrela provocou cenas antolgicas - costumava chegar na Rdio Nacional em um sofisticado carro importado, vestida com casacos de pele e ostentando jias caras, o que causava grande repercusso na imprensa. Tambm atuaria em vrios filmes nacionais: Maridinho de luxo, de Lus de Barros, 1937; Banana da terra, escrito por Joo de Barro com produo de Wallace Downey, em 1938, e Cados do cu, de Lus de Barros, em 1946 - entre outros.
J Dircinha marcou presena na histria da MPB lanando grandes sucessos, principalmente sambas, marchas e sambas-can-
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es. Participou de inmeros programas de rdio e tambm de programas de TV. Gravou mais de 300 discos em 78 rpm, alm de alguns LPs. O primeiro disco foi realizado aos 8 anos, em 1930, com duas msicas de autoria de Batista Jnior: "Dircinha" e "Borboleta azul". No selo deste disco, hoje rarssimo, aparece ainda seu nome de batismo, Dirce de Oliveira. Em 1931, comeou a participar do programa de Francisco Alves, na Rdio Cajuti do Rio de Janeiro, como de hbito, ao lado do pai. Logo depois, pai e filha foram trabalhar na Rdio Clube (atual Mundial). Nessa poca, era uma grande atrao, at porque cativava a todos com seu talento mirim, sua carinha de anjo, seu charme de ninfeta, tornando-lhe a presena nos programas uma certeza de audincia. Gravou o segundo disco aos 12 anos, ainda como Dirce de Oliveira,interpretando "A rf" e "Anjo enfermo", ambas composies de Cndido das Neves, que a acompanhou ao violo junto com o violonista Tute.

Em 1935, estreou no cinema nacional (estava com 13 anos), cantando no filme Al, al, Brasil, de Wallace Downey. A partir desta poca, adotou o nome artstico de Dircinha Batista. Seu primeiro grande sucesso foi "Periquitinho verde" (de Nssara e S Rris), no carnaval de 1938, e aconteceu por acaso. Dircinha tinha sido chamada para gravar o samba "No chora", de Benedito Lacerda e Darci de Oliveira. Como no havia uma msica para o outro lado do disco, Nssara apressou-se para terminar a sua marchinha ali mesmo no estdio, a tempo de inclu-la no 78 rpm.

Na dcada de 1960, as irms Batista comearam a afastar-se da vida artstica. Logo, parariam de trabalhar, recolhendo-se junto com Odete, a irm mais velha, ao apartamento no bairro carioca de Copacabana, o ltimo bem imvel que lhes restou. No final de vida, passaram por grandes dificuldades financeiras, tendo sido auxiliadas pelo cantor e f Jos Ricardo, embora recusassem propostas vultosas para gravar programas especiais para a tev.

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Csar de Alencar e 
Dircinha Batista no programa radiofnico, transmitido aos sbados pela Nacional.
Museu da Imagem e do Som, RJ


Uma reedio simptica de malandro, mas de classe mdia, foi o inesquecvel Formigo, notvel estilista e um dos cantores mais queridos do pblico e de seus colegas na MPB. Cyro Monteiro (RJ, 1913 - RJ, 1973), rubro-negro doente e rei da caixinha de fsforos, cantor e compositor de muito estilo, nasceu no subrbio carioca do Rocha, em uma famlia de nove irmos, todos com nomes comeados com C. Seu pai era dentista, capito do Exrcito e funcionrio pblico. Sobrinho do grande pianista de samba Non

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 Vincius de Moraes, contracapa do LP Senhor samba, Columbia, LP 37.190, 1961.


(Romualdo Peixoto, conhecido como o Chopin do samba) e tambm tio de Cauby Peixoto.
Cyro marcaris poca com sua voz, seu ritmo e sua capacidade de modular e improvisar, e, no meio artstico, principalmente, ficou conhecido por sua grande simpatia, bondade e capacidade de fazer amigos. Sobre ele, Vincius de Moraes escreveria: "Uma criatura de qualidades to raras que eu acho improvvel qualquer de seus amigos no se haver dito, num dia de humildade, que gostaria de ser Cyro Monteiro. Pois Cyro,  pra l do cantor e do homem excepcional,  um grande abrao em toda a humanidade".'
Desde jovem cantava em festas e rodas de amigos. Com seu irmo Careno, cantava em dueto procurando imitar a dupla  Slvio Caldas-Luiz Barbosa, que seu tio Non costumava levar a sua casa para apresentaes espordicas. Desses encontros surgiu sua oportunidade no rdio, que ocorreria em 1933, numa emergncia e a pedido do prprio
Slvio, substituindo Luiz Barbosa no Programa Cas, da Rdio Phillips, j que conhecia todo o repertrio da dupla. Fez sucesso ao lado de Slvio Caldas, mas, ainda
assim, preferiu abrir mo da dupla com Slvio e manter a que tinha com o irmo.

No ano seguinte foi levado para um teste na Rdio Mayrink Veiga, encaminhado por Dioclesiano Maurcio. Aprovado, foi escalado para um programa diurno, chamado Programa das donas de casa, mas logo passaria para os programas noturnos, com Carmen Miranda, Francisco Alves, Mrio Reis, Custdio Mesquita, Noel Rosa, Gasto Formenti e outros grandes artistas. Nessa poca Cyro comeou a criar o estilo que o imortalizaria. Luiz Barbosa marcava o ritmo no chapu de palha, Joel de Almeida e Dilermando Pinheiro foram seus seguidores, mas Cyro descobriu no ritmo de uma caixinha de fsforos a refinada e surpreendente bossa instrumental para suas interpretaes. Em 1937, j participava de todos os programas das rdios cariocas e lanaria seu primeiro grande sucesso justamente em um deles, o Picolino, de Barbosa Jnior - foi
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o samba "Se acaso voc chegasse", de Lupicnio Rodrigues e Felisberto Martins, um dos grandes clssicos da MPB, que fez decolar sua carreira, a de Lupicnio e,
anos depois, a da ento jovem sambista Elza Soares.
Recebeu o apelido de Formigo do compositor Frazo, e de O cantor das mil e uma fs, de todos os seus admiradores. Era torcedor do Flamengo, mas um flamenguista de quem at mesmo os adversrios gostavam. Por conta de seu entusiasmo pelo time, na ocasio do nascimento da primeira filha de Chico Buarque e Marieta Severo, a pequena Slvia, Cyro enviou de presente para o beb uma camisa rubro-negra. O tricolor Chico respondeu compondo um samba: "Ilmo. Sr. Cyro Monteiro ou Receita para virar casaca de nenm".
Cyro, desde os fins da dcada de 1940, comeou a apresentar problemas respiratrios. Em 1956, participaria da montagem do espetculo Orfeu da Conceio, de Vincius de Moraes, no papel de Apoio, pai de Orfeu. Em 1958, comps seu maior sucesso como autor, "Madame fulano de tal", parceria com Dias da Cruz. Em 1959 submeteu-se a uma cirurgia no Sanatrio de Correias (RJ), por conta de seus problemas de sade, e faleceria no Rio, com apenas 60 anos. Foi sepultado, com grande acompanhamento, no Cemitrio So Joo Batista, no bairro de Botafogo, na Zona Sul do Rio de Janeiro, ao som da marcha do Flamengo, cantada por integrantes da torcida jovem e coberto
com as bandeiras rubro-negra, de seu clube, e das verde-e-rosa, da Estao Primeira de Mangueira. Mais carioca, impossvel.
Filha de um lavrador que depois se tornaria chofer de caminho, Odete Amaral (RJ, 1917 - RJ, 1984) aos 20 anos empregou-se na
Cyro Monteiro.
Arquivo Cedoc: / Funarte

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Amrica Fabril como bordadeira. Numa edio da Revista Carioca, Odete sintetizaria sua trajetria com muita elegncia: "Nasci em Niteri. Comecei a cantar quando tinha 3 anos de idade. Estreei h dois anos (1935) na Rdio Guanabara. Durante um ano conheci os microfones de todas as estaes da cidade; durante outro ano, cantei exclusivamente para a Cruzeiro do Sul. Contratada agora pela Nacional,  pretendo que ela me prenda por muitos anos (...). O samba-cano  o gnero que prefiro. O cinema  grande, mas o rdio  maior. Alguma coisa mais?".
Em criana, por sua belssima voz - de timbre nico e excelente afinao -, era sempre convidada a cantar no teatro da escola, alm de festas de aniversrio. Uma
 irm, que muito a admirava, levou-a  Rdio Guanabara, na poca dirigida por Alberto Manes, para que fizesse um teste. Odete fez a prova acompanhada pelo pianista Felisberto Martins e pelo violo de Pereira Filho, cantando "Minha embaixada chegou", de Assis Valente. Obtendo muito xito, a cantora foi logo escalada para participar do programa Suburbano, onde tambm se apresentavam Slvio Caldas, Marlia Batista, Noel Rosa, Almirante, Aurora e Carmen Miranda, entre outros.

Em 1936 assinou o primeiro contrato de sua carreira, na Rdio Mayrink Veiga, e foi nessa poca que recebeu de Csar Ladeira o slogan de A voz tropical. Seu maior sucesso foi o choro "Murmurando", de Fonfon e Mrio Rossi. Mas gravou ainda muitos sucessos de carnaval, sambas-canes e inmeros compositores de renome na poca.
Em 1938, casou-se com Cyro Monteiro, com quem teve um filho e de quem se separaria em 1949. Mas durante esses onze anos, o casal seria um dos mais famosos da era do rdio, na seqncia direta de Gilda de Abreu e Vicente Celestino.

Muitos ainda se lembram da marcha-rancho "Bandeira branca", do carnaval de 1970, o ltimo dos grandes sucessos de Dalva de Oliveira (SP, 1917 - RJ, 1972). Mas esse foi o coroamento de uma bela carreira da cantora que se iniciou na msica acompanhando ainda

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Odete Amaral.
Arquivo Cedoc /Funarte
pequena o pai, o carpinteiro, clarinetista e saxofonista, Mrio Oliveira.
Dalva era dona de uma voz poderosa, que a tornou uma das maiores estrelas dos anos 1940 e 1950. Criana ainda, depois de terminar a faxina do salo de danas onde
trabalhava, costumava cantar algumas msicas, tentando tirar melodias ao piano. Um dia, foi ouvida pelo maestro pianista, que a convidou para cantar numa troupe,
chefiada por Antnio Zovetti. "Era um cirquinho de tablado" (segundo depoimento da cantora) que correu vrias cidades de So Paulo, at chegar a Belo Horizonte (MG).
Sua participao acontecia nos intervalos dos espetculos, quando era anunciada como A menina prodgio da voz de ouro. Sua me acompanhou-a, a convite do prprio empresrio, e foi nessa poca que passou a usar o nome de Dalva, sugerido pela me, pois Zovetti achava que seu nome (Vicentina de Paula Oliveira) no servia para uma cantora. Assim, passaram a anunci-la como a doura de voz da menina prodgio: a estrela Dalva!

Poucos anos depois j a encontramos no Rio de Janeiro, cantando ao lado de Noel Rosa na Rdio Cruzeiro do Sul. A seguir, trabalhando na Rdio Mayrink Veiga, foi
chamada para atuar no teatro com Jayme Costa, fazendo pontas em operetas no Teatro Glria. Trabalhou na temporada popular da Casa de Caboclo, do Teatro Fnix, ao lado de Jararaca e Ratinho, Alvarenga e Ranchinho e Ema D'Avila. No mesmo perodo, trabalhou na Cancela, em So Cristvo, num teatro regional onde ela apresentava nmeros imitando a atriz Dorothy Lamour. Foi l que conheceu Herivelto Martins, que atuava com o parceiro Nilo

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Dalva de Oliveira. Arquivo Cedoc / Funarte

Chagas, formando a Dupla Preto e Branco. Ali, Dalva fez os primeiros nmeros com a dupla.
No incio eles se apresentavam como Dalva de Oliveira e a Dupla Preto e Branco. Csar Ladeira sugeriu que trocassem o nome para Trio de Ouro. Foram ento contratados pela Rdio Mayrink Veiga e gravaram o primeiro disco, com as msicas "Itagua" e "Ceei e Peri", ambas de autoria de Prncipe Pretinho. O casamento com Herivelto ocorreria nesse mesmo ano e duraria dez anos. Na poca em que gravaram o disco, Dalva estava esperando seu primeiro filho. O pblico escrevia pedindo que, se fosse um menino, eles o batizassem de Pery, e, se fosse menina, Ceci. Foi o que aconteceu: Dalva deu  luz o futuro cantor Pery Ribeiro, uma das personalidades reveladas com a Bossa Nova, ao final dos anos 1950.
Os maiores sucessos do Trio de Ouro foram os sambas "Praa Onze", de Herivelto Martins e Grande Otelo, e "Ave-Maria no morro", de Herivelto. A separao do casal, contudo, ocorreria em meio a uma tumultuada troca de acusaes muito explorada pela imprensa. O trio ainda se manteve por mais dois anos e, quando desfeito, Dalva teve dificuldades para conseguir trabalho, porque muitos empresrios da msica no acreditavam que ela pudesse desenvolver uma carreira solo.

Dalva, no entanto, aceitou ser posta  prova, gravando um disco que, ou seria sucesso ou determinaria o fim de sua carreira. O samba "Tudo acabado" alcanou um tremendo xito de vendagem, mas inaugurou tambm a polmica musical entre ela e Herivelto, ambos usando msicas para se acusarem mutuamente pelo fracasso do casamento. Ao mesmo tempo, Dalva iniciava uma srie de excurses internacionais, sempre muito aplaudida. Mas a consagrao mesmo viria em 1952, quando foi eleita Rainha do Rdio, prestgio que manteve durante toda a dcada de

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1950, quando chegou a ser estrela da cano em cidades como Buenos Aires e Santiago do Chile.
Filha de um pastor protestante, ngela Maria (Maca, RJ, 1928 sonhava com as ondas do rdio desde criana, vivendo no interior do Estado do Rio. Sua famlia rejeitava a carreira artstica, mas, mesmo assim, a cantora venceria no Rio. A  Sapoti (apelido dado a ela pelo presidente Getlio Vargas)  considerada por muitos a cantora
brasileira mais popular dos anos 1950. Na verdade, Angela iniciou a vida como operria tecel, mas a partir de 1947 passou a freqentar programas de calouros. Foi ento que a garota Abelim Maria da Cunha passou a usar o nome de Angela Maria, justamente para no ser descoberta pela famlia.

No ano seguinte, j era crooner no Dancing Avenida, Centro do Rio, onde os compositores Erasmo Silva e Moreira Filho a escutaram cantar, e logo a introduziam na Rdio Mayrink Veiga. Na poca, era bastante influenciada por Dalva de Oliveira, mas a proximidade com compositores como Cyro Monteiro e Othon Russo lhe deu repertrio e estilo prprios. Em muito pouco tempo, viria o primeiro sucesso, o samba "No tenho voc", de Paulo Marques e Ari Monteiro. A popularidade de Angela, com sua voz
forte e clida e sua interpretao ardente - a ponto de, junto com Elis Regina, ser considerada uma das vozes mais puras e versteis da MPB -, foi crescendo, at
que, em 1954, foi eleita Rainha do Rdio. De fato, A estrela do Brasil sempre preferiu apresentar-se diante de grandes platias, pblico ao vivo, que comovia com interpretaes romnticas de alguns dos maiores compositores de nossa msica.
Se Angela Maria comeou imitando Dalva de Oliveira, Cauby Peixoto (RJ, 1930- ) foi lanado em 1954 como uma rplica masculina de Angela. Muito amigos, ambos fizeram at o ano 2000 gravaes em dupla, sendo que Cauby exibe sempre uma surpreendente vitalidade vocal.

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Angela Maria na foto de Diler em 1956.
Museu da Imagem e do Som, RJ
Filho de um violonista conhecido como Cadete, sobrinho do famoso Non (Romualdo Peixoto), grande pianista, que popularizou na dcada de 1930 o samba naquele instrumento, e sobrinho de Cyro Monteiro, seus irmos tambm se destacaram na rea artstica: Moacyr Peixoto como pianista, Arakn Peixoto como trompetista e Andyara como cantora.
Depois de vrias participaes em programas de calouros, passou a atuar como crooner de boates no Rio de Janeiro e, em 1951, gravou seu primeiro disco com msicas de carnaval.
Pela facilidade de interpretar canes em ingls, Cauby comeou a desenvolver aos poucos uma estratgia de marketing da qual fazia parte a maneira de se trajar,
o repertrio e atitudes nos palcos. Em 1954, veio seu primeiro grande sucesso: "Blue gardenia", verso brasileira do sucesso interpretado pelo cantor norte-americano Nat King Cole e a cano ttulo de um clebre filme de Hollywood. Km pouco tempo o cantor se transformou em dolo do rdio e entrava para o cast da Rdio Nacional, sendo aclamado como o substituto do fenmeno Orlando Silva, de 20 anos antes - so antolgicas as
histrias em que Cauby, perseguido pelas fs em qualquer lugar onde estivesse, chegava a ter suas roupas rasgadas pelas admiradoras mais afoitas. Em 1956, Cauby
lanou o grande sucesso do ano e sua interpretao mais famosa: o samba-cano "Conceio", de Jair Amorim e Dunga.

Depois de tentar uma carreira sem grande destaque nos EUA, abriu a

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Cauby Peixoto
Rogrio Soares / Folha Imagem 

boate Drink, com os irmos Moacyr, Arakn e Andyara, apresentando-se em seu palco por quatro anos. Ali, em 1968, chegou a gravar um LP (ao vivo) com a amiga e cantora Leny Eversong. Nos anos 1970 continuou fazendo shows em boates, mas viveu certo ostracismo, apesar de ter vencido, em 1970, o Festival de San Remo (Itlia) com  a cano "Zngara", de R. Alberteli, com verso de Nazareno de Brito.

Em 1980, sua carreira foi revitalizada com a gravao de "Bastidores", de Chico Buarque, e "Loucura" (de Joanna e Sarah Benchimol), ambas faixas do LP Cauby! Cauby!, que comemorou seus 25 anos de carreira. A partir de ento, voltou a receber convites para se apresentar em palcos de maior prestgio, sendo homenageado por diversos compositores importantes da MPB, muitos dos quais fizeram msicas especialmente para ele.
Mineiro da regio das estncias hidrominerais, no Sul do Estado, Ivon Curi (MG, 1928 - RJ, 1995) teve oito irmos, entre eles os locutores da Rdio Nacional Alberto e Jorge Curi. Aos 11 anos de idade, ainda em Caxambu, ganhou um concurso de calouros onde interpretou "J'attendrai", msica que fez grande sucesso na voz de seu maior dolo, Jean Sablon.
Ivon iniciou sua carreira profissional como cantor em 1947, j residindo no Rio de Janeiro, onde foi contratado como crooner da orquestra do maestro Zaccarias, do
Hotel Copacabana Palace, com a indicao dos cantores Nuno Roland e Elda Maida. A seguir, foi convidado por Braguinha, ento diretor artstico da Continental,

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para gravar o sucesso internacional da poca "Nature boy", num disco que incluiu tambm sua interpretao para "Adeus", samba de Dorival Caymmi. Logo depois, gravou "Pigalle" e "La vie en rose", sucesso da musa da Chanson Franaise, Edith Piaf, o que lhe valeria o ttulo de Chansonnier do Brasil.
Pouco depois, o encontramos ao lado de Carmlia Alves, gravando o baio "Me leva", de Herv Cordovil e Rochinha, pela Continental, e o maxixe "Nego, meu amor", ao lado de Marlene. Apesar do sucesso que estas gravaes obtiveram, Ivon tornou-se definitivamente conhecido por suas interpretaes de canes francesas, que o marcaram em toda a carreira. Sua primeira composio de grande sucesso foi "T fartando coisa em mim", em parceria com Humberto Teixeira. Sempre se revezando entre gravaes de msica francesa e brasileira, Ivon entraria nos anos 1950 com o samba-cano "Obrigado", de sua autoria, outro sucesso que lhe permitiria uma maior desenvoltura na interpretao.
Atuou como cantor e, sobretudo, como ator em doze filmes, explorando sempre sua veia cmica e fazendo dupla com grandes atores da chanchada. Cantor de muita popularidade, foi um dos artistas que mais recebia cartas de fs na Rdio Nacional, cerca de quatro mil mensais, sendo superado somente por Emilinha Borba e Marlene. Alm disso alcanou uma bela trajetria no exterior, exibindo-se com timas crticas em temporadas sucessivas em Portugal.
No encarte do disco Meus melhores momentos, escreveria, aos 29 anos: "No sou propriamente um autor ou compositor (...), apenas transporto para o papel e para as notas meu estado d'alma". De fato, sua carreira foi marcada inicialmente por um estilo romntico, at que, anos depois, passou a atuar em seus shows cantando, contando piadas e adotando o estilo chamado de one-man-show. Seu repertrio tambm mudou, passando a cantar msicas nordestinas de teor humorstico. Sua ltima gravao foi
em 1995, no disco


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Joo Batista do Vale, um tributo ao compositor Joo do Vale, na faixa "Forr do belisco".
Outros artistas - de popularidade mais discreta - integram o grande olimpo dos anos 1950, quase to fortes e sedutores como os anos 1930... Nesse rol temos Gordurinha, radialista, cantor e compositor, autor de "Chiclete com banana" e "Baiano burro nasce morto", entre outros sucessos; Ademilde Fonseca, que estreou em disco com grande
xito, interpretando "Tico-tico no fub" - a primeira vez que o samba de Zequinha de Abreu era gravado com a letra de Eurico Barreiros; o cearense Francisco Carlos,
apelidado de El Broto, que chegou a ter as roupas rasgadas pelas fs - um atestado ritualstico de popularidade inaugurado por Orlando Silva. Registramos ainda Zez
Gonzaga e Lenita Bruno (as cantoras preferidas dos grandes maestros da Nacional PRE-8, como Radams, Lrio Panicalli e Lo Peracci), Jorge Goulart, Nuno Roland, Paulo Tapajs e Albertinho Fortuna (trio de cantores que participava dos melhores programas noturnos da PRE-8). E cartazes de So Paulo, que faziam programas no Rio com certa assiduidade, como Isaurinha Garcia, A Personalssima, e Hebe Camargo. Temos ainda Carminha Mascarenhas (que teria grandes momentos na fase musical seguinte, a Bossa Nova), Ellen de Lima, Violeta Cavalcanti e Vera Lcia (que chegou a ser eleita Rainha do Rdio) - as quatro especialistas na difcil arte de cantar tudo, do samba ao bolero. Especialista nos sambas-canes foi a estilista Carmem Costa, apesar de ter conquistado xito em muitos carnavais.
Um registro todo especial deve ser feito tambm para os mais destacados grupos vocais da poca: Anjos do Inferno, Os Cariocas, Demnios da Garoa e Titulares do Ritmo, este integrado por cegos.
Os Anjos do Inferno tiveram seu auge de popularidade na dcada de 1940. Seu primeiro grande sucesso foi "Bahia, oi!... Bahia!", apresentado no Cassino da Urca. Nessa poca, o sexteto tinha Oto

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Alves Brito como crooner, os violonistas Moacir Bittencourt e Felipe Brasil, Alberto Paz, no pandeiro, Alusio Ferreira, no violo-tenor, e Harry Vasco de Almeida,
no pistom nasal. Os Anjos do Inferno emplacaram vrios sucessos em sucessivos carnavais, com gravaes antolgicas como "Brasil pandeiro", de Assis Valente, "Voc
j foi  Bahia?" e "Requebre que eu dou um doce", de Dorival Caymmi. J com outra formao, que incluiria o cantor Miltinho (que faria uma brilhante carreira solo posteriormente), o conjunto viajou pelos EUA, numa longa turn com Carmen Miranda. O conjunto se desfez em 1953.

Os Cariocas foi um conjunto vocal formado no Rio de Janeiro, em 1942, pelos irmos Ismael Neto e Severino Filho. Assumiram este nome, entretanto, em 1946, quando
se profissionalizaram e foram contratados pela Rdio Nacional, onde permaneceram por vinte anos. Nessa poca, justamente a de maior popularidade, participavam do
conjunto Badeco, Severino Filho, Ismael Neto, Valdir e Quartera. Ismael Neto seria parceiro de Antonio Maria em composies como "Cano da volta", gravada por Dolores Duran, e "Valsa de uma cidade", gravada pelo conjunto. O grupo teria ainda outra fase brilhante, a partir do incio da dcada de I960, j com um repertrio prioritariamente voltado para a Bossa Nova, da qual, alis, se fizeram astros de primeira grandeza.

J o conjunto Demnios da Garoa foi formado em So Paulo, em 1953. Em 1949, interpretaram o tema folclrico "Mulher rendeira", no filme de Lima Barreto, O cangaceiro.
Ento, ainda mantinham a formao original, com Francisco Paula Galo, no tam-tam, Artur Bernardo, violo, Arnaldo Rosa, ritmo e voz, Antonio Gomes Neto, o Toninho, no violo-tenor, e Antonio Gomes Neto, no pandeiro. Em 1951, o conjunto foi campeo absoluto do carnaval com o "Joga a chave" (Adoniran Barbosa e Osvaldo Molles).
Interpretando composies de Adoniran Barbosa, que destacavam o linguajar popular, repleto de grias e irreverente em relao  gra-
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mtica ortodoxa, o conjunto encontraria a sua marca registrada, sempre com muito xito junto ao pblico. Curioso  que, em sua edio de 1994, o Guiness registrava
o conjunto como o mais antigo do mundo em atividade, embora, como muitos do gnero, tivesse passado por diversas formaes.
Foi deixado para o final deste bloco o nome que significou o epicentro do rdio de qualidade dos anos 1950, Henrique Foris Domingues (RJ, 1908 - 1980). Cantor, compositor, pesquisador da msica e da cultura popular brasileiras, a maior patente do rdio - Almirante, como era respeitosamente chamado por seus amigos e admiradores, sempre foi figura de personalidade pontual e contagiante. Em 1929, formou com Noel Rosa, Joo de Barro, Alvinho (lvaro Miranda) e Henrique Brito, o histrico Bando de Tangars, justamente na estria do conjunto em disco, com a embolada de sua autoria, "Galo garniz". O apelido, no entanto, remontava a um perodo anterior em
sua vida, quando, alistado na reserva naval, aparecia todo duro e engomado diante de seus amigos de bomia, em Vila Isabel, com seu uniforme de ordenana. Tinha
ento 18 anos e conta-se que, ao passar de carro com o comandante, ia no banco de trs. Na rua, perguntavam: "Quem  o da frente?" "E o comandante." "E esse a atrs?"
"Ah, esse deve ser o Almirante!"
O primeiro sucesso veio no incio de 1930, com "Na Pavuna", de Almirante e Homero Dornelas, o primeiro samba a utilizar vrios instrumentos de percusso em disco,
a hoje clebre batucada. O conjunto vinha reforado na gravao por Carolina Cardoso de Meneses (piano), Luperce Miranda (bandolim), e tamborins, pandeiros, surdo
e cucas, tocados por Canuto, Andara e outros. Foi um sucesso retumbante - "Na Pavuna" tomou conta do carnaval daquele ano.

O Bando de Tangars desfez-se dois anos depois. Almirante, no entanto, iniciou uma carreira solo, vencendo diversos carnavais

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Os Demnios da Garoa. Sexteto organizado em So Paulo por Paulo Galo.
Arquivo Cedoc /Funarte

com grandes clssicos como o samba "O orvalho vem caindo", de Noel Rosa e Kid Pepe, parcerias em shows com nomes como Francisco Alves, Carmen Miranda, Lamartine
Babo e Noel Rosa, e vitoriosas excurses pelos estados brasileiros, alm,  claro, da participao em filmes musicais.

J em 1932, desfrutava de prestgio suficiente para conseguir para o amigo Noel Rosa um emprego na Rdio Club do Brasil, num programa bastante ousado: Como se as peras clebres do mundo houvessem nascido aqui no Rio, parodiando obras de Verdi e Pucini, entre outros. Almirante inventou o Poeta da Vila como libretista das pardias. Da  nasceram as operetas O barbeiro de Niteri, Ladro de galinha e a originalssima A noiva do condutor, obra inteiramente escrita por Noel Rosa, que dividiu a maioria das melodias com o maestro hngaro Arnold Gluckmann, tambm contratado da emissora. At o final da vida, Almirante acalentou o sonho de levar ao disco essa obra indita de Noel Rosa. Isso s aconteceria em 1985, cinco anos aps sua morte, em gravao registrada pelos atores-cantores Marlia Pra e Grande
Otelo e o conjunto Coisas Nossas.

Em 1938, Almirante estreou no rdio o seu programa inicial, Curiosidades musicais. Foi o primeiro a utilizar a montagem no

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Almirante, sentado em uma das mesas
da calada do
Caf Nice.
Arquivo da Editora

Brasil. Almirante deixaria de lado a carreira de cantor para se dedicar exclusivamente ao rdio, criando programas antolgicos como, entre outros, Caixa de perguntas,
Programa de reclamaes, Orquestra de gaitas, A Cano antiga, Histria do Rio da msica, Aquarela do Brasil, e depois o imortal Incrvel! Fantstico! Extraordinrio!.
Mais tarde vieram tambm O pessoal da velha guarda, No tempo de Noel Rosa (j o caracterizando como um defensor da msica brasileira mais autntica) e Recolhendo o folclore. Nessa militncia to persistente, e por sua iniciativa, foi criado o Dia da Velha Guarda - 23 de abril, aniversrio de Pixinguinha -, culminando uma campanha que buscava resgatar os antigos msicos, cantores e compositores. Neste mesmo ano de 1954, organizou, em   da calada do So Paulo, o Festival da Velha Guarda, repetido no ano seguinte, e graas aos quais ressurgiram grandes nomes da msica popular como Ismael Silva, Donga, Joo da Baiana, Russo do Pandeiro e vrios outros. Logo seria formado o Grupo da Velha Guarda (Pixinguinha, Donga, Joo da Baiana e outros), com o qual Zilco Ribeiro, um dos reis da noite do Rio de Janeiro, montou na Boate Casablanca o espetculo O samba nasce no corao, frase tirada de "Feitio de orao", samba de Noel Rosa com Vadico.
Almirante foi um enciclopedista, grande estudioso da Msica Popular Brasileira - publicou em 1963 No tempo de Noel Rosa, importante contribuio  histria de nossa msica popular. Ao longo da vida, organizou um arquivo com milhares de partituras de piano, alm de livros, fichrios, classificadores, contendo informaes importantes sobre a vida e a obra de nossos maiores compositores e intrpretes. Este arquivo foi uma das bases do acervo de fundao do Museu da Imagem e do Som do Rio de Janeiro,
em 1965, do qual Almirante foi no apenas colaborador, mas tambm integrante do Conselho Superior da MPB, criado no MIS para escolher

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os que iriam prestar os futuramente histricos depoimentos para a posteridade (a partir de 1966), bem como escolher os prmios Golfinho de Ouro e Estcio de S,
criados pelo Museu para animar a vida cultural do Rio.

Uma poca de grandes msicos

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Outra  das caractersticas marcantes dos anos 1940 e 1950 foi a consolidao de instrumentistas que trilharam um caminho todo prprio, mpar na MPB de at ento,
e que consolidou o refinamento meldico de nosso cancioneiro, indispensvel para os vos futuros da nossa msica. E para mencion-los, no se poderia deixar de iniciar por um outro enciclopedista: Jacob do Bandolim.
Jacob do Bandolim (RJ, 1918 - RJ, 1969), instrumentista, compositor, pesquisador, encontrou o instrumento de sua vida de um modo, no mnimo, curioso. Quando criana, tocava gaita, passando depois para o violino. S que no conseguiu se adaptar ao uso do arco, e ento passou a toc-lo com o auxlio de grampos de cabelo. Uma amiga de sua me lhe explicou que havia um instrumento prprio para esse tipo de execuo. Foi assim que ele descobriu o bandolim.
Durante toda a dcada de 1930, Jacob se dividiu entre a msica e diversos trabalhos: foi vendedor, prtico de farmcia, corretor de seguros, comerciante e escrivo de polcia, cargo que ocupou at morrer. Por no depender financeiramente da msica, pde tocar e compor com mais liberdade, sem sofrer presses de gravadoras ou editoras.
Sua primeira grande chance ocorreu em 1934, quando o flautista Benedito Lacerda o convidou a participar do Programa dos novos - Grande concurso dos novos artistas, da Rdio Guanabara. Jacob solou o choro  "Segura ele", de Pixinguinha, acompanhado pelos vio-
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Jacob do Bandolim, 1953.
_Folha Imagem

lonistas Lentine e Lus Bittencourt, Canhoto ao cavaquinho e Russo no pandeiro. O conjunto recebeu nota mxima do jri, formado por grandes
nomes como Orestes Barbosa, Francisco Alves, Benedito Lacerda, Cristvo de Alencar e Frazo, conquistando o primeiro lugar em meio a vinte e sete concorrentes.
Desde ento, tomaram parte nos programas da Rdio Guanabara, revezando com o conjunto de Benedito Lacerda.

O intrprete Jacob possua no s estilo, fraseado, toque extremamente personalizado, mas um vasto repertrio que em um caderno de notas sob o ttulo de repertrio trivial contava com 329 ttulos. Instrumentista extremamente exigente e perfeccionista,  firmou-se na msica por meio de suas apresentaes no rdio. Tocou nas mais importantes emissoras da poca,  e j em 1936 apresentava ao pblico uma cantora estreante com quem iria dividir o palco algumas vezes na vida - Elizeth Cardoso.
Em 1942, abria com seu bandolim a clebre gravao original de "Amlia", de Ataulfo Alves e Mrio Lago, e em 1947 participou da gravao de "Marina", de Dorival
Caymmi, feita por Nelson Gonalves. O caso  que seu nome raramente aparecia nas muitas e importantes gravaes que fez. Mas, aparentemente, este instrumentista, que tinha como prazer maior estudar msica, apurar sua tcnica e tocar para os amigos, no se importava com isso. Quem conhecia mais de perto seu trabalho,

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podia v-lo pesquisando e resgatando o incrvel e esquecido repertrio dos chores - graas a Jacob, muita coisa daquela poca no se perdeu de vez para nossa msica.
Desse modo, quando foi contratado pela Rdio Nacional como produtor musical de vrios programas, inclusive o Disco de ouro, trouxe para a emissora um raro repertrio de obras ento desconhecidas para o pblico. Essa seria sempre uma preocupao de Jacob, tanto que, em 1955, pensando no futuro do choro, organizou a Noite de choristas,
realizada pela TV Record de So Paulo, evento no qual participaram 133 instrumentistas.

Apenas em 1947 gravou seu primeiro disco, registrando o choro "Treme-treme", de sua autoria, e a valsa "Glria", de Bonfglio de Oliveira. Nesse disco, ajudou a
consolidar o bandolim, at ento apenas usado em acompanhamentos, como instrumento de solos. O sucesso que obteve fez ressurgir o interesse pelo instrumento por parte das gravadoras. Em seu ltimo disco na Continental registrou o choro "Cabuloso", de Ernesto Nazareth, e a polca "Flor amorosa", de Joaquim Callado. E parece mesmo no haver dvida de que composies suas, como "Noites cariocas", "Doce de coco", "Assanhado", "Treme-treme" e "Vibraes", tornaram-se verdadeiros clssicos do repertrio de choro. Mas o evento musical mais marcante de sua carreira foi a composio "Retratos" (1957-1958), sute de Radams Gnattali escrita especialmente para Jacob. Composta de quatro movimentos dedicados e inspirados em temas de Pixinguinha, Chiquinha Gonzaga, Anacleto de Medeiros e Ernesto Nazareth, a obra foi
originalmente composta para bandolim, orquestra de cordas e conjunto regional. A primeira audio pblica da sute foi realizada em 1964, no saguo do Museu Nacional de Belas-Artes, com a orquestra e msicos da CBS tendo como solista o prprio Jacob. Interpretar a sute "Retratos" foi um verdadeiro desafio para o msico, de resto aclamado em todas as apresentaes.

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Um ano antes de sua morte, participou ainda, com Elizeth Cardoso, Zimbo Trio e o Conjunto poca de Ouro de um show memorvel no Teatro Joo Caetano, promovido pelo Museu da Imagem e do Som, gravado ao vivo e lanado em dois LPs pelo prprio MIS, que acolheu tambm seu precioso acervo, vendido pela famlia ao Museu depois de sua morte.

O clarinetista, saxofonista e compositor Abel Ferreira (MG, 1915 - RJ, 1980) comeou  a tocar clarineta em sua cidade natal, por volta dos 12 anos de idade, e em
1942 faria as primeiras gravaes de composies suas, o antolgico "Chorando baixinho" (choro) e "Vnia" (valsa). Logo a seguir, transferiu-se para o Rio de Janeiro,
integrando a orquestra de Ferreira Filho, no Cassino da Urca. Alguns anos depois, j estava acompanhando importantes cantores como Francisco Alves, Orlando Silva, Slvio Caldas, Augusto Calheiros, Marlene e Emilinha Borba. A entrada para a Rdio Nacional, com todo o status que isso significava na poca, ocorreu em 1949, apresentando-se como lder da Turma do Sereno.
O sucesso o carregou para uma srie de turns no Brasil e no exterior. Na dcada de 1970, acompanhava diversos cantores e msicos em gravaes e shows, mas foi com a redescoberta do choro e a criao do Clube do Choro, no Rio de Janeiro, em meados de 1975, que voltou solidamente  atividade. Essa fase teve seu clmax em 1979, quando participou com o pianista Arthur Moreira Lima, o conjunto poca de Ouro e o trombonista Raul de Barros de um show histrico no teatro do Hotel Nacional, no Rio de Janeiro, depois lanado em disco.
Abel possua um estilo peculiar de tocar clarineta e saxofone, muitas vezes valendo-se do improviso. Por isso, ficou conhecido como um dos criadores da escola brasileira
de sopro, que teria tambm entre seus formadores nomes consagrados como Pixinguinha e o saxofonista Lus Americano.

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2Rio de Janeiro,
MEC/FUNARTE, 1985.

Radams Gnattali (RS, 1906 - RJ, 1980) foi uma figura musical mltipla. Compositor, arranjador, regente, pianista, violinista, violista, violonista, cavaquinista e professor de msica, quele a quem muitas de nossas composies devem a forma musical que mais e mais as realou, conduzindo-as ao sucesso. Radams foi o primognito de uma pianista gacha descendente de italianos, Adlia Fossati Gnattali, e de um imigrante italiano radicado em Porto Alegre, Alessandra Gnattali, marceneiro de profisso, apaixonado pela msica, principalmente pela pera, que deram os nomes dos trs primeiros filhos do casal (Radams, Ada e Ernni), os mesmos de personagens de peras de Verdi, demonstrando a paixo que ambos nutriam pelo gnero.

Em Radams Gnattali: o  eterno experimentador, biografia escrita por Valdinha Barbosa e Anne Marie Devos', Radams conta um episdio de sua infncia, em Porto Alegre:
"Apareceu l uma 'trupezinha'. Um teatro mambembe. Tinha um pianinho, um violino, uns cinco ou seis instrumentos. E eu fiz os arranjozinhos, e dirigi a orquestra.
Dirigi nada... Palhaada." Palhaada ou no, aos 14 anos entrou para o Conservatrio de Porto Alegre, para estudar piano, ingressando j no 5U ano. Aprimorou-se tambm no violino, estudando ao mesmo tempo solfejo e teoria musical. Nessa poca, j freqentava blocos de carnaval e grupos de seresteiros bomios. Como no podia levar o piano, nessas ocasies, passou a tocar violo e cavaquinho.

Por isso tudo, Radams sempre foi um erudito para os instrumentistas e compositores das dcadas do incio do sculo XX em nossa msica, autodidatas e analfabetos.
No entanto, Radams foi um apaixonado pela msica popular, unindo as duas vertentes - at se formar no conservatrio, estudava para ser concertista, e, por necessidades financeiras, tocava em bailes e com a Jazz Band Colombo, fazendo as trilhas dos filmes mudos exibidos no Cine Colombo.

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O maestro gacho Radams Gnattali. Arquivo Cedoc /Funarte



Com apenas 18 anos, ele estaria se apresentando no Teatro Municipal, onde foi solista do Concerto n 1 para piano e orquestra, de Tchaikovski, sob a regncia de Francisco Braga. Vrios jornais destacaram sua triunfal atuao. Nessa sua primeira estada no Rio de Janeiro, ficou conhecendo o compositor Ernesto Nazareth, a quem costumava ouvir do lado de fora do cinema Odeon - e so realmente deliciosas as proximidades entre as biografias de ambos; Nazareth, entretanto, foi to-somente amante da msica clssica, dedicando-se a contragosto ao popular, por pura sobrevivncia.

O fato  que Radams, membro da Academia Brasileira de Msica e da Academia de Msica Popular Brasileira, transcendeu preconceitos e o tradicional distanciamento entre a msica erudita e a popular. Sua  participao nas duas reas o colocam como uma figura emblemtica da msica brasileira como um todo. De fato, Radams viveu no incio dos anos 1930 a expectativa da realizao de um concurso para professor do Instituto Nacional de Msica, prometido por Getlio Vargas. Como o concurso nunca foi realiza-
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do, Radams mudou seus planos de vida, abraando de vez a msica popular e radicando-se definitivamente no Rio de Janeiro.

Em pouco tempo, j atuava em grandes orquestras, como orquestrador da gravadora  Victor, e dois anos depois participava da inaugurao da Rdio Nacional, na qual  trabalhou como pianista, solista, maestro, compositor, arranjador, usando toda a sua experincia no trato com a msica popular. Permaneceu na Rdio Nacional por 30 anos e criou arranjos fundamentais para vrios sucessos da msica popular brasileira, como o da valsa "Lbios que beijei", de J. Cascata e Leonel Azevedo, gravado por Orlando Silva. Radams, inspirado pelo amigo e baterista Luciano Perrone, comeou a mudar o estilo de orquestrar para a msica popular no Brasil, principalmente gneros como os sambas e marchinhas de carnaval. Seu arranjo para a marchinha "A Jardineira", de Benedito Lacerda, gravada por Orlando Silva, inaugurou a utilizao de trs saxofones e flauta, fato indito at ento. J o arranjo para "Aquarela do Brasil", de Ary Barroso, em 1939, gravado por Francisco Alves, provocou grande impacto, com a utilizao dos metais e instrumentos de palheta com funes incomuns at ento. O tratamento dado  introduo incorporou-se de tal maneira  msica
de Ary Barroso que, repetido ainda hoje,  impossvel dissoci-la da msica e de seu sucesso nacional e internacional.

Em 1943, criou a Orquestra Brasileira de Radams Gnattali, que tocava seus prprios arranjos no programa Um milho de melodias, dando um colorido brasileiro aos
sucessos estrangeiros. Para isso, Radams passou a usar os instrumentos da orquestra de forma percussiva, conseguindo efeitos at ento inditos. O programa foi tambm o primeiro a prestar homenagens a compositores como Ernesto Nazareth, Chiquinha Gonzaga e Zequinha de Abreu.
Sua atuao no rdio no impediu que continuasse com as carreiras de pianista, concertista e compositor, compondo concertos e

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peas sinfnicas executados ao redor do mundo. J nos anos I960, era contratado pela TV Globo, na qual trabalhou durante 11 anos como arranjador, compositor e regente.
Foi pea fundamental no movimento de redescoberta do choro ocorrido na dcada de 1970, atuando como incentivador e mestre de jovens instrumentistas como Raphael Rabello, Joel Nascimento, Henrique Cazes, Maurcio Carrilho, e estimulando releituras de Chiquinha Gonzaga, Ernesto Nazareth e outros mestres do choro.
Para muitos de ns, uma imagem que guardamos com imenso afeto  a de Altamiro Carrilho (RJ, 1924 -), soprando enfaticamente a flauta e dirigindo sua Bandinha. Instrumentista
e compositor, Altamiro logo formou conjunto prprio e, em 1952, teve um programa na TV Tupi, em horrio nobre, consagrado no Brasil inteiro. No   toa que ele  considerado uma lenda viva do choro, tendo se apresentado em mais de 48 pases, sempre com absoluto sucesso.
Na dcada de 1970, com a redescoberta do choro, tornou-se um dos flautistas mais requisitados, como solista e como acompanhante em gravaes de choro e samba tradicional.
Mas Altamiro Carrilho tambm era um instrumentista de formao erudita, tanto que, em 1972, tocou no Teatro Municipal o Concerto em Sol, de Mozart, mais tarde apresentado na Alemanha, com extraordinrio xito. Visitando os maiores clssicos de nossa msica popular, ele gravou, ao todo, mais de 70 discos e comps cerca de duzentas msicas nos mais variados ritmos e estilos.

 impossvel sonhar com os Anos Dourados, a dcada de 1950, sem imaginar a cena de um baile, ao som da Orquestra Tabajara, de Severino Arajo (PE, 1917 -) Regente, instrumentista, clarinetista, compositor, seu pai era professor de msica e regente da banda local. Alm de Severino, os irmos tambm tornaram-se msicos, todos sendo integrantes mais tarde da Orquestra Tabajara, Manuel como trombonista, Plnio como baterista, Jos, mais tarde

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conhecido como Z Bodega, seria sax-tenor, e o mais novo, Jaime, seria o primeiro saxofone.

Severino j era um clarinetista famoso no Nordeste, quando, em 1937, o governo da Paraba faz uma srie de contrataes para a recm-inaugurada PRI-4, a emissora
oficial, inclusive uma orquestra inteira, a Tabajara. A convite do maestro Luna Freire ele foi chamado para a orquestra, como primeiro-clarinetista. Em 1938, o regente
e pianista Luna Freire faleceu repentinamente e a direo da rdio convidou Severino Arajo para assumir a orquestra, impondo logo o seu estilo, reforando os metais com a contratao de mais um trombone, um saxofone e um trompete, e mais tarde, com quatro elementos no ritmo.
Em 1944, embarcava para o Rio de Janeiro, indo trabalhar no Cassino Copacabana e na Rdio Tupi. Gravou seus primeiros discos ainda naquele ano, mas a popularidade
chegou graas a uma apresentao sua na Rdio Tupi, com a Orquestra Marajoara. Era o choro "Chorinho em aldeia", antiga composio sua, com uma magistral interpretao  de seu clarinete. A transmisso ocorreu num domingo e, j na segunda-feira, inmeros telefonemas pediam para que a rdio reprisasse o nmero, gravado em acetato. 
A Orquestra Tabajara chegou ao Rio de Janeiro no ano seguinte, contratada pela Rdio Tupi. E a partir da, tanto com sucessos de sua autoria, como os clssicos da  MPB, "Espinha de bacalhau" e "Molengo", como interpretando "Brejeiro", choro de Ernesto Nazareth, "Sonoroso", de K. Ximbinho, ou a marcha "Cidade maravilhosa", hino  do carnaval carioca e do prprio Rio de Janeiro, composto por Andr Filho. Foi um sucesso atrs do outro, inclusive com bem-sucedidas turns pelo exterior, onde se ressalta at mesmo uma temporada ininterrupta de um ano em Paris, nos anos 1950. Ao incio da dcada de 1960, acompanhando as tendncias da poca, a orquestra  era contratada pela TV Rio e, anos depois, 
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ao terminar o contrato com a tev, Arajo resolveu aposentar-se, aps 35 anos de trabalho. Mas a aposentadoria no foi definitiva, graas a Deus. Ele prosseguiria fazendo bailes e shows, como os da Fundio Progresso, no Rio. De mais a mais, uma das maiores paixes, at hoje, do carioca que gosta de danar ritmos de salo  passar uma hora embalada no clima mais romntico que se possa idealizar: deixar-se levar pela magia da Tabajara.
Os anos 1940 e 1950 ainda nos trariam personagens de fama mais discreta, mas muito interessantes, como o pianista Ribamar (RJ, 1919 - RJ, 1987), constante figura da noite e parceiro de Dolores Duran, a quem Marisa Gata Mansa entregou os poemas da cantora recm-falecida, para serem musicados. Ou, duas dcadas antes, o flautista e compositor Benedito Lacerda, (RJ, 1903 RJ, 1958), um dos msicos mais atuantes e inovadores da msica brasileira, que desempenhou papel fundamental na estruturao do chamado conjunto regional, grupo de formao caracterstica e de atuao marcante no universo da msica popular. O famoso Regional de Benedito Lacerda acompanhou
estrelas como Carmen Miranda, Mrio Reis e Francisco Alves, entre outros, e com os Bomios da cidade apresentou-se com a cantora norte-americana Josephine Baker.
Benedito Lacerda, alm de grande instrumentista, foi compositor de sambas, marchas e choros, gravados por intrpretes do porte de Francisco Alves e Aracy de Almeida.
Por volta de 1940, j ao saxofone, Pixinguinha se fez acompanhar do flautista Benedito Lacerda na gravao de uma srie de choros antolgicos, tais como "1x0", "Ingnuo", "Naquele tempo", "Vou vivendo", e outros. Sua ltima marcha de sucesso, em 1952, foi "Acho-te uma graa", de Haroldo Lobo e Carvalhinho, gravada por Csar de Alencar.
Alis, outro grande nome dos regionais foi Canhoto (RJ, 1908 -), que comeou no regional de Benedito Lacerda, assumindo a liderana do grupo com a sada deste. Foi
denominado Canhoto

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Canhoto e seu Regional. Conjunto de msicos formado pelo cavaquinhista Canhoto e integrado por Benedito Lacerda entre outros.
Arquivo Cedoc /Funarte,
pelo curioso fato de tocar o violo com a mo esquerda, sem inverter as cordas. Diferentemente da tcnica tradicional, o violonista feria as cordas agudas do instrumento com o polegar da mo esquerda e as graves com os dedos anular, mdio e indicador. O Regional do Canhoto atuou na Rdio Mayrink Veiga at 1960, e Canhoto, mestre do cavaquinho, continuou sempre requisitado para acompanhar gravaes de importantes intrpretes de choros e sambas, at ao final da carreira, como a sua bela participao no primeiro LP de Cartola, em 1974.
Outro grande msico foi Dilermano Reis (SP, 1916 - RJ, 1977) que, vindo para o Rio de Janeiro, comeou a ganhar a vida ensinando violo em casas de msica da poca (incio dos anos 1930), como A guitarra de Prata e o Bandolim de Ouro, na rua da Carioca. Um dos mais importantes violonistas brasileiros, atuou como instrumentista, professor de violo, compositor, arranjador, tendo deixado uma obra vultosa, verstil, composta de guarnias, boleros, toadas, maxixes, sambas-cano e principalmente valsas e choros.

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Carolina Cardoso de Meneses (RJ, 1916 - RJ, 2000) era descendente de um cl de grandes pianistas que deixaram sua marca na histria da MPB e chegou inclusive a ter
aulas com Chiquinha Gonzaga. Formou-se pelo Instituto Nacional de Msica, INM, em teoria e solfejo, tendo posteriormente estudado harmonia com Newton Pdua, seu primo. Uma das instrumentistas mais atuantes no desenvolvimento do rdio e da indstria fonogrfica brasileira, memria viva dessa poca, acompanhou inmeros cantores em programas radiofnicos e gravaes. Gravou ainda muitas de suas prprias composies e teve fundamental importncia na transposio do choro para o piano, interpretando Ernesto Nazareth, Zequinha de Abreu, Pixinguinha e outros. Carolina tambm registrou em discos gneros estrangeiros, chegando a compor foxes e at mesmo um rock, do qual foi precursora no Brasil, ao final de dcada de 1950.
Uma das histrias que envolvem a pianista ocorreu na histrica gravao do samba "Na Pavuna", de Almirante e Homero Dornelas, conforme registrado por Srgio Cabral em seu livro No tempo de Almirante.
Almirante, que alm de ter criado a letra da segunda parte e as trs batidas que se seguem ao coro de "Na Pavuna" (certamente o gimmick da msica), improvisou durante a gravao, chamando o ritmo com o grito "escola" e introduzindo um breque: "Ol seu Nicolu, quer mingau?", ganhando, em troca, uma resposta bem-humorada de Carolina
Cardoso de Menezes ao piano. Carolina, por sinal, comea tocando a introduo e no tira mais a mo do piano, at o finai da gravao.
Em 1955, participou do II Festival da Velha Guarda, na Rdio Record paulista, organizado por Almirante, ao lado de J. Cascata, Donga, Joo da Baiana, Dilermando Reis, Radams Gnattali,

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Gilberto Alves, entre outros. A partir dos anos 1970, diminuiu suas atividades artsticas. No final da vida, residindo modestamente no bairro do Mier, Zona Norte Carioca, apesar da idade avanada e de problemas de sade, ainda recebia com prazer convites para recitais.

Vadico (Oswaldo de Almeida Gogliano, SP, 1910 - RJ, 1962) comeou a trilhar o reconhecimento pblico quando seu samba "Arranjei outra" foi gravado por Francisco Alves, em 1930. Sempre preocupado em aperfeioar seu conhecimento no piano, logo transferiu-se para o Rio de Janeiro.
A fecunda parceria com Noel Rosa ocorreria a partir de 1932, quando foram apresentados por Eduardo Souto - a primeira composio da dupla foi o clssico "Feitio de orao", gravado por Francisco Alves. Logo viriam "Feitio da Vila", "Provei", "Quantos beijos", "S pode ser voc", "Conversa de botequim", "Cem mil-ris" e muitos outros, nas quais Vadico fez inicialmente a melodia e Noel colocou a letra. No caso de "Mais um samba popular", Vadico comps a melodia, escreveu o estribilho e colocou o ttulo; Noel modificou o estribilho e escreveu os versos da segunda parte.
Em 1939, embarcou para os Estados Unidos com a Orquestra Romeu Silva, para tocar no Pavilho Brasileiro da Feira Mundial de Nova York, mas acabou permanecendo por l e trabalhando como pianista de Carmen Miranda e o Bando da Lua. Vadico participou de vrios filmes, dentre os quais, Uma noite no Rio (That night in Rio, de Irving Cummings). Teve uma variada mas discreta carreira nos EUA, e retornou definitivamente ao Brasil em 1954, quando ento voltou a compor, fazendo parcerias com Vincius de Moraes e outros grandes nomes da poca.
Finalmente, apenas para citar mais um dos grandes violonistas do Brasil, h que se registrar o nome do violonista e compositor Luis Bonf (RJ, 1922 - RJ, 2000).
Bonf comeou a tocar

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violo ainda menino, de forma intuitiva. Mais tarde, estudou violo erudito com o maestro uruguaio Isaas Savio, de cuja orquestra fez parte. Interpretando uma pea erudita de Francisco Trrega, classificou-se em 3" lugar em um concurso de violonistas promovido pelo programa Hora do guri, de Tia Chiquinha (Rdio Tupi). Mudando-se para So Paulo, passou a se interessar pela msica popular. Foi levado para a Rdio Nacional em 1946, pelo tambm violonista Garoto (Anibal Augusto Sardinha, SP 1915 - RJ, 1955), com quem tocava no programa Clube da bossa e por meio de quem se familiarizou com a harmonia da Bossa Nova. Mais ou menos dez anos depois, vamos encontr-lo como o violonista da gravao da trilha sonora da pea Orfeu da Conceio, de Vinicius de Moraes. Em 1962, participou do histrico Festival de Bossa Nova, realizado no Carnegie Hall de Nova York. Ao lado da participao em importantes filmes brasileiros, inclusive ligados  corrente do Cinema Novo, desenvolveu bem-sucedida carreira nos EUA onde, na dcada de 1970, atuou com Eumir Deodato, mas j voltado para o repertrio do jazz, gravando vrios discos, com destaque para Introspection, considerado um clssico do violo solo. Constam tambm da relao dos intrpretes internacionais de suas msicas Frank Sinatra, Sarah Vaughan, Tony
Bennett e Julio Iglesias. No Brasil, foi interpretado por Nora Ney ('De  cigarro em cigarro"), ngela Maria ("A chuva caiu"), Agostinho dos Santos ("Manh de Carnaval") e vrios outros artistas.

Oswaldo Gogliano, o Vadico.
Arquivo Cedoc / funarte

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Fora do rdio, no corao dos carnavais
Ao lado dos muitos cantores de samba-cano com alguma influncia do jazz, como Dick Farney, Lcio Alves ou Nora Ney, em que a msica romntica sempre pesou mais forte, tivemos tambm outros, que representaram a mais pura sobrevivncia do samba, nesse perodo em que o gnero mais brasileiro de todos esteve afastado dos holofotes principais e das paradas de sucesso, e que, assim como seus personagens, somente era lembrado por poca do Carnaval. A encontramos Blecaute, Monsueto, Jorge Veiga,
Jair Amorim, Evaldo Gouveia e Geraldo Pereira, alm de Violeta Cavalcanti, a dupla Z e Zilda e o incomparvel estilista Moreira da Silva, O Tal, assim batizado
por Csar Ladeira. Mas Moreira, tambm conhecido como Kid Morengueira,  um caso  parte, pelo sucesso que alcanou no rdio com sua verso do samba de breque.
Blecaute (Otvio Henrique de Oliveira, SP, 1919 - RJ, 1983), o imortal General da Banda, teve uma infncia humilde. rfo de pai e me j aos 6 anos, trabalhou como
engraxate e entregador de jornais. Teve sua estria como cantor em 1933, no programa de calouros A peneira de prata, da Rdio Tupi. Seu primeiro sucesso foi um clssico da chamada msica social, "O pedreiro Valdemar", de Wilson Batista e Roberto Martins, no carnaval de 1949, mas a consagrao definitiva e o apelido vieram com o samba de Tancredo Silva, Stiro de Melo e Jos Alcides, "General da banda", lanado no carnaval do mesmo ano. Alis, a exemplo de muitos sambistas autnticos da poca, Blecaute teve sua carreira quase restrita aos carnavais, nica poca do ano em que a ateno da mdia se voltava para eles. Foi de carnaval em carnaval que
Blecaute emplacou enormes sucessos, at a dcada de 1970.

Outro personagem de grande encanto pessoal foi o cantor, compositor, instrumentista, pintor e ator Monsueto (RJ, 1924 - RJ, 1993). Nascido no Morro do Pinto, com menos de 3 anos ficou r
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Otvio Henrique de Oliveira, o Blecaute.
Arquivo Cedoc / Funarte

fo de me e pai, sendo ento criado pela av e por uma tia. Na adolescncia, trabalhava com biscates e como guardador de carros no Jockey Club. Monsueto, tambm na tradio dos sambistas de raiz, no teve educao formal, era um autodidata da msica. Estudou at o quinto ano primrio e, aos 15 anos, j tocava em baterias de escola de samba. Aos 17, comeou a trabalhar como baterista em bailes de gafieira e cabars. Mais tarde, abriria uma tinturaria, mas continuaria a tocar na noite e a freqentar os pontos de encontro de msicos, principalmente nas redondezas do Teatro Joo Caetano, onde eram eles contratados, na rua mesmo, para pequenas apresentaes.
Sua primeira composio a fazer sucesso foi "Me deixa em paz", com Airton Amorim, que surgiu no carnaval de 1952 na voz de  Linda Batista. Depois disso, teve vrias msicas includas no show Fantasia, fantasias, do Copacabana Palace Hotel. Os sucessos comearam a se suceder a partir da. "A fonte secou", com Tufi Lauar e Marcleo, gravada por Raul Moreno, "Mora na filosofia", com Arnaldo Passos, gravada por Marlene - que inclusive fez a expresso mora (no sentido de percebe, mais tarde aproveitada pela Jovem Guarda: Uma brasa, mora?) entrar para o vocabulrio popular carioca. Mas foi esta apenas a primeira de suas criaes lxicas. Houve ainda Castigai, vou  botar pra jambrar, ziriguidum (esta, aproveitada pela Turma da Malandragem, de Wilson Simonal) e muitas outras. Alis, a qualidade sinttica dos versos de suas letras  at hoje reconhecida como elemento inovador em nossa msica.
Este artista popular to mltiplo foi convidado, no final dos anos 1950, para participar do programa humorstico Noites cariocas, da TV Rio, que contava com enorme audincia. Sempre lanando grias estimulantes, Monsueto fez sucesso na tev. Ele foi ainda um pintor primitivista premiado, tendo recebido a medalha de bronze no Salo Nacional de Belas-Artes do Rio de Janeiro, em 1972.

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Muitos de seus quadros foram valorizados, e sua obra mais conhecida  uma Santa Ceia em que Jesus e seus apstolos so negros. S comeou a ser descoberto pelos
grandes nomes da MPB em meados dos anos 1960, quando ento muitas de suas composies foram regra vadas.

Cantor e compositor, o sambista Jorge Veiga (RJ, 1910 - RJ, 1979) nasceu no subrbio carioca de Engenho de Dentro. Teve infncia de menino pobre, trabalhando como engraxate, vendedor de frutas e pirulitos. J adulto, exercia o ofcio de pintor de paredes quando, ao cantar durante o servio, o proprietrio da casa comercial que Jorge estava pintando percebeu que ele tinha qualidades. Foi o patro que conseguiu que Jorge cantasse num programa da Rdio Educadora do Brasil, oportunidade que deu incio  sua carreira artstica. Comeou imitando Slvio Caldas, um dos intrpretes de maior prestgio na poca, e sua primeira gravao foi a rancheira "Adeus, Joo", fazendo apenas o refro vocal para o acordeonista Antengenes Silva. Por sugesto do violonista Rogrio Guimares e do compositor Heitor Catumbi, mudou seu repertrio e estilo de cantar, passando a interpretar primordialmente sambas malandros e anedticos, alm de sambas de breque.

Em 1942, quando atuava na Rdio Guanabara, conheceu Paulo Gracindo, figura que teve grande importncia na carreira do cantor: "Paulo Gracindo foi a luz que apareceu na minha vida. Me ensinou a cantar sempre sorrindo, para dar mais leveza  interpretao e divertir mais os ouvintes". Logo, alcanava sucesso nacional com o samba "Iracema", de Raul Marques e Otolino Lopes, mantendo sua popularidade por muitos anos. Dentre seus sucessos destacam-se "Rosalina", de Haroldo Lobo e Wilson Batista,
"Pode ser que no seja", de Antnio Almeida e Joo de Barro, e o samba "Eu quero  rosetar!", de Haroldo Lobo e Milton de Oliveira. Nos anos 1950, consagrado como
O caricatu-
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Jorge Veiga. 
Arquivo Cedoc /Funarte

vista do samba, na Rdio Nacional, ficou famoso pela antolgica frmula criada por Floriano Faissal para introduzir suas apresentaes nos programas: "Al, al,
senhores aviadores que cruzam os cus do Brasil, aqui fala Jorge Veiga, da Rdio Nacional do Rio de Janeiro. Estaes do interior,  queiram dar os seus prefixos para
guia de nossas aeronaves".

Depois de lanar "Caf soaite", em 1955, de autoria de Miguel Gustavo, resolveu adotar, com repercusso na imprensa, no rdio e na televiso, a imagem do malandro gr-fino, apresentando-se sempre de smoking. Foram grandes sucessos seus, ainda, o samba "Estatutos da gafieira", de Billy Blanco, e "BigorriIho", de 1964.
Compositor, jornalista, locutor, disc-jquei, Jair Amorim (ES, 1915-SP, 1993) comeou no rdio em Vitria, em 1940, na Rdio Clube do Esprito Santo, na qual produziu vrios programas e lanou-se como locutor de noticirios. Transferiu-se para o Rio de Janeiro logo a seguir onde passou a escrever esporadicamente nas revistas Carioca e Vamos ler.
J na Rdio Clube do Brasil, lia anncios de pomadas, comentava discos (uma novidade na poca) e escrevia crnicas, at porque era freqentador assduo nessa poca das rodas bomias, junto com o Jos Maria de Abreu, Dilermando Reis e Fernando Menezes.

Jair tinha como caracterstica surpreender aos amigos com habilidades insuspeitadas. Conta-se que, num certo fim de noite, impressionou a todos ao se mostrar conhecedor de literatura francesa, recitando versos de Baudelaire e Rimbaud.

Outra histria famosa  a de como teve a chance de lanar-se como letrista. Foi num programa do gal Arnaldo Amaral, em que este ps no ar e destacou o sucesso internacional "Maria Elena", do mexicano Lorenzo Barcelata, que tinha letra em ingls. Em comentrio a Jair, Arnaldo Amaral afirmou que se tivesse uma letra em portugus para aquela msica, ele gravaria e certamente seria suces-
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so. Jair ento disse: "Se voc quiser, eu fao uma". De fato, a verso foi em poucas semanas lanada pela Continental, alcanando as paradas de sucesso. Foi o impulso necessrio para Jair Amorim iniciar uma srie de fecundas parcerias, com o prprio Jos Maria de Abreu, em clssicos como "Ponto final", "Algum como tu" e "Um cantinho e voc"; com Evaldo Gouveia (Iguatu, CE, 1930 -) , em "Conversa", gravada por Alade Costa, "Poema do olhar", gravada por Miltinho, e "E a vida continua", gravada, primeiramente, pela cantora Rosana Toledo, regravada por Nora Ney e Agnaldo Rayol. Enveredando pelo bolero, a dupla teve como seu principal intrprete o cantor Alternar
Dutra, mas o samba "Garota moderna" alcanou sucesso tambm na voz de Wilson Simonal e, com Jair Rodrigues, a dupla triunfaria mais uma vez, gravando o samba "O conde". A parceria obteria novo xito em bailes de carnaval com a marcha-rancho "Bloco da solido", e, no carnaval de 1973, com o samba-enredo da Portela, que homenageava Pixinguinha ("O mundo melhor de Pixinguinha").
Helena de Lima (RJ, 1926), cantora e compositora, sempre foi considerada uma das grandes intrpretes da noite. Construiu uma carreira de sucesso quase sempre priorizando os ambientes intimistas das mais famosas boates cariocas e paulistas, nas quais cantou por mais de 25 anos. Csar Ladeira descobriu-a, em meados da dcada de 1940, em um de seus programas na Rdio Nacional, onde a cantora se apresentou como caloura. Em 1948, comeou a trabalhar como crooner na boate Pigalle, no Rio de Janeiro,
e logo depois j estaria cantando na boate do Copacabana Palace. Em meados dos anos 1950, Helena se apresentava com freqncia na famosa boate Jirau, ponto de encontro de vrios artistas da poca, onde Ary Barroso, seu ardoroso f, costumava ir v-la cantar.

No primeiro disco, gravou "Prece" e "Corao", ambas de Vadico e Marino Pinto (este, um autor que nos deixou mais de trezentas composies, incluindo diversos sucessos de carnaval). Mas o me-


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lhor do seu trabalho, seu hbitat musical, so as gravaes ao vivo de seus shows na noite. Seu maior sucesso foi a marcha-rancho "Esto voltando as flores", de
Paulinho Soledade, lanada em 1962, presena certa em todos os seus shows at hoje.
Cidado mangueirense, parceiro de Cartola e Carlos Cachaa na lindssima "No quero mais amar a ningum" - gravada por intrpretes como Aracy de Almeida, Leny Andrade e Paulinho da Viola - Z da Zilda (Jos Gonalves, RJ, 1908 - RJ, 1954) ficou muito tempo conhecido como Z Com Fome, por conta de um personagem que interpretou no teatro. Posteriormente, quando conheceu a cantora Zilda, que seria sua mulher e parceira por toda a vida, formaram a Dupla Harmonia, e Paulo Roberto, da Rdio Cruzeiro do Sul, os batizou definitivamente: Z da Zilda e Zilda do Z. Eles ganhariam vrios  carnavais com xitos como "Ressaca" e Imprio do samba ", ambos de autoria da dupla. Cavaquinista e violonista, cantor e compositor de sambas e emboladas, foi tambm parceiro de Ataulfo Alves em "Meu pranto ningum v", gravado por Orlando Silva, que tambm interpretou, com enorme sucesso, sua obra mais divulgada, "Aos ps da cruz" (parceria com Marino Pinto). Depois de sua morte, para
homenage-lo, Zilda comps em parceria com Airton Borges e Adolfo Macedo os sambas "Vai, que depois eu vou", lanado com grande sucesso, e mais tarde "Vem me buscar".
Moreira da Silva (RJ, 1902 - RJ, 2000) encarnou devotadamente seu papel de o ltimo dos malandros do Rio de Janeiro. E assim seria cultuado, apesar de ter sido sempre um malandro mais da ginga e da caricatura, do que da barra pesada. Isso, a ponto de ter inventado para si mesmo um alter-ego musical, o Kid Morengueira, a partir dos sambas de breque compostos especialmente para ele por Miguel Gustavo - composies que narravam verdadeiros enredos cinematogrficos com aventuras do heri principal, encarnado por Moreira da Silva.

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No entanto, o queridssimo Morengueira iniciou carreira cantando serestas e pontos de macumba, numa poca (1931) em que aparecia ainda como Antonio Moreira, O Mulatinho. Somente em 1937, j ento com o apelido que ostentaria com orgulho, O Tal, dado por Csar Ladeira, por causa de sua interpretao de "Jogo proibido", de Tancredo Silva, Davi Silva e Ribeiro Cunha, Moreira comearia a improvisar no intervalo dos versos, inserindo frases e grias, que mais tarde se tornariam extensas narrativas: estava inventado o breque falado,  la Moreira da Silva.

De malandro de fato pouco tinha, mas, mesmo assim, foi demitido de seus empregos, j que, criado no Morro do Salgueiro e fiel s rodas de samba do Morro da Babilnia, cedo descobriu sua vocao de cantor e bomio junto  nata da malandragem, no bairro do Estcio dos anos 1920. No foi  toa que gravou sucessos de figuras como Kid Pepe, Wilson Batista e Geraldo Pereira.

Alis, este ltimo, sim, foi um autntico malandro, que depois de uma vida de dificuldades, em que comps muitos sucessos resgatados postumamente, morreu com apenas 37 anos, em conseqncia de ferimentos sofridos numa briga na Lapa, centro do Rio, com o clebre Madame Sat.
Moreira da Silva no apenas se firmaria como cantor e compositor (apesar de, assumidamente, ser admitido em parcerias, devido ao sucesso que fazia, s por aceitar interpretar as msicas), mas tornou-se um verdadeiro mito, uma unanimidade na msica popular brasileira. Em quase um sculo de vida (98 anos de idade), apresentava-se constantemente em shows, numa carreira que durou 69 anos, com 20 discos lanados, mais quatro CDs e mais de 100 discos em 78 rpm, tendo convivido com msicos de variadas geraes e estilos, desde Pixinguinha at Gabriel O Pensador, passando por Chico Buarque, Jards Macal, entre outros.
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Z Gonalves e Zilda.
Arquivo Cedoc: / Funarte
E j que estes personagens, ou pelo menos tantos deles, tiveram seus nomes ligados aos carnavais, devem ser lembrados aqui mais trs nomes imprescindveis ao esprito musical de nossa folia ou ao samba paulista.

Joo Roberto Kelly (RJ, 1937 -), cantor, compositor, e produtor cultural, foi convidado em 1957 por Leon Eliachar e Geysa Boscoli para musicar a revista Sputinik no morro, de autoria de ambos. Seria seu incio de carreira que, anos depois, j com composies gravadas por Elza Soares, o levaria para a TV Excelsior, sendo contratado pelo diretor artstico Miguel Gustavo para fazer aberturas de programas. Na televiso, ele iria musicar quadros humorsticos de grandes astros do gnero, inclusive participando do famoso Times square, de Chico Ansio e Carlos Manga, e My fair show, com direo de Carlos Manga e Maurcio Sherman. Musicou ainda os quadros do programa Praa Onze, com textos de Meira Guimares e J. Rui, e logo passaria a produzir e apresentar os programas Noites cariocas e Musikey. Seu primeiro grande
sucesso no Carnaval foi o at hoje popularssimo "Cabeleira do Zez", gravado por Jorge Goulart, composto em parceria com Roberto Faissal. Depois, vieram "Mulata  i-i-i", na voz de Emilinha Borba, "Rancho da Praa Onze", em parceria com Chico Ansio e interpretado por Dalva de Oliveira, alm de,  claro, "Colombina i-i-i"s em parceria com David Nasser, todos sucessos tocados at hoje nos bailes de carnaval.
Adoniran Barbosa (SP, 1910 - SP, 1982), compositor, cantor, humorista e ator, entrou para a histria da Msica Popular Brasileira como um dos maiores smbolos da cultura e da produo artstica de So Paulo, um originalssimo cronista musical da vida de sua ciadade.
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Adoniran Barbosa, 1977.
Folha Imagem
Iniciou sua carreira artstica a convite do cantor Paraguau, que o levou a se apresentar num programa semanal, no qual era acompanhado por um conjunto regional.
Em 1935, teve sua primeira composio gravada, a marcha "Dona boa", registrada por Raul Torres, que o  fez ganhar o prmio de primeira colocada em concurso de msicas carnavalescas promovido pela prefeitura de So Paulo. Mas  do encontro de Adoniran Barbosa com o conjunto Demnios da Garoa, no ano da formao do grupo, em 1943, que nasce a parceria que ir firmar seu estilo peculiar de composio, retratando o universo das camadas populares de So Paulo. Os Demnios da Garoa iro interpretar
inmeras composies de Adoniran, inclusive o famoso "Joga a chave", em 1952, mas tambm "Saudosa maloca" e "Samba do Arnesto" (de Adoniram e Alocim), entre muita outras, com destaque para aquele que seria seu maior sucesso, o samba "Trem das onze", que se tornou ainda um verdadeiro hino da cidade de So Paulo, com repercusso em todo o pas. Em 1980, foi lanado o LP Adoniram Barbosa, em comemorao aos 70 anos de vida do compositor, com intrpretes como Elis Regina, Clara Nunes, Clementina
de Jesus, Djavan, entre outros.

Miguel Gustavo (RJ, 1922 - RJ, 1972) estar para sempre ligado  conquista do Tricampeonato Mundial - a Copa de 1970 com seu inesquecvel "Pra frente Brasil" ...
O curioso  que o jingle foi composto para uma cervejaria patrocinadora das transmisses dos jogos pela televiso, mas acabou superando sua inteno inicial. No
entanto, a carreira de Miguel  recheada de grandes sucessos em sambas e marchas. "Caf soaite", gravado por Jorge Veiga, que ironiza o colunismo social dos anos
1950,  foi seu primeiro sucesso. Em 1958, comps "Fanzoca de rdio", sucesso do carnaval na voz do palhao Carequinha, e a seguir produziu uma


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notvel srie de sambas de breque, como "O rei do gatilho", "O ltimo dos moicanos" e "Conto de pintor", que se popularizaram na voz de Moreira da Silva com curiosa
estrutura de enredo-aventura, que fizeram o veterano cantor voltar ao sucesso. At hoje seu estilo de fina ironia e a maneira de usar as marchas de carnaval como
crticas de costumes, centradas em diferentes segmentos de nossa cultura e sociedade, so lembrados e, vez por outra, regravados.

Enquanto a Bossa nova no chega
Os anos 1950 trouxeram ainda outros artistas - intrpretes, msicos e compositores - que representaram uma ponte entre o samba-cano e a Bossa Nova, emblematizada por Elizeth Cardoso, A Divina. De uma forma geral, o que se prenunciava era um estilo de composies e interpretaes mais descontradas, como que purgadas daquela profunda melancolia diante do amor e da vida. Seguindo na trilha da msica romntica, antes sob a inspirao do famoso Beco das Garrafas, o quadriltero das boates chiques de Copacabana nas vizinhanas do Lido, os bossanovistas passariam a cantar o desvanecimento sensual e solar com a beleza da cidade e da mulher tpica da
Repblica de Ipanema, o brotinho, celebrizado numa crnica de Paulo Mendes Campos ("Ser brotinho"...). Portanto, no  de se estranhar que muitos dos personagens sejam os mesmos.
Nessa linha, vemos o aparecimento de pelo menos dois compositores: Tito Madi e Maysa, ambos tambm intrpretes, de slidas e belas carreiras individuais. Num e noutro, encontram-se obras com certo cheiro da Bossa Nova, que viria logo depois, embora como sambas-canes dotados das caractersticas dos anos 1950.
O cantor e compositor Tito Madi (SP, 1929 -), filho de imigrantes rabes, cresceu em um ambiente musical, ouvindo o alade de

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seu pai e o violo e o bandolim de seus irmos mais velhos. Tito  autor de bagagem extensa e marcante, com obras como "Chove l fora", "No diga no" e "Cansei de iluses". Ele iniciou carreira artstica em 1952 como cantor contratado da Rdio Tupi de So Paulo. No ano seguinte, tinha sua primeira composio gravada em disco, "Eu e voc", pelo conjunto vocal Os quatro amigos. Logo depois, Tito mudava-se para o Rio de Janeiro, agora contratado pela Rdio e TV Tupi, onde trabalhou at 1956, quando comeou a cantar na noite carioca.
Apresentava-se nessa poca em casas noturnas de razovel prestgio, como Jirau, Cangaceiro, Little Club e Texas, acompanhado pelo piano de Ribamar. O sucesso veio logo, com a gravao de um disco com suas composies "Chove l fora" e "Gauchinha bemquerer", que recebeu vrios prmios - "Chove l fora" foi gravada no exterior, com verso de Buck Ramm intitulada "It's raining outside". Anos depois, mais um sucesso expressivo, com a gravao de "Menina moa", de Lus Antnio. Pelos anos seguintes, sua carreira cresceu em popularidade com a participao, como cantor, em trilha sonora de vrios filmes e de novelas da Rede Globo. Nos anos 1970, lanou
os quatro volumes de A fossa, com arranjos e piano de Lus Ea, a participao do Tamba Trio e de Hlio Delmiro. J nessa poca, era reconhecido como um intrprete da Bossa Nova, tendo inclusive participado, entre muitos projetos musicais, do Anos 60: bossa nova, Tempos de bossa nova: o amor, o sorriso e a flor, 25 sambas-bossa nova, MPB: bossa nova, e do songbook de Antonio Carlos Jobim, produzido por Almir Chediak.

Maysa (Maysa Monjardim Matarazzo, So Paulo, SP, 1936 Niteri, RJ, 1976) era uma deusa romntica da noite, bem no estilo de Dolores Duran, inclusive na atribulada
vida amorosa. Isso para no falar do seu fim trgico e prematuro, num acidente de automvel na ponte Rio-Niteri. Como compositora, Maysa se consagraria principalmente com os sambas-canes "Oua" e "Meu

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mundo caiu". Gravou seu primeiro disco em 1956, somente com composies suas, entre as quais "Adeus" e "Resposta", que seria 18 anos depois lembrada por Maria Bethnia em seu espetculo gravado ao vivo no Teatro Casa Grande, A cena muda. Maysa havia se casado aos 18 anos com Andr Matarazzo, de uma famlia tradicional que se opunha  carreira artstica da esposa. A separao foi inevitvel, o que a abalou profundamente. A partir dessa poca, comeou a ter problemas com a bebida e a se envolver em casos amorosos bastante explorados pela mdia.
Maysa alcanou o sucesso logo no seu primeiro disco. No entanto, a separao e todos os problemas que enfrentaria logo a seguir acentuaram ainda mais o tom melanclico  de suas composies, reconhecidas como msicas de fossa. Sua carreira prosseguiu com participao intensa na tev - que em certo momento da virada dos anos 1950 para os I960 comeou a rivalizar com o rdio como vitrina dos artistas - especialmente em programas da TV Record, onde teria um programa exclusivo, e ainda em vrios
shows de boates como Osis e Cave.

Em I960, mudou-se para o Rio de Janeiro e passou a se relacionar com a turma da Bossa Nova. J nesse ano saa seu segundo LP, O barquinho (note-se que a partir dessa
poca, vai se tornar cada vez mais comum artistas se lanarem com LPs e no com 78 rpm ou compactos, como nas dcadas anteriores). O disco tornou-se um marco da Bossa Nova, tendo o acompanhamento de msicos que mais tarde seriam o embrio do famoso Tamba Trio (Lus Ea, Hlcio Milito e Bebeto Castilho), alm de Roberto Menescal, um dos grandes nomes da Bossa Nova. Graas ao sucesso de O barquinho, Maysa excursionou pelo Brasil em longa turn, e apresentou se na Argentina e no Uruguai. Ela se tornava assim a primeira divulgadora internacional da Bossa Nova, chegando a se apresentar na Frana (Olympia), nos Estados Unidos (Blue Angel) e em Portugal (Cassino Estoril).

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Leny Andrade, 1985. Joo Caldas / Folha Imagem

que tambm morreu num acidente automobilstico, em 1963. E ainda Claudete Soares, em sua fase ps-baio, ou Lana Bittencourt. Mais ainda, o ex-crooner Miltinho, como tambm Dick Farney e Lcio Alves - dois festejados cantores do samba-cano, mas que davam a suas interpretaes um sentido de improviso e descontrao, notvel tambm em Johnny Alf, indcios da inquietao musical que a Bossa Nova absorveria. A cantora e compositora Alade Costa, bem como a compositora, arranjadora e instrumentista
Rosinha de Valena. O cantor e compositor Slvio Csar (autor da jia "Pra voc") e Pery Ribeiro, filho de Dalva de Oliveira. Compositores como Jota Jnior, autor
de clssicos de carnaval dos anos 1950 como "Sassaricando", 'Lata d'agua" e 'Sapato de pobre", como seu parceiro Lus Antonio, que redescobriu o sucesso com sambas romnticos como "Mulher de trinta", "Poema do adeus" e diversos outros, na sua grande maioria, na voz de Miltinho; Klecius Caldas e Armando Cavalcanti (autores de jias como "Somos dois", "Nesse mesmo lugar", alm de um pequeno mas irresistvel repertrio carnavalesco: "Maria Candelria", "Maria escandalosa", "Piada de salo",
"Mscara na face",  "Papai Ado" e "A rua  camarada"). E ainda Luiz Reis e Haroldo Barbosa, duas figuras distintas e essenciais na vida carioca dos anos 1950 e 1960
- que fizeram prolas at hoje lembradas ("Magnfico", "Nossos momentos", "Palhaada", "De conversa em conversa" e "Adeus Amrica"). Joo Donato, pianista, acordeonista, arranjador e compositor, e que atuou com Tom Jobim, Eumir Deodato, Stan Kenton, Nelson Riddle, e Wes Montgomery, entre outros. E ainda Billy Blanco, parceiro de Baden Powell e Tom Jobim, que teve vrias de suas canes interpretadas por Dolores Duran, como por tambm Dris Monteiro, Dick Farney, Elizeth Cardoso, Os Cariocas e muitos outros.
Chegamos aqui ao momento fundamental de transio, ou melhor, ao personagem 
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que simboliza essa passagem, que j se prenunciava de muitos modos, do samba-cano para a Bossa Nova.

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Leny Andrade, 1985. Joo Caldas / Folha Imagem

Convm, entretanto ressalvar que, em seus quase cinqenta anos de vida artstica, A noiva do samba cano, a lady do samba - gnero no qual acabou se fixando -, a
Machado de Assis da seresta, A diva da bossa nova, A magnfica, A enluarada percorreu quase todos os gneros da MPB, com uma graa e uma imponncia que justificam plenamente o apelido definitivo, cunhado por Haroldo Costa, que ficou imortalmente atrelado ao seu nome: A Divina.
Elizeth Cardoso (RJ, 1920 - RJ, 1990) era uma presena discreta na msica dos anos 1950, quando ainda no se tornara a diva dos encontros da rua Nascimento Silva,
107. Teria, no entanto, uma infncia sugestiva. Quando criana costumava cantar sucessos de Vicente Celestino e chegou a freqentar com a famlia as reunies em casa da lendria baiana, Tia Ciata. De famlia modesta, foi numa festa, na qual estavam presentes tambm Pixinguinha, Dilermando Reis, Jacob do Bandolim (com apenas 18  anos), entre outros, que um parente apresentou-a a Jacob e insistiu para que ela cantasse alguma coisa. Meio sem graa, a jovem Elizeth encantou a todos com sua voz. Jacob ento a convidou para um teste na Rdio Guanabara, no qual, emocionada, viu-se ao lado de seu dolo, Vicente Celestino, e tambm de Aracy de Almeida,
Moreira da Silva, Noel Rosa e Marlia Batista. Esse teste foi o trampolim para sua carreira. Jacob, por certo, seria seu amigo pelos prximos 40 anos.
No comeo, Elizeth fez shows em circos, clubes e cinemas, trabalhando inclusive ao lado de Grande Otelo, com quem criou um quadro que fez sucesso por mais de 10
anos, o Boneca de piche, uma composio de Ary Barroso e Lus Iglsias. Seu talento como cantora e passista contriburam para que ela recebesse um convite para atuar
na Companhia de Teatro de Pedro Gonalves e De Chocolat,
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onde conheceu o gacho Tatuzinho (Ari Valdez), com quem se casou. O casamento durou pouco tempo, apesar de Elizeth estar grvida de seu primeiro e nico filho. Depois de separada, viveu dificuldades financeiras, aceitou trabalho em shows humorsticos e somente em 1950 gravaria seu primeiro disco, com incentivo de Ataulfo Alves, "Braos vazios", de Acir Alves e Edgard G. Alves, e "Mensageiro da saudade", de Ataulfo Alves e Jos Batista. No entanto, o sucesso inicial viria no segundo disco com "Cano de amor", de Chocolate e Elano de Paula, e "Complexo", de Wilson Batista.

Participou em alguns filmes ao longo dos anos seguintes e foi a estrela do show Feitio da Vila, na boate Casablanca, no Rio de Janeiro (1953), que mais uma vez lhe rendeu bastante sucesso e um contrato, pouco depois, na Rdio e TV Record paulistas, onde ganhou programas exclusivos.
Depois de uma excurso para o Uruguai, participou da histrica gravao da "Sinfonia do Rio de Janeiro", de Tom Jobim e Billy Blanco, com arranjos de Radams Gnattali, ao lado de Dick Farney, Emilinha Borba e Gilberto Milfont. Quando da visita de Carmen Miranda ao Rio (1954), foi ouvida pela Pequena Notvel. Segundo o produtor Aloysio de Oliveira, Carmen teria declarado ao voltar para os EUA: "Conheci no Rio de Janeiro uma mulata que canta pra chuchu. Chama-se Elizeth Cardoso".

Estaria reservado para o ano de 1958 o lanamento do antolgico LP Cano do amor demais, com msicas de Tom Jobim e Vincius de Moraes, considerado o marco de fundao da bossa-nova, por conta de sua interpretao e do acompanhamento de Joo Gilberto em "Chega de saudade" e "Outra vez". No ano seguinte, gravaria "Manh de carnaval" e "Samba de Orfeu", para o filme Orfeu do Carnaval, de Marcel Camus - e j a era presena bem vinda em qualquer coisa ligada  Bossa Nova.
Em 1960, estreou o programa Nossa Elizeth, na TV Continental do Rio de Janeiro, ao lado do violonista Baden Powell, e gravou o

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Elizeth Cardoso. Arquivo Cf.doc: / Funarte
LP A meiga Elizeth, um dos mais vendidos de sua carreira, e tambm Magnfica, apenas com sambas de Marino Pinto e seus parceiros. O prximo marco de sua carreira foi no Teatro Municipal de So Paulo, com orquestra sob a regncia de Diogo Pacheco, interpretando "Bachianas brasileiras na 5" de Villa-Lobos. O recital se repetiu no Teatro Municipal do Rio. Em 1965, participou do espetculo Rosa de ouro, que rendeu o LP Elizeth sobe o morro, um dos grandes LPs da discografia brasileira, que inclusive marcou tambm a estria de Nelson Cavaquinho em gravaes. Elizeth foi tambm uma das grandes responsveis pelo movimento que tirou alguns de nossos grandes sambistas do esquecimento, na dcada de I960; afi-


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nal, estava ali a diva de sucesso da MPB nascida no sop da Estao Primeira de Mangueira e freqentadora quando criana das rodas de Tia Ciata. Elizeth sobe o morro trouxe ainda, para benefcio de nossa msica, a primeira composio gravada de Paulinho da Viola, alm da participao de Nelson Sargento, Elton Medeiros, Raul Marques, Buci Moreira e outros. Em 1966, depois de participar do Festival de Arte Negra, no Senegal, lanou um LP com a participao de Cartola, Pixinguinha, Clementina de Jesus e Cod, produzido por Hermnio Bello de Carvalho, intitulado A Enluarada Elizeth.

Em 19 de fevereiro de 1968, realizou um show no Teatro Joo Caetano do Rio de Janeiro, com o objetivo de levantar fundos para o Museu da Imagem e do Som. Idealizado pelo Conselho Superior de Msica Popular, o show reuniu, em casa lotada, Elizeth, Jacob do Bandolim e o Zimbo Trio. Foi, sem dvida, um dos espetculos mais elogiados pela crtica da histria da MPB. E por um nico motivo: foram editados dois histricos LPs, gravados ao vivo, produzidos pessoalmente pelo diretor do Museu. O par de discos, alis, correu mundo entre 1969 e 1978, enviados que foram pelo MIS para muitos brasileiros exilados no exterior.

Elizeth gravou mais de 40 LPs no Brasil, ao longo de sua carreira, alm de vrios outros no exterior (Portugal, Uruguai, Venezuela, Argentina e Mxico). O reconhecimento geral de nosso povo a sua arte e o carinho que todos tinham por essa figura notvel da MPB foram to grandes que, sobre ela, nunca se dir Chega de saudade... Saudade nenhuma ser suficiente quando se trata de lembrar Elizeth Cardoso.

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CAPTULO 4

Que coisa mais linda, mais cheia de graa!

MEDAGLIA, Jlio, in CAMPOS, Augusto de. Balano da bossa e outras bossas. So Paulo: Perspectiva, 1993, p. 72.

Muitos dos personagens da fossa romntica renasceram na Bossa Nova. E no apenas mudando de Copacabana para Ipanema, a pelo final dos anos 1950, mas tambm assumindo um novo esprito de poca... Algo como: "E eu que era triste,/ descrente deste mundo,/ ao encontrar voc eu conheci/ o que  felicidade,/ meu amor".

De incio, o termo Bossa Nova referia-se a um jeito de cantar e tocar o samba, com certos trejeitos jazzsticos e uma pronunciada suavidade tanto no tratamento musical quanto no potico. Justamente a influncia norte-americana, traduzida nos acordes dissonantes comuns ao jazz, foi alvo de muitas crticas. J a letra das canes contrastava fortemente com as das canes de sucesso de ento, agora abordando temas leves e descompromissados, bem representados pelo verso "o amor, o sorriso e
a flor", parte da letra de "Meditao", de Tom Jobim e Newton Mendona, muito utilizada para caracterizar a poesia bossanovista. Outra caracterstica era a forma de cantar, tambm contrastante com a que se tinha na poca: "desenvolver-se-ia a prtica do 'canto-falado' ou do 'cantar baixinho', do texto bem pronunciado, do tom coloquial da narrativa musical, do acompanhamento e canto integrando-se mutuamente, em lugar da valorizao da 'grande voz'".1
No final do ano de 1957, em um show realizado por Carlos Lyra, Ronaldo Bscoli, Sylvia Telles, Roberto Menescal e Luiz Ea no Clube Hebraica, Rio de Janeiro, a trupe
j era anunciada como o "...grupo
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Nara Leo e Sidnei Miller interpretando A estrada e o violeiro, no III Festival da Record - So Paulo, SP, outubro 1967. Acervo ltima Hora / Folha Imagem

bossa nova apresentando sambas modernos". De fato, a bossa nova nasceu casualmente, fruto de encontros de jovens da classe mdia carioca em apartamentos ou casas residenciais da Zona Sul, onde se reuniam para fazer e ouvir msica, e que se tornaram bastante freqentes a partir de 1957. O apartamento da famlia Leo, situado na avenida Atlntica, em Copacabana, sediou muitos desses encontros. Na poca, Nara, que se tornaria a musa da Bossa Nova, ento com pouco mais que 15 anos de idade, costumava receber Carlos Lyra e Roberto Menescal. O grupo foi aumentando, passando tambm a ser integrado por Ronaldo Bscoli, Chico Feitosa, Luiz Carlos Vinhas, os irmos Castro Neves e Joo Gilberto, entre outros.

Joo Gilberto tornou-se a grande referncia da Bossa Nova por ter inventado a batida do violo, aquela que marcou as faixas "Chega de saudade" (Tom Jobim e Vinicius de Morais) e "Outra vez" (Tom Jobim), no LP de Elizeth Cardoso Cano do amor demais, lanado em 1958 - o ano que, segundo o cronista Joaquim Ferreira dos Santos, trouxe tanta coisa boa ao nosso povo que no devia ter terminado. O LP foi inteiramente dedicado  nova dupla de compositores, Tom e Vinicius, mas na verdade a estrela do disco era Vinicius, j que o chamariz do disco eram seus poemas, gravados agora com msica. Segundo Tom Jobim: "A bossa nova de Chega de saudade est quase toda na harmonia, nos acordes alterados, pouco utilizados por nossos msicos da poca, e na nova batida de violo executada por Joo Gilberto".
_Capa do LP "Cano do amor demais" de Elizeth Cardoso.
Moacir / Manchete

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Manuscrito da msica Chega de Saudade de Vinicius de Moraes 
Jobim Music / DR
Chega de Saudade
Vai, minha tristeza
E diz a ela que sem ela no pode ser
Diz-lhe numa prece
Que ela regresse por que eu no posso mais sofrer 
Chega de saudade 
A realidade  que sem ela no h paz
Mas h beleza,  s tristeza, e a melancolia 
Que no sai de mim 
No sai de mim, no sai.
Mas se ela voltar
Se ela voltar que coisa linda ! que coisa linda
Pois h meus peixinhos a  no mar
Do que os beijinhos que Darei na sua boca 
Dentro dos meus braos 
Os abraos no ser milhes de abraos

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Apertado assim
Quentinho assim
Gostoso assim
Abraos e beijinhos e carinho 
Pra acabar com esse negcio 
De jamais viver sem mim 
(da 2 ver)
Dentro dos  meus braos 
Os braos no a de ser milhes de abraos 
 Calado assim
Calado assim
Abraos e beijinho e carinho sem ter fim
Pra acabar com esse negcio 
De jamais viver sem mim
Rio 10.02.57
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CASTRO, Ruy. Chega de saudade. So Paulo: (Companhia da letras 1990, p.175.

Com toda a razo, Ruy Castro afirma que "Chega de saudade", "ao contrrio do que se pensa hoje, no foi um sucesso quando saiu, em maio de 1958". 2 De fato, a Bossa
Nova no foi aclamada por todo mundo. Uma tempestade de crticas maldosas comeou a ser levantada, especialmente contra Joo Gilberto, a quem os comentaristas tradicionalistas acusavam de desafinado, de antimusical e de muitos defeitos mais. Em resposta, Tom fez com Newton Mendona duas composies: "Desafinado" e "Samba de uma nota s"
acidentalmente ou no, os dois inovadores aderiam a uma tradio de polmicas musicais de requintado sabor no cancioneiro brasileiro. A letra de "Desafinado" estava na medida certa para a resposta de Joo Gilberto aos seus crticos: "Se voc insiste em classificar / Meu comportamento de antimusical / Eu mesmo mentindo devo argumentar
/ Que isso  bossa nova, isto  muito natural"... J em "Samba de uma nota s", havia um quase deboche em relao aos que apontavam o novo gnero como carente de variao musical: "Eis aqui este sambinha / Feito numa nota s / Outras notas vo entrar / Mas a base  uma s". E conclua na segunda parte da msica: "Tanta gente existe por a que fala tanto / E no diz nada ou quase nada".

A Bossa Nova surgiria tambm no embalo natural da febre pelas transformaes que se abriam para o desenvolvimento do pas. O Governo JK - poca de otimismo, esperana no futuro, fixao no presente urbano e lrico - prometia cinqenta anos de desenvolvimento em cinco e comeava a construir Braslia, a abrir estradas de rodagem e a implantar parques industriais pesados. Com efeito, os ltimos anos daquela dcada foram de grande euforia... Conquistamos pela primeira vez a Copa do Mundo (... "Com brasileiro no h quem possa"...), Jorge Amado lana seu sensualismo e na poca inovador Gabriela, cravo e canela, o Cinema novo torna-se conhecido do pblico por sua atitude polmica e de vanguarda. E havia ainda, na poesia, os poetas concretistas, na msica erudita, os dodecafonistas, nas artes plsticas, a nova figurao, que viria de-

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Capa e contra-capa de
"Braslia - Sinfonia da Alvorada", de Antnio Carlos Jobim e Vincius de Moraes. Jobim Music / DR

pois do abstracionismo. Na msica popular, esse processo geral de renovao eclodiria com a Bossa Nova.
Em 1962, foi realizado o histrico concerto no Carnegie Hall de Nova York, com a presena de Tom Jobim e Joo Gilberto, o violonista Bola Sete, a cantora Carmem
Costa, o percussionista Jos Paulo e o pianista argentino Lalo Schifrin, alm de Oscar Castro Neves, Agostinho dos Santos, Luiz Bonf, Carlos Lyra, Sexteto Srgio
Mendes, Roberto Menescal, Chico Feitosa, Normando Santos, Milton Banana e Srgio Ricardo. O espetculo abriu as portas do mundo para o novo gnero-exportao brasileiro. No cartaz, o evento intitulava-se Bossa Nova - New Brazilian Jazz. No Brasil, para encantamento geral da nao, o show foi rransmitido ao vivo pela Rdio Bandeirantes.

Do grupo formado por msicos e universitrios que se reuniam nas jam sessions para ouvir msicos e vocalistas norte-americanos aos primeiros shows grupais, que logo se sucederam - ganhando a preferncia do pblico universitrio, tanto que tinham como um de seus palcos principais o anfiteatro da Faculdade de Arquitetura da Urca, muitos bossa-novistas comearam a aparecer.

BRASLIA
Sinfonia da Alvorada

ANTONIO CARLOS JOBIM VINCIUS CE MORAES

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Carlos Lyra.
Folha Imagem



Trs figuras merecem destaque, a comear por Carlos Lyra, compositor, violonista e cantor, que foi o primeiro grande parceiro de Vincius, logo depois de Jobim.
Da nova dupla aparecem "Voc e eu", "Marcha da quarta-feira de cinzas", "Primavera", "Coisa mais linda", "Minha namorada". Em 1962, quando a Bossa Nova j comeava a internacionalizar-se via Estados Unidos (o concerto do Carnegie Hall data do mesmo ano), Lyra lana uma msica, "Influncia do jazz", que representou uma reao importante, um quase manifesto contra o incio da descaracterizao da bossa em relao a suas razes brasileiras. A verdade - e essa ter sido a grande contribuio cultural da msica de Lyra  que ele aceitou em parte a harmonia jazzstica, apenas como elemento enriquecedor da msica brasileira, mas no admitiu a transformao do nosso ritmo em jazz. "Influncia do jazz" no poupa crtica ao estado a que chegava o samba jazzificado dos primeiros anos da dcada de I960, quando dizia: "Pobre samba meu / Foi-se misturando / se modernizando e se perdeu /  um samba torto / Pra frente e pra trs / ...Influncia do Jazz".
Uma lembrana decisiva naqueles tempos  a da Musa da Bossa Nova - denominao dada por Stanislaw Ponte Preta, o cronista Srgio Porto -, Nara Leo, que iniciou
carreira profissional em 1963, integrando o elenco do musical "Pobre menina rica", de Vincius de Moraes e Carlos Lyra, apresentado na boate Au Bon Gourmet. Nesse mesmo ano, Nara no encantava apenas os intelectuais, mas o pblico, tanto que participaria da trilha so-
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nora de Ganga Zumba, rei dos Palmares, filme de Cac Digues, com quem viria a se casar mais tarde, interpretando a cano "Nan", de Moacir Santos. Logo a seguir
se apresentaria na Frana e no Japo com o trio de Srgio Mendes. Seu primeiro LP, Nara, viria logo no ano seguinte, e nele gravaria obras de compositores da Bossa
Nova e de representantes do ento chamado samba de morro, reforando uma tendncia para recuperar os sambistas do morro - Nara, cantando sentada num banquinho, exibindo de quebra as lindas pernas e uma franjinha que causava frisson a todos os moderninhos da poca, desempenhou um papel fundamental nesse processo, como elo entre os
intelectuais de esquerda e o samba redescoberto. E por isso, no repertrio de Nara, aparecem "Diz que fui por a" (Z Kti e Hortncio Rocha), "O morro ("Feio no
 bonito") (Carlos Lyra e Gianfrancesco Guarnieri), "O sol nascer" (Cartola e Elton Medeiros), "Luz negra" (Nelson Cavaquinho e Hira Barros), entre outras.
Em 1964, Nara integrou ao lado de Z Kti e Joo do Vale o elenco do histrico espetculo Opinio, de autoria de Armando Costa, Oduvaldo Vianna Filho e Paulo Pontes, com direo de Augusto Boal. O show, realizado no Teatro Opinio, Rio de Janeiro, tematizava questes sociais e polticas do Brasil, ento sob ditadura militar. No ano seguinte, ela convidaria Maria Bethnia para substitu-la no show, marcando, a ferro e fogo, a estria da cantora baiana no cenrio artstico carioca.

Como se v, a importncia de Nara, como intrprete e como fomentadora cultural ultrapassa em muito a Bossa Nova. Aqueles que tiveram o privilgio de acompanh-la
mais de perto sempre souberam disso. E no apenas por isso, mas tambm por toda sua firmeza de aes, graa e suavidade, Nara ser sempre lembrada.
Srgio Mendes, pianista e arranjador, iniciou carreira artstica em 1960, apresentando-se em jam sessions realizadas no Little Club, no Beco das Garrafas, Rio de Janeiro. J no ano seguinte iniciava uma

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Conjunto Srgio Mendes.
Acervo ltima Hora / Folha Imagem
carreira internacional, participando do III Festival Sul-Americano de Jazz, no Uruguai, com seu conjunto Brazilian Jazz Sextet. De fato, Srgio Mendes representou
mais exemplarmente do que outros msicos a influncia do jazz que, misturado ao nosso samba e a outras tendncias, desaguaria na Bossa Nova. Basta observarem-se suas preferncias musicais, os pianistas do jazz norte-americano, especialmente Horace Silver e Bill Evans.

Em 1962, liderava o seu Sexteto Bossa Rio (integrado tambm por Paulo Moura - sax, Pedro Paulo - pistom, Octvio Bailly contrabaixo, Dom Um Romo - bateria e Durval Ferreira - violo), no histrico Festival de Bossa Nova realizado no Carnegie Hall de Nova York. Logo a seguir, gravava o LP Voc ainda no ouviu nada, com arranjos de Tom Jobim, considerado um clssico da Bossa Nova instrumental. Em seguida, agora com a formao do Srgio Mendes Trio, excursionou pela Amrica do Norte, Amrica do Sul e Japo. E lanou os LPs The swinger from Rio e Bossa Nova York, com destaque para "Maria moita" (Carlos Lyra e Vincius de Moraes), e "Garota de Ipanema"
(Tom Jobim e Vincius de Moraes). Da por diante, fixaria residncia nos EUA, alterando diversas vezes a formao do seu conjunto, constitudo
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por msicos brasileiros e norte-americanos. Srgio entrou para valer no mercado norte-americano. E se apresentou em vrios programas de televiso, ao lado de artistas como Perry Como, Jerry Lewis, Red Skelton, Fred Astaire, Danny Kaye e Frank Sinatra. Ocasionalmente, visitava tambm o Brasil, sendo atrao especial de shows e apresentaes de tev promovidas em torno do sucesso que sempre fez no exterior.
J dentro do ncleo estrutural da Bossa nova, destacou-se o instrumentista e arranjador Roberto Menescal, que com seu conjunto -oConjunto Roberto Menescal  atuou com diversos artistas fundamentais deste perodo, alm de ser, junto com Ronaldo Bscoli, o compositor de "O barquinho", pea antolgica do incio da Bossa Nova
que teve gravaes simultneas de Maysa, Pery Ribeiro e Paulinho Nogueira, e compondo ainda "Ns e o mar", "Telefone" e "Me lembro vagamente", Menescal foi uma das figuras mais representativas e conhecidas da Bossa Nova. Seu parceiro mais constante, Ronaldo Bscoli, desenvolveu tambm uma bem-sucedida carreira  como promotor de espetculos, ao lado de Luiz Carlos Miele, tambm one show man.
Bossanovistas tambm so Os Cariocas, Tamba Trio, Bola Sete, Laurindo de Almeida, Lus Bonf, Joo Donato, Janet de Almeida, Johnny Alf, Dolores Duran, Dick Farney, Lcio Alves, Dris Monteiro, Rosana Toledo - Sylvinha Telles, Maysa e Tito Madi. J na primeira fase do movimento (1958-1962) destacam-se personalidades como Aloysio
de Oliveira, Billy Blanco, Baden Powell, Oscar Castro Neves, Durval Ferreira, Maurcio Einhorn, Geraldo Vandr, Srgio Ricardo, Luiz Ea, Chico Feitosa, Joo Donato, Edison Machado. Um pouco mais tarde, o j citado Srgio Mendes e Tenrio Jnior. Numa segunda fase (1962-1966), destacam-se aqueles que podem ser considerados os filhos da Bossa Nova, como os irmos Marcos e Paulo Srgio Valle, Edu Lobo e Ruy Guerra, os arquitetos Pingarilho e Marcos Vasconcelos, Dori Caymmi e Nelson

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Joo Gilberto
Folha Imagem

Motta, Francis Hime, Lula Freire, Wanda S, Wilson Simonal, Orlandivo e Slvio Csar.
No entanto, historicamente, e no h como negar, a Bossa Nova foi criada por Vincius, Jobim e muito especialmente por Joo Gilberto. Cada qual dando sua contribuio
peculiar potica, musical ou rtmica  tempera do movimento.

Na poca o mais velho dos pilares da Bossa Nova, e aquele que veio a emprestar ao movimento a aura romntica - e a consistncia potica, de inspirao evidentemente camoniana - que lhe era um atributo pessoal, Vinicius, ou Marcus Vinicius da Cruz de Mello Moraes (RJ, 1913 - RJ, 1980), o Poetinha, teve tanto e tanto prestgio que acabou nome da rua em Ipanema (onde fica o bar de onde viam a "Garota de Ipanema" passar).
Em 1927, Vinicius tornava-se amigo dos irmos Paulo e Haroldo Tapajs, com os quais formou um conjunto que se apresentava em festas no colgio ou em casas de amigos.
Com eles, comeou a escrever suas msicas iniciais. A carreira literria foi mais tarde incentivada pelo escritor e amigo Otvio Faria. Vinicius foi ainda jornalista
- atuou como crtico de cinemas em diversos jornais - antes de ser diplomata, e estabeleceu amizade com os poetas

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Manuel Bandeira, Osvald de Andrade e Mrio de Andrade. Boa parte de sua obra potica, inclusive inmeros dos mais famosos sonetos, como o "Soneto de fidelidade"
- para sempre ligada  gravao em que o Poetinha a declama em "Eu sei que vou te amar", dele e de Tom -, foi escrita no exterior, nos intervalos do exerccio da
diplomacia. Para estudiosos de Literatura so notveis as aproximaes entre os sonetos de Vinicius e os de Lus de Cames - e mais ainda que, com essa matriz, ele
tenha transposto sua poesia para a msica popular.
Vinicius foi poeta antes de ser diplomata - entraria para o servio permanente do Ministrio das Relaes Exteriores na dcada de 1940. Mas foi bomio e apaixonado pela vida - e pelo amor - antes de ser poeta. Foi esse esprito que ele passou para a Bossa Nova, junto com seu mpeto inovador, que o levou a projetar, a comear por Tom Jobim, vrios artistas fundamentais da MPB como Baden Powell, Edu Lobo, Francis Hime, Carlos Lyra, Toquinho e outros. Isso sem contar as parcerias com Antonio Maria, Chico Buarque etc. E faria msica com quase todos os compositores jovens e no-jovens do Brasil, como Ary Barroso, Pixinguinha, e tambm com Bach, em cuja pea "Jesus, alegria dos homens" colocou letra, mudando-lhe o ritmo para marcha-rancho e rebatizando-a de "Rancho das flores".
Em 1956, montou a pea Orfeu da Conceio, com cenrio de Oscar Niemeyer. Para a montagem, Vinicius vinha procurando um compositor e arranjador que musicasse seus poemas. Foi ento que Lcio Rangel lhe apresentou, no bar Vilarino, um jovem pianista a quem achava indicado para a tarefa - Antnio Carlos Brasileiro de Almeida Jobim. Ali se formaria a dupla Tom & Vinicius. Tom logo comps diversas msicas para a pea, entre as quais "Lamento no morro", "Se todos fossem iguais a voc", "Um nome de mulher", "Mulher sempre mulher" e "Eu e voc".
A carreira diplomtica do poeta seria encerrada em 1968, depois de 26 anos de servios prestados. Vinicius foi aposentado do

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Oscar Niemayer, Vincius de Moraes, Tom Jobirn e Lila Bscoli durante a apresentao do espetculo Orfeu da Conceio. 1956. Acervo Funarte

Cartaz feito por Carlos Scliar do espetculo Orfeu da Conceio de Vincius de Moraes, em setembro de 1956. Teatro Municipal do Rio de Janeiro
ORFEU CONCEIO
VINICIUS DE MORAES
Itamarati pelo AI-5 e isso o magoou profundamente. Nesse ano, alis, aconteceu um dos episdios mais marcantes de sua vida, quando estava em Portugal, e pouco antes de ser enquadrado no instrumento-mor de exceo da ditadura. Ao final de um show no qual se apresentou, Vinicius foi avisado de que estudantes salazaristas estavam aglomerados   na porta do teatro para protestar contra ele. Aconselhado a retirar-se pelos fundos do teatro, optou por enfrentar os protestos. Da, saiu pela porta
da frente e, diante dos manifestantes, comeou a declamar um de seus poemas que dizia: "De manh escureo/De dia tardo/De tarde anoiteo/De noite ardo." Um dos jovens tirou ento o casaco e o


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colocou no cho para que o poeta passasse por cima, no que foi imitado pelos demais manifestantes. Os olhos do poeta se avermelharam.

So inmeros os eventos que tornaram emblemtica a presena de Vincius no lanamento e consolidao da nova msica brasileira dos anos 1950 e I960. Em agosto de 1962, juntamente com Tom Jobim, Joo Gilberto e Os Cariocas, participou de um dos mais importantes shows da Bossa Nova, Encontro, realizado na boate Au Bon Gourmet, no Rio de Janeiro, ocasio em que foram mostradas pela vez primeira jias como "Garota de Ipanema", "S dano samba", "Insensatez", "Ela  carioca" e "Samba do avio".
Na mesma casa noturna foi montada a pea Pobre menina rica, em parceria com Carlos Lyra, que traria composies como "Primavera" e "Samba do carioca", que lanaram a cantora Nara Leo. Famosa tambm, tanto que ficou para a histria,  sua apresentao no show Vincius: poesia e cano, feito em sua homenagem, no Teatro Municipal de So Paulo com roteiro, produo e direo de Jos Marques da Costa, cenrio de Flvio Imprio e iluminao de Flvio Rangel. O espetculo contou com a participao da Orquestra Sinfnica de So Paulo, sob a regncia do maestro Diogo Pacheco, e as composies receberam arranjos dos maestros Guerra Peixe, Radams Gnattali, Luiz Ea, Gaya e Luiz Chaves. Entre os intrpretes estiveram Carlos Lyra, Edu Lobo, Francis Hime, Paulo Autran, Cyro Monteiro e Baden Powell. Mas o pice do espetculo foi quando o poeta terminou a apresentao de "Se todos fossem iguais a voc" - a platia, enternecida, levantou-se para 10 minutos ininterruptos de aplausos.

Vincius de Moraes recebeu inmeras homenagens e viveu inmeros amores, parcerias, poemas. Justamente por isso o que nos deixou de mais profundo, alm de sua arte, foi trazer para seu tempo o sentimento romntico mais genuno e radical. Ou seja, Vincius no foi apenas poeta. Ele viveu desabridamente como poeta - e nisso ele se tornou tambm patrimnio do esprito de nossa gente.

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Show de Tom Jobim no Parque do Ibirapuera em So Paulo, novembro de 1993. Pisco Del Gaiso / Folha Imagem
Antnio Carlos Brasileiro de Almeida Jobim (Rio, 1927 - Nova York, 1994), o Tom de gnio de nossa brasilidade, como ostentou em seu nome, teve discreta ateno com
sua "Teresa da praia", em parceria com Billy Blanco, gravado por Dick Farney e Lcio Alves. Era o comecinho do compositor com as parcerias iniciais com Billy Blanco, Dolores Duran e Marino Pinto... e tudo isso antes de ser apresentado a Vincius por Lcio Rangel. Tom, na verdade, tambm fazia msica com um amigo de juventude da praia de Ipanema, o timo pianista Newton Mendona, com quem, posteriormente, lanaria dois clssicos da Bossa Nova, "Desafinado" e "Samba de uma nota s".

No refinamento de sua msica est representada toda a evoluo por que passava a MPB da poca - a influncia do jazz americano internacionalizava o samba, inclusive permitindo-lhe atingir maiores segmentos da classe mdia. A Bossa Nova - e nisso a nova musicalidade construda aos poucos por Tom Jobim e que influenciou tanto nossa msica foi fundamental - reteve os ouvidos e coraes da elite de nosso pblico, num momento em que ritmos como o ch-ch-ch, o twist e logo a seguir os primrdios do rock ameaavam monopolizar o mercado. Graas  Bossa Nova, o Brasil pde se manter presente. Por outro lado, como contrapartida quase irnica, este foi justamente o momento em que os sambistas de raiz tiveram menos espao para se apresentar - como se o samba deles estivesse ultrapassado pela novidade.
Mas a obra de Tom Jobim nada tem a ver com esses influxos do momento sociocultural, ou melhor, ela possui luz prpria, que at hoje modula o gosto do pblico e as composies de inmeros de nossos artistas.

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A histria de Tom j comea musical, embora de um modo quase tragicmico.  que o obstetra que fez o parto com que Tom veio ao mundo foi o mesmo dr. Graa Mello que ajudou Noel Rosa a nascer. Por isso, houve um susto na famlia quando o menino nasceu com um lado do queixo afundado e com uma parte mais alta no crnio - dias depois tudo em sua aparncia j havia se normalizado.

J rapaz, Tom costumava tocar na noite, revezando muitas vezes com Newton Mendona em inferninhos e boates do Rio de Janeiro, entre elas o Drink, Arpge, Sacha's, Monte Carlo, Night and Day, Casablanca, Alcazar. Em 1952, foi contratado pela Continental Discos para fazer transcries de msicas para registro. Decidido a trocar a vida bomia noturna pela diurna, declarou: "Resolvi mudar de vida, de repente. Para ser bicho diurno, arranjei emprego na Continental  Discos. Levava a minha pastinha, com algumas partituras. Algum cantava uma msica, batendo na caixa de fsforo, e eu punha a melodia no papel". Em seguida, atuou como arranjador, auxiliado no incio
pelo maestro Radams Gnattali. Seu primeiro arranjo foi para a composio "Outra vez", de sua autoria, gravada por Dick Farney, mas fez arranjos tambm para Dris Monteiro, Nora Ney, Orlando Silva e Dalva de Oliveira, entre vrios outros. Foi em 1953 que se mudou para o famoso endereo em Ipanema, o apartamento 201 da rua Nascimento Silva, 107, que viria a ser ponto de encontro de bossanovistas e onde se tramou Orfeu da Conceio e o LP Chega de saudade, alm de ser o tema da msica
"Carta ao Tom 74", de Toquinho e Vincius.
A partir dos anos 1960, no rastro do sucesso da Bossa Nova nos EUA, comeou a desenvolver carreira no exterior - teve inclusive uma verso instrumental de "Desafinado" gravada por Stan Getz e Charles Byrd, que chegou a vender um milho de cpias. Em 1967  a vez do lanamento mundial do LP Francis Albert Sinatra & Antnio Carlos
Jobim. A msica do j ento maestro Jobim havia conquistado o planeta...

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Capa do Jornal da Tarde noticiando a morte de Tom Jobim. Jornal da Tarde, dia 9 de dezembro de 1994. Nmero 8.941 Ano 29.
Quando venceu o III Festival Internacional da Cano (FIC), realizado no Rio de Janeiro, com a msica "Sabi", em parceria com Chico Buarque, tirando o primeiro
lugar na fase nacional e na fase internacional, Tom foi pela primeira e nica vez vaiado pelo pblico. A platia que lotava o Maracanazinho preferiu a corajosa "Pra no dizer que no falei de flores", de Geraldo Vandr, que haveria de se tornar um dos hinos da luta contra a ditadura, msica odiada (pelos comandantes militares)
e proibida, mas sempre cantada s escondidas como desafio  represso. Ocorre que o pblico no reconheceu na letra de "Sabi" (Vou voltar/ Sei que ainda vou voltar/Para o meu lugar...) uma parfrase da "Cano do exlio", de Gonalves Dias. "Sabi"era quase tambm um libelo de protesto contra a situao dos exilados, expulsos do pas pelo regime militar. Embora dulcssimo,  lrico e disfarado.
Outra ironia: a platia do Maracanzinho vaiava - sem se dar conta - o letrista Chico Buarque que, com sua poesia, de incomparvel nvel esttico, viria a se tornar outro smbolo da luta pela volta da democracia graas  sensibilidade e firmeza com que soube cantar a intimidade lrica e sensual de nosso povo.

Com justia, Tom Jobim  at hoje reverenciado. Seu nome ultrapassou a Bossa Nova em muito. Na verdade, fixou-se como um artista independente, acima de correntes e modismos, persistentemente gravado e regravado no Brasil e no exterior pelos artistas que querem buscar em sua msica os rumos da qualidade e da elegncia, um requinte tirado do mais simples ou do mais concreto:  pau/ pedra/ E o fim do caminho... um cotidiano que parecia banal at virar... uma msica de Tom.
H um quase consenso, entre crticos de msica e historiadores especializados em cultura popular brasileira, de que o grande nome da inovao embutida na Bossa Nova
foi o excntrico baiano Joo Gilberto (BA, 1931 -), um violonista que trazia na alma do seu instrumento a malcia, a malemolncia e at a preguia de sua terra.

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BRASIL PERDE O TOM 

DESTAQUE O CADERNO ESPECIAL
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DESAFINADO
Msica de ANTONIO CARLOS JOBIM

Letra de NEWTON MENDONA
GRAVAO 


JOO GILBERTO

EM DISCOS "ODEON
JOO GILBERTO

EDITORA  MUSICAL  A R A P U 

AVENIDA IPIRANGA, 1123- SOPAULO

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Capa da partitura de "Desafinado", de Tom Jobim e Newton Mendona, gravado por Joo Gilberto. Editora musical Arapu. So Paulo, 1959, 1 edio.

Em Verdade Tropical, So Paulo, Cia das Letras, 1997


Foi ele o criador do ritmo da Bossa Nova, uma batida diferente, uma maneira pouco usual de tocar violo, que conferia  msica o sabor de samba mais lento, mais
adocicado... ou mais agudo - como ironizavam alguns dos algozes do novo movimento. J Caetano Veloso3, quase profeta da MPB, logo reconheceu em Joo Gilberto um cantor na linhagem de Mrio Reis, com uma interpretao pessoal "do esprito do samba", e alm disso: "um poeta, pelas rimas de ritmo e de frase musical que ele entretecia com os sons e sentidos.
Um  criador revolucionrio...".
O primeiro encontro dos trs mosqueteiros da Bossa Nova (Tom, Vinicius e Joo) se daria na bomia noturna. Alis, ao mudar-se para o Rio, em 1957 j com sua carreira
em andamento, Joo Gilberto comeou a freqentar a boate Plaza, ponto de encontro de msicos que idealizavam uma nova concepo musical que viria desembocar na Bossa Nova. No ano seguinte, Joo foi convidado para fazer o acompanhamento ao violo das hoje histricas duas faixas do LP Cano do amor demais, em que Elizeth Cardoso
cantava doze msicas da nova dupla, Vincius e Tom. Uma dessas msicas era "Chega de saudade", que a seguir viria tomar forma definitiva na voz do prprio Joo Gilberto, na gravao de um compacto cujo outro lado era "Bim bom", de sua autoria. O disco, citado mais tarde como referncia por muitos artistas como Chico Buarque e Caetano Veloso, apresentava uma interpretao vocal intimista e a famosa nova batida de violo, j aqui plenamente corporificada. No ano seguinte, continuando a fazer poca,
Joo Gilberto gravou "Desafinado" num compacto, e logo mais  frente o primeiro LP, "Chega de saudade", com produo musical de Aloysio de Oliveira e arranjos de
Tom Jobim. No repertrio, alm das canes lanadas nos dois 78 rpm, a releitura de antigos sucessos como "Morena boca de ouro" (Ary Barroso e Lus Peixoto), "Rosa morena" (Dorival Caymmi), "Aos ps da cruz" (Marino Pinto e Z da Zilda), e "Lobo bobo", faixa



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que lanava uma nova dupla de compositores: Carlos Lyra e Ronaldo Bscoli. Em 1960, Joo gravou o LP "O amor, o sorriso e a flor", tambm pela Odeon, com destaque para "Samba de uma nota s" (Tom Jobim e Newton Mendona). E estava consolidada a Bossa Nova.

 significativo que, da para a frente, junto com composies suas e de outros seus contemporneos, Joo Gilberto tivesse se preocupado em gravar releituras de clssicos da MPB. Para o pblico, isso foi importante no s para perceber os ancestrais da Bossa Nova quanto por adaptar para uma sonoridade atualizada e aceita por esse mesmo pblico o acervo musical mais genuno. Deste modo, a Bossa Nova, abrangendo a inovao e a tradio, como acontece nos movimentos artsticos mais influentes, reivindicava para si um lugar - absolutamente legtimo - na histria da MPB. Conseqentemente, num mesmo disco, posterior,  encontramos "O barquinho" (Roberto Menescal e Ronaldo Bscoli) ao lado de sucessos como "Samba da minha terra" e "Saudade da Bahia", ambas de Dorival Caymmi. E esse seria apenas um momento inicial da releitura,
que na verdade no s influenciaria os principais msicos da poca como, irreversivelmente, nossa prpria msica. Ou seja, somente algum com o carisma de Joo Gilberto poderia realizar essa faanha, e com tanto xito.

Em 1961, Joo participou do histrico Festival de Bossa Nova, realizado no Carnegie Hall de Nova York - a partir da fixou residncia por l, lanando no ano seguinte nos EUA o lbum The boss of the bossa nova. Logo a seguir, gravou com Stan Getz o LP Getzi'Gilberto: a faixa "The girl from Ipanema", que contava com a participao da cantora Astrud Gilberto, ocupou o 2 lugar da parada de sucesso da revista Billboard durante 96 semanas e tornou-se um dos 25 mais vendidos do ano de 1964. No ano seguinte, foi contemplado com o prmio Grammy (Best Album) por GetzlGilberto, recebendo quatro das nove indicaes. De fa-
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to, a carreira internacional de Joo Gilberto sempre foi uma interminvel seqncia de conquistas.
Em 1980, voltou a residir no Brasil, fixando-se no Rio de Janeiro. O curioso e at folclrico em torno de Joo Gilberto  que enquanto seu prestgio mais e mais
crescia, no apenas no exterior, mas tambm aqui, como um dos estruturadores da Msica Brasileira, ao lado de Pixinguinha, Ary Barroso e outros grandes nomes, tambm cresciam as lendas sobre o seu temperamento imprevisvel e suas manias. So notrias, e fartamente noticiadas pela imprensa, as inmeras vezes em que desistiu, nas vsperas, de fazer shows chegando mesmo a abandonar o palco por restries  acstica do local ou ao comportamento do pblico... Ou por conta de uma crnica sndrome
de pnico de palco, segundo os mais ferinos. No entanto, nada disso impede que pblico  artistas tenham por ele, e por sua obra, respeito e at venerao, a ponto de Caetano Veloso ter declarado: "Joo Gilberto  o artista que virou a pgina da modernidade."

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CAPTULO 5

Eu sou o samba!

Cartola. Arquivo Cedoc / funarte

Em Ipanema, o mesmo bairro carioca de classe mdia alta, agraciado  posteriormente com o ttulo de capital do charme brasileiro - incluindo nisso a Bossa Nova,  claro - aconteceu o mais emblemtico dos episdios relacionados  ressurreio do samba, que na verdade morto nunca esteve, mas, sim, afastado dos holofotes da mdia.
O cronista Stanislaw Ponte Preta - o Srgio Porto, autor do "Samba do crioulo doido" - entrou num botequim para tomar um caf quando teve uma surpresa... reconheceu um personagem, vestido num macaco molhado, que, h dez anos afastado do mundo do samba, era dado como desaparecido, ou mesmo morto, por muitos de seus conhecidos e admiradores. Tratava-se de Angenor de Oliveira, o Cartola (RJ, 1908 - RJ, 1980).

Junto com Carlos Cachaa, seu parceiro mais constante (e tambm Marcelino Jos Claudino, Francisco Ribeiro e Saturnino Gonalves), Cartola foi um dos fundadores
do Bloco dos Arengueiros. Poucos anos depois, em 1928, quando da fuso

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deste bloco com outras agremiaes do Morro da Mangueira, foi o fundador da escola de samba Estao Primeira de Mangueira (que teve o nome e as cores, verde e rosa, escolhidos por ele). Na dcada de 1930, quando produzia sambas em qualquer botequim e os perdia a seguir na bomia da noite, fora gravado por Francisco Alves, Carmen Miranda e outros grandes nomes, alcanando discreto sucesso. Cartola participou, ao lado de Donga, Pixinguinha, Joo da Baiana, Luiz Americano, Z Espinguela, Jararaca
e Ratinho (Carlos Cachaa foi tambm indicado, mas no pde comparecer) e outros, das antolgicas gravaes dirigidas pelo maestro Leopoldo Stokowski, que em 1942 visitava o Brasil. A apresentao ocorreu a bordo do navio Uruguai, ancorado na praa Mau, Rio de Janeiro, e delas se produziram dois lbuns de quatro discos 78rpm, lanados depois nos EUA. Cartola, ademais, foi campeo de alguns dos primeiros desfiles de escolas de samba, parceiro de Z da Zilda e de Noel Rosa (...que dizia que ia  sua casa em busca de paz para compor), e muito admirado por Villa Lobos, outro que o visitava com freqncia na Mangueira e que o indicou a Stokowski. Fundador do conjunto Os Cariocas, com Heitor dos Prazeres e Paulo Portela - com este, criou, na dcada de 40, o importantssimo programa de rdio A Voz do Morro, que apresentava sempre sambas inditos. Cartola chegou at a ser cantor no rdio, compositor reconhecido como fino poeta, um esprito musical nato e de extrema sensibilidade, mas desaparecera da Mangueira e da vista de todos em meados da dcada de 1940. Pensando-se que havia falecido, alguns sambas foram compostos em sua homenagem.

Ocorreu que Cartola, aos 38 anos, contrara meningite, o que o impediu de continuar trabalhando como pedreiro, ofcio que exercera at ento. Alis, o apelido lhe
veio da mania de usar um chapu-coco para evitar que o cimento casse em seu cabelo (num tempo, naturalmente, em que nem se pensava em equipar pees de obras de capacetes e outros equipamentos de segurana). Dali para

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a frente, teve de sobreviver  custa de empregos modestos. Sobrinho de Lcio Rangel, outro indispensvel pesquisador da MPB, Srgio Porto o reconheceu por acaso
- na poca, Cartola trabalhava como lavador de carros, numa garagem prxima ao botequim, e era vigia noturno.
Srgio levou o sambista subitamente ressuscitado para cantar na Rdio Mayrink Veiga e logo depois Jota Efeg, cronista e pesquisador,  lhe arranjou um emprego no
jornal Dirio Carioca. Um pouco mais tarde, Cartola seria empregado como contnuo no Ministrio da Indstria e Comrcio. Na verdade, o encontro com Srgio Porto
foi fundamental para a retomada de sua carreira e sua casa logo se tornou ponto de encontro dos maiores sambistas da poca, que alm da boa companhia desfrutavam
dos quitutes de Dona Zica, cidad mangueirense com quem Cartola j vivia.
Da nasceu a idia do Zicartola, o bar que o casal abriu num casaro da rua da Carioca, Centro do Rio de Janeiro. A receita para o sucesso do estabelecimento, que
se converteria em uma pgina importante na histria da msica popular brasileira, era das mais simples e criativas. Na cozinha, Dona Zica comandava o tempero do feijo que a tornou famosa, enquanto Cartola fazia no salo as vezes de mestre-de-cerimnias. No Zicartola, por exemplo, Paulinho da Viola iria comear a cantar
em pblico. Mais ainda, o bar logo se tornou novo ponto de referncia dos sambistas - Z Kti,  Nelson Sargento e Nelson Cavaquinho era assduos -, e tambm de toda uma gerao de importantes compositores e intrpretes de classe mdia interessados - e para alguns foi surpreendente descoberta! em conhecer o samba. Alis, para isso muito contribuiu Nara Leo, que inclura "O sol nascer" (Cartola e Elton Medeiros) tanto no show Opinio, quanto no seu sensacional LP de estria.

O Zicartola virou moda, como parte de um processo no qual se destaca o papel relevante de compositores preocupados com a defesa dos ritmos brasileiros, como Srgio Ricardo e Geraldo Vandr.

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alm de Carlos Lyra e Vincius, chamando a ateno para a temtica dos morros, j nos melhores dias da Bossa Nova. Desse modo, os dois mundos musicais viveram um
momento de integrao, levando muitos jovens compositores a voltarem suas vises crticas para o importante celeiro dos sambistas urbanos e dos compositores de samba que sempre existiram (e continuavam a existir) nos morros cariocas. Nesses tempos de Bossa Nova, pois, resgatava-se o samba do ostracismo, para no falar do desagravo contra o preconceito de quem o considerava ultrapassado, ou mesmo uma configurao rudimentar de nossa msica.  como se, depois dos primeiros anos, a Bossa Nova
fosse abrindo seus olhos para tudo aquilo que abruptamente negara.
Pouco adiante, em meados dessa dcada, comeariam a ser gravados os Depoimentos para a Posteridade, do Museu da Imagem e do Som, no Rio de Janeiro. O  MIS reunia em seu conselho nomes como Almirante, Jacob do Bandolim, Eneida, Edson Carneiro, Vincius de Moraes, Ary Vasconcelos, Srgio Cabral e muitas outras personalidades da msica e da cultura brasileiras. A srie de depoimentos foi iniciada com os sambistas de raiz: Donga, Pixinguinha, Joo da Baiana - e cada gravao era um acontecimento
cultural que repercutia no pas inteiro, fartamente documentado pela mdia. Era a primeira vez que esses artistas autodidatas, negros e semianalfabetos, mas pioneiros do samba e do choro, eram tratados com a distino que mereciam. E se a homenagem no bastasse, os depoimentos at hoje representam uma fonte riqussima para pesquisadores,
com histrias que so a memria de nossa cultura e a viso de mundo expressa em msica.
Mesmo com esse novo impulso favorvel ao samba, Cartola s gravaria seu primeiro disco em 1974, aos 65 anos de idade. Dois anos depois, em outro disco, interpretaria
aquele que  at hoje seu maior sucesso: "As rosas no falam". Gravaria, ao todo, quatro discos solo, alm de um ao vivo, que seria lanado aps a sua morte em 1979.

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Da esquerda para a direita: Pixinguinha  o terceiro, Joo da Baiana, o quinto, e Donga, o sexto. Anos I960.
Museu da Imagem e do Som, RJ

No rastro do Zicartola e da revalorizao do samba, outro grande nome  o de Nelson Cavaquinho. Conforme confidenciou a amigos, ele, que tanto lutou por um lugar ao sol nos anos 1950, alcanou prestgio mesmo quando comeou a tocar no bar dirigido por Cartola e sua mulher. A, ento, pde ser ouvido por platias quase sempre surpresas do quanto de poesia e msica havia naqueles sambistas.

Nosso Nelson Antnio da Silva (RJ, 1910 - RJ, 1986) desde a dcada de 1920 era amigo dos valentes da Lapa, Brancura, Edgar, Camisa Preta e outros malandros. Conviveu com importantes msicos como Edgar Flauta da Gvea, Heitor dos Prazeres, Mazinho do Bandolim e o violonista Juquinha. E foi de Juquinha que recebeu importantes noes de como tocar cavaquinho. Nesta poca, Nelson cunhou a sua maneira peculiar de tocar, usando apenas dois dedos. Assim ganhou o apelido de Nelson Cavaquinho.
 Alistado na cavalaria da Polcia Militar, conheceu Cartola e Carlos Cachaa em patrulhas pelo Morro da Mangueira. Com eles ficava conversando at perder a hora de voltar ao quartel, o que lhe valeu inmeras detenes, assim como o hbito, que foi aos poucos 
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se tornando mais e mais constante, de ficar dias e dias sem aparecer na corporao. Com particularssimo encanto e ingenuidade, chegou a declarar: "Eu ia tantas   vezes em cana que j estava at me acostumando com o xadrez. Era tranqilo, ficava l compondo. Entre as msicas que fiz no xadrez est 'Entre a cruz e a espada'".
J ia ser expulso da PM, quando conseguiu dar baixa. A partir da ingressou de vez na bomia, dedicando-se  msica at morrer.
Ao comeo, Nelson havia sido gravado por Cyro Monteiro e Dalva de Oliveira, sem nunca ter alcanado grande xito. Nos anos 1950, na mesma poca em que se mudou para a Mangueira, conheceu Guilherme de Brito, com quem comearia a fazer msicas - a primeira foi "Gara", gravada em 1954 por Lucy Rosana. J nos anos 1960, a partir
do Zicartola, seria gravado por Nara Leo e Elizeth Cardoso. Somente em 1970, e isso depois de shows em sua homenagem, de ser gravado por Paulinho da Viola e Nelson
Gonalves, e at de um curta-metragem do diretor Leon Hirszman, gravou seu primeiro LP, Depoimento de poeta. Continuou sendo gravado por grandes intrpretes do samba, como Clara Nunes, participando de discos de amigos, como o Pranto de poeta, de Cartola.

Dificilmente podero ser listados todos os intrpretes da obra de Nelson Cavaquinho. Mas se destacam Clara Nunes ("Juzo Final", "Minha festa" e "Palhao"), Nora
Ney ("Quando eu me chamar saudade"), Elizeth Cardoso ("A flor e o espinho", "Luz negra" e "Degraus da vida"), Leny Andrade ("Vou partir"), Beth Carvalho - esta,
a intrprete que mais o gravou - ("Folhas secas", "Quero alegria" e "Se voc me ouvisse", e outras), Elis Regina ("Folhas secas") e Cyro Monteiro ("Rugas"), alm
do prprio parceiro Guilherme de Brito (em vrias composies da dupla). Seus parceiros foram tantos que tambm dificilmente se podem se listar todos. Afora Guilherme
de Brito, figuram entre os mais importantes, Cartola, Jair do Cavaquinho, Joo de Aquino e

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_Nelson Cavaquinho 28 de maro de 1985. N. Pires / Folha Imagem Digitai
Paulo Csar Pinheiro. Sobre Nelson Cavaquinho, escreveu Jos Ramos Tinhoro:

Tome um homem seu violo, cante pelas ruas como um antigo trovador da Idade Mdia a beleza das flores, a efemeridade da vida e a angstia metafsica da morte, e
esse ser o retrato de Nelson Cavaquinho. Com sua cabeleira branca, seu permanente ar de dignidade e a sua voz enrouquecida por muitos anos de cervejas geladas,
o que Nelson Cavaquinho canta (fazendo percutir, mais que dedilhando, as cordas do seu violo)  a saga de um homem que vive em estado de poesia. E cuja obra, por
isso mesmo, no morrer.

Parceiro habitual e amigo de toda a vida de Cartola, Carlos Cachaa (RJ, 1902 - RJ, 1999) nasceu nas cercanias do Morro da Mangueira e j aos 16 anos, atuava como
pandeirista no conjunto de Mano Eli (Eli Antero Dias). O  pseudnimo Cachaa surgiu em uma das reunies na casa do tenente Couto (do Corpo


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de Bombeiros), na qual estavam presentes trs Carlos. Para diferenci-lo, o anfitrio sugeriu batiz-lo com a bebida preferida do compositor, na poca com 17 anos.
J a amizade com Cartola comeou em 1922. Sua primeira composio ocorreu aos 20 anos, "No me deixaste ir ao samba em  Mangueira", gravada mais tarde pelo prprio autor com o ttulo "No me deixaste ir ao samba".
No ano de 1933, a Mangueira desfilou com um samba de sua autoria, "Homenagem", que se tornou o primeiro samba de desfile de escola a mencionar personagens da Histria do Brasil. Consta tambm que para o desfile daquele ano a escola providenciou alguns quadros (estandartes) com os rostos dos poetas citados no samba (Gonalves Dias, Castro Alves e Olavo Bilac), dando origem, assim, ao que mais tarde se chamaria de alas. Alm disso, com este samba, a Mangueira foi a primeira escola a unir o samba ao enredo, originando o samba-enredo.
 O samba-enredo  uma modalidade do samba criada pelos compositores de escolas de samba do Rio de Janeiro. Suas origens datam justamente do incio da dcada de 1930.
No samba-enredo, a letra deve compreender o resumo potico do tema histrico, folclrico, literrio, biogrfico ou mesmo de criao livre, que for escolhido para enredo ou assunto da apresentao da escola de samba em seu desfile-espetculo diante do pblico. Inicialmente cantado apenas durante os desfiles das escolas de samba na Praa Onze de junho, no Rio de Janeiro, os sambas-de-enredo passaram a interessar tambm aos cantores profissionais a partir da dcada de 1940. A primeira gravao comercial de uma composio dessa modalidade, o "Natureza bela! "(Henrique Mesquita e Felisberto Martins), cantado por Gilberto Alves, era um samba-enredo da escola de samba Unidos da Tijuca, Rio de Janeiro, apresentado em seu desfile do ano de 1936. Desde a sua criao, o samba-enredo passou por algumas mutaes, como
a que lhe conferiu Martinho

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da Vila, nos anos I960 e 1970, ou a que ocorreu nos anos 1980 e 1990, o samba-enredo- marcheado, predominante at hoje, com seu ritmo da marchinha de carnaval mais sincopado e mais fcil, visando levantar o pblico das arquibancadas assim que a escola pisa na Passarela do Samba. Com Carlos Cachaa e sua gerao, da Mangueira, assistimos ento ao nascimento do samba-enredo em sua forma original, com cadncia prpria e letra de samba, mas integrado ao desfile da escola.
Carlos Cachaa representou tambm uma certa excepcionalidade na histria do samba, aqueles compositores que seguiam fazendo sucesso no meio do ano, ou seja, no apenas no carnaval. Assim, em 1936, aparece o grande xito alcanado por Aracy de Almeida com "No quero mais" (Carlos Cachaa, Cartola e Z da Zilda). Na etiqueta do disco, o nome de Cartola no aparece, constando somente os de Jos Gonalves (Z da Zilda) e Carlos Moreira da Silva (Carlos Cachaa). Anos depois, o samba viria a ser gravado por vrios artistas da MPB, com destaque para Paulinho da Viola. "No quero mais amar a ningum"  at hoje um dos maiores sucessos do compositor.
E foi uma parceria sua com Cartola, "Quem me v sorrindo", o nmero apresentado por este ltimo acompanhado pelas pastoras da Mangueira, na famosa gravao dirigida pelo maestro Leopoldo Stokowski.

Redescoberto no Zicartola na dcada de I960, so incontveis os nomes com quem fez parcerias ou que gravaram suas msicas. Notvel mangueirense, Cachaa fez seu ltimo desfile pela escola em 1988. J debilitado, em uma cadeira de rodas, presenciou a escola sagrar-se campe com o enredo Chico Buarque da Mangueira, desfilando ao lado do homenageado, que o beijou repetidas vezes.

Outra personalidade do samba a ser citada aqui  Nelson Sargento (RJ, 1924 -), compositor, cantor, escritor e pintor. Morador do Morro da Mangueira desde os 12 anos, aprendeu a tocar violo com Alusio Dias, Cartola e Nelson Cavaquinho. Foi
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Carlos Cachaa quem o levou para integrar a Ala de Compositores da Mangueira, em 1947, mas o apelido de Sargento veio da patente que tinha no exrcito at 1949 e
parece no haver dvida que sua obra-prima  o samba-enredo em parceria com Alfredo Portugus (seu pai adotivo): "Cntico  natureza", que classificou a escola em 1 lugar no desfile de 1955. Na opinio de Hiram Arajo no livro Carnaval- seis milnios de histria, a composio, tambm conhecida como "Quatro estaes do ano", ou ainda "Primavera",  um dos 10 melhores sambas da escola e um dos mais belos de todos os tempos. Depois de parcerias com Cartola ("Vim lhe pedir", "Samba do operrio", entre outras) e Carlos Marreta ("Vai dizer a ela"), foi escolhido presidente da Ala de Compositores da Verde-e-Rosa. Na dcada de I960, quando comeou  a atuar profissionalmente, Nelson  participa do Zicartola, e mais tarde do musical Rosa de Ouro, produzido e dirigido por Klber Santos e Hermnio Bello de Carvalho, atuando juntamente com Paulinho da Viola, Aracy Cortes, Elton Medeiros, Anescarzinho do Salgueiro e Clementina de Jesus. Com o fim do musical, Z Kti chamou alguns de seus integrantes
para formar o grupo A Voz do Morro (Paulinho da Viola, Elton Medeiros, Jair do Cavaquinho, Anescarzinho, Z Kti, Nelson Sargento, Oscar Bigode e Jos da Cruz),
que registrou trs discos.

A partir dos anos 1970, foi sendo gravado por intrpretes como Paulinho da Viola, Elizeth Cardoso, Renata Lu, Beth Carvalho, at que em 1979 gravou seu primeiro
LP solo, Sonho de um sambista. O segundo disco solo, Inditas de Nelson Sargento, surgiu em 1990, quando j ento era reconhecido como pintor e escritor (publicou o livro de poemas Prisioneiro do mundo). Nelson, que por profisso  pintor de paredes, viria a desabrochar como pintor de quadros com inmeras exposies em seu currculo, em que cenas do cotidiano da cidade, figuras primitivistas e favelas (muitas favelas) so temas constantes.

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Antnio Candeia. U. Dettmar / Folha Imagem

finalmente, entre as melhores personalidades que mantiveram acesa a alma do samba, como o hoje grande Elton Medeiros ou o saudoso Mauro Duarte - torna-se obrigatria  uma citao a Antnio Candeia (RJ, 1935 - RJ, 1978). Candeia aprendeu a tocar violo e cavaquinho ainda criana nas rodas de samba, e logo passou a participar das reunies de sambistas em Oswaldo Cruz. Por essa poca fez amizade com vrios compositores (como Luperce Miranda) e freqentava os terreiros de candombl, as rodas de capoeira e a Escola de Samba Vai Como Pode. Foi essa que deu origem  Portela, campe em 1953 com o primeiro samba enredo de sua autoria, "Seis datas magnas", em parceria com Altair Marinho, num desfile em que a Portela obteve nota mxima em todos os quesitos. Novamente com um samba-enredo seu, "Legados de D. Joo VI", a escola seria campe, em 1959, ano em que Candeia teve a sua primeira msica gravada, "Samba sincopado", registrada por Lus Bandeira, sambista de sucesso na poca, que ouvira o samba por acaso, nos estdios da gravadora Sinter. Candeia sairia da Portela na dcada de 1970, desgostoso com o gigantismo
que havia tomado conta das escolas de samba. Fundou, ento ao lado de Wilson Moreira, Nei Lopes, Joo Nogueira e Paulo Csar Pinheiro, o Grmio Recreativo de Artes Negras e Escola de Samba Quilombo, em Coelho Neto, subrbio do Rio de Janeiro.
 Policial civil desde os 22 anos, Candeia levou um tiro na coluna

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(em 1953), e ficou paraltico. A partir da, dedicou-se  carreira artstica, mas tambm a uma militncia em prol da difuso da cultura negra que o levou, no incio da dcada de 1960, a participar do movimento de revitalizao do samba, promovido pelo CPC (Centro Popular de Cultura) em parceria com a UNE (Unio Nacional dos Estudantes).
 Freqentador do Zicartola, o primeiro LP individual de Candeia foi lanado em 1970. Entre os intrpretes de suas msicas esto Clementina de Jesus, Paulinho da Viola,
Clara Nunes, Elza Soares, Alcione, Beth Carvalho, Martinho da Vila e Chico Buarque de Hollanda. Em 1986, foi homenageado pela Escola de Samba Unidos do Jacarezinho, com o enredo Candeia, luz de inspirao, com o qual a escola foi promovida para o grupo principal. Como legado, deixou aquilo que foi bem analisado pelo crtico Mauro Ferreira: "Tal qual Zumbi dos Palmares, Candeia era o Zumbi dos terreiros cariocas, desbravando caminhos. E lutou para manter erguida a bandeira dos partidos mais altos e do orgulho negro."

Mas se ainda estamos aqui a vistoriar alguns dos grandes sambistas que sairiam do Zicartola, outro nome obrigatrio da gerao de 1960  Paulinho da Viola (Rio de Janeiro, RJ, 1942 -), que no apenas se encantou com o rio que passou em sua vida, ao ver a Portela desfilar. Sua msica e seu doce canto expressos numa fina combinao de singelo e poderoso lirismo contagiaram quase que imediatamente o pblico.
Paulinho veio a ser o portador de muitas novidades do samba redescoberto e que conquistava as preferncias da classe mdia. A comear pelo bairro onde nasceu e se criou, Botafogo, na Zona Sul do Rio de Janeiro - Paulinho sempre defendeu o bairro com um ardor noelrosiano, como um centro gerador de samba to criativo como os morros e subrbios cariocas. Mas Paulinho teve a quem puxar, porque veio de uma estirpe musical das mais

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Paulinho da Viola I 04104100. Patrcia 
Santos / Folha Imagem
nobres. Seu pai, o violonista Csar Faria, fez parte do conjunto de choro poca de Ouro e tocou com os grandes chores de ento, como Pixinguinha e Jacob do Bandolim.
No por acaso, a carreira de Paulinho da Viola mostra uma extraordinria fidelidade s razes populares de sua msica. Curioso  que Csar Faria no queria que o filho seguisse a carreira de msico. A  muito custo Paulinho o convenceu a lhe dar de presente seu primeiro violo.
A Portela atravessou sua vida em 1963, levado at l por seu primo, Oscar Bigode, diretor de bateria da escola. Nessa poca, Paulinho, j tendo algumas composies,
estudando contabilidade e trabalhando como bancrio, conheceu Hermnio Bello de Carvalho, que por sua vez o apresentou a Cartola, introduzindo o assim no Zicartola.
Ali Paulinho comeou a acompanhar ao violo (e no cavaquinho) vrios cantores e a interpretar composies de outros autores. No Zicartola, ganharia seu primeiro cach fazendo um show com Z Kti, que o incentivou a apresentar suas prprias composies. O nome Paulinho da Viola foi dado por Z Kti e Srgio Cabral. E, como era mesmo de se esperar,
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em breve ele abandonaria o emprego de bancrio para se dedicar de vez  msica.

Os anos seguintes mostrariam o acerto de sua escolha. Primeiro, participou do conjunto A Voz do Morro (com Elton Medeiros, Jair do Cavaquinho, Z Kti, Anescarzinho do Salgueiro e Nelson Sargento), do qual saram LPs que j incluam msicas suas: "Corao vulgar", "Conversa de malandro", "Jurar com lgrimas", "Recado" e "Responsabilidade".
Em seguida, ao lado de Nelson Sargento, Elton Medeiros, Anescarzinho do Salgueiro, Clementina de Jesus e Jair do Cavaquinho, participou do musical Rosa de Ouro,
tambm gravado em LP. Em 1966, a Portela foi campe com seu samba "Memrias de um sargento de milcias".

Com Elton Medeiros, gravaria o disco Samba na madrugada, no qual despontou o sucesso "Catorze anos", de sua autoria, alm de "Minhas madrugadas" (com Candeia), incluindo tambm composies de Z Kti, Elton Medeiros e Cartola. Paulinho seguiria gravando, alm de suas prprias composies, as de inmeros grandes sambistas at que em 1970 lanou um de seus maiores sucessos, "Foi um rio que passou em minha vida". Destaque tambm para a sua produo do primeiro disco da Velha Guarda da Portela,
Portela, passado de glria, do qual participaram Monarco, Aniceto, Manaca, Francisco Santana, Iara e Alberto Lonato, alm de Csar Faria - seu pai, que j no tinha mais argumentos para tentar convencer o filho a seguir outro ofcio que no a msica.
A importncia de Paulinho  demonstrada pela grande quantidade de estudos e biografias publicados em livros que lhe so dedicados, alm de documentrios filmados sobre sua vida e obra. A relevncia de sua histria na MPB est principalmente na constncia com que os maiores intrpretes da atualidade gravam e regravam suas msicas.

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Por essa mesma poca, surge no opulento mundo do samba carioca - que como j vimos vinha expandindo suas fronteiras para o consumo nacional - um personagem que j no nome traz uma das marcas registradas do melhor de nossa msica: Martinho da Vila (1938). Inevitavelmente ligado ao bairro de Noel Rosa e  escola  de samba Unidos de Vila Isabel, Martinho s chegou por l em 1965, quando ento foi batizado com seu nome artstico. Seus pais foram meeiros em diferentes fazendas de Duas Barras, Estado do Rio de Janeiro, mas se mudaram para Lins de Vasconcelos, subrbio do Rio, em 1942. Martinho, nascido num sbado de carnaval, foi criado ento num local chamado Serra dos Pretos Forros, perto da sede da escola Aprendizes da Boca do Mato. Esta seria a sua primeira agremiao, para a qual comps um dos primeiros sambas, "Piquenique" -  poca, ainda era chamado de Martinho da Boca do Mato.
Por intermdio de Paulo Brazo, transferiu-se para a Unidos de Vila Isabel, onde se notabilizou como inovador na arte de fazer samba-enredos, ganhando por quatro
anos consecutivos (de 1967 a 1970) os concursos da escola. Martinho  um personagem to importante da histria da Unidos de Vila Isabel que, num disco dedicado  escola, com os dez melhores sambas j apresentados pela agremiao, nove eram de sua autoria.
A participao no III Festival de Msica da TV Record em 1967 com o samba "Menina-moa", que sofreu uma perseguio do apresentador de TV Flvio Cavalcante em seu programa e por isso foi censurado, marcaria o incio de sua carreira para o grande pblico - a composio seria defendida apenas pelo histrico Jamelo, mas acabou sendo cantada em dupla com o prprio Martinho. No ano seguinte, voltou ao Festival da Record com a msica "Casa de bamba", que se tornou um clssico. Mais  frente participaria do IV Festival Internacional da Cano no Rio com "Carnaval e chuva" e do V FIC com o samba-dolente "Meu laia-

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O cantor Marimbo da Vila beija a bandeira da escola de samba Unidos de Vila Isabel, durante desfile da escola no Sambdromo. Rio de Janeiro (RJ), fevereiro de 1999.
Marlkne Bergamo / Folha Imagem



raia". Dois anos mais tarde, tendo feito vrios shows e participaes em diversos discos-antologias, voltou ao Festival da Record apresentando a msica "Casa de
bamba". Logo depois, inspirado num colega que aps formar-se em Direito no convidou os companheiros de trabalho para a festa de formatura, comps "O pequeno burgus", samba que conquistou o pas inteiro. Em 1974, o enredo da Vila, Tribo dos Carajs, foi muito modificado no concurso da Vila Isabel por motivos polticos, e tambm
nessa poca algumas de suas msicas foram vetadas pela censura, como por exemplo "Aruan Au", (do enredo Tribo dos Carajs). Em 1987, com "Razes" (com Ovdio Bessa e Azo), inovou o desfile de carnaval ao levar para a avenida um samba-enredo sem rimas, classificando a escola em 5 lugar. O primeiro campeonato viria no ano seguinte, como criador do enredo Kizomba - a festa da raa , que originou o samba-enredo de mesmo ttulo, de autoria de Lus Carlos da Vila, Rodolpho de Souza e Jonas Rodrigues.

Uma das marcas do estilo de Martinho da Vila sempre foi o samba de partido-alto, gnero surgido no incio do sculo XX, conciliando formas antigas (o partido-alto
baiano, por exemplo) e mo-

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dernas do samba-dana-batuque, desde os versos improvisados  tendncia de estruturao em forma fixa de cano. O partido-alto era cultivado inicialmente apenas por velhos conhecedores dos segredos do samba-dana mais antigo - o que explica o prprio nome, partido-alto -, sendo equivalente da expresso moderna de alto gabarito.
Inicialmente caracterizado por longas estrofes ou estncias de seis e mais versos, apoiados em refres curtos, o samba de partido-alto ressurge a partir da dcada
de 1940, cultivado pelos moradores dos morros cariocas ligados s escolas de samba, mas j no incluindo necessariamente a roda de dana e reduzido  improvisao individual, pelos participantes, de quadras cantadas em intervalos de estribilhos geralmente conhecidos de todos. O que Martinho fez foi no s trazer esse segredo de iniciados do samba para o pblico em geral, como suavizar suas formas, dando-lhe mais musicalidade e, a exemplo do que introduziu no samba-enredo, conferindo-lhe versos mais ligeiros, mas sempre mantendo a ginga, a sensualidade original.
No correr da dcada de 1970, enquanto virtualmente sustentava o samba com as altas vendagens de seus discos e a par de vrias excurses a naes africanas, vamos
encontrar o nosso indispensvel Martinho desenvolvendo importante militncia pela conscincia negra, liderando o projeto Kizomba, com Encontros Internacionais de
Arte Negra, alm da promoo de vrios eventos. Ainda nessa poca "Meu homem - carta a Nelson Mandela", em homenagem ao lder sul-africano, foi gravado por Beth
Carvalho no LP Alma do Brasil. Figura mpar e queridssima no meio do samba e do pblico, Martinho, no campo musical, deu uma contribuio expressiva  arte de compor sambas-enredo: em vez de letras caudalosas, versos mais concisos e no lugar das arrastadas melodias uma msica de compasso mais prximo da batida de partido-alto.
Martinho, portanto, popularizou, e muito, este gnero at ento confinado aos terreiros.
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De fato,  quase impossvel separar a nova ecloso do samba na dcada de 1970 da questo do orgulho da negritude, que comea a partir de ento a ser levantada, se bem que de modo bastante incipiente, no rastilho das grandes demandas dos movimentos sociais do incio da dcada anterior. Sempre foi mais cmodo para a sociedade brasileira falsear o preconceito social das elites, sob diversos eufemismos (o que no deixava de ser tambm a negao do atributo, ou quem sabe do dom maior de nossa sociedade: somos um povo tnica e culturalmente mestio). Tornou-se claro que ser sambista no era ttulo que desse prestgio a ningum. E s ver a histria de vida dos compositores de nosso samba de raiz, desde os que se criaram nos terreiros das tias baianas ao comeo do sculo XX at o ncleo iluminado do Zicartola, para concluir-se que o talento desses compositores e a obra que nos deixaram nunca foram suficientes para desfazer as barreiras de classe social e de raa. Eles eram o entretenimento de uma sociedade na qual, a bem da verdade, lhes estava reservada apenas uma posio  parte. O reconhecimento de sua importncia at aqueles anos sempre se deveu a pesquisadores, cronistas e, principalmente, apaixonados por nossa cultura popular mais autntica. No entanto, ao ressurgir na dcada de 1960,
no s o samba - mas at uma certa volta Marioandradeana do amor por nossas razes - comearam a contagiar setores da classe mdia, ganhando um espao que hoje j se pode considerar consolidado em nossa afetividade e identidade culturais. Os prprios sambistas comearam a abraar, "com a dignidade de um mestre-sala", essa
ligao quase mstica, mas inegvel, entre sua arte e a cor de sua pele e sua origem humilde, como bem exemplifica o perfil de dois nomes surgidos nesse contexto:
Nei Lopes e Wilson Moreira.
Nei Lopes (RJ, 1942 - ), nascido e criado no subrbio carioca de Iraj, teve a conscincia e o orgulho de sua negritude despertados pela convivncia com figuras
das comunidades que freqentou, como Maurcio Teodoro (Salgueiro), Carlos da Rosa (Serrinha) e

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Em entrevista para o jornal O Globo, 2 Caderno, 18/12/1999.

Pinduca (Catete). Maurcio morava com uma  parente, Tia Dina, outra pessoa para quem ser negra era uma distino toda especial que ela transmitia, generosamente,  moada que se reunia l para cantar e escutar samba de qualidade. Era um grande prazer para Nei estar ali, pois foi onde "Deixei de ser mulatinho para ser negro, embora o processo estivesse longe da conscientizao". 1 Nei ingressou na Faculdade Nacional de Direito da Universidade do Brasil (atual UFRJ) em 1962 (ele se formaria e chegaria a exercer a profisso durante alguns anos), e s depois da morte de seu pai, a quem no agradava muito que o filho cantasse e freqentasse as rodas de samba, assumiu definitivamente o seu lado artista. E comeou por desfilar pelo Salgueiro, a partir de 1963.

Entre as experincias enriquecedoras da casa da Tia Dina, Nei inclui a amizade com Pop, que o levou para a religio africana mais radical - o candombl tradicional,
de fundamento baiano. Nei Lopes seria no apenas um praticante do candombl, mas um estudioso da religio, vendo nessa entrega, acima de tudo, uma forma de integrao, uma unio cultural dos negros. Toda essa densa experincia e o conhecimento acumulados transparecem em seus livros e em suas composies, centradas na temtica afro-brasileira.

J na dcada de 1970, inicia a parceria com Wilson Moreira, com quem comps alguns clssicos do samba como "Senhora liberdade", gravada por Zez Motta, "Goiabada casco", gravada por Beth Carvalho, "Gostoso veneno", gravada por Alcione, "Coisa da antiga", interpretadas por Clara Nunes, e "Coit e cuia", gravada pelo grupo Batacot - assim batizado pelo prprio Nei Lopes. A dupla lanou, em 1980, o disco A arte negra de Wilson Moreira & Nei Lopes, coletneas de seus maiores sucessos, e mais tarde O partido muito alto de Wilson Moreira & Nei Lopes. Nei, com slida e respeitada carreira at hoje, acumulando intrpretes os mais destacados para suas msicas e nobres parcerias, mantm-se fiel ao princpio maior e razo de ser de sua arte, a militncia.
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Compositor, cantor, criado no subrbio carioca de Realengo, Wilson Moreira (1936) trabalhou em vrias profisses - foi guia de cego, guarda penitencirio e engraxate.
De uma famlia em que avs e tios foram jongueiros e tocadores de caxambu, ele, adolescente, desfilava tocando tamborim em antigas escolas da Zona Norte, j extintas.
E tem em seu currculo a honra de ter sido um dos fundadores da Mocidade Independente de Padre Miguel (tocou surdo na bateria da escola, e mais tarde passou para a Ala dos Bomios, como passista), onde fundou tambm a Ala dos Compositores. Fez curso de msica entre 1968 e 1970, com o maestro Guerra Peixe, dentro da Escola Brasileira de MPB, criada dentro do Museu da Imagem e do Som do Rio de Janeiro, por meio de bolsa distribuda a compositores de escolas de samba.

Seu samba-enredo "Brasil no campo cultural" (com Da Vila/, Jurandir Cndido e Arsnio Isaas) foi campeo em 1962; a mesma parceria alcanaria o bicampeonato, no ano seguinte, com "As Minas Gerais". Teve uma rpida passagem pela Ala dos Compositores da Portela, saindo da escola para fundar (junto com Candeia e Nei Lopes)
o Grmio Recreativo de Artes Negras e Escola de Samba Quilombo.

Experimentou parceiros como Candeia, Clvis Scarpino, Nelson Cavaquinho e, finalmente, Nei Lopes, com quem comps uma vasta obra em defesa do samba de raiz e da conscincia negra, seduzindo ento intrpretes como Alcione, Zez Motta, Clara Nunes, Beth Carvalho, Elizeth Cardoso, Zeca Pagodinho, Roberto Ribeiro, Jovelina Prola Negra, entre outros. Estava presente no primeiro disco de Zeca Pagodinho, com duas parcerias dos dois e que logo despontaram como grande sucesso no LP: "Judia de mim" e "Quintal do cu". Wilson se manteve como uma referncia do samba mais autntico, sempre chamado a represent-lo em shows antolgicos e gravaes em homenagens aos seus maiores nomes.
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Muitos outros personagens devem ser ainda lembrados nesse processo importantssimo em que o samba se dissemina e, de modo definitivo, conquista seu lugar em nossa alma musical - e no gosto do pblico. Citemos por exemplo Z Kti (Jos Flores de Jesus, RJ, 1921 - RJ, 1999), que cantou como poucos as favelas, a malandragem e seus amores, ainda nos anos 1950. Popularssimo em muitos carnavais - seu "Mscara Negra"  sempre tocado e acompanhado com entusiasmo nos blocos mais tradicionais -, estrelou o Show do Opinio - to importante por ter produzido a ponte entre a crtica politizada do incio da dcada de I960 e o samba de raiz, mas tambm por ter sido um dos primeiros gritos artsticos de protesto contra o regime militar - de 1964 a 1965, ao lado de Nara Leo e Joo do Vale. Sua histria musical comea desde criana, quando muito pequeno foi morar com o av, o flautista e pianista de Joo Dionsio Santana, que costumava promover reunies musicais em sua casa, das quais participavam nomes famosos como Pixinguinha, Cndido (ndio) das Neves, entre outros. J adolescente, foi freqentador do Caf Nice, convivendo com grandes figuras da poca, como Wilson Batista, Geraldo Pereira e Francisco Alves. Em 1962, j o encontramos com Cartola, Nelson Cavaquinho, Joacir Santana, Armando Santos  e Ventura, participando de um programa na TV Rio com Srgio Cabral, que serviu de ensaio-geral para o que seria o conjunto A Voz do Morro. Freqentador tambm do
Zicartola, do qual chegou a ser diretor musical, foi sem dvida um dos elos entre sambistas e artistas e intelectuais de classe mdia da Zona Sul carioca - e no
foi  toa que coube a ele apresentar Carlos Lyra a Nelson Cavaquinho, Elton Medeiros e outros bambas, como Nara Leo, que o conheceu no Zicartola e comeou a grav-lo junto com os bossa-novistas. Sua obra rene mais de duzentas msicas e Z Kti foi um dos compositores mais reverenciados pelos artistas at a sua morte.
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Z Kti - So Paulo, setembro de 1988.
Outro nome a se registrar aqui - nesta incompleta relao de sambistas estimados -  o de Guilherme de Brito, compositor, cantor, escultor e pintor premiado, grande
poeta e principal parceiro de Nelson Cavaquinho. No bastassem tantas msicas lindas, um s verso seu bastaria para consagr-lo para sempre: "Tire seu sorriso do caminho/ Que eu quero passar com a minha dor". ("A flor e o espinho", em parceria com Nelson Cavaquinho). Outro grande: Noca da Portela, cantor, compositor e instrumentista
que j aos 15 anos compunha seu primeiro samba-enredo, "O grito do Ipiranga", para a Escola de Samba Unidos do Catete. No s venceu o carnaval daquele ano como
garantiu a primeira nota dez da carreira do compositor. Ex-feirante, ex-militante do PCB, Noca foi outro que passou do Zicartola para o Teatro Opinio, convidado
por Paulinho da Viola, em 1966, para atuar como violonista no show Carnaval para principiantes. Mais tarde, o mesmo Paulinho da Viola o levou para a Portela, onde Noca notabilizou-se a ponto de ganhar ali seu nome artstico.


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Noca da Portela  compositor de mais de trezentas msicas gravadas, inclusive sucessos internacionais como o samba "E preciso muito amor".
Ainda o maranhense Joo do Vale, que se lanou compondo baies. O antigo pedreiro de obra em Copacabana foi outro personagem do Zicartola - para o qual foi convidado por Z Kti e tambm do Show Opinio, chamado por Oduvaldo Viana Filho, o Vianinha, para fazer a parte nordestina do show, com Z Kti comandando a parte do samba.
Registremos tambm o nome de Elton Medeiros, outro que despontou no Zicartola, onde iniciou uma riqussima parceria com Paulinho da Viola, compondo com Cartola ("O sol nascer"), entre outras jias do samba carioca.

Finalmente, poucos poderiam fechar to bem esta lista como o autor do que j foi muitas vezes indicado como o melhor e o mais bonito samba-enredo de todos os tempos
- "Heris da Liberdade", de Silas de Oliveira (com Mano Dcio da Viola - pai de Jorginho do Imprio - e Manuel Ferreira). Silas, com uma belssima histria no Imprio
Serrano, teve seu "Heris da Liberdade", cantado por Jorge Goulart, na avenida em plena vigncia do AI-5 (1969), e foi autor de outros sambas-enredos, sempre na
Imprio  Serrano e sempre includos nas listas dos preferidos do samba, como "Cinco bailes tradicionais da histria do Rio" (com Dona Ivone Lara e Bacalhau) e "Aquarela brasileira".

Se alinharmos ento as intrpretes do samba, impossvel no comear por Elza Soares e Clementina de Jesus.
Elza Soares fez seu primeiro teste na rdio Tupi, no incio dos anos 1950, no programa Calouros em desfile, de Ary Barroso. Moreira da Silva, em seus relatos, contava
que foi ali que a conheceu, e que, encantado pelo seu jeito de cantar, comeou a ajud-la em sua carreira. No entanto, nem todas as histrias do ltimo dos malandros so confirmadas pelos que delas participaram como coadjuvantes - mas o lato  que Elza Soares era um talento nato to evidente


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Elza Soares/1965
Arquivo Cedoc /Funarte

que muitos so os que reivindicam a terem descoberto. Depois de Elza Soares 11965fazer parceria em show com Grande Otelo e de excurses pelo exterior, gravou seu primeiro sucesso, "Se acaso voc chegasse" (Lupicnio Rodrigues e Felisberto Martins), em 1958. Figura festejada do samba, sua longa carreira continua marcada de xitos, como comprova seu disco Do cccix at o pescoo, eleito pela crtica como o melhor de 2002, e "Faamos! "("Vamos amar"), verso para "Let's do it" ("Let's fall in love"), de Cole Porter, interpretada em dueto com Chico Buarque, que foi includa em trilha musical de novela da Rede Globo.

J Clementina de Jesus  uma paixo  parte dentro da MPB. Cantora e compositora, seu pai foi mestre de capoeira e violeiro, e com a me aprendeu os cantos de trabalho, partidos-alto, ladainhas e jongos, assim como corimas e pontos de macumba - sempre presentes em seu repertrio. De origem modesta e precisando trabalhar em empregos
exaustivos para sobreviver, somente aos 63 anos comeou a carreira artstica, lanada por Hermnio Bello de Carvalho. Chamada para participaes marcantes em gravaes de grandes nomes da MPB, como, entre outros. Milton Nascimento, recebeu tam-



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Clementina de Jesus / 1979
Arquivo CEDOC/Funarte

bm vrias homenagens, entre elas a do ento Secretrio de Cultura do Estado do Rio de Janeiro, Darcy Ribeiro, no Teatro Municipal, do Rio de Janeiro, em agosto
de 1983, num evento que contou com a presena de vrias personalidades e artistas. Em 1985, recebeu do governo francs, atravs do Ministro da Cultura Jack Lang, a Comenda da Ordem das Artes e Letras, com a presena de Jorge Amado, Caetano Veloso e Milton Nascimento. Ficou famosa como a Rainha Ginga ou Quel, num reconhecimento
do tanto que havia de musicalidade, de pureza e esprito de raiz em sua voz, ou mesmo em sua simples presena num palco.
A linhagem das intrpretes do samba desenvolvida a partir da  das mais nobres, incluindo nomes como Clara Nunes, Dona Ivone Lara, Beth Carvalho, Alcione, a Marrom, e Leci Brando, entre tantas outras.

Nossa saudosa Clara Nunes que em menina trabalhava como tecel cresceu ouvindo Carmem Costa, Angela Maria e, principalmente, segundo as suas prprias palavras, Elizeth Cardoso e Dalva de Oliveira. Pesquisadora da MPB, de seus ritmos e folclore, Clara viajou vrias vezes para a frica. E como grande conhe-

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Clara Nunes, Rio de Janeiro, RJ. Anos 1970
Manoel Pires / Folha Imagem

cedora das danas e das tradies afro-brasileiras, acabou por converter-se ao candombl. Clara foi uma requisitada crooner de boates da moda em Minas Gerais, no comeo dos anos 1960, e - uma curiosidade - teve como baixista Milton Nascimento, na poca, j conhecido como Bituca. Foi uma das cantoras que mais gravou os compositores da Portela, sua escola de corao, alm dos ritmos ritualsticos africanos. Clara Nunes faleceu no Sbado de Aleluia do ano de 1983, aos 40 anos, em conseqncia de um acidente at hoje inexplicado durante uma cirurgia de varizes. Seu corpo foi velado por mais de 50 mil pessoas na quadra da escola de samba Portela. O enterro, no cemitrio So Joo Batista, foi acompanhado por uma multido de fs e amigos. Em sua homenagem, a rua em Madureira onde fica
a sede da Portela, recebeu o seu nome.
Dona  Ivone Lara, filha de uma pastora do Rancho Flor do Abacate e um violonista e passista do Bloco dos Africanos, agremiaes da dcada de 1920, comeou sua vida artstica como compositora da Escola de Samba Prazer da Serrinha, logo depois o Imprio Serrano. Na dcada de 1970 participava das rodas de samba do

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_Beth Carvalho, 1993. Arquivo Cedoc / Funarte

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Teatro Opinio, ao  mesmo tempo que se dedicava a gravaes nas quais no apenas inclua suas composies como revelava novos compositores e intrpretes - Ivone apresentou-se no Teatro Opinio por 14 anos seguidos, formando um pblico que a cultuava, da a homenagem de a chamarem de Dona, reconhecendo-se nela umas das mais belas e categorizadas
expresses do samba. Ttulos de sua obra, de mais de trezentas msicas, so constantemente regravados por intrpretes como Leci Brando, Martinho da Vila, Zeca Pagodinho e muitos mais.

Cidad  mangueirense da mais alta estirpe, Beth Carvalho, cantora, msica e compositora, teve despertada a vocao pela msica ao escutar pela primeira vez Joo Gilberto cantando "Chega de saudade" e "Desafinado". E, ainda adolescente, freqentava as rodas de samba, festas e pagodes nos quintais suburbanos do Rio de Janeiro. Era apaixonada pela Bossa Nova - mas tambm pelo Carnaval. Tanto que em meados da dcada de I960, a  encontramos participando dos espetculos Msica nossa, ao lado de Egberto Gismonti e Tibrio Gaspar, e A hora e a vez do samba, com Nelson Cavaquinho, Z Kti e Os Cinco Crioulos. Beth

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Dona Ivone Lara. So Paulo, 1979. Folha Imagem

Carvalho, uma das carreiras mais bem-sucedidas de nossa msica, transitando com facilidade por diversos gneros, tem seu nome hoje fortemente ligado ao samba, que sempre divulgou. No sem razo, Martinho da Vila comps especialmente para ela "Enamorada do samba" (1975); como este,  Beth colecionou diversos ttulos que lhe foram
sendo conferidos atravs dos anos: Diva do samba, dado por Zuza Homem de Melo, Rainha do samba, dado por Rildo Hora, Rainha dos terreiros, dado por Elifas Andreato, e Madrinha, assim chamada por quase todos os sambistas, novos e antigos. Na dcada de 1970, juntamente com Alcione e Clara Nunes, formou o que os crticos chamaram de O ABC do samba, pela importncia das trs cantoras no cenrio musical brasileiro, principalmente no samba. Histrico tambm  o seu disco De p no cho (1978) - puxado pelos sucessos "Vou festejar" (Jorge Arago, Dida e Neocir), "Goiabada casco" (Wilson Moreira e Nei Lopes) e "Agoniza mas no morre", de Nelson Sargento -, que chegou a vender 500 mil cpias e marcou o surgimento do pagode carioca. O pagode, alis,  um jeito inovador e descontrado de fazer samba, descoberto por ela quando assistia a um ensaio do bloco carnavalesco Cacique de Ramos, cujos sambistas faziam um ritmo diferente com pandeiro, tamborim, banjo e tant, instrumentos
pouco usados em rodas de samba. Consagrada no Brasil e no exterior, Beth Carvalho participou por duas vezes do Festival de Montreux na Sua. Sua carreira artstica faz parte do currculo da Faculdade de Msica de Quioto, Japo, onde  considerada um fenmeno da msica brasileira.

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Certa noite, o crooner da Orquestra Jazz Guarani em So Lus (Maranho) apareceu rouco, minutos antes de uma apresentao. O espetculo j ia ser cancelado, quando um dos integrantes da orquestra deu a idia de colocar sua filha no lugar do crooner. Foi um sucesso, e tambm o incio da carreira de Alcione, a Marrom, como ficou conhecida.

Em 1968, mudou-se do Maranho para o Rio de Janeiro e foi trabalhar numa loja de discos. Alcione comeou cantando no Beco das Garrafas, reduto histrico do nascimento da Bossa Nova, em Copacabana, Rio de Janeiro. Seu primeiro disco gravado foi um compacto simples (1972), do qual constavam "Figa de Guin" (Reginaldo Bessa e Nei Lopes) e "O sonho acabou". Fazia ento excurses pelo exterior e era j um nome da noite carioca, apresentando-se com Emlio Santiago e Jair Rodrigues. Ganhou seu primeiro Disco de Ouro em 1975 e, pouco depois, o disco Pra que chorar, que vendeu 400 mil cpias, consagraria a cantora diante do pblico. Da para a frente, a sua popularidade s fez aumentar, a Marrom, com sua voz profunda e inconfundvel, destaca-se como grande intrprete no s de compositores tradicionais e modernos do samba, mas tambm como estrela de shows e de gravaes ao lado de artistas como Chico Buarque, Djavan, Ed Motta e Cssia Eller.
Leci Brando nasceu em Madureira, subrbio do Rio de Janeiro, e foi criada em Vila Isabel. Em 1974, j formada em Direito, entrou para a Ala dos Compositores da Mangueira, sua escola preferida. Estudiosa do samba, defensora das razes da nossa msica, de sua escola e da ligao das agremiaes de samba com as comunidades que lhes do vida, atuou vrias vezes como comentarista de desfiles de Carnaval. Compositora e intrprete, sempre divulgando novos nomes do samba mais autntico, desenvolveu tambm na dcada de 1980 intensa participao em campanhas polticas, realizando shows em defesa das minorias. Em 1990, recebeu dois Pr-

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mios Sharp pelo disco Cidad brasileira, do qual constavam suas composies "Amor de cangao" (com Mirab e Vital Santos), "Batida do corao" (com Z Maurcio),
alm de "Ousadia do olhar" e "Maravilha - Arakctu, semente da memria", de autoria de Tonho Matria, que logo se tornou o sucesso do disco. Em 1998, l estava ela
no CD Chico Buarque de Mangueira, cantando, juntamente com o compositor e com Alcione, a msica "Alvorada", uma das mais fortes referncias musicais da Mangueira.
E Tambm os Chores
Muitos de nossos sambistas - tanto os redescobertos nas  dcada de 1960 e 1970 quanto os que se formaram a partir desse movimento - tiveram sua, digamos, catequizao musical na convivncia com figuras da realeza do choro, corno Pixinguinha e Jacob do Bandolim, freqentando desde a infncia rodas onde os ouviam tocar, ou na convivncia
com outros msicos que mantinham viva a tradio do choro. At mesmo Villa-Lobos prestou reconhecimento ao gnero de Ernesto Nazareth e tantos outros, compondo a maravilha que  a sua srie de Choros. No  ento por acaso que o ressurgimento do samba e sua consolidao  levassem tambm  redescoberta do choro, na dcada de
1970, tendo como marco o show Sarau, organizado por Srgio Cabral e que reuniu o conjunto poca de Ouro e Paulinho da Viola. Poucos anos depois, era fundado o Clube do Choro, no Rio, onde se apresentavam os ases do gnero, importantssimo marco da sua retomada e disseminao. A partir da, nomes como Edu Lobo, Francis Hime, Chico Buarque, Martinho da Vila, passaram a compor choros, e at jovens, j na dcada de 1990, mostrando a definitiva reintegrao do gnero ao nosso repertrio, como Marisa Monte e Arnaldo Antunes ("De mais ningum"). Mas, na origem desse processo,  necessrio destacar trs msicos

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Paulo Moura
Americo Vermelho
 Folha Imagem 
Digital

de primeira linha: Paulo Moura, Abel Ferreira e Raphael Rabelo com o conjunto Os Carioquinhas.
Paulo Moura, saxofonista, clarinetista, arranjador e compositor teve uma slida formao musical, estudando com o maestro Guerra Peixe - a quem devemos o desenvolvimento de muitos de nossos grandes msicos. Estudou tambm com figuras do mundo da msica popular, como o famoso maestro Cip. Tanto que iniciou sua carreira profissional tocando em gafieiras e nos cafs da praa Tiradentes. Na dcada de I960, integrava o conjunto Bossa-Rio, de Srgio Mendes, quando se apresentou no famoso concerto no Carnegie Hall, no qual os bossa-novistas conquistaram Nova York. Na dcada de 1970, em meio a apresentaes de peas clssicas e viagens ao exterior, seu clarinete e seu sax tornaram-se presena obrigatria nos discos dos intrpretes que buscavam resgatar o choro.
Alis, histria parecida, no que toca o prestgio que s ganharia pra valer nos anos 1970, teve Abel Ferreira. A partir do lanamento do disco de Beth Carvalho,
Pm seu governo, Abel, acompanhando a cantora no sax e na clarineta - ele que desenvolvera carreira no rdio e em casas de espetculo como o Cassino da Urca, na dcada de 1940 -, tornou-se um dos artistas mais procurados para shows e participaes em discos.

J Raphael Rabelo foi um autodidata do violo. Que se tornou um virtuose de tcnica admirvel, gravando desde choro ao erudito, passando pela Bossa Nova, ritmos nordestinos e samba, alm de um precioso trabalho na fuso de gneros diversos, como o choro, o jazz e o flamenco. J aos 14 anos, em 1976, formava seu primeiro conjunto de choro -
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Os carioquinhas -, gravando no ano seguinte o LP Os carioquinhas no choro; ele, o caula do grupo, tocava ento o violo de sete cordas. Logo ficaria amigo de Radams Gnattali, do qual se tornaria um dos principais intrpretes, como tambm de Jacob do Bandolim, Garoto, Dilermando Reis e outros. Raphael gravou importantes discos com Paulo Moura, alm de mais de 400 participaes em LPs de variados artistas.
O ressurgimento do samba e do choro, nas dcadas finais do sculo XX, representa uma lio para todos aqueles que participam dos intrincados caminhos dos sucessos e dos naufrgios da MPB. Em nosso cancioneiro, h fontes to ricas e sempre to frteis que  insensato proclamar-se a morte de um determinado gnero por conta de seu afastamento dos palcos e da mdia. Os modismos muitas vezes parecem abafar tanto o que mais adiante poder ser base para uma reviravolta em nossa msica, quanto
aquilo que ser simplesmente redescoberto em seu formato original, por sua capacidade natural de encantar e reencantar o pblico brasileiro. Muitos artistas mais
atentos, como por exemplo Chico Buarque de Hollanda, constantemente retomam gneros tradicionais. E, atualizando-os, comprovam que no h terrenos exauridos no que temos de mais genuno (e enraizado) em nossa alma musical.

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CAPTULO 6

Jovens tardes de domingo

Entre 1956 e 1958, comeava a despontar, nos EUA, o fenmeno Elvis Presley, o Rei do Rock, levando ao delrio as platias jovens norte-americanas, e de boa parte
do mundo ocidental, a partir dos filmes que estrelou naqueles anos - Love me tender, Jailhouse rock, Loving you e King creole - nos quais exibia fartamente rebolado quase-ertico para os padres da poca, e ainda voz e interpretao que muitos davam como de alma negra. A partir de 1959, outro fenmeno mundial, os Beatles, formava-se em Liverpool, Inglaterra, para estourar na dcada seguinte como uma referncia at hoje cultuada - os Beatles foram e sempre sero uma era no sculo XX.

Assistia-se, de fato, a um processo praticamente planetrio em que a juventude, rejeitando herdar o fardo de uma sociedade que no conseguira evitar duas catstrofes mundiais - as duas Grandes Guerras - e j prometia outras (a Guerra do Vietn, a Guerra Fria), buscava uma identidade que expressasse sua viso romntica e generosa do mundo. Avidamente, os jovens iam adotando a msica que representava o seu jeito de se vestir, de usar os cabelos. Ora, tudo isso logo se dirigiu contra o consumismo
e a represso sexual (muito ajudado pelo surgimento da plula anticoncepcional, cone da poca junto com a minissaia e o biquni).
A rebeldia assumiu contornos polticos dramticos em alguns pases. Como no Brasil, submetido a uma ditadura, ou na ento Tchecoslovquia {A primavera de Praga, 1968), quando parte da

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populao, principalmente estudantes, tentou barrar o avano dos tanques russos, na invaso que teve como objetivo liquidar com o governo reformista de Dubcek; ou
ainda em Paris, centro da insurreio da juventude, de 1968, onde os estudantes ergueram barricadas contra o exrcito da Repblica e tomaram o Quartier Latin, num
cenrio romanticamente similar ao das comunas e revoltas populares do sculo XIX.
Por aqui, no s absorvemos a identidade rebelde da msica estrangeira in natura, mas simultaneamente se forjaram diversas verses dos novos tempos. O que se sentia
 que a delicadeza hedonista, contemplativa, da Bossa Nova ia sendo aos poucos atropelada por uma realidade hostil. Os Anos Dourados estavam encerrados, ou melhor, foram abortados abrupta e violentamente pelo Golpe Militar de 1964. E, em vez das reformas sociais e polticas com as quais tantos tinham a esperana de ver nascer um Brasil mais imponente e justo, o que se viu foi um n cego que s indicava a perpetuao do atraso das elites dirigentes, considerando-se o problema social uma questo a ser tratada pela represso policialesca.

Era preciso participar, resistir, lutar, mudar, diferenciar-se para permanecer contemporneo, ganhar espao... ou, na sntese de uma das mais freqentes pichaes nos muros da Paris ocupada: "Seja realista: pea o impossvel!" De um lado, crescia a msica de protesto, com o engajamento explcito de vrios de nossos artistas, na tentativa de deter o avano do autoritarismo, mas tambm buscando resgatar o que consideravam razes de nossa nacionalidade, ameaada pelo imperialismo cultural, econmico e poltico. O nacionalismo era um elemento forte na poca, com a disputa de verses antagnicas deste mesmo Brasil, a do regime militar e seus aliados versus parcelas da populao que se colocavam dentro do campo da oposio (democrtica ou socialista). Mas, de outro lado, havia extensos segmentos da classe mdia
para os quais o

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Wanderlia e Erasmo Carlos. So Paulo, SP, 1967.

Jos Nascimento / Folha Imagem
vis poltico da contestao pouco significava. Eles acolheram calorosamente a alternativa mais atenuada do dilema de ser jovem num mundo dominado pelo antigo. E foi a que floresceu a Jovem Guarda.
Era como assumir apenas parte do lema de Che Guevara: "... no perder a ternura jamais'. Foi assim que a msica jovem acelerou-se, que a moda jovem adotou botinhas de salto alto (para homens!), calas pantalonas (idem!), cabelos compridos, se possvel em desalinho, e, aos poucos, mais e mais colorido. E foi assim que diversas grias que sintetizavam os conflitos de geraes (e at o namoro, que nem escondia o desejo sexual nem aceitava mais as proibies dos pais) emigraram da msica jovem para o cotidiano, transformaram-se em estilo de vida, de um modo praticamente indito no pas. Alis, nunca mais bisado. Se a Bossa Nova envolveu um setor influente da classe mdia, com seu refinamento esttico e a viso ipanemense do mundo, a Jovem Guarda, o Quero que v tudo pro inferno!'foi um movimento imensamente
mais amplo, com populari-
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dade e poder de penetrao muito mais intensos em segmentos da sociedade jovem de consumo.
Costuma-se situar no tempo a Jovem Guarda atravs do programa apresentado na TV Record de So Paulo com esse nome, entre 1965 e 1969, estrelado  por Roberto Carlos,
Erasmo Carlos e Wanderlia. O programa representou a oportunidade de que precisavam muitos cantores e conjuntos para se popularizarem, tais como Renato e seus Blue Caps, The Golden Boys, Srgio Murilo, Jerry Adriani, Wanderley Cardoso, Martinha, Antonio Marcos, Vanusa, Ronnie Von, Rosemary, Agnaldo Rayol, Leno e Lilian  muitos lanados no programa ou projetados para a celebridade depois que o estridente sucesso da dupla Roberto & Erasmo, "Quero que v tudo para o inferno" (1966), alavancou
o programa, dando-lhe a dimenso de movimento musical (e cultural, claro!). Apesar de muitas vezes pouco considerada, talvez at por sua quase total ausncia de
formulao (diferente do tropicalismo e da Bossa Nova, a Jovem Guarda, por sua prpria natureza, no teve fundaes polticas, literrias ou puramente estticas), tornou-se um momento inesquecvel daquela gerao, com influncia considervel no trajeto histrico da MPB.
Roberto Carlos Braga (ES, 1941 -) comeou sua carreira ainda criana, cantando boleros em rdios do Esprito Santo. Mudou-se para o Rio de Janeiro, em meados da dcada de 1950, e a comeou a se interessar por rock, ouvindo Bill Halley, Elvis Presley e Little Richard. Logo ocorreria um encontro importante, e que definiria
o caminho do futuro Rei, com a turma da rua Matoso, na Tijuca, Zona Norte do Rio de Janeiro, quando conheceu Erasmo Carlos, Tim Maia e Jorge Ben. Estava assim formado o conjunto The Sputiniks, que posteriormente, com a sada de Tim Maia, passaria a se chamar The Snakes e iria se apresentar no programa Clube do Rock, de Carlos Imperial. Iniciando uma carreira solo como crooner em boates, Roberto Carlos comeou cantando Bossa Nova - e

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O cantor Roberto Carlos, nos anos I960. Jos Nascimento / Folha Imagem

por ironia os primeiros sucessos, "Splish, splash" (1963) e pouco depois a exploso de "O calhambeque" (verso de Erasmo Carlos para "Road hog", no LP E proibido
fumar), abririam para ele as cobiadas portas da msica de consumo para juventude, em quase oposio aos msicos e compositores da Bossa Nova. J ento, Roberto
Carlos e seus amigos de f eram artistas de projeo nacional, a ponto de a TV Record lhes entregar (em 1965) o comando do programa dominical que a emissora decidiu lanar, direcionado  juventude. Roberto logo gravaria o LP Jovem Guarda, com a histrica "Quero que v tudo pro inferno", dele com Erasmo Carlos - que provocou polmica na poca, a comear pelo inferno do ttulo.

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Ocorre que a Jovem Guarda,  la juventude transviada, tinha mesmo esse lado de garoto mau, tanto que essa linha rendeu vrios sucessos para o grupo, culminando,
talvez, com "As curvas da estrada de Santos", em 1969 - j ento depois de o programa ter sado do ar, marcando tambm uma transio mais adentrada no romantismo, que iria caracterizar a carreira solo que Roberto Carlos comearia a administrar com maestria.

De fato, o Rei teve a exata percepo do momento de descer do trono da Jovem Guarda e inaugurar uma nova imagem e estilo. Os temas juvenis tpicos do trio Roberto - Erasmo - Wanderlia ficaram imediatamente para trs. Em seu lugar, Roberto, um intrprete agora mais maduro, sabendo utilizar-se dos recursos inegveis de voz e interpretao que possua, passou a cantar um amor mais vivido - e assim continuaria seu reinado, acompanhando o amadurecimento do pblico que lhe era fiel.

A nova fase consolidou seu prestgio como intrprete romntico no Brasil e no exterior. Roberto Carlos comeou a fazer sucesso tambm nos EUA, na Europa e na Amrica Latina. Em 1970, iniciou sua primeira temporada de shows na cervejaria carioca Caneco, cantando seus mais novos sucessos, alm de relembrar toda sua carreira num pout-pourri que comeava com "O calhambeque". O show, com direo da dupla Mile e Bscoli, alcanou enorme sucesso. Em 1974, iniciou uma tradio que, ainda hoje, marca sua carreira, os shows de vspera de Natal, na Rede Globo - que fazem parte das comemoraes de fim de ano de boa parte das famlias brasileiras.
A parceria com Erasmo Carlos se manteve frtil, ocupando os primeiros lugares das paradas, com composies como "Alm do horizonte", "Ilegal, imoral ou engorda",
"Os seus botes", "Cavalgada", "Caf na cama". Mas a diversidade chegou tambm para Roberto, interpretando composies de Caetano Veloso (seu f declarado, em homenagem a quem comps "Debaixo dos caracis

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dos seus cabelos"), como "Muito romntico" e "Fora estranha". Roberto Carlos por muito tempo se manteria vendendo mais de 1 milho de cpias de seus discos por ano, um recorde absoluto em nosso pas. Bateu tambm todos os recordes para uma temporada artstica no Brasil - seu show de 1978 correu o pas por seis meses com casas previamente lotadas e pblico estimado em mais de 250.000 pessoas. Em 1982, ganhou da CBS o prmio Globo de Cristal, oferecido aos artistas que ultrapassam a marca de 5 milhes de discos vendidos fora de seu pas de origem - seus LPs j haviam sido lanados em espanhol, ingls, italiano e, naquele ano, em francs. Nos EUA, ganhou em 1988 o Grammy de melhor cantor latino- americano e, no ano seguinte, chegou ao primeiro lugar da parada latina da revista Billboard. Mais adiante, novo recorde internacional: em 1994, tornou-se o primeiro latino-americano a vender mais discos do que os Beatles - na poca, j havia vendido o nmero astronmico
de mais de 70 milhes de cpias. No ano seguinte, a nova gerao de roqueiros do Brasil prestou uma homenagem quele que foi um dos maiores responsveis pela introduo do pas no rock, uma gravao que alcanou enorme xito, produo de Roberto Frejat, com artistas como Cssia Eller, Chico Science & Nao Zumbi, Baro Vermelho e Skank, gravando seus hits da poca da Jovem Guarda. Roberto Carlos ostenta ainda o recorde histrico de ter sido campeo de vendas em trs tipos de tecnologias diferentes, discos de vinil, CDs e DVDs.
O Tremendo, amigo de f, irmo e camarada de Roberto, Erasmo Carlos (RJ, 1941- ), de modo espontneo ou no, representava no grupo a imagem tipo juventude transviada, puxada um pouco  Minha fama de mau que foi uma das maiores polarizadoras da rebeldia daqueles anos, e que a Jovem Guarda conseguiu expressar to bem em sua msica.
A primeira parceria com Roberto Carlos saiu num compacto simples com "Terror dos namorados". Logo depois o grande sucesso de "Festa de arromba", que listava
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em sua letra compositores e intrpretes da poca, principalmente os da Jovem Guarda.
Os sucessos em parceria com o Rei, j agora nos anos 1970, que ora ele ora Roberto gravavam, foram inmeros. Muitos ainda esto na fantasia dos primeiros namoros de sucessivas geraes deste pas - "Sentado  beira do caminho" foi um dos maiores xitos de sua carreira, bem como "Sou uma criana no entendo nada", "A banda dos contentes" e outros.

Erasmo soube tambm diversificar-se, gravando, por exemplo, "Paralelas", de Belchior, e "Queremos saber", de Gilberto Gil. Em 1980, gravou o LP Erasmo Carlos convida, que contou com a participao de inmeros nomes da msica popular brasileira cantando em dueto com ele, como Gal Costa, Nara Leo, Maria Bethnia e Rita Lee, em "Minha fama de mau". Em 1997 foi homenageado juntamente com Roberto Carlos pelo conjunto de sua obra no XVII Prmio Shell para a MPB. Quatro anos depois, aps quase dez anos longe das gravaes, lanou o CD Pra falar de amor, com destaque para "Mais um na multido", parceria com Carlinhos Brown e Marisa Monte, que tambm gravou
com ele "O impossvel", de Kiko Zambianchi, e a msica ttulo, autoria de Marcelo Camelo, do grupo de rock Los Hermanos. Tudo isso comprova que O Tremendo  figura eterna de nossa msica. Mantendo at hoje, atrevidamente, um visual dos anos 1960-1970, e toda a ginga de garoto levado, ele  tambm um dos personagens mais queridos do pblico.
Wanderlia (1946) era a marca mais caracteristicamente romntica da trinca - at no apelido, Ternurinha. Comeou carreira ao se apresentar em programas infantis como o Clube do guri, da Rdio Mayrink Veiga, e Vov Odilon, da Rdio Tupi, ou na extinta TV Rio, onde participou do programa A mais bela voz infantil. Estreou em disco em 1962 com "Tell me how long", de Kelsey, e "Meu anjo da guarda", de Rossini Pinto e Fernando Costa. Logo a CBS cha-

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Show da Wanderlia e Patrcio Bisso no Teatro Caetano de Campos. So Paulo, SP, 1987. Fbio M. Salles / Folha Imagem

mou-a para gravar seu primeiro LP, Wanderlia, e foi l que conheceu Roberto Carlos. J no auge do sucesso com a Jovem Guarda na TV Record, gravou seus maiores xitos:
"Pare o casamento", verso de "Stop the wedding", de Resnick e Young, e "Prova de fogo", de Erasmo Carlos. Em 1970 participou do filme Roberto Carlos e o diamante cor-de-rosa, dirigido por Roberto Farias, junto com Roberto e Erasmo, outro marco da Jovem Guarda.


J na dcada de 1970, com o declnio da Jovem Guarda, Wanderlia comeou a diversificar o seu repertrio, gravando os contemporneos Gilberto Gil, Gonzaguinha, Jorge Mautner, Rita Lee ("Menino bonito", um grande xito), mas tambm Assis Valente e outros. Embora morando a maior parte de sua vida de artista em So Paulo, a Ternurinha
 requisitada para shows em todo o Brasil, dolo era, dolo continua a ser...

No se pode e nem se deve, como muitas opinies mais tradicionalistas da MPB j o fizeram, descartar a renovao que desencadearam aquelas jovens tardes de domingo, to ansiosamente esperadas no decorrer da semana, pelo encontro com o Rei, o Tremendo, e a
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Ternurinha. Eram todos eles e todos ns, na poca, "garotos que amavam (mais ou menos) os Beatles e os  Rolling Stones". A Jovem Guarda aninhou o nosso rock, propiciando-nos uma aproximao da potica musicada em relao ao linguajar e ao sentimento cotidianos de ento e introduzindo novos recursos e instrumentos musicais eletrnicos.
Isso tudo com leveza, com ingenuidade, com um sabor juvenil que hoje - ao se olhar para trs - chega a comover. Mesmo a quem, como tantos de ns, casmurros, dizia detestar aquele adorvel circo.

De fato, a Jovem Guarda nos preparou para a diversificao de nosso cancioneiro. Por exemplo, a Jovem Guarda abrigou nomes como Srgio Reis, que mais tarde se tornaria uma expresso da msica sertaneja, com botas de montaria e chapelo de caubi texano. Da poca,  antolgica a gravao de "Corao de papel" - de sua autoria, 1967 -, em que defende a msica num estilo quase de bolero, com um fundo  la i-i-i, com direito  viradinha na bateria tpica de Ringo Starr etc. O fato  que, no caldo da Jovem Guarda, ningum deu importncia maior s diversidades, e a msica foi um grande sucesso. Mas havia tambm espao  vontade para artistas como Jerry
Adriani e Wanderley Cardoso, com interpretaes to impostadas que lembravam, por vezes, as vozes romnticas da dcada de 1930. A Jovem Guarda chegou mesmo a influenciar os tropicalistas, especialmente na maneira bizarra e descontraidssima do vestir, dos cabelos, alm de incorporar o ii-i e os instrumentos eletrnicos em suas
composies. De certo modo, em conseqncia dessa vinculao, Caetano Veloso, que tambm teve participaes no programa dominical, recebeu vaia monumental no III Festival Internacional da Cano por utilizar guitarras eltricas para defender seu "E proibido proibir" - em pleno ano de 1968, o pblico jovem viera ali para consagrar a msica de protesto, e as guitarras dos tropicalistas pareceram um americanismo inaceitvel, tentando infiltrar-se em nossa msica. Por a

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se v que na Jovem Guarda foram gestadas tendncias musicais que, frutificando posteriormente, assegurariam um pblico para a msica popular brasileira desses tempos futuros, nos quais, at por conta da represso e da censura, foi vertiginosa a irradiao da msica estrangeira. Curiosamente, a ascenso original da Jovem Guarda coincidira com o declnio da popularidade das inmeras, e algumas horrveis, verses em portugus dos sucessos internacionais do rock'n'roll, ainda em sua fase light (mais para o twist e o ch-ch-ch, na verdade, do que para os deuses de Woodstock). E se seus astros enveredaram por outros caminhos, como Roberto Carlos, que abraaria a msica romntica mais tradicional, como tambm logo depois a temtica religiosa, isso j  outra histria que no anula o momento anterior de cada uma, nem o contamina.
Essas rupturas so comuns na dinmica da msica de consumo, como a ruptura que a prpria Jovem Guarda representou em relao ao que a precedeu, ou mesmo a outras tendncias que lhe foram simultneas.
Vai comear o rock'n'roll!

A dcada de 1960 trouxe tambm nossos primeiros roqueiros. De fato, o rock brasileiro teve seus antecessores antes mesmo da Jovem Guarda comear a existir. E a, temos o nome de Celly Campello que, com seus "Estpido cupido" e "Banho de lua", em meio a oito LPs gravados, foi a nossa primeira estrela do rock.

Mas aos poucos nossos roqueiros foram se identificando, em graus variados, com o vis hippie dos anos rebeldes, como o excntrico e lisrgico Serguei, precursor
do visual andrgino e das interpretaes histrinicas,  la Mick Jagger. A seguir, viriam aqueles que apresentavam uma msica com nfase no instrumental, no virtuosismo dos solos de guitarra e na potncia dos novos

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Celly Campello e Tony
Campello, capa da Revista do Rdio N 540, novembro de 1959.

recursos e instrumentos eletrnicos - que iriam determinar muito do que seria produzido nas dcadas  frente. E sempre bom lembrar que foram os anos de Jimmy   Hendrix e   do   Festival de Woodstock, em 1969, at hoje uma marca histrica, tanto musical quanto comportamental. Trs dias de amor livre, protestos contra a Guerra do
Vietn, mas tambm do maior encontro musical j realizado no planeta, com a presena de quase meio milho de pessoas na platia, e os maiores astros de todas as
tribos musicais da poca, praticamente paralisando o estado de Nova York.

Nessa linha, com as peculiaridades de cada um, impe-se destacar Rita Lee e Os Mutantes, os Novos  Baianos - principalmente Baby Consuelo
(hoje Baby do Brasil) e Pepeu Gomes -, e Raul Seixas.

Para Caetano Veloso, Rita Lee (SP, 1947- ) era a mais completa traduo de Sampa, mas quem a descobriu para o mundo artstico profissional foi Tony Campello, irmo de Celly Campello, num conjunto chamado Teen Age Singers. Os Mutantes - conjunto formado pelos irmos Arnaldo e Srgio e Rita Lee -, estrearam em 1966 no programa O pequeno mundo de Ronnie Von. Logo estavam acompanhando Gilberto Gil e Nana Caymmi. A seguir, em 1968, com Caetano, Gil, Gal, Bethnia, Tom Z e Nara leo, gravaram o LP Tropiclia ou Pants et Circensis. Tambm estiveram com Caetano apresentando Eproibido proibir na eliminatria paulista do III FIC... Curioso, pois mostra todo um percurso de aceitao de um gnero musical:  que dois anos depois Os Mutantes concorreram ao V FIC com "Ando meio des-

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Os Mutantes, no III Festival Internacional da Cano.
U.H. / Folha Imagem

ligado", um rock que no s se classificou em stimo lugar no Festival, mas que com guitarras eltricas, solo psicodlico da guitarra de Srgio Dias e todo o visual,
na poca, extravagante do  conjunto, foi um dos xods do pblico.

Rita Lee iniciou carreira  solo em 1969, e dez anos depois, j a em dupla e parceria com o guitarrista Roberto de Carvalho, apresentou, com um estilo absolutamente
pessoal, algo como um rock-balada, grandes sucessos como "Mania de voc" (um dos cones da virada para os anos 1980, junto com o Posto 9, em Ipanema, Rio de Janeiro, e a volta dos exilados, emblematizando toda a desrepressao que acompanhou o declnio do poder militar). Logo vieram outros xitos como "Doce vampiro", "Lana-perfume" e "Caso srio". Em 1997, tornou-se a primeira mulher a ganhar o Prmio Sharp de personalidade da msica brasileira; Rita que em seu "Festa de arromba II", numa pardia
da msica de Erasmo e Roberto Carlos, reclamava que no sabia o que fazer para ser admitida na MPB, nela tem sem dvida garantido lugar de honra.

Os Novos Baianos estrearam profissionalmente em Salvador, Bahia, com Baby Consuelo (vocal e percusso), Pepeu Gomes (guitarra, viola, violo e bandolim), Moraes
Moreira (violo e vocal), Galvo (compositor/letrista), Paulinho Boca de Cantor (vocal e pandeiro), Jorginho (bateria, guitarra, cavaquinho, uculel e bongo), Dadi (baixo e violo), Baixinho (bateria e bumbo) e Bolacha (bong e percusso). Muito dengo e sensualidade nas msicas e nas interpretaes, delirantes solos de guitarra,
e toda uma aura de doides, criada pelas histrias que circulavam sobre o stio em que o grupo vivia, como numa comunidade hippie, na periferia do Rio de Janeiro
- isso no correr da dcada de 1970 -, fizeram dos Novos Baianos um conjunto extremamente popular, principalmente pela maneira algo idlica como encarnava o esprito da poca. A par disso, tinha inegveis qualidades musicais. Pepeu Gomes  um dos maiores guitarristas que j apareceram no Brasil, Baby uma intr-



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Raul Seixas, nos anos 1970.
prete capaz de dar cores vivas a qualquer msica que defende. O grupo, com seu trabalho, trouxe uma fuso extremamente original do rock com ritmos populares brasileiros, como o frevo, o choro e o samba.

Baby do Brasil (como passou a se chamar a partir dos anos 1990), com a dissoluo do grupo em 1978, partiu para a carreira solo e alcanou grande xito com canes
como "Menino do Rio" (Caetano Veloso), um de seus maiores sucessos, "Todo dia era dia de ndio" (Jorge Benjor), e "Csmica". Pepeu Gomes e Morais Moreira foram outros integrantes do grupo que tambm tiveram destaque, inclusive no exterior, em suas carreiras individuais.

O proftico Raul Seixas (BA, 1945 - SP, 1989), hoje uma lenda da MPB, era em criana f do rock norte-americano da dcada de 1950 - Elvis Presley, Little Richards, Fats Domino e Chuck Berry. Jerry Adriani o descobriu tocando guitarra no interior baiano e o convenceu a vir para o Rio de Janeiro.

Foi revelado para o pblico com o sucesso do seu originalssimo LP, Krig-h, Bandolo! (o grito de guerra do Tarzan das histrias em quadrinhos). O seu primeiro disco
solo, em 1973, trazia composies como "Metamorfose", "Mosca na sopa",  "Al Capone" (com o hoje escritor de prestgio internacional Paulo Coelho, seu parceiro em diversas composies, que lhe prestou homenagem no discurso de posse na Academia Brasileira de Letras, em 2002).

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'Maluco  beleza", de 1977, faz parte de uma srie de sucessos produzidos at sua morte, aos 44 anos. Entre outras provas do impacto que sua obra teve junto ao pblico, registre-se o fato de que foi o primeiro a ter um disco gravado por um f-clube, Let me singmy rock'n'roll (1985), com uma coletnea de gravaes raras. Alm da desconcertante riqueza potica de suas letras, Raul Seixas foi nosso primeiro artista a misturar sistematicamente o rock com ritmos brasileiros, principalmente o
baio - e isso ainda na Bahia, onde foi o primeiro msico a correr cho tocando guitarra eltrica -, tanto que, nascido havia mil anos atrs, se declarava filho
de Luiz Gonzaga com Elvis Presley.

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CAPTULO 7

Cantos de Resistncia

E na gente deu o hbito
 De caminhar pelas trevas 
De murmurar entre as pregas 
De tirar leite das pedras 
De ver o tempo correr

" Rosa-dos-Ventos",
Chico Buarque de Hollanda

Em  13 de dezembro de 1968 era promulgado o Ato Institucional n  5 - o famigerado AI-5 -, considerado o marco do endurecimento do regime militar, em si autoritrio desde o incio, e que abriu o ciclo dos anos mais difceis da histria recente do pas. Entre outros aspectos, o AI-5 foi a demonstrao de que a ditadura no tinha mais como conter, sem acentuada represso, a crescente oposio de vrios setores da sociedade, incluindo at um expressivo segmento das classes mdias, principalmente os estudantes em vias de mobilizar-se insurreicionalmente contra o governo.Quem no se lembra do intransigente slogan oficial daqueles anos: Brasil, ame-o ou deixe-o? Que em alguns casos tambm poderia querer dizer: Ame-o ou cale-se... ou ainda: Ame-o ou morrd.. Sendo que o amor ao pas aqui, naturalmente, nada tinha a ver com a exaltao lrica e apaixonada de uma "Aquarela do Brasil", mas supunha
a aceitao incondicional da suspenso de direitos democr-

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_Chico Buarque de Hollanda e Arduino Colassanti (protagonista de El JusticeroJ participam da Passeata dos Cem Mil, manifestao de estudantes, intelectuais e diversos setores de atividade da populao contra a violncia, no Rio de Janeiro (RJ), em 26 de junho de 1968.
Folha Imagem

ticos, indo do silncio imposto em relao  tortura ao esfacelamento de uma identidade cultural que vinha sendo construda a custo nos anos anteriores.

No foi  toa que as artes e, no nosso enfoque particular, a Msica Popular Brasileira sofreram tanto com a censura naqueles anos. Ocorre que algumas expresses da MPB vinham justamente buscando um resgate de nossas razes e de nosso imaginrio mais genuno. Mas foram tambm visados por denunciarem e mesmo revelarem  para "um Brasil que ento e (ainda hoje) no conhece o Brasil" - a penosa situao da maioria pobre de nossa populao. Como bem demonstraram os festivais da cano,
uma boa parte da MPB se colocou como um bastio de resistncia, uma referncia teimosa, corajosa, esperanosa, como a dizer que ditadura nenhuma pode calar a todos para sempre.
Muitos artistas da msica foram presos ou expulsos do pas, sua obra mutilada, ou cantada no "murmrio entre as pregas". Houve hinos como "Para no dizer que no
falei de flores", de Geraldo Vandr, que at hoje provoca um arrepio emocionado em quem viveu aqueles anos, ou mesmo nos mais jovens, que intuem o que significou
para um solitrio cantor, no palco com seu violo, desafiar um regime

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que j apresentava todos os sinais de que iria radicalizar sua intolerncia a qualquer tipo de oposio. Tivemos a sutileza potica, irnica, mgica de um Chico
Buarque, de quem a censura - e mesmo grande parte do pblico - tanto demorou a entender as metforas.
Muito j se falou desses anos, e  bom que sempre se diga alguma coisa mais, at para se valorizar devidamente a liberdade dos dias de hoje. H quem afirme que a
censura tornou nossos compositores mais criativos na arte de ludibri-la, o que pode demonstrar uma falta de conhecimento da criatividade que sempre animou o melhor
da nossa msica - sem precisar de censura alguma. E h quem diga que, com a liberalizao poltica, a MPB perdeu o rumo e at a inspirao, chegando a usar isso
para denegrir as expresses e os gneros surgidos dos anos 1980 em diante - o que, tambm, no mnimo, trai uma questionvel avaliao dessa produo, to diversificada.
E sempre melhor ter os caminhos abertos, na busca de trazer para a msica o momento e a alma de um povo. Assim como  inspirador comprovar historicamente que, mesmo sob as piores condies - tirando leite das pedras -, a MPB soube brilhar.
Msica pro serto virar mar (e o mar virar serto)
Duas  caractersticas fortes da nossa msica de protesto dos anos 1970, como j sugere o nome, no so apenas a explicitude de suas letras como a nfase na busca de uma autenticidade de raiz nas linhas meldicas. Nesse segundo aspecto, incluem-se tanto o resgate do samba como a evocao de gneros nordestinos - em ambos os casos, expressando um engajamento junto aos excludos. Claro que o gnero, a partir dessas fontes, tambm encontrou um refinamento prprio. E a surgem compositores
de formao urbana como Srgio Ricardo e Geraldo Vandr.
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Srgio Ricardo Lufti (SP, 1932 -) teve seu primeiro sucesso, o samba-cano "Buqu de Isabel", gravado por Maysa, em 1955. Mas logo comearia a se afastar da Bossa
Nova e similares, ao lanar, em I960, o samba "Zelo", at hoje um de seus maiores sucessos. Nessa mesma poca, iniciou um trabalho ligado ao Cinema Novo, junto a diretores como Nelson Pereira dos Santos, Rui Guerra e Glauber Rocha - foi enorme o sucesso das trilhas sonoras que fez para o antolgico Deus e diabo na terra do sol, a ponto de haver cenas das quais  impossvel lembrar sem evocar tambm a msica -, e Terra em transe, como o primeiro, tambm do diretor baiano. Logo Srgio estaria participando do Festival da Cano de Protesto, realizado na Bulgria, no qual duas composies suas foram interpretadas por Geraldo Vandr. Em 1968, ele realiza o show Srgio Ricardo e a praa do povo, dirigido por Augusto Boal, e compe o roteiro musical da representao de O auto da compadecida, de Ariano Suassuna.
Um episdio bastante conhecido na carreira de Srgio Ricardo ocorreria na final do II Festival da Msica Popular Brasileira, da TV Record, quando teve de interromper
a interpretao de sua composio "Beto bom de bola" por causa das vaias do pblico, ocasio em que quebrou seu violo batendo-o no assoalho do palco e o arremessando contra a platia. A cena inclusive serviria de mote para o livro Quem quebrou meu violo, que traz sua viso sobre a msica brasileira dos anos 1940 aos 1990. Mas isso logo seria superado pelo artista mltiplo, compositor, msico, intrprete, cineasta, escritor e pintor, que continuou fazendo sucesso com suas trilhas sonoras, inclusive para minissries e novelas na tev, alm de seus discos, shows e at filmes.

Certa vez, no Programa Csar de Alencar, apareceu um calouro de 16 anos, com o nome artstico de Carlos Dias: Carlos, em homenagem a seus dolos, os cantores Carlos Galhardo e Carlos Jos, que ento comeava, e Dias, de seu prprio sobrenome. Depois de uma pas-


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Srgio Ricardo no II Festival da Msica Popular Brasileira, da TV Record, em 1967. W. Santos / AJB

sagem pelas boates de Copacabana, tentando iniciar a carreira artstica, conheceu pessoas como Valdemar Henrique, folclorista e compositor (que comandava um programa
na Rdio Roquette Pinto), Carlos Lyra, Ed Lincoln, Lus Ea e Baden Powell. E foi nessa poca que mudou seu nome para Geraldo Vandr (PB, 1935 -).

J cursando a faculdade de Direito, iria se integrar aos CPCs, Centros  Popular de Cultura da Unio Nacional dos Estudantes, e tambm colecionar parcerias importantes, como as feitas com Alade Costa, "Cano do nosso amor", ou com Baden Powell, "Nosso amor", "Se a tristeza chegar", "Rosa flor" e "Samba de mudar". Insatisfeito com os rumos jazzificados da Bossa Nova, buscou alternativas, e nessa nova linha comps "Cano nordestina", apresentada num show de Bossa Nova no colgio Mackenzie e recebida com impacto e espanto pela platia.

Em 1965, Vandr comps a trilha sonora de outro clssico do Cinema Novo, A hora e a vez de Augusto Matraga, de Roberto Santos, adaptao de um conto de Guimares
Rosa. Logo a seguir interpreta "Sonho de um carnaval", de Chico Buarque de Hollanda, no I Festival de Msica Popular Brasileira, da extinta TV Excelsior,

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obtendo o sexto lugar. Venceria a edio seguinte do festival, interpretando a marcha-rancho "Porta-estandarte", feita em parceria com Fernando Lona. A vitria no festival abriu caminho para a realizao de uma turn pelo Nordeste, em companhia do Trio Novo, composto por Teo de Barros, Heraldo do Monte e Airto Moreira. Ao final da temporada, Hermeto Pascoal agregou-se ao grupo, formando o Quarteto Novo. Dessa poca, data a importantssima composio "Disparada", em parceria com Teo de Barros e defendida por Jair Rodrigues e Trio Maray, que tirou o  primeiro lugar empatada com "A banda", de Chico Buarque, no II Festival da Msica Popular da Record (1966).

Tambm significativo nesse perodo foi o contato com os futuros tropicalistas Caetano Veloso, Gilberto Gil e Torquato Neto, alm dos programas que apresentou na TV Record {Disparada), na TV Bandeirantes (Canto Permitido) e na Rede Globo (Caminhando). Em 1968, participou do Festival Internacional da Rede Globo com a composio "Caminhando" tambm conhecida como "Pra no dizer que no falei das flores" - que se tornou o grande hino da oposio  ditadura e, segundo alguns crticos, um dos estopins da decretao do AI-5.

A composio ficou em segundo lugar, perdendo para "Sabi", de Tom Jobim e Chico Buarque, contrariando a preferncia do pblico que cantou em unssono a cano de Vandr. O LP Caminhando logo foi proibido pela censura e o show que Vandr realizou no Teatro Opinio, no Rio de Janeiro, Pra no dizer que no falei de flores, resistiu pouco mais de um ms aos cortes que lhe haviam sido impostos.

Logo Vandr era obrigado a partir para o exlio no Chile, depois na Arglia, tornando-se um dos nomes mais proibidos do seu prprio pas: participaes suas em programas de tev, gravadas no exterior, eram sistematicamente cortadas. Em 1973, retornou ao Brasil mas sua carreira no conseguiu ter continuidade, pois per-

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1 VELOSO, Caetano, Verdade tropical. So Paulo, Companhia das Letras, 1997.
manecia sendo vigiado de perto pela ditadura militar e impedido de prosseguir as atividades artsticas.

Anos depois, com a ditadura tendo se despedido do poder pedindo para ser esquecida,  na palavra textual do ltimo generalpresidente, Joo Batista Figueiredo, Vandr participa de um episdio que deixou perplexos e espantados seus amigos. Foi quando comps "Fabiana" (1994), uma homenagem  Aeronutica, interpretada junto a um coral de cadetes e apresentada no Memorial da Amrica Latina, em So Paulo. Mais adiante, Vandr teria regravadas suas composies pelo Quinteto Violado (1997 - O Quinteto Violado canta Vandr) e pelo paraibano Z Ramalho, com "Pra no dizer que no falei de flores", no CD duplo Nao nordestina.



Sob o signo da Tropiclia

O Tropicalismo, que segundo Caetano Veloso foi "O movimento que, nos anos 1960, virou a tradio da msica popular brasileira... pelo avesso"1, surgiu na cena artstica a partir de 1967, com a proposta de exercer uma interveno crtico-musical na cultura brasileira. Liderado por Caetano Veloso, reuniu tambm nomes como os compositores Gilberto Gil e Tom Z; os poetas Torquato Neto e Capinam; os maestros de formao erudita Rogrio Duprat, Damiano Cozzella e Jlio Medaglia; o grupo Os Mutantes, a cantora Gal Costa e o artista plstico Rogrio Duarte, entre outros artistas.

A esttica do Tropicalismo ressaltava os contrastes da cultura brasileira, como o arcaico convivendo com o moderno, o nacional com o estrangeiro, a cultura de elite com a cultura de massa. Foi assim que absorveu vrios gneros musicais como samba, bolero, frevo, msica de vanguarda erudita e o pop-rock nacional e internacional, mas tambm as inovaes da Jovem Guarda, como a incorporao
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1SCHWARZ, Roberto. Cultura e poltica, 19641969. In: O pai de famlia e outros estudos. Rio de Janeiro. Paz e Terra, 1978, p. 74.

1 SANTIAGO, Silviano. Caetano Veloso enquanto superastro. In: Uma literatura nos trpicos. So Paulo, Perspectiva, 1978, p. 149.
4 VELOSO, Caetano. Obra citada.
da guitarra eltrica. E, dentro dessa mesma linha, buscou apropriarse poeticamente de disparidades, que iam de Braslia  Carmen Miranda, da palhoa - a habitao
rstica de nosso Brasil interiorano - ao legado do Movimento Modernista de 1922.
O crtico Roberto Schwarz escreve sobre essa inteno de combinar "a reserva de imagens e emoes prprias ao pas patriarcal, rural e urbano... exposta  forma ou tcnica mais avanada ou na moda mundial", tendo como resultado gerar uma "alegoria do Brasil"2. J outro prestigiado crtico, Silviano Santiago, especifica ainda mais esse ponto fundamental: "Assim  que, de um primeiro momento de vergonha diante do 'brbaro e nosso' (Oswald de Andrade), passou-se em seguida a engrandecer
aquilo mesmo de que se tinha vergonha - o Brasil tropical e pitoresco, o Brasil do folclore e dos cartes-postais, Brasil pra estrangeiro, exportado em forma de
palmeira, bananeira, terno branco, carmen miranda, z carioca, etc". Silviano cita uma declarao de Caetano Veloso  revista Realidade, de dezembro de 1968: "Ns
vibrvamos com Bunuel e nos envergonhvamos do prazer que nossos patrcios sentiam ao verem as chanchadas da Atlntida e os filmes de Mazzaroppi, muito embora no perdssemos um s"3. Ou, citando outra vez Caetano Veloso: "A idia do canibalismo cultural", uma formulao do modernismo de 1922, ressalte-se, "servia-nos, aos
tropicalistas, como uma luva. Estvamos 'comendo' os Beatles e Jimmy Hendrix"4. Vamos lembrar aqui que logo Gil estaria se despedindo do Brasil e partindo para o
exlio, mandando aquele abrao para Chacrinha, para quem cunhou o ttulo de Velho Guerreiro, e para a torcida do Flamengo. Em sua cano de despedida ao seguir para o exlio londrino, Gil homenageava, ento, um cone da cultura de massas mais popular e o futebol que, embora eterna paixo nacional,era acusado de servir aos propsitos
propagandsticos da ditadura. Ambos tidos pelos crticos mais ortodoxos como recursos para promover a alienao, ou a falta de reflexo e a conseqente submisso, das

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Depoimento de Caetano Veloso  Revista Realidade na edio de dezembro de 1968.
ECA / USP

massas -, ficando bem marcada assim o que os tropicalistas, diferentemente dos meios artsticos e intelectuais em geral e principalmente da esquerda, identificavam
como coisa nossa. De uma maneira bastante explcita, Caetano escreve: "...ns, os tropicalistas, tnhamos em nosso af... pr as entranhas do Brasil para fora, efetuando uma 'descida aos infernos'".

Foi marcante tambm a interlocuo que o Tropicalismo estabeleceu com a poesia concreta paulista, tendo recebido apoio de seus expoentes - Augusto de Campos, Haroldo de Campos e Dcio Pignatari. Alis, o mais forte do Tropicalismo foi a estrutura literria, que empregava versos mais livres e soltos (aqui e ali influenciado pelos
poetas neoconcretos), nos quais se buscava uma tentativa de linguagem malcriada em relao  sociedade de consumo,  poltica brasileira do golpe militar de 1964
e aos problemas de sua gerao. Tanto que nos meios acadmicos, por volta das dcadas de 1970 e 1980, ou seja, muito depois de seus participantes o terem deixado
para trs, surgia o Tropicalismo como referncia recorrente de uma esttica de renovao e alto impacto. Na verdade, tudo se iniciou com discusses estticas mantidas
entre Caetano Veloso, Gilberto Gil, Maria Bethnia, Torquato Neto, Rogrio Duarte e o empresrio Guilherme Arajo, em que eram colocadas em pauta questes como a
necessidade de universalizao da msica brasileira. Com isso, o grupo enfatizava uma preocupao na contramo da tendncia predominante, isto , um contexto marcado
hegemonicamente pela preocupao nacionalista de buscar nossas razes e rechaar a influncia estrangeira.

No por coincidncia, trata-se de um dilema tambm vivido de certa forma pelos modernistas, da Semana de Arte Moderna, quarenta e tantos anos antes - da qual muitos crticos e historiadores vem no tropicalismo uma reedio atualizada. Entre outros pontos em comum, ocorre que a compreenso que os modernistas de 1922, Mrio, Oswald e outros tinham de nacionalismo era simi-

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preocupar tanto com essas coisas de 'marics", e no dia seguinte me atracar com tanto entusiasmo num jgo de futebol

A escala da escola

Caetano fz o ginsio e completou o clssico em sua cidade mesmo. Seus boletins revelam um aluno mdio, destacando-se apenas em lnguas e composio. Nas aulas, porm, sentava-se nas ltimas carteiras e. quando no estava perdido em profundos devaneios, era o que se costuma chamar de "o palhao-daclasse". Os professores
chegasam a respirar de alivio quando o viam num canto da sala, rabiscando o caderno a smo, o olhar vago. a ateno muito longe da lista Je capitais da Europa
que estava sendo ditada  classe. Desenhava muito, lia demais, gostava de ser notado Aos dezoito anos. tinha as modestas pretenses da idade: modificar o mundo e ter sucesso no amor Queria ser pintor, mas no um simples pintor a mais. Queria ser um artista pelo menos maior que Van Gogh ou Poninari. Acabou seguindo pa M Salvador, para estudar Filosofia
 O ano de  960 era o pico de um ciclo de ufanismo que se infiltrara em todos os poros da conscincia nacional. O prprio Malraux j entendia o Brasil como
de 50 chegas., ao fim e lanara uma ge-

- Ru achaca importante conhecer a> maquies de Brasilia, o respeito com que os estrangeiros passavam a reparar em nossa a.-te. em nossa cultura Como ies se interessavam, passamos a nos levar mais .1 serio   A Bossa Nova aparecia

Brasil e que incorporava o balano perseguido pelas geraes novas do mundo inteiro. Sas festinhas promovidas 
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ANDRADE, Mrio de. O movimento modernista, em Aspectos da literatura brasileira. So Paulo, Livraria Martins Fontes, 1974. E mais  frente, no mesmo texto: 
o movimento modernista era pelo seu esprito aventureiro ao extremo, pelo seu internacionalismo modernista, pelo seu nacionalismo embrabecido, pela sua gratuidade antipopular, pelo seu dogmatismo prepotente, era uma aristocracia de esprito (...) Isolados do mundo ambiente, caoados, evitados, achincalhados, malditos, ningum no pode imaginar o delrio ingnuo de grandeza e convencimento pessoal com que reagimos."


larmente sinuosa e complexa. Grosso modo, perguntavam-se: mas quais so nossas razes? Quem somos, de verdade, purificados da influncia estrangeira, se o que somos  uma bela de uma mistura. Ou, na imagem de Macunama, romance de Mrio de Andrade, um grande caldeiro de feijoada, onde, disfarado pelo brasileirismo do feijo, cabe um pouco de tudo. O que importa  canibalizar, do jazz fazer a Bossa Nova, devorar o estrangeiro e aproveitar o que de melhor encontramos nele para amulatar-se uma vez juntado ao que  nosso. Curioso  que tambm os modernistas, como os tropicalistas, enfrentaram a vaia popular... Fala-se muito da Semana de Arte Moderna de 1922, mas de fato o pblico, na ocasio, no escutou nenhum dos poemas declamados pelos modernistas nas escadarias do Teatro Municipal de So Paulo - que seria
a exposio para o pblico da poesia modernista. Ocorre que o pblico, para expressar sua rejeio, tanto vaiava como imitava bichos, zurros e relinchos includos, mas no quis foi saber de escutar os poemas. Mal sabiam os vaiadores que aquilo conferia aos poetas uma ntima consagrao. Era exatamente a reao que mais esperavam despertar. Para eles, significava que haviam conseguido abalar a inrcia da platia. E portanto que seus poemas haviam calado fundo na modorra cultural, na esttica mofada, residual e recorrente, preservada e acalentada pelo pblico. ...Ora, quem sabe? Seja como for, foi por isso que, dos modernistas, disse o prprio Mrio de Andrade algo que bem poderia ser usado como dstico de auto-reavaliao dos tropicalistas: "...ramos uma arrancada de heris convencidos. E muito saudveis". 

As formulaes do Tropicalismo geraram logo a seguir as composies que Gilberto Gil ("Domingo no parque") e Caetano Veloso ("Alegria, alegria") apresentaram no
III Festival de Msica Popular Brasileira da TV Record, exibindo-se ao lado de grupos de rock e obtendo o 2a e o 4L> lugares, respectivamente, alm de sucesso imediato nos programas de rdio.

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Logo, logo, seriam lanados os primeiros discos tropicalistas de Gilberto Gil (com arranjos assinados pelo maestro Rogrio Duprat) e de Caetano Veloso (com arranjos
assinados pelos maestros Damiano Cozzella, Sandino Hohagen e Jlio Medaglia, todos ligados  msica erudita de vanguarda). O ttulo da cano manifesto do movimento,
"Tropiclia", de Caetano Veloso, gravada por ele mesmo nesse LP, foi sugerido pelo produtor de cinema Lus Carlos Barreto, evocando uma instalao assinada pelo
artista plstico Hlio Oiticica. Em 1968, foi lanado o disco emblemtico do movimento, Tropiclia ou paris et circensis, que incluiu canes de Caetano Veloso,
Gilberto Gil, Torquato Neto, Capinam e Tom Z, interpretadas pelos autores, com arranjos do maestro Rogrio Duprat. O LP contou, ainda, com a participao de Gal
Costa, Nara Leo e Os Mutantes.

 natural que um movimento revestido de teses provocadoras como o Tropicalismo causasse polmicas tanto na poca em que foi lanado quanto at hoje, quando se faz
sua avaliao. O Tropicalismo surgiu diferentemente de um fenmeno espontneo, ou melhor, gestado e carregado por foras culturais latentes, como o nascimento do samba, ou seu ressurgimento, nos anos 1970, e at em certos aspectos como a Jovem Guarda, quando uma confluncia de talentos e aspectos conjunturais fizeram prevalecer
e se disseminarem determinadas tendncias. O Tropicalismo foi um movimento construdo a partir de uma iniciativa localizada, deliberada - e com formulaes bastante elaboradas. Nesse aspecto, parece-se um pouco com a Bossa Nova, que tinha uma proposta musical prpria, embora, no caso desta, dificilmente se pudesse v-la como uma tentativa de repensar o pas, ou nossa auto-imagem e parmetros culturais estabelecidos. Mas, enquanto a Bossa Nova no deixava de expressar um momento, o esprito de uma poca, mesmo restringindo seu alcance a certos segmentos de classe mdia, o Tropicalismo mostrou-se, em termos de proliferao, mais restrito ainda.

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" Ver MOTA, Nelson. Noites tropicais, So Paulo, Objetiva, 2000. P. 167-171.
Idem, Ibidem, p. 171.
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Considerando o ambiente cultural da poca, buscava justamente remar contra a mar. Exemplo disso  a crtica aberta dos prprios expoentes da Bossa Nova6, em destaque Joo Gilberto, a quem os tropicalistas tanto admiravam. E Joo sempre havia admirado os tropicalistas antes destes se tornarem tropicalistas. De mais a mais, gente como Dori Caymmi, Francis Hime, Edu Lobo, Elis Regina em certos momentos chegaram a acusar os Tropicalistas de estarem traindo "os ideais" joogilbertianos e "no compreendiam a adeso tropicalista  Jovem Guarda e ao rock internacional, que consideravam submsica"7. Mais  frente, depois da vaia recebida por "E proibido proibir",
no III FIC, promovido pela Rede Globo, em 1968, os tropicalistas resolveram abrir ataque direto contra o que chamavam de esquerda universitria da MPB, e particularmente contra Geraldo Vandr, ento endeusado pela juventude rebelde. O fato  que o Tropicalismo no conseguiu disseminar-se junto ao grande pblico, embora sua importncia inovadora fosse, mais adiante, instalar-se para sempre na MPB, alm de suas figuras de frente terem se tornado astros incontestes de nosso cancioneiro. Alis, o Tropicalismo inspiraria, anos depois, a chamada Vanguarda Paulista em msica, que deu frutos como Arrigo Barnab, Itamar Assumpo e Jos Miguel Wisnick, entre outros talentos musicais, poetas e at tericos.
O Tropicalismo nos deixou um repertrio de algumas pepitas de ouro como "Superbacana " (Caetano Veloso), "Soy loco por ti Amrica" (Gilberto Gil e Capinam), "Marginalia 2" (Gilberto Gil e Torquato Neto), "Panis et circensis" (Gilberto Gil e Caetano Veloso), "Lindonia" (Gilberto Gil e Caetano Veloso), "Gelia geral" (Gilberto Gil
e Torquato Neto), "Baby" (Caetano Veloso), "No identificado" (Caetano Veloso), "Divino, maravilhoso" (Gilberto Gil e Caetano Veloso), "So So Paulo" (Tom Z), entre outras. Apesar de todas as controvrsias dos anos 1960, ou, entre outras virtudes, justamente por t-las sustentado,
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* Songbook Caetano Veloso vol.1.

Caetano e Gil so hoje nomes universalmente queridos e admirados em nossa msica.

Caetano Emanuel Viana Telles Veloso (BA, 1942 -) conheceu o trabalho de Joo Gilberto no LP Chega de saudade, apresentado por um amigo do ginsio. E este seria o msico que mais influenciaria sua trajetria artstica:
No Joo, parece que  tudo mais justo, necessrio: melodia, as vogais, as consoantes, os sentimentos, o respeito por aquela forma, que ele reconheceu ali, o jeito daquelas coisas se expressarem esteticamente. Joo traduz a cano.8

Da se v como deve ter sido estranho para ele receber as crticas de Joo Gilberto ao Tropicalismo. O encontro com Gilberto Gil, a quem ele j admirava muito, ocorreu
em 1963 - foram apresentados pelo produtor Roberto Santana. Nessa poca, conheceu tambm Gal Costa (quando ela ainda se chamava Maria da Graa) e Tom Z.

Em junho de 1964, em Salvador, integrando os eventos de inaugurao do Teatro Vila Velha, dirigiu o show Ns, por exemplo, no qual tambm atuou como cantor, ao lado de Gilberto Gil, Maria Bethnia, Gal Costa e Tom Z, entre outros. Este show representou um marco histrico, pois pela primeira vez reuniu o ncleo que futuramente viria a ser conhecido como Doces Brbaros. Dois anos depois, j morando no Rio de Janeiro, onde chegou para acompanhar a irm Maria Bethnia, convidada pela produtora Teresa Arago para substituir Nara Leo no show Opinio, participaria ao lado de Gilberto Gil, Gal Costa, Maria Bethnia e Tom Z de reunies e de saraus musicais
que tinham como base o Solar da Fossa, clebre penso de estudantes e de msicos em Botafogo (nas imediaes da casa de show Caneco).
J em maio de 1966 defendia uma "retomada da linha evolutiva da msica popular brasileira", em depoimento  revista Civilizao

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' Idem, Ibidem.
Brasileira n 7. No ano seguinte ganhava popularidade por suas participaes no programa da TV Record Esta noite se improvisa, ao lado de Carlos Imperial, Chico Buarque de Hollanda e muitos outros convidados. Neste ano ainda lanaria seu primeiro LP, Domingo, ao lado de Gal Costa, disco produzido por Dori Caymmi, com fortes influncias da Bossa Nova, da qual logo se afastaria: "A gente no queria ficar fazendo sub-Bossa Nova depois do Joo e do Tom" 9... Em breve, surpreenderia o meio musical com sua virada tropicalista e viveria episdios como, alm dos j mencionados, ter sido impedido de participar da I Bienal do Samba, na TV Record, So Paulo, por utilizar acompanhamento de guitarra eltrica.
Caetano, que por algum tempo fora conhecido como o irmo de Maria Bethnia, teve consagrao meterica em So Paulo com "Alegria, alegria", no III Festival da MPB, acompanhado pelas guitarras do conjunto argentino Beat Boys. No ano seguinte, no III FIC (Rede Globo), com a msica "E proibido proibir" e as guitarras de Os Mutantes, foi vaiado pela platia, a ponto de reagir com um discurso de cunho esttico e poltico. ("...Essa  a juventude que quer tomar o poder? Se vocs forem em poltica como so em esttica, estamos perdidos..."). A matriz musical era a mesma nas duas canes, assim como ali estava o mesmo Caetano que j participara, ao contrrio de outros nomes em ascenso na MPB, dos programas A buzina do Chacrinha e do jovem Guarda. Mas, mudara a poca, mudara o momento poltico, assim como aprofundava-se o distanciamento de Caetano da MPB tradicional. Esboava-se, com clareza irrefrevel, sua opo por uma verso prpria da rebeldia...
Ainda em 1968, os tropicalistas, alm de participarem de vrias edies do programa Discoteca do Chacrinha, apresentaram-se na casa noturna Sucata (RJ). O cenrio do show incluiu uma bandeira com a inscrio "Seja marginal, seja heri", obra assinada por Hlio Oiticica, que provocou a interrupo das apresentaes pela

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Caetano Veloso, em pleno Movimento Tropicalista, visita a Discoteca do Chacrinha, programa da TV Globo, Rio de janeiro, 1968. Hamilton / AJB
censura federal. Ao mesmo tempo, Caetano Veloso e Gilberto Gil comandavam o programa Divino maravilhoso, transmitido pela tev com a participao de todos os artistas envolvidos com o movimento, alm de convidados como Jorge Ben, Paulinho da Viola e Jards Macal. Aps algumas edies, foi interrompido, em conseqncia do A-l 5;
e no dia 27 de dezembro de 1968 Caetano e Gil foram presos pela ditadura militar e levados para o quartel do exrcito de Marechal Deodoro, no Rio de Janeiro, permanecendo detidos por dois meses. Em fevereiro de 1969 foram soltos, porm em regime de confinamento, seguindo para Salvador. No ano seguinte, seguiram para o exlio, em Londres, s retornando ao Brasil em 1972.

Mesmo no exlio a produo de Caetano no parou. Ao longo da dcada de 1970 colaborou com muitos artigos para o jornal carioca O Pasquim, que insistentemente desafiava o regime com cida ironia - e por isso se tornou um dos mais cortados da censura. De Londres, mandava canes para Gal Costa ("London, London" e "Deixa sangrar"),
Maria Bethnia ("A tua presena morena"), Elis Regina ("No tenha medo"), Erasmo Carlos ("De noite na cama")





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e Roberto Carlos ("Como dois e dois"), alm de se apresentar em vrios palcos internacionais.
Na volta do exlio, ou melhor, no dia seguinte, estreou o show Transa, ao lado de Gil, no Teatro Joo Caetano, no Rio de Janeiro, j com um visual hippie e chocando parte do pblico ao se apresentar imitando trejeitos de Carmen Miranda. No ano seguinte, outro marco interessante de sua ousadia foi o lanamento do LP Ara azul,
com altssimo grau de experimentalismo. O disco teve um grande nmero de devolues e foi retirado do catlogo. Caetano somente reencontraria um lugar ao sol nas paradas de sucesso em 1980 - momento em que o Brasil vivia a distenso, vibrava com a volta dos exilados e ostentava a alegria libertria emblematizada pelo point de praia carioca de poca, o efervescente Posto 9, em Ipanema, onde ele costumava aparecer, como outros artistas e personalidades como Fernando Gabeira, usando tangas
de croch como traje de banho. Em maro desse ano lanou o lbum Outras palavras, que lhe rendeu seu primeiro Disco de Ouro pelas 100 mil cpias vendidas. A partir
da, o reconhecimento a sua msica e a sua importncia no cenrio cultural brasileiro no pararam mais de crescer.

Outro grande momento de Caetano foi o programa Chico e Caetano, na Rede Globo, no qual ele e Chico Buarque, alm de cantar, apresentavam artistas convidados, nacionais
e internacionais. No era mais vivel para o regime, que ia se desfazendo, manter a proscrio contra os dois grandes nomes da MPB da poca e logo o disco Caetano
Veloso e violo rendia a Caetano um disco de platina pelas 250 mil cpias vendidas.

Em agosto de 1993 lanaria com Gilberto Gil o CD Tropiclia 2, em comemorao aos 25 anos do movimento, e mais adiante, juntamente com Gilberto Gil, Gal Costa e
Maria Bethnia era homenageado pela escola de samba Mangueira com o samba-enredo para o carnaval "Atrs da verde-e-rosa s no vai quem j morreu" -
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'" Encarte do disco Gilberto Gil da srie Histria da        MPB - grandes compositores com o qual a escola tirou o oitavo lugar. Em 1997, lanaria o livro    de ensaios e memrias Verdade tropical, uma das referencias atuais   para a histria e a discusso da MPB. No ano seguinte seu CD   - Abril Cultural. Prenda minha, atingia a faixa de mais de um milho de cpias vendidas, puxado pela regravao de Sozinho, de Peninha.

Gilberto Passos Gil Moreira (BA, 1942 -) ao final da dcada de 1950 formou o grupo Os Desafinados, apresentando-se em rdios de Salvador, onde se reuniam acordeonistas nordestinos. Foi l que teve a oportunidade de conhecer Sivuca e Hermeto Pascoal. Gil teve como primeira influncia musical as canes tpicas do serto baiano, como as cantorias dos cegos e violeiros de feiras e os dobrados tocados pelas bandinhas em festas religiosas, alm dos discos de Francisco Alves, Orlando Silva, Dorival Caymmi e Luiz Gonzaga, transmitidos pelo servio de alto-falantes, tpicos em cidades interioranas. Mas o passo decisivo foi comear a escutar Garoto, Johnny Alf, Lcio Alves, alm de Joo Gilberto, divisor de guas na vida musical de muitos dos grandes nomes da MPB: "Quando o Joo Gilberto apareceu, eu disse: 'Ta o que eu queria'. E entrei na bossa nova  com ele".10

Sua estria em disco ocorreu em 1962, no compacto simples encomendado pela Petrobrs, Povo petroleiro. Suas composies foram se tornando conhecidas e ganharam interpretaes
de grandes estrelas da MPB, como Elis Regina, que ento comandava o programa O fino da bossa, transmitido pela TV Record de So Paulo, para o qual Gilberto Gil foi chamado inmeras vezes. Com a interpretao de Elis, classificou-se em quinto lugar no II Festival de Msica Popular Brasileira promovido pela TV Record (em 1966), com a msica "Ensaio geral". Um ano depois obteve a segunda classificao no mesmo festival, desta vez com "Domingo no parque", interpretada por ele mesmo ao lado do grupo Os Mutantes, com arranjo de Rogrio Duprat.

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Cartaz do espetculo Os Doces Brbaros, em 1976.

Arquivo Cedoc / Funarte
Depois do Tropicalismo e do exlio - tendo se despedido do Brasil com "Aquele abrao", que chegou a ganhar o Prmio Golfinho de Ouro do Museu da Imagem e do Som em 1969 e que, segundo o historiador Jairo Severiano,  sua composio mais executada -, lanou, j de volta ao pas, o LP Expresso 2222, no qual exibiu com opulncia sua habilidade violonstica na faixa que d nome ao disco. O LP incluiu msicas de compositores nordestinos,  como  Gordurinha  ("Chiclete  com banana"), Dominguinhos
e Anastcia ("Eu s quero um Xod"), que fizeram a delcia do pblico. Em junho de 1976, reuniu-se com Gal, Caetano e Maria Bethnia no elenco do espetculo Os Doces
Brbaros, que estreou no Anhembi, em So Paulo, show que gerou o LP Os Doces Brbaros ao vivo. Em 1979, prosseguindo na trilogia dos  re, iniciada com Refazenda
(1975) e Refavela (1977), lanou o LP Realce, contendo a faixa "No chore mais", verso de "No woman, no cry" (Bob Marley) e "Super-homem - a cano", um manifesto lrico contra o machismo. Na corrente da virada para a dcada de 1980, o disco alcanou imenso sucesso, sendo um dos mais vendidos de sua carreira. Em 1978, lanou mais um re, o Refestana, ao lado de Rita Lee. Seu primeiro disco internacional, Nightingale, foi produzido por Srgio Mendes e lanado, em
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O ministro da Cultura, Gilberto Gil, durante a primeira reunio ministerial do governo de Luiz Incio Lula da Silva no salo oval do Palcio do Planalto, em Braslia,
DF, 2003. Srgio Lima / Folha Imagem


1979, nos Estados Unidos, onde se apresentou em diversas cidades, alm de excursionar pela Alemanha e ustria.

Em sua intensa carreira de sucessos nacionais e internacionais, ao longo de 2000, Gil realizou o primeiro trabalho ao lado de Milton Nascimento, o show e o CD Milton e Gil, lanado simultaneamente no Brasil, Europa e EUA. Nesse mesmo ano, lanou Gilberto Gil e as canes de Eu, Tu, Eles, contendo a trilha composta para o filme homnimo de Andrucha Waddington, baseada na obra de Luiz Gonzaga, forte referncia em sua carreira. O CD foi contemplado com o Disco de Ouro, pelas mais de 100 mil cpias vendidas. No dia 1Q de janeiro de 2003, foi empossado como ministro da Cultura do governo de Lus Incio Lula da Silva.
Dona de uma voz rarssima e impressionante presena nos palcos, Gal Costa (BA, 1945 -) foi a estrela do Tropicalismo. Como os demais baianos, no incio dos anos de 1960 conheceu o dolo Joo
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Gilberto. Este,  segundo depoimento registrado no encarte da coleo Histria da Msica Popular Brasileira, disse-lhe aps o primeiro encontro em que a viu cantar:
"Voc  a maior cantora do Brasil". Nesta mesma poca tambm conheceu Caetano Veloso, Maria Bethnia e Gilberto Gil. Sua estria oficial como cantora foi em junho
de 1964, no show Ns por exemplo, que marcou a inaugurao do Teatro Vila Velha, em Salvador, ao lado de Caetano, Tom Z, Maria Bethnia, Djalma Corra, Alcivando Luz, Pitti, Fernando Lona e Gilberto Gil.

Seu primeiro LP foi Domingo (1967), que dividiu com o tambm estreante Caetano Veloso. Uma vez inserida no meio artstico carioca, Gal seria apresentada por Chico
Buarque ao produtor Marcos Lzaro, que acertou sua participao nos programas de televiso de grande sucesso na poca: O fino da bossa e Agnaldo Rayol Show. Justamente a o produtor Guilherme Arajo, que em 1968 viria a empresari-la e a Caetano, Gil e Tom Z, sugeriu a mudana de seu nome artstico de Maria das Graas para Gal Costa. A partir de ento, seguindo o movimento tropicalista liderado por Caetano Veloso e Gilberto Gil, deixou o cabelo crescer e adotou um estilo mais agressivo no modo de cantar, contrrio ao estilo bossanovista, que assumira anteriormente.

Assim em 1968, defendeu a composio de Gilberto Gil e Caetano Veloso, "Divino maravilhoso", no IV Festival de Msica Popular Brasileira, recebendo a terceira colocao.
Foi considerada pela crtica da poca a musa do Tropicalismo, alcanando grande popularidade. Tanto que no emblemtico LP Tropiclia, tambm lanado em 1968, Gal
participou das faixas "Parque industrial", "Hino do Senhor do Bonfim", "Mame, coragem" e "Baby". Esta ltima havia sido composta por Caetano Veloso para Maria Bethnia gravar - inclusive foi ela que pediu ao irmo que fizesse uma msica com este nome. Mas Bethnia preferiu no participar do movimento tropicalista e deixou a gravao por conta da amiga. "Baby",


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que teve arranjo de Rogrio Duprat, foi um marco na carreira de Gal Costa, que no ano seguinte gravou seu primeiro LP individual, Gal Costa, com sucesso imediato
- as faixas  "No identificado", de Caetano Veloso, e "Que pena", de Jorge Ben (hoje Jorge Benjor), ficaram mais de trs meses nas paradas de sucesso.
No ano seguinte, gravaria o segundo LP, tambm intitulado Gal Costa, com a antolgica "Meu nome  Gal", msica de Roberto e Erasmo feita em sua homenagem. A cantora continuaria a colecionar grandes sucessos em gravaes como "London, London" e "Deixa sangrar" (Caetano Veloso), "Prola negra" (Lus Melodia), "Como dois e dois" (Caetano Veloso) e "Sua estupidez", de Roberto e Erasmo. Em 1972, estreou, sob a direo de Waly Salomo, o show que foi considerado um marco na sua carreira, Fatal, e em seguida o que confirmaria seu sucesso, India. Em 1975, sua gravao para a msica "Modinha para Gabriela", de Dorival Caymmi, foi tema da novela Gabriela, da Rede Globo, o que geraria o LP Gal canta Caymmi, contendo exclusivamente composies do mestre baiano. Em janeiro de 1979, estreou no Teatro dos Quatro, Rio de Janeiro,
um dos shows mais marcantes de toda a sua carreira: Gal Tropical, que ficou em cartaz durante todo o ano, sempre com casa lotada, sendo apresentado em seguida em So Paulo, no Norte e Nordeste do pas. E at no exterior: Sua (Montreux), Portugal, Japo e Argentina.

Outro marco foi o show Festa do interior (1982), no Maracanzinho, Rio de Janeiro, dirigido por Waly Salomo, que excursionou pelo Brasil e encerrou sua temporada nacional na comemorao do 222 aniversrio de Braslia, para um pblico de mais de trezentas mil pessoas. Gal, alm de ser considerada uma das rainhas da voz no
Brasil, sempre se destacou por ser dona de forte popularidade. Tal como Dalva de Oliveira, nas dcadas de 1950 e 1960...

Tom Z (BA, 1936 -) teve formao clssica como violonista, estudando tambm com grandes mestres da msica erudita da

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O cantor e compositor do Tom Z. So Paulo, dezembro de 1977. Folha Imagem

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 UFBA, em vrias disciplinas musicais. J em 1968, participou do IV Festival da Msica Popular Brasileira, promovido pela
TV Record de So Paulo, obtendo a primeira colocao com sua composio "So So Paulo", e a quarta colocao com "2001", em parceria com Rita Lee, defendida pelo
grupo Os Mutantes, que tambm levou o Prmio de Melhor Letra. Seu primeiro LP individual, Tom Z, foi lanado em 1968.

Tom Z se afastou dos palcos em meados da dcada de 1970, indo trabalhar em publicidade, mas na dcada de 1980 o encontramos fazendo msica experimental e realizando
um concerto no Teatro Municipal de So Paulo, exibido pela TV Cultura. Esquecido no Brasil ao fim da dcada de 1980, foi redescoberto pelo msico americano David
Byrne, que comprou em um sebo seu LP Estudando o samba, lanado em 1974. As inovaes propostas neste disco levaram Byrne a lanar o compositor no mercado internacional.
Em 1990, surgiria o disco The Best of Tom Z, aclamado pela crtica e que ficaria entre os 10 melhores da dcada em todo o mundo na avaliao da revista Rolling
Stone. Tom Z retornou  vida artstica, a partir da, realizando bem-sucedidas excurses e ganhando importantes prmios internacionais, como o Prmio de Criatividade
em Telluride, no Colorado, EUA, no festival Composer to Composer, ao lado de msicos eruditos e/ou de vanguarda de todo o mundo. Em 1993, apresentou-se em concerto
no Morna (Museu de Arte Moderna de Nova York), sendo o primeiro e nico msico brasileiro a se apresentar nesse espao, onde no se fazem habitualmente espetculos
musicais. Foi tambm o primeiro e nico



compositor da Amrica Latina a se apresentar no altamente seletivo Walker Art Center, Minneapolis, EUA, que convoca nomes exclusivssimos como Phillip Glass, John
Cage e Bob Wilson.




O poeta e letrista Torquato Neto (PI, 1944 - RJ, 1972) veio para o Rio de Janeiro em 1963 e trabalhou em jornais, gravadoras e agncias de publicidade, ao longo
de dois anos, quando ento iniciou parcerias com Gilberto Gil e Caetano Veloso. Foi ele o autor do brevirio Tropicalismo para principiantes, no qual situou o movimento
como inspirado na revoluo provocada na Europa pelo filme Bonnie and Clyde, bem como na necessidade de criar um pop autenticamente brasileiro: "Assumir completamente
tudo que a vida dos trpicos pode dar, sem preconceitos de ordem esttica, sem cogitar de cafonice ou mau gosto apenas vivendo a tropicalidade e o novo universo
que ela encerra, ainda desconhecido." Entre 1967 e 1968, escreveu em parceria com Capinam o roteiro Vida, paixo e banana do tropicalismo, que seria dirigido por
Jos Celso Martinez Corra, mas no chegou a ser montado. Com o exlio de Gilberto Gil e Caetano Veloso, mudou-se tambm para o exterior, vivendo em Paris, Londres
e Nova York.

Na dcada de 1970, envolveu-se em diversas polmicas por intermdio da coluna diria, "Gelia geral", que publicava no jornal carioca Ultima Hora, chegando posteriormente
a romper com Caetano e Gil. Torquato Neto sentia-se perseguido pelos patrulheiros ideolgicos tanto de direita quanto de esquerda e passou por internaes no hospital
psiquitrico de Engenho de Dentro (subrbio do Rio de Janeiro), alm de problemas com alcoolismo. Em novembro de 1971, escreveu a Hlio Oiticica: "A parania, com
perdo da palavra, grassa nos altos crculos (...) Ningum sabe o que fazer porque a sufocao s deixa pensar em dar no p." Por essa poca, voltou para Teresina,
internando-se na Clnica Meduna para uma desintoxicao por alcoolismo. Em 10 de novembro de 1972, aps a festa de comemorao de seus 28 anos de idade, levou



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sua mulher Ana Maria Silva de Arajo Duarte (com quem teve um filho, Tiago) para casa, esperou que ela dormisse, trancou-se no banheiro e abriu o gs. Deixou um
bilhete, seco e genial onde a frase mais marcante era: "Pra mim chega". Em 1973, Waly Salomo reuniu alguns de seus poemas, letras e textos editados na coluna do
jornal Ultima Hora e lanou o livro Os ltimos dias de Paupria, que veio acompanhado por um compacto simples (duas msicas). O livro tambm trouxe textos de apresentao
de Dcio Pignatari, Hlio Oiticica, Haroldo e Augusto de Campos e foi editado pela coleo Na corda bamba, da Editora Pedra Q Ronca. Torquato  considerado um dos
principais letristas do movimento tropicalista e at hoje um dos nomes cult da literatura dos anos 1970. Sua obra, embora pequena, se agiganta com o passar do tempo.




O poeta, escritor e letrista, jornalista, publicitrio e mdico Jos Carlos Capinam (BA, 1941 -) escreveu e estreou a primeira pea, Bumba-meu-boi, musicada por
Tom Z, em 1963. No ano seguinte, com o golpe militar, foi forado a deixar Salvador, transferindo-se para So Paulo, onde trabalhou como redator publicitrio. Por
essa poca, conheceu Geraldo Vandr (que fazia jingles para a agncia), alm de Gianfrancesco Guarnieri e Augusto Boal (do Teatro de Arena) que o levaram para o
meio musical de So Paulo. Logo depois foi apresentado a Edu Lobo e participaria ativamente dos movimentos culturais da dcada de 1960, como o Centro Popular de
Cultura (CPC), Feira da Msica, Teatro Jovem, e do Tropicalismo.

Em 1966, publicou o livro de poemas Inquisitorial e, na dcada de 1970, foi co-editor, ao lado de Abel Silva, da Revista Anima. Em 1976, foi includo na antologia
26 poetas hoje, organizada por Helosa Buarque de Hollanda, que selecionou o que havia de mais significativo na poesia da poca. Na sua obra musical, h que se registrar
"Cano para Maria", interpretada por Jair Rodrigues no II Festival da Msica Popular Brasileira da TV Record de So Paulo



(e classificada em terceiro lugar) e ainda "Ponteio", em parceria com Edu Lobo, composio que venceu o III Festival da Msica Popular Brasileira da TV Record, interpretada
por Edu Lobo, Marlia Medalha e o grupo Momento Quatro. Capinam comps ainda "Clarice", com Caetano Veloso, e a superpolmica "Soy loco por ti, Amrica", com Gilberto
Gil, em 1968. So marcantes ainda as parcerias que fez e os intrpretes que gravaram suas msicas, quando j havia sido ultrapassado o momento mais caracterstico
do Tropicalismo, podendo-se listar a grandes nomes como Elis Regina e Edu Lobo. Fez ainda parcerias muito interessantes com Paulinho da Viola, Jards Macal, Sueli
Costa, entre outros.

Atraes  parte

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Um perodo to diversificado quanto as dcadas de 1960 e 1970 no poderia deixar de absorver artistas que transitaram entre as diversas tendncias em curso, alm
de trajetrias prprias, seminais, para os caminhos que a Msica Popular Brasileira haveria de seguir.

Para comear, h que se registrar o trabalho de quatro msicos marcantes: Sivuca, Baden Powell, Egberto Gismonti e Hermeto Pascoal.

De uma famlia de sapateiros, Sivuca (PB, 1930 -) j em criana corria o interior do Nordeste, tocando sanfona profissionalmente em festas, casamentos e batizados.
Arranjador, compositor, acordeonista, violonista, guitarrista, pianista, percussionista -  notvel a extenso do universo musical que percorreu este paraibano.
Seu primeiro disco surgiu ao incio da dcada de 1950, quando interpretava, de Zequinha de Abreu, o choro "Tico-tico no fub" e, de Valdir Azevedo e Bonfiglio de
Oliveira, outro choro, "Carioquinha no Flamengo". Neste mesmo ano, acompanhou ao acordeom a cantora Carmlia Alves no pot-pourri "No mundo do baio" e gravou seu
segundo disco interpretando o "Frevo dos Vassourinhas nme-



_Sivuca 11979.

Arquivo Cf.doc / Funarte

ro 1", de Matias da Rocha, e o baio "Sivuca no baio", de Humberto Teixeira e Luiz Gonzaga. No correr dos anos, gravou tambm sambas, polcas, boleros, frevos, a
par de composies suas como "Feijoada", "Homenagem  velha guarda" e "Lamento do morro", que se tornaram bastante conhecidas. Sivuca cumpriu uma bem-sucedida carreira
no exterior, dirigindo musicais nos EUA, apresentando-se em vrios pases e acompanhando intrpretes em evidncia, como Miriam Makeba - cujo conjunto liderou e com
quem fez uma excurso  frica, Europa, EUA e sia - e o grande astro internacional Harry Belafonte, com quem tocou por quatro anos. Em 1975, foram lanados no Brasil
os LPs Sivuca e Live from Village Gate, nos quais ele interpreta, entre outras, "Adeus Maria Ful", de sua autoria e Humberto Teixeira, "No rancho fundo", de Ary
Barroso, e "Marina", de Dorival Caymmi. Em 1977, de volta ao Brasil, apresentou-se no Teatro Joo Caetano no Rio de Janeiro no Projeto Seis e Meia, juntamente com
a violonista Rosinha de Valena, gravando ao vivo o LP Sivuca e Rosinha de Valena, no qual interpretam, entre outras, "Lamentos", de Pixinguinha e Vincius de Moraes,
e "Asa branca", de Luis Gonzaga e Humberto Teixeira.  importante aqui registrar essas selees para se comprovar a amplitude do repertrio de Sivuca, que ainda
faria parcerias com Paulinho Tapajs, Paulo Cesar Pinheiro, Chico Buarque (um grande sucesso, "Joo e Maria", interpretada por Micha) e com sua mulher Glorinha
Gadelha. Em 1984 lanou com Chiquinho do Acordeom o disco Sivuca e Chi-



quinho, com a participao especial do maestro Radams Gnattali, no qual foram gravadas, entre outras, as composies "P de moleque", de Radams Gnattali, "O eterno
jovem Bach", de Altamiro Carrilho, e "Rabo de fita", parceria de Sivuca e Chiquinho do Acordeom. A importncia de Sivuca  reafirmada ano a ano em inmeras interpretaes
marcantes, indo ainda de Jacob do Bandolim ("Doce de coco")  msica erudita, alm de shows no Brasil e no exterior (como com Baden Powell, em Paris e Wagner Tiso
no Rio de Janeiro (2000).




Baden Powell de Aquino (RJ, 1937 - 2000) cresceu ouvindo chores que eram reunidos em casa pelo pai. Em criana, fugia da escola para ir tocar violo com os amigos
da Mangueira, Rio de Janeiro. Em meados da dcada de 1950, como integrante do conjunto de Ed Lincoln, apresentava-se em boates do Rio de Janeiro, tocando jazz, e
j fazia importantes parcerias (como o "Samba triste", com Billy Blanco, gravado por Lcio Alves). Nos anos I960, acompanhando Silvinha Telles na quentssima boate
Jirau, deu-se o encontro com Vincius de Moraes. Foi com Vincius que a carreira do jovem virtuose do violo desabrocharia em um grande nmero de sucessos, "Samba
em preldio", "Samba da bno" e "Consolao", alm da coleo de afro-sambas, especialmente "Canto de Ossanha", grande xito do incio da carreira de Elis Regina.

Baden teve, como muitos outros dessa poca, uma passagem pelos festivais da cano, classificando-se em segundo lugar no I Festival da Msica Popular Brasileira
da TV Excelsior com "Valsa do amor que no vem" (parceria com Vincius, interpretada por Elizeth Cardoso) e em quarto lugar na edio de 1966 do mesmo festival com
"Cidade vazia" (parceria com Lula Freire, interpretada pelo ento estreante Milton Nascimento). Ganhou ainda o primeiro lugar na Bienal do Samba da TV Record (1968)
com "Lapinha", na voz de Elis Regina.

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Admiradssimo por sua tcnica ao violo, Baden no tardou tambm a fazer slida carreira no exterior, com destaque, entre outras, para a apresentao no Olympia
de Paris, quando tocou seus sambas ao lado de composies eruditas. Baden colecionou importantes participaes em shows e em festivais internacionais, ao lado de
msicos de ponta, como Jim Hall, Barney Kessel e a Orquestra Sinfnica de Paris. L estava tambm, em 1996, quando se apresentou ao lado de nosso Sivuca, na Frana.
Tudo isso somado faz da discografia de Baden Powell uma visita necessria para quem quer conhecer o melhor da MPB.




Compositor, arranjador e instrumentista, um msico raro na MPB, Egberto Gismonti (RJ, 1944 - ), neto e sobrinho de msicos, iniciou os estudos de piano aos 6 anos
de idade no Conservatrio de Msica de Nova Friburgo (RJ). Foi aluno de Jacques Klein e Aurlio Silveira. Em 1968 viajou a Paris e teve como professores de anlise
e orquestrao Ndia Boulanger e o compositor Jean Baralaque, um discpulo de Schoenberg e Webern. Transitou dos teclados (piano acstico, piano eltrico, sintetizador
e rgo) aos violes de 6, 8, 10, 12 e 14 cordas, realizando experimentaes com vrios tipos de tons e sons, alm de utilizar flautas indgenas (ocarina e jacu),
kalimbas e sinos.

Em 1968, participou do III Festival Internacional da Cano (RJ), com a composio "O sonho", interpretada pelo grupo Os Trs Moraes, para a qual escreveu um vigoroso
arranjo para orquestra de 100 integrantes. No ano seguinte, partiu para a Europa, onde atuaria como arranjador e regente da orquestra que acompanhava Marie Lafort,
alm de fazer o primeiro show internacional, apresentando-se no Festival de San Remo (Itlia). Alis, Egberto  at hoje uma presena constante em destacados palcos
internacionais.

Voltando a seu incio: nos anos 1970, surpreendeu o pblico com a belssima "Mercador de serpentes", e posteriormente, dando prosseguimento a sua trajetria inovadora,
apresentaria destaques



como "Tango", "Encontro no bar" e "Luzes da ribalta", todas com Geraldo Carneiro - um dos principais parceiros de Egberto, poeta de qualidade, roteirista de TV e
escritor, que tambm fez parcerias com Francis Hime e Wagner Tiso, entre outros, alm do instrumental "Academia de danas". Em 1976, Gismonti lanou Dana das cabeas,
um dueto com o percussionista Nan Vasconcelos, nomeado Album do Ano pela Stereo Review e premiado com o Grober Deutscher Schallplattenpreis. Seu LP Solo (1979),
no qual toca violo de oito cordas, piano e sinos, vendeu 100.000 cpias nos Estados Unidos. Em 1982, gravou o LP Missa dos Quilombos, realizado a partir de textos
de Dom Pedro Casaldliga (arcebispo de So Flix do Araguaia, MT) e do poeta Pedro Tierra. O virtuosismo, o conhecimento musical e principalmente a ousadia criativa
de Egberto Gismonti o tornam uma refinada referncia ainda por ser mais explorada na MPB.




A luz de Hermeto Pascoal (AL, 1936 - ) comeou a brilhar na dcada de 1970, e brilha at hoje - outro fantstico artista que abriu caminhos que ainda vo render
muito para a histria da MPB. Compositor, ele toca acordeom, flauta, garrafa, piano, bacia, saxofone e sintetizador, entre outros, porque na verdade faz msica com
praticamente qualquer objeto que lhe caia nas mos. Nascido na cidadezinha de Lagoa da Canoa, municpio de Arapiraca, em Alagoas, este autodiata destacou-se tanto
como instrumentista que, sem saber ler msica, j o colocavam para tocar nas orquestras. Quando se apresentava em algum local ou ocasio onde era necessria certa
encenao, colocavam uma partitura na sua frente, que ele fingia ler - na verdade, tocava tudo de ouvido. Hermeto s no foi trabalhar na roa porque no podia tomar
sol, dada sua condio de albino. Ento, ia para o campo num carro de boi com seu pai e ficava deitado sob alguma rvore, ouvindo passarinhos. Hermeto percorreu
o Nordeste tocando em casamentos, batizados e bailes ao ar livre, ora o acordeom, ora

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_Hermeto Pascoal em show no Parque Catacumba, espao ABC Funarte I Fundao Rio, RJ, 1980.

Arnaldo Ferreira Pinto / Arquivo Cedoc / Funarte

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a harmnica de oito baixos do pai - que chegou a vender duas vacas de seu magro rebanho para poder pagar um acordeom de 32 baixos para os filhos. No incio da dcada
de 1950, Hermeto j era considerado o melhor acordeonista do Agreste.

Em So Paulo (na dcada de 1960) passou a integrar o Quarteto Novo, juntamente com Teo de Barros, Airto Moreira e Heraldo, que formavam o Trio Novo, mas ficou fora
de uma excurso pelo Nordeste com Geraldo Vandr, Trio Maray e Trio Novo, por restries do patrocinador  sua aparncia fsica. Continuou a acompanhar Geraldo
Vandr em seus shows e, no ano seguinte, teve sua primeira composio gravada, "O ovo", no LP Quarteto Novo, uma experincia de estilizao da msica nordestina.
Ainda nesse ano, o Quarteto Novo acompanharia Marlia Medalha e Edu Lobo na interpretao de "Ponteio", composio de Edu Lobo e Capinam, vencedora do III Festival
de MPB da TV Record, em So Paulo. Hermeto logo passaria a acompanhar Edu Lobo em suas apresentaes - e em breve tambm iniciaria com o p direito sua carreira
internacional, nos Estados Unidos, integrando a banda de Miles Davis. Com este, gravaria o LP Miles Davis live, com duas compo-



sies suas, "Igrejinha" e "Nenhum talvez", que apareceram como de autoria do msico americano.

Em 1971, a composio "Gaio da roseira", de autoria dos pais de Hermeto, seria lanada em novo LP de Airto Moreira, com arranjo de Hermeto. A composio datada de
1941 era cantada durante os trabalhos da roa e recebeu da crtica inglesa o ttulo de uma das melhores do ano. Nessa poca, foi lanado o seu primeiro disco nos
Estados Unidos, com absoluto destaque para a composio "Velrio", uma sute sobre tema erudito na qual Hermeto recria sonoramente um enterro - como aqueles que
assistira em sua terra natal, usando para isso 36 garrafas, que, com afinaes diferentes, foram tocadas por alguns dos melhores flautistas americanos, entre os
quais Hubert Laws e Joe Farrell.

S depois conseguiria finalmente gravar seu primeiro disco no Brasil, A msica livre de Hermeto Pascoal, surpreendente como toda a sua obra. Na faixa "Serei rei",
a equipe precisou deslocar-se at uma fazenda, para Hermeto tocar entre porcos, galinhas, gansos e perus. Logo suas ousadas propostas comearam a ser aceitas por
outros msicos, tanto que, nos Estados Unidos, Herbie Hancock inclui garrafas em suas gravaes. Em 1978, Hermeto participou do Festival de Jazz de So Paulo, onde
encantou o pblico ao tocar uma bacia. Somente nessa poca seu primeiro disco, gravado nos Estados Unidos, foi enfim lanado no Brasil.

Apesar de visto por alguns crticos como pouco comercial, Hermeto vem recebendo diversos prmios como um dos melhores instrumentistas e arranjadores contemporneos.
Prova disso  que tem se apresentado para vidas platias, em excurses aos Estados Unidos e  Europa, onde sua msica tem mais aceitao do que no Brasil.




Numa dcada em que no s driblar a censura como tambm expressar a busca de uma nova lrica para as letras das msicas era quase uma obsesso (afinal, no bastasse
nossa tradio potico-

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musical desde Noel Rosa, ainda estava entre ns a imponente e reverenciada figura de um Vincius de Moraes)  fundamental destacar os grandes poetas que surgiram
para a MPB nos anos 1970. E a registrem-se Aldir Blanc, Abel Silva, Antnio Ccero e Paulo Csar Pinheiro como destaques.

Aldir Blanc (RJ, 1946 - ), escritor, cronista, contista, poeta, nascido e criado na vizinhana nobre do Estcio, Rio de Janeiro, abandonou a Medicina no incio dos
anos 1970 para se dedicar exclusivamente  msica. Em 1968, comps com Slvio da Silva Jnior "A noite, a mar e o amor", classificada no III Festival Internacional
da Cano da TV Globo, no Rio de Janeiro. No ano seguinte, classificou mais trs msicas no II Festival Universitrio da Msica Popular Brasileira: "De esquina em
esquina", em parceria com Csar Costa Filho, interpretada por Clara Nunes; "Nada sei de eterno" (com Slvio da Silva Jnior), defendida por Taiguara; e outra parceria
com Csar Costa Filho, "Mirante", interpretada por Maria Creuza. Em 1970, classificou-se no V Festival Internacional da Cano com a composio "Diva", parceria
com Csar Costa Filho, e neste mesmo ano despontou seu primeiro grande sucesso, "Amigo  pra essas coisas" (com Slvio da Silva Jnior), interpretada pelo grupo
MPB-4, concorrendo no III Festival Universitrio de Msica Popular Brasileira. O poeta foi um dos integrantes do MAU (Movimento Artstico Universitrio), que faria
histria na MPB a partir dos festivais, lebre e coqueluche musicais na segunda metade dos anos I960.

Aldir conheceu Joo Bosco em 1970. E com ele iniciou uma das mais profcuas parcerias da MPB, com vrias composies interpretadas por uma cantora que surgiu que
nem cometa, Elis Regina. Nessa lista constam entre outras "O mestre-sala dos mares", "Dois pra l, dois pra c" e ainda "O bbado e a equilibrista' que, evocando
o irmo do Henfil, Betinho, na poca exilado, tornou-se um hino potico da luta pela anistia. Aldir Blanc fez tambm parcerias



com Sueli Costa, Guinga, Wagner Tiso, alm de colecionar intrpretes valorosos como a j mencionada Elis Regina, mas tambm Leny Andrade, Chico Buarque, Nana Caymm;
Ivan Lins, Z Renato, Djavan, Edu Lobo e Leila Pinheiro. Esta ltima, por sinal, lanou um CD s com composies da dupla Guinga e Aldir Blanc, que ultrapassou a
marca das 100 mil cpias vendidas. Logo na abertura do CD, Dorival Caymmi registra a seguinte fala:

Aldir Blanc  compositor carioca.  poeta da vida, do amor, da cidade.  aquele que sabe como ningum retratar o fato e o sonho. Traduz a malcia, a graa e a malandragem.
Se sabe dc ginga, sabe de samba no p. Estamos falando do Ourives do Palavreado. Estamos falando de poesia verdadeira. Todo mundo  carioca, mas Aldir Blanc  carioca
mesmo.

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Abel Silva (RJ, 1943 - ) formou-se em Letras pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e foi professor de Literatura Brasileira na UFRJ e na PUC-Rio durante
toda a dcada de 1970, atuando tambm como editor de cultura do jornal Opinio - um dos mais influentes na poca. E tambm dos mais censurados, por sua linha editorial
de oposio ao regime militar. Preponderantemente letrista, sua primeira composio no entanto foi uma melodia que recebeu letra de Joo do Vale, "Eu chego l".
Mas a primeira composio gravada foi "Jura secreta" (com Sueli Costa, sua grande parceira), que lanou a cantora Simone e fez enorme sucesso na poca. Abel fez
tambm letras para Fagner, Joo Donato, Joo Bosco e Roberto Menescal. Como intrpretes de suas canes esto Dominguinhos, Edson Cordeiro, Emlio Santiago, Joo
Donato, Zizi Possi e Nara Leo, entre outros. Sua msica "Raios de luz", com Cristvo Bastos, foi gravada por Barbra Streisand, e "Festa do interior", parceria
com Moraes Moreira, alm da interpretao luxuosa de Gal Costa, teve mais de 20 gravaes no exterior.



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A estria de Antnio Ccero como compositor foi em 1979, no disco inicial da irm, a cantora e compositora Marina Lima. Dessa parceria resultaram sucessos como "Fullgs"
e "Pra comear", especialmente a primeira at hoje lembrada.

Com parcerias com Baden Pawell ("Lapinha" e "Sermo", entre outras), Francis Hime ("A grande ausente" e "Anunciao") e Joo de Aquino ("Sagarana"), o poeta e letrista
Paulo Cesar Pinheiro, lanado nos festivais, tem em seu acervo mais de 1.300 letras escritas das quais gravou mais de duzentas com os maiores artistas do Brasil.
Pinheiro, ao lado de Geraldinho Carneiro, foi um dos letristas da Sinfonia do Rio de Janeiro de So Sebastio, monumental pea sinfnica escrita por Francis Hime
e lanada em CD e DVD pelo selo Biscoito Fino em 2002.

A riqueza deste perodo  ainda comprovada por uma pliade de estrelas que surgiu na MPB, dotadas de talento todo especial, por seu estilo e atributos musicais peculiares,
alguns raros - como Tim Maia e Elis Regina - e que alcanaram imensa popularidade. E fica bem a propsito comear a enumer-los pelo mais antigo deles, o originalssimo
MenestrelMaldito, Juca Chaves (RJ, 1938 - ) que, contrastando com toda a irreverncia, teve slida formao musical, j que estudou com grandes nomes da msica erudita.
O Juquinha iniciou sua carreira profissional em 1955, apresentando-se na TV Tupi, em So Paulo. Mas s alguns anos depois gravaria seu primeiro LP, As duas faces
de Juca Chaves, com destaque para suas canes "Por quem sonha Ana Maria?", "Nasal sensual", uma aluso ao seu prprio nariz, uma de suas marcas registradas, e "Presidente
bossa nova", que lhe gerou problemas com a censura por caricaturar o presidente Juscelino Kubitschek. Tambm foi vtima de censura a composio satrica "O Brasil
j vai  guerra", que se referia  aquisio de um porta-avies pelo governo brasileiro. Em 1963, aps gravar "Dona Maria Teresa" (referncia  esposa do Presidente
Joo Goulart), seguiu para a Europa, em busca de maior



liberdade de expresso, indo morar em Portugal, onde tambm teve problemas com a ditadura salazarista. Em seguida, fixou residncia em Roma e em 1967 obteve sucesso
com sua composio "L com l, cr com cr". Quando retornou ao pas, viveu episdios que sempre deliciaram o pblico, como quando foi novamente vtima da censura,
desta vez pela cano "Rimas sdicas", proibida pelo uso do termo teso.

Dessas "Atraes  parte" deixei para o quase fim a Abelha Rainha, um cone da MPB desde 1965. Maria Bethnia Viana Telles Veloso (BA, 1946 - ) iniciou sua carreira
musical nas comemoraes da inaugurao do Teatro Vila Velha de Salvador, em 1964, nos shows Ns por exemplo e Nova bossa velha, velha bossa nova, ao lado de Caetano,
Gil, Tom Z e outros. Seu primeiro show solo foi Mora na filosofia, quando conheceu Nara Leo, que a chamou no ano seguinte, para substitu-la no musical Opinio,
apresentado no Teatro Opinio (RJ), com direo musical de Dori Caymmi e direo geral de Augusto Boal. Estreou no dia 13 de fevereiro, dividindo o palco com Z
Kti e Joo do Vale. Foi tiro e queda. De imediato destacouse no cenrio artstico por sua marcante interpretao de "Carcar", passando a figurar entre as mais
gratas revelaes da poca.

Logo lanava seu primeiro LP, Maria Bethnia e no mesmo ano (1965) Maria Bethnia canta Noel Rosa. Com vrias participaes nos espetculos do Opinio, foi firmando
aos poucos uma forte caracterstica pessoal, avessa a rtulos, o que a levou a manter certa distncia do movimento tropicalista e consolidar o perfil de cantora
de boleros e canes romnticas, que vieram se somar a toda a sua dramaticidade teatral no palco. Os shows, alis, pontuaram a sua carreira, trabalhando em parcerias
com grandes nomes da msica e da direo cnica, como Fauzi Arap. Em 1975, apresentou-se pela primeira vez ao lado de Chico Buarque, num show idealizado por Caetano
Veloso, Rui Guerra e Oswaldo Loureiro, cujos melhores momentos foram reunidos no LP Chico Buarque e Maria Bethnia gravado ao vivo no Caneco. Com Gal,

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'A'


_Maria Bethnia e Joo do Vale, em 1965-

Arquivo Cedoc /

FUNARTE


Gil e Caetano, brilhou nas apresentaes de Os Doces Brbaros e, j em 1977, quando recebeu seu segundo disco de ouro, era considerada uma das intrpretes de melhor
vendagem da MPB - o LP Alibi (1978) teve mais de um milho de cpias vendidas. Bethnia tambm foi intrprete da fase romntica de Gonzaguinha, como por exemplo
em "Grito de alerta", mas tambm e especialmente de Chico Buarque, para no falar de Caetano e Gil, alm de ter feito releitura surpreendente de Roberto Carlos em
todo um CD ao final dos anos 1990.




Jorge Ben, hoje Jorge Benjor (RJ, 1942 - ), iniciou carreira artstica em 1961, como pandeirista, ao lado do Copa Trio, grupo liderado pelo organista Z Maria que
se apresentava na casa noturna Little Club, do Beco das Garrafas (RJ). J nessa poca, alcanou sucesso surpreendente (porque muito original e cheio de frescor)
em composies como "Mas que nada" e "Por causa de voc, menina" - que seriam relanadas algumas vezes em sua carreira, sempre com arranjos e ritmos atualizados.
Jorge Benjor, que at mudou de nome,  um muitas vezes renascido. Quando menos se espera, l est



ele fazendo sucesso de novo com sua ginga peculiarssima, novas composies, mas tambm as msicas de sempre, que o pblico no se cansa de escutar. Seu estilo nico
lhe permitiu participar de programas antagnicos como O fino da bossa e Jovem guarda. Nessa poca foi gravado nos EUA por Srgio Mendes, chegando s paradas de sucesso
norte-americanas.

Em 1969, l estava ele, deliciando a platia do IV Festival Internacional da Cano, (Rede Globo), interpretando seu extico "Charles, anjo 45", includa no LP Jorge
Ben, que trazia ainda sucessos como "Crioula", "Cad Teresa" e "Pas tropical", msicas que o projetaram outra vez para o auge da popularidade em plena dcada de
1970. Dele, ainda so "Eu tambm quero mocot", interpretada pelo maestro Erlon Chaves, a Banda Veneno e o Trio Mocot no V FIC, "Que maravilha", parceria com Toquinho,
"Fio Maravilha", vencedora do VII FIC, defendida por Maria Alcina, 'O circo chegou", "Taj Mahal", e mais uma infinidade de composies que na sua interpretao ajudaram
a despertar toda uma tradio danante de nossas msicas - msicas para animar a festa - , algo que lhe garantiu mais um pico em sua carreira, nos anos recentes,
com interpretaes como as de Fernanda Abreu, Daniela Mercury e Ana Carolina.



O vozeiro de Tim Maia (RJ, 1942 - RJ, 1998) comeou a ressoar no conjunto Os Sputiniks, juntamente com Erasmo e Roberto Carlos. Saindo do grupo, foi estudar nos
EUA, onde morou por quatro anos. J de volta ao Brasil, destacou-se no cenrio artstico com a gravao de "These are the songs", lanada em compacto simples e em
1970 foi convidado para gravar, em dueto com Elis Regina, essa mesma composio, no LP Em pleno vero. Logo obteria sucesso com seu primeiro LP, Tim Maia, com destaque
para a composio "Azul da cor do mar", alm de "Coron Antonio Bento" (Luis Wanderley e Joo do Vale) e "Primavera" (Cassiano). O disco esteve durante 24 semanas
nas paradas de sucesso cariocas


_Rica" d o   C r a v o Ahin

Tim Maia, sld. Z: Maria / Folha Imagem

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e marcou seu estilo, algo calcado no soul negro norte-americano. Nos anos 1980 e 1990, Tim seria outro revivido na fase danante da MPB, quando teve vrias msicas
regravadas por artistas mais jovens, como Marisa Monte e os grupos Paralamas do Sucesso e Skank. Em maro de 1998, apresentando-se no Teatro Municipal de Niteri,
em show que seria gravado para um especial de televiso, foi acometido de um mal-estar que o levou ao hospital, vindo a falecer alguns dias depois.

Entre essas estrelas  parte da MPB dos anos 1970, cabe ainda destacar trs nomes que, vindos do Nordeste, logo conquistaram os grandes centros. Compositor muito
requisitado por Elis Regina, o cearense Belchior ("Mucuripe" - com Fagner, "Paralelas", "Sou apenas um rapaz latino-americano" e "Como nossos pais", entre outras)
surgiu ao vencer o IV Festival Universitrio da MPB com

"Na hora do almoo", uma contundente crtica de costumes, bem na atmosfera da poca, e que logo se tornou sucesso. Fagner, outro cearense, chegou ao Rio de Janeiro
em 1971, e j dois anos depois, com o primeiro LP, Fru-fru manera, sua voz vibrante e emocionada, conquistava o pblico. Raimundo Fagner, alis,  o centro de um
grupo do Cear que veio ao Rio e fez bonito, a partir dos anos 1970 - Fausto Nilo, o j mencionado Belchior, Ednardo e Cirino foram legtimas jias cearenses.

Das Alagoas, chega um artista que j surgiu cosmopolita: Djavan, cantor de belssima voz, que soma a seu talento a sensibilidade musical e a potica, sempre tocantes,
expressadas em suas composies.



Djavan explora um repertrio refinado, intimista (e por isso no marcadamente regionalista) - que, alis, vem lhe valendo slida carreira internacional.

Ainda nessa levada nordestina, aparecem para o sucesso no eixo Rio-Sao Paulo a cantora Elba Ramalho - lanada ao estrelato na montagem da Opera do malandro (1979),
de Chico Buarque, com sua provocante interpretao de "Meu amor", ao lado de Marieta Severo -, seu primo, o compositor Z Ramalho, que carrega na interpretao e
no clima de suas msicas todo o teor messinico do imaginrio nordestino. Citem-se ainda Moraes Moreira, egresso dos Novos Baianos, autor de eletrizantes frevos-baianos,
como "Pombo Correio", alm de Alceu Valena, parceiro de Geraldo Azevedo, que se firmou junto ao pblico ao participar como narrador-repentistacego do filme A hora
do espantalho, de Srgio Ricardo. Alceu trouxe para os centros do Sudeste toda a sensualidade de Pernambuco, traduzida em poderosos sabores rtmicos e imagens poticas,
alm de toda uma contextualizao provocadoramente pop.

Na mesma safra da dcada de 1970, descoberta pelo produtor Roberto Santana (do Quinteto Violado) em Belm do Par, surge a exuberante Faf de Belm, aos 19 anos
j estrela, com msica na parada de sucessos - "Filho da Bahia" (do baiano Walter Queiroz), da trilha da novela Gabriela, (1975). Ao longo de sua carreira, os LPs
de Faf sempre revelam gente nova, quando no recuperam relquias do cancioneiro (como  o caso de "Tambaj", do tambm paraense Waldemar Henrique).

Ainda aparecem nos 1970, as cantoras Simone e Zizi Possi, que desabrochariam na dcada seguinte como estrelas de primeira grandeza, assim como a atriz Zez Mota,
revelada como cantora no musical Hair (e estrela do filme Chica da Silva, de Cac Diegues), e o grande intrprete Emlio Santiago (ex-crooner e detentor de uma das
vozes mais aveludadas e afinadas da msica contempornea). Temos ainda o cantor e compositor Dalto, que despontaria nestes anos, e mais



_Elis Regina, em maio de 1967.


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tarde se consagraria com sucessos como "Cuida bem de mim" (com Cludio Rabelo) e "Leo ferido" (com Biafra), Ftima Guedes (compositora e cantora de aparies fugazes)
e ainda, o Boca Livre, um dos mais vigorosos conjuntos vocais brasileiros, lormado em 1978 com Maurcio Maestro, Z Renato, Cludio Nucci e David Tygel. Nesse mesmo
tempo frtil em talentos individualizados surge Ney Matogrosso, cuja seduo fez dele um acontecimento at ento indito na MPB. Ney comeou com o conjunto Secos
e Molhados, uma banda ousada tanto pelo visual (andrgino/sarcstico), quanto pelo tom coreogrfico de suas performances. Mas, mesmo num grupo to essencialmente
criativo, Ney j se destacava, concentrando as atenes. Era a estrela maior - o conjunto gravou um nico LP, mas Ney seguiu em frente, com sua presena no palco,
roupas e maquiagem de originalidade sensual e extica, e ao mesmo tempo perturbadora, aliadas a uma voz cortante e de surpreendente extenso.




No so poucos os que afirmam que Elis Regina (RS, 1945 - SP, 1982) foi a maior cantora do cenrio mais recente de nossa msica - e h quem diga a maior cantora
brasileira de todos os tempos. Os ouvidos mais afinados juram que Elis nunca repetia exatamente uma mesma interpretao, deixando sua voz privilegiada solta para
improvisaes.

Com bela carreira em Porto Alegre, venceu (em 1965) o I Festival de Msica Popular Brasileira, realizado pela TV Excelsior, com a msica "Arrasto", de Edu Lobo
e Vincius de Moraes, recebendo o prmio Berimbau de Ouro. Sua gesticulao enquanto cantava movimentos coreogrficos de braos ensaiados pelo bailarino americano
Lennie Dale - ficou to marcada que a partir da recebeu o apelido de Pimentinha (ou de Hlice Regina). Foi assim, para benefcio da nao musical brasileira, que
o pas inteiro ficou conhecendo, e j adorando, Elis Regina.

Em 1964, na TV Record, comandou o programa semanal O fino da bossa, dirigido por Manoel Carlos, Raul Duarte, Tuta Ma-


...



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chado de Carvalho e Nilton Travesso, no qual recebia como convidado mais constante Jair Rodrigues, mas tambm outros nomes da msica brasileira, lanando novos artistas
e muitos sucessos. Em 1968, estrearia no Olympia de Paris, acompanhada pelo Bossa Jazz Trio, com enorme repercusso - apenas o primeiro entre os diversos xitos
de sua carreira internacional.

Elis nunca se furtou a uma presena militante no cenrio cultural do pas, tendo participado de passeatas em defesa da preservao das razes da MPB contra a invaso
estrangeira. E tambm no se esquivou de polmicas, como ao dar sua opinio sobre o tropicalismo: "Eu s digo uma coisa: vai bem quem faz coisa sria. Quem quer
fazer galhofa, piada com o pblico, que se cuide. Tropiclia  um movimento profissional e promocional, principalmente. De artstico mesmo no tem nada, nada, nada".
No entanto, Caetano no ficaria magoado com a grande intrprete, como demonstraria um episdio de 1973. Durante um show, em que cantava acompanhada no teclado por
Csar Camargo Mariano - que enormemente contribuiu para a consistncia meldica dos shows e discos de Elis - Caetano, que estava sentado em meio ao pblico, levantou-se
indignado diante da recepo fria da platia e gritou: "Respeitem a maior cantora desta terra".

Elis era de fato uma cantora adorada pelo pblico, e reverenciada pelos seus colegas de profisso. Sua popularidade pode ser medida,  claro, pela discografia impecvel,
mas tambm pelo sucesso em shows - em 1975, no Teatro Bandeirantes, SP, estreou um espetculo com estrondoso sucesso de 14 meses mantendo uma mdia de mil e quinhentas
pessoas por dia.

Elis faleceu repentinamente em de janeiro de 1982, em So Paulo, por intoxicao exgena aguda. Seu corpo foi levado para o Teatro Bandeirantes, onde foi velado
at o dia seguinte. Estava vestida com a camiseta que no pde ser usada no show Saudade do Brasil, dois anos antes: a bandeira brasileira, com seu nome no lugar
de "Ordem e Progresso". O Teatro Bandeirantes ficou cheio durante a



noite e a madrugada. No dia 20 de janeiro, o Departamento de Trnsito de So Paulo montou um esquema especial para o cortejo do Teatro Bandeirantes ao cemitrio
do Morumbi. A p, de carro ou moto, milhares de pessoas acompanharam o carro do Corpo de Bombeiros que transportava o caixo.




A era dos festivais

Observando-se a biografia dos artistas que alcanaram maior destaque na dcada de 1970, percebe-se de imediato a importncia que tiveram os festivais da cano,
em suas inmeras modalidades, tanto para lanar nomes e apresentar gneros, como para mostrar ao Brasil a enorme diversidade que havia alcanado nossa MPB. Poucos
pases num cenrio mundial to submetido  massificao poderiam ostentar tamanha pluralidade de fontes, releituras, gneros, sem contar estilos e talentos individuais.

Os festivais, por exemplo, ratificaram o que o mundo musical das ruas j sabia - o samba estava retornando  linha de frente da Msica Brasileira, como demonstrou
o sucesso de Sidnei Miller, que conquistou o 4o lugar no III Festival de Msica Popular Brasileira da Record com "Queixa", em parceria com Z Kti e Paulo Tiago,
interpretada por Cyro Monteiro. A par dessa nossa linha mais tradicional, muitas novidades foram registradas, algumas, digamos, atordoantes, como foi o caso de "Cabea",
de Walter Franco, apresentada em 1972 no VII FIC da Globo. Outras, como j se viu, viraram hinos, outras s foram desvendadas depois ("Sabi", de Chico e Tom, que
ganhou o III FIC debaixo de vaia do pblico que queria a vitria de "Pra no dizer que no falei de flores"). Outras, ainda, como a revelao de Milton Nascimento
para o grande pblico nacional, no deixavam dvidas de que estvamos assistindo a um momento histrico e imortal da nossa msica.



_Edu Lobo e Marilia Medalha apresentando Marta Sare. So Paulo, novembro de 1968. U. H. / Folha Imagem

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Por tudo isso, os festivais foram um grande sucesso de pblico. Platias imensas, apinhadas como arquibancadas de jogos de futebol, transmisso pela TV ao vivo -
num perodo em que as emissoras comearam e a seguir consolidaram a atuao em rede nacional, o que significava repercusso simultnea em quase todo o Brasil, algo
absolutamente indito para a nossa mdia mas tambm para nossa msica -, com piques de ndices de audincia, torcidas febris como s se viram na Era do Rdio, comentrios
irrequietos nas ruas e nos botecos de todo o pas... Com os festivais da cano, a MPB consagrouse de vez como um elemento profundo e apaixonante de nossa identidade
cultural. Tnhamos, sim, a nossa msica, e ficou o Brasil certo ento que nenhuma massificao estrangeira iria substitu-la. Como uma necessidade afetiva de nosso
cotidiano e de nosso esprito.

J o primeiro dos festivais - o I Festival da Msica Popular Brasileira promovido pela TV Excelsior, So Paulo -, com a vitria de "Arrasto" s iria revelar o excepcional
compositor Edu Lobo e sua poderosa intrprete Elis Regina. Mas quantos outros nomes alcanariam projeo nacional nesses eventos?

M



Revelou-se, por exemplo, Taiguara, vencedor do festival Brasil Canta, interpretando "Modinha", de Srgio Bittencourt, enquanto no I Festival Universitrio de Msica
Popular Brasileira aparecia (para depois sumir) Alberto Land com a hiper-romntica "Helena, Helena, Helena". Compositor de grandes sucessos como "Hoje" e "Universo
do teu corpo", Taiguara foi bastante perseguido pela censura, a ponto de, nos dois primeiros anos da dcada de 1970, ter tido onze msicas proibidas. Por isso, o
disco Imyra, Tayra, Ipy, Taiguara, de 1975, que teve participao especial de Hermeto Pascoal e Wagner Tiso, apresenta uma curiosidade: para escapar da tesoura,
foi Ge Chalar da Silva, ento sua esposa, quem assinou as letras das msicas. Taiguara morreu prematuramente em 1996, aos 51 anos.

Dori Caymmi - filho de pai ilustre, Dorival Caymmi - venceu a edio nacional do I FIC da TV-Rio (tirando segundo lugar na edio internacional) com sua composio
"Saveiros", ao lado do letrista e jornalista de sucesso Nelson Motta (parceiro tambm em "O cantador", no III Festival de MPB da TV Record), msica interpretada
por sua irm Nana Caymmi. Foi tambm ali, alis, que Nana tambm se lanou publicamente. A apresentao de "Saveiros", embaixo de vaias no Maracanzinho, batizou
injustamente Nana, poderosa cantora, to querida na vida artstica, grande intrprete que  do melhor do nosso cancioneiro romntico. Dori logo ganharia o mundo,
acumulando no currculo turns expressivas como violonista, quando acompanhou grandes nomes internacionais, alm de ser tambm arranjador e compositor, j tendo
recebido inclusive indicao para o cobiado prmio Grammy.

Em 2000, Nelson Motta lanaria suas memrias musicais: Noites tropicais. Ningum melhor que ele, h muito acompanhando de perto e participando ativamente dos momentos
decisivos de nossa msica, a partir de meados da dcada de 1960, para deix-los registrados em livro. Alm de sua presena constante em festivais,  im-

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portante ressaltar o programa dirio que comandou na dcada de 1960, por muito tempo, j como crtico, na Rede Globo - Papo firme, que no apenas foi uma referncia
para o meio artstico como tambm conquistou enorme audincia.

O conjunto vocal MPB-4 tinha como formao Rui, Aquiles, Milton e Magro. Como constante e popularssimo intrprete de Chico Buarque, o MPB-4 teve participao marcante
em diversos festivais, alcanando consagrao definitiva com as interpretaes de "Gabriela" (de Maranho) e "Roda viva" (Chico Buarque), no II FIC da TV Globo.
Sempre fiis a um repertrio de msica brasileira, e fazendo grande sucesso em shows e turns, somaram mais de 30 LPs gravados, divulgados em vrios continentes.
Com igual aceitao junto ao pblico, tivemos nessa poca o privilgio de assistir  ascenso do Quarteto em Cy - as irms Cyva, Cybele, Cynara e Cylene. Com carreira
que vinha dos anos I960, acompanhando Vincius (que as descobriu na Bahia) e Dorival Caymmi em shows de boates no Rio de Janeiro, marcantes foram as apresentaes
das quatro ou at mesmo de um duo (Cynara e Cybele), ora defendendo "Carolina" (de Chico Buarque, que por essa composio chegou a ser acusado de compositor alienado)
no II FIC da TV Globo, ora cantando "Sabi", de Chico e Tom - a msica que, de to linda, meldica e poeticamente, contrastava com a explicitude e contundncia panfletria
das canes de protesto a que as platias estavam acostumadas naqueles ruidosos e necessariamente panfletrios (ou quase) festivais.

Registre-se ainda o popularssimo Jair Rodrigues, alm do fenmeno Wilson Simonal, que espantou a todos (e a ele mesmo) ao dirigir feito um maestro as arquibancadas
do Maracanzinho, transformando-as em coro e coreografia para sua apresentao. Em conseqncia desse episdio, Simonal tornou-se o cantor mais em evidncia da MPB,
criador do estilo que ficou conhecido como pilantragem.





Aparece tambm Toquinho, parceiro de Jorge Benjor, Vincius e de Chico Buarque, entre outros, e que estreou nos palcos dos festivais no III FIC com a cano "Boca
da noite" (com Paulo Vanzolini), defendida por Ivete e o conjunto vocal Canto 4 e classificada em 8 lugar na fase nacional do evento. Logo Toquinho estaria iniciando
sua carreira internacional, ao lado de Chico Buarque, em uma temporada de 45 shows por toda a Itlia, realizando a abertura de um espetculo que tinha como estrela
principal a famosa Josephine Backer. A seguir, Vincius de Moraes o convidaria para acompanhar a cantora Maria Creuza, numa srie de shows na boate La Fusa, em Buenos
Aires. Desse encontro surgiu a dupla Vincius & Toquinho, que produziu canes como "Regra-trs", "Tarde em Itapo" e "Carta ao Tom 74", entre tantas outras. A parceria
de ambos conta com cerca de 120 composies, 25 LPs gravados no Brasil e no exterior, e mais de 1.000 shows pelo Brasil, Europa e pases latino-americanos, no decorrer
de 11 anos. Toquinho realizou temporadas em vrios pases do mundo, turns e participaes ao lado de artistas internacionais renomados e ganhou prmios que nenhum
outro personagem da msica brasileira havia amealhado at ento, como o disco de ouro pelo LP Acquarello, lanado em San Remo.

O j citado MAU era um movimento do qual participavam Aldir Blanc, Csar Costa Filho, Paulo Emlio, Slvio da Silva Jnior, Sidney Mattos, Lucinha Lins, Ronaldo
Monteiro de Sousa, Ivan Lins, Gonzaguinha e Joo Bosco.

Foram eles herdeiros diretos da gerao universitria do final dos anos 1960 (muitos dos quais sacrificados na luta armada contra a ditadura), da priso em massa
dos estudantes presentes ao encontro da UNE em Ibina, da passeata dos 100 mil em protesto contra a morte do estudante Edson Lus (assassinado pela polcia numa
invaso ao restaurante estudantil Calabouo), da amplitude que ia ganhando o grito Abaixo a Ditadura!, ainda que posto fora da lei.

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Tambm herdeiros das cassaes, dos expurgos de professores da vida acadmica, e de outros profissionais, das perseguies, dos tantos torturados e mortos pela represso
e dos exilados polticos - em suma do pas ps-AI-5, que por sua vez era um Brasil ps-64 -, os meninos do Mau estavam unidos pela msica, pelas crticas ao mercado
fonogrfico e pelo repdio pblico aos anos de chumbo.

Ivan Lins obteve o 2" lugar no V FIC-Rio com "O amor  meu pas". Logo depois seu "Madalena", na voz de Elis Regina, estouraria nas paradas. De imediato, Ivan seria
convidado a comandar o programa Som Livre Exportao, da Rede Globo e j ao final dos anos 1970, comea uma nova fase com o letrista Vitor Martins. A partir da
inicia carreira internacional, a tal ponto bem-sucedida que seu nome integrou uma lista (elaborada por crticos norte-americanos) dos compositores mais interessantes
do sculo - o outro brasileiro includo,  claro, foi Tom Jobim.

O MAU no chegou a lanar Gonzaguinha porque seu ilustre pai j lhe gravara as duas msicas iniciais ("Festa" e "U.S. of Piau", em 1967). Mas projetou-o, com a
vitria no II Festival Universitrio ("O trem", 1969). Curiosa  a grande virada de sua carreira, quando deixaria de ser o compositor e cantor enfezado - esta era
sua imagem mas com um pblico fiel, que lhe admirava a coragem e at a integridade, para se transformar em um outro ser existencial e musical, compondo louvaes
romnticas como "Explode corao" e "Grito de alerta", entre outras, at deixar fluir em comovedor estado de pureza a sua alegria em: E a vida! E bonita! E bonita!
(refro do samba "O que  o que "). Seu sucesso nessa fase foi ainda maior, mas brutalmente interrompido pelo desastre de automvel em 1990.

J Joo Bosco chegou ao sucesso atravs de parcerias com Aldir Blanc, interpretadas por Elis, que lanou "O mestre sala dos mares", "Dois pr l, dois pr c" e
"Caa  raposa", alm de "Bala com Bala..." sem deixar de se citar a antolgica obra-prima "O bbado e a equilibrista", feita no alvorecer da anistia poltica, em
1978. Alm



_Janeiro, 1977. Arquivo Cedoc /

funarte

de uma prestigiosa carreira internacional, so significativas tambm   Joo Bosco no Teatro suas parcerias com os poetas Waly Salomo e Antonio Ccero, j nos
Dulcina, Rio de anos 1990, arriscando ritmos e melodias bastante ousadas. Joo Bosco, dono de um estilo de cantar muito pessoal,  reconhecido como um dos mais importantes
autores e intrpretes da MPB.

J foi mencionado aqui Edu Lobo, estruturador de toda uma corrente voltada para a pesquisa e atualizao da msica extrada do folclore nordestino, e o seu histrico
"Arrasto", campeo do primeiro de todos os festivais e defendido por Elis, ento com 20 anos de idade. Tido e havido como cantor da moda nos anos 1960, Edu lanaria
"Upa neguinho", "Canto triste", "Zumbi", "Ponteio", "Marta Sar" e muitas outras. Edu tambm ganharia palcos internacionais, atrairia para si parceiros como Vincius
de Moraes e Chico Buarque, alm de influenciar fortemente as tendncias musicais em curso, escrevendo partituras para peas teatrais e filmes.

Com inmeras participaes em festivais, aparece ainda (a partir de 1963) Francis Hime, outro msico refinado, alm de composi-

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tor c arranjador. Francis desenvolveu importantes trabalhos com estrelas da arte brasileira, como (com Dori Caymmi) a direo musical de Dura lex sed lex, no cabelo
s gumex, de Oduvaldo Vianna Filho, e fez memorveis shows com Vincius de Moraes, Vanda S, Milton Nascimento, Joyce e Marcos Vale (autor de "Viola enluarada",
"Mustang cor de sangue", em parceria com seu irmo Paulo Srgio), alm da trilha sonora de Dona Flor e seus dois maridos, de Bruno Barreto, em parceria com Chico
Buarque, com quem comps ainda "Atrs da porta" e "Trocando em midos".

E chegamos a uma das maiores revelaes de toda a era dos festivais, o mineirssimo de Trs Pontas, mas carioca de bero, Milton Nascimento, que encantou o pas
inteiro e deixou alvoroada a crtica musical, em 1967, no II Festival Internacional da Cano Popular, ao classificar trs msicas: "Travessia" (com Fernando Brandt
- uma das mais belas msicas de nosso cancioneiro - "Morro velho" e "Maria minha f". As trs peas de Milton - ainda na fase de seleo - foram alvo do entusiasmo
consagrador de um dos jurados da comisso prvia, o hoje internacionalmente conhecido maestro Eumir Deodato.

As composies de Milton tinham um insuspeito sopro renovador e caracterizavam o vis rural do compositor, que recriou a toada mineira, conferindo-lhe a modernidade
harmnica da msica contempornea brasileira. Milton seria a verso musical, pode-se dizer, daquilo que em literatura foi proposto por Guimares Rosa. No entanto,
sua obra continha tambm a mistura de aromas, quebramos, a sacralidade do barroco mineiro misturada  do afro. E mais tanta coisa, numa sntese impossvel de se
decifrar. Sabemos, sentimos, que est tudo l ao ouvir seus solos vocais, ao sermos possudos pela dolorosa beleza daquela voz que parece ondular na linha das montanhas
de Minas ou das ladeiras de suas cidades histricas. Intuem-se igualmente suas surpreendentes reviravoltas mel-



dicas, dentro da mesma composio, e suas letras, de uma poesia singela, mas enfeitiada - como um milenar ch de ervas de curandeiro do interior.

Artista que acreditava ter de ir aonde o povo est, Milton teve suas origens afetivo-musicais no Clube da Esquina - Wagner Tiso, Fernando Brandt, Beto Guedes, L
Borges, Toninho Horta e Tlio Mouro, entre outros. O nome do grupo veio do hbito desses compositores mineiros (com exceo, ironicamente, de Milton que nasceu
no Rio de Janeiro, sendo criado em Trs Pontas a partir do um ano e meio de idade) se reunirem na esquina das ruas Paraispolis e Divinpolis, no bairro de Santa
Tereza em Belo Horizonte, para trocar idias musicais.

Milton comeou atuando como crooner, em um conjunto de baile, do qual participava tambm Wagner Tiso. Em 1963, mudou-se para Belo Horizonte a fim de prestar vestibular
para a Faculdade de Economia. L conheceu Fernando Brant e os irmos Marlton, Mrcio e L Borges. Em 1966, participou como cantor do Festival Nacional de Msica
Popular da TV Excelsior (SP), classificando em 4" lugar a cano "Cidade vazia" (Baden Powell e Lula Freire). Ainda nesse ano, sua composio, "Cano do sal", foi
gravada por Elis Regina. Nessa poca, tornou-se amigo de Agostinho dos Santos, que inscreveu no ano seguinte aquelas suas trs msicas no II Festival Internacional
da Cano. "Travessia" ficou em segundo lugar e Milton ganhou o prmio de Melhor Intrprete daquela edio do FIC, como reconhecimento nacional imediato do seu sucesso
pblico.

A carreira de Milton, bem como o impacto na MPB de cada um dos lanamentos de seus discos, mereceriam livro  parte. No plano internacional gravou nos Estados Unidos
o LP Milton (1976), contendo verses em ingls de composies de sua autoria. O disco contou com a participao de Airto Moreira, Herbie Hancock e Wayne Shorter,
entre outros. No repertrio, "Nothing will be as it was" ("Nada ser como antes" - com Ronaldo Bastos, verso de

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_Wilman / Folha

Imagem

_11 BORGES, Mrcio. Os st nhos no envelhecem. So Paulo: Gerao Editorial, 1996, p. 351.

Ren Vicent) e "Fairy tale song" ("Cad" - com Ruy Guerra, ver- Milton Nascimento. so de Matthew Moore), entre outras. Seria apenas o comeo de sua $o Paul> 1968.
carreira internacional, que teria como alguns destaques o show Amigo realizado em Nova York (1966), acompanhado pela Orquestra Filarmnica de Nova York e por um
coro de 30 meninos, a participao no Festival de Montreux (Sua) e no Festival de Tbingen (Alemanha), alm da apresentao do mesmo show no The Royal Albert Hall,
Londres, acompanhado pela Royal Philharmonic Concert Orchestra. Sobre Milton pode-se dizer, o que sempre ser pouco, que sua arte permaneceu acima das tendncias,
modismos e polmicas da MPB.

Acompanhando sumariamente a carreira de alguns desses artistas que vieram  luz junto com Milton Nascimento, registre-se o nome de Beto Guedes, que participou do
primeiro disco do grupo, Clube da Esquina, lanado em 1972, tocando baixo, viola de 12 cordas, guitarra, percusso e atuando no coro ao lado de Milton Nascimento
em algumas das faixas. Seu primeiro LP solo, A pgina do relmpago eltrico, foi lanado em 1977 e j no ano seguinte surgiria "Amor de ndio", um dos maiores sucessos
de sua carreira.

Outro que apareceu no mesmo contexto foi L Borges, autor em parceria com Mrcio Borges, Ronaldo Borges e Milton Nascimento de oito das 21 faixas do Clube da esquina.
Sua participao foi fundamental neste disco, ajudando a caracterizar a sonoridade do grupo, o que faria mais tarde o guitarrista americano Pat Metheny enviar um
amigo ao Brasil "para tentar descobrir a causa da originalidade da msica feita por The Corner Club, a qual eles ouviam nos Estados Unidos desde meninos" 11 - explica-se
portanto perfeitamente por que, na contracapa do disco, seu nome aparece em destaque ao lado do de Milton Nascimento. Ao longo da carreira de L, alm dos lanamentos
prprios, diversos intrpretes lhe gravaram as canes como Milton Nascimento, Nana Caymmi, Gal Costa, e Elis Regina ("O trem azul", com Ronaldo Bastos), ttulo

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_Wagner Tiso, 1979. Arquivo Cedoc /

funarte

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do ultimo show da cantora que gerou o lbum duplo homnimo, gravado ao vivo e lanado, em 1982. Em 2001, L Borges lanou o CD Feira moderna, contendo as canes
"Trem de doido" e "Um girassol da cor do seu cabelo", todas com Mrcio Borges, "Para Lennon & McCartney" (com Mrcio Borges e Fernando Brant), entre outras.

Wagner Tiso, compositor, instrumentista (pianista e tecladista), maestro, arranjador e diretor musical  um vigoroso autodidata que aperfeioou seus estudos com
Paulo Moura. Em 1968, participou como compositor do IV Festival da Msica Popular Brasileira (TV Record), com a cano "O viandante", interpretada por Taiguara.
Nessa poca, acompanhou vrios artistas como Ivon Curi, Maysa, Cauby Peixoto e Marcos Valle. Em 1970, fundou, juntamente com Robertinho Silva (bateria), Tavito (violo
de 12 cordas), Lus Alves (baixo), Laudir de Oliveira (percusso) e Z Rodrix (rgo, percusso, voz e flautas), o conjunto Som Imaginrio, com o qual atuou em shows
e gravaes ao lado de Milton Nascimento. Arranjador disputadssimo pelos intrpretes para shows e gravaes, e tambm para novelas e sries na tev, Wagner Tiso
participou da gravao dos LPs Flora Purim em Montreux, na Sua (1974), e Native dancer, de Wayne Shorter, em Los Angeles, tendo sido eleito pela crtica especializada
o melhor arranjador de 1974 e de 1975. Com trnsito fcil em vrios gneros e diferentes produes de poca, j gravou de Lamartine Babo a Villa-Lobos, e musicou
"O poema sujo" de Ferreira Gullar, alm de compor trilhas sonoras para vrios filmes, como Inocncia, Chico Rei e A ostra e o vento, todos de Walter Lima Jnior.
E so seus, em parceria com Milton, sucessos como "Cravo e canela", "Corao de estudante" e "Nave cigana", entre outros.



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_Chico Buarque do Brasil        "EmPalestrana 1 ^poesia,

PUC-RJ, 1973, organizada por Affonso Romano de

Finalmente chegamos ao nome mais emblemtico desse perodo - Sam'Anna. que o ultrapassou largamente, firmando-se como Paixo Nacional.  quase impossvel iniciar
e encerrar a histria desta fase to importante de nossa MPB sem que o seja com Chico Buarque de Hollanda (RJ, 1944 - ). E para isso h muitas razes tanto de ordem
musicais/estticas quanto histrico-culturais.

Uma das grandes inovaes trazidas pela obra de Chico Buarque foi a musicalidade de sua poesia. Letras que no apenas elevaram em muito a qualidade lrica de nosso
cancioneiro, mas lhe acrescentaram um encaixe raro  melodia - a ponto de Joo Cabral de Mello Neto, certa vez, ter dito que, depois de musicada por Chico Buarque,
sua obra mais conhecida, Morte e vida severina " hoje mais do Chico do que minha"12. Chico trouxe para a msica recursos poticos da mais fina arte do verso. Na
verdade, a maneira como a articulou com suas msicas fez com que o ouvido do pblico mais atento imediatamente se tornasse capaz de identificar uma "cano nova
do Chico". Claro que a, a par do talento peculiar, no apenas se valeu de sua slida formao literria, mas de um conhecimento da MPB que remonta, sem dvida,
a Noel Rosa, Ary Barroso, Orestes Barbosa, Ataulfo Alves, Ismael Silva, Cartola, Vinicius e tantos outros. Ou seja, Chico Buarque reafirmou, com uma poesia contempornea
e que convivia facilmente com as tendncias de vanguarda (tais como o concretismo cabralino), o vis popular do poema musical.

A excelncia lrica de Chico era to indita, ainda mais no cenrio dos anos I960 e 1970, que o pblico, e at mesmo a censura, como j se registrou, foram ludibriados,
a princpio. Chico, provavelmente at mesmo por ndole lrica, no se dedicaria ao verso propositalmente despido e rspido da cano de protesto costumeira, mas
criaria imagens militantes em que, por exemplo, o carnaval, a



340

V,

malandragem e at a sensualidade telrica, brotando da terra, do mar, sabe-se l de que entranhas, opunham-se (mesmo quando no a citava)  represso poltica e
 ditadura sobre o esprito. Enfim, ele cantou a alegria e a beleza, deixando para a ditadura a - inveno da tristeza - e do obscurantismo - e isso o regime (quando
finalmente conseguiu perceb-lo) no perdoou.

Ocorria que, se havia generais que no gostavam do Chico, as filhas dos generais e o pblico o amavam. Chico foi um emblema da resistncia, uma esperana confiante
e reafirmada no "Vai passar", que no s alentava quem lutava contra o regime como no deixava os que estavam instalados no poder se convencerem de que haviam triunfado
definitivamente. E, se com o fim da ditadura muitos tambm quiseram prever o fim da popularidade de Chico Buarque, cada vez mais prevaleceu sua verve esttica, ressaltou
o cronista atento, o compositor que se travestia em vrias almas expressas na cano. Como nunca, se sobressairia o homem encantado pela palavra e por seu idioma,
pelos muitos rostos, raas e manhas de seu povo. E pela nossa msica.

No que toca s melodias e  sua maneira de cantar, ele no esconde a influncia de Joo Gilberto. Chico, na verdade, cristalizou o encontro da Bossa Nova com os
velhos sambistas urbanos dos anos 1930, tal como os compositores dos morros foram alavancados por Lyra, Srgio Ricardo e Nara, e o folclore nordestino, por Baden
e Edu. No entanto, o mais significativo  o que revela o olhar que percorra a obra de Chico Buarque. Nela, encontramos a releitura e a atualizao de praticamente
a totalidade dos gneros e estilos que constituem nosso cancioneiro mais genuno. Sem se deixar subjugar pelo modismo, mas tambm sempre  frente, com luz prpria,
Chico recuperou e colocou de novo na boca do povo a modinha, nossa herana portuguesa, o chorinho, fundao de nosso cancioneiro, e a seresta, alm de enaltecer
o samba e a marchinha.



_Mangueira. Rio de Janeiro, RJ, maro de 1997.

Folha Imagem

Chico Buarque esteve sempre engajado nas melhores causas poChico Buarque pulares e democrticas, desde adolescente - e essa sua coragem   durante o desfile da
conquistou, dos que j se fascinavam por sua msica, tambm a admirao. No   toa que a Estao Primeira de Mangueira ganhou o Carnaval de 1998 com o samba-enredo
"Chico Buarque da Mangueira". A emoo e a consagrao das arquibancadas foram nada mais do que o retrato daquilo que Chico Buarque representa no apenas para a
msica, mas como patrimnio do povo brasileiro. As filas interminveis, quase plantes permanentes cercando o Caneco, Rio de Janeiro, na busca de ingressos para
o show do Chico que logo se seguiu ao campeonato da Mangueira foram mais uma demonstrao do quanto o pblico o adora, da intensidade do caso de amor entre Chico
Buarque e o pblico brasileiro.

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CAPTULO 8

As muitas musicalidades de um pas mestio

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Nas dcadas finais do sculo XX e ao que tudo indica tambm neste incio de novo milnio, a MPB vem se caracterizando pela sua diversificao. No h tendncia visvel
para a prevalncia de um movimento ou de uma determinada ramificao de nossa msica - e no se pode confundir tal fenmeno com os breves modismos caitituados mercadologicamente.
Portanto, marketings, parte, assistimos hoje aos desdobramentos dessa abertura  pluralidade de gneros, fontes, ritmos e talentos individuais que to bem marcaram
a passagem para a dcada de 1980, acompanhando tanto a descompresso de costumes, quanto a democratizao do pas. Ao modelo de pas que temos hoje, consideravelmente
integrado, internamente, entre suas regies, e conjugado ao mundo em vrios aspectos, corresponde uma musicalidade mltipla, com identidade, trajetria e tradies
prprias, consolidadas, embora jamais isolada em si mesma (do contato com os influxos internacionais).

H que se registrar aqui a consolidao da mdia eletrnica de vrias maneiras associada  indstria da msica. Afinal, diferente de outros grandes centros, a tev
concentra no Brasil, para a maioria da populao, as opes de entretenimento, cultura (e reproduo/avalizao cultural), informao e sabe-se mais o qu. Ningum
em domnio de sua conscincia seria capaz de prever o que resultaria de uma hipottica situao em que as transmisses de tev cessassem, de sbito, emudecendo-se
simultaneamente em todos os lares do pas. Se isso acontecesse no horrio nobre, ento,





nem  bom pensar. O que interessa  que estamos decididamente vivendo na e para a era da cultura de massa, em que h um caldo cultural mais abrangente, compartilhado.
Por diversas razes que extrapolam a questo musical, os fenmenos se universalizam com menos resistncias.

Hoje, observando o cenrio da MPB, gestado ao longo das ltimas dcadas, j  razoavelmente ntida a linha em que veio se desenvolvendo a histria de nossa MPB,
principalmente a partir dos anos 1960, produzindo uma crescente interlocuo entre as diversas regies brasileiras e seus segmentos culturais. Se at anos recentes
essa interlocuo tinha um palco privilegiado, ou seja, um plo atrativo, os grandes centros urbanos do Sudeste num caso, e a classe mdia no outro, tambm a nota-se
uma transformao. Os prprios ncleos de determinadas expresses musicais (como no caso da msica sertaneja e do ax) foram suficientes para projet-las, sem prejuzo
de um momento posterior, em que estas manifestaes alastraram-se para outros pblicos. E um fenmeno similar  o caso da cultura hip-hop (funk e rap), que transitou
no apenas geograficamente - nascendo e ganhando corpo nas, entre e para as periferias. Ou seja, sem necessitar buscar o aplauso das classes mdias e at por isso
mantendo uma integridade peculiar, prpria. O funk e o rap logo conquistaram amplo espao na classe mdia, o que demonstra um trnsito mais fcil e aberto entre
estratificaes sociais.

No que sejamos um pas sem desnveis regionais e excluses sociais. E claro que ainda estamos longe de sermos o Brasil que conhece a sua cara, ou melhor, que reconhece
o mosaico que sincretiza nossas faces, ou ainda que tenhamos o orgulho definitivo de conhecer, reconhecer (e talvez amar) nossa msica: somos, sim, um pas mestio
e a MPB se beneficia desta mestiagem miraculosamente. Entretanto, esses fenmenos, na msica, atuam pontualmente e devem ser observados.

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_A cantora Daniela Mercury durante show em trio eltrico na Barra. Salvador, BA, 1999.

Otvio Dias de Oliveira / Folha Imagem

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Claro que, no caso da cultura hip-hop, haveria um outro aspecto ligado  demanda de incluso social de setores tornados rfos pela ausncia do Estado e de polticas
pblicas, algo que passa pela construo de uma identidade social autnoma (assumir-se como excludo) demonstrada, entre outras maneiras, pela msica dos gigantescos
bailes rap-funk. Mas provavelmente chegaremos  concluso de que, em termos de arte ou pelo menos de msica, temos



uma permeabilidade maior do que em termos sociais e econmicos. As decorrncias disso para um projeto social mais amplo ficam, aqui, em aberto.

Entretanto, no campo estrito da msica, o que mais explicaria a presena de Sandy & Jnior, filhos de Xoror, da dupla Chitozinho & Xoror, na mais recente edio
do Rock'n'Rio? E a aceitao de Jorge Benjor entre sambistas, roqueiros e funkeiros, cada um reivindicando-o para si.

No que pesem um ou outro momento de maior evidncia, ocorre que temos hoje a coexistncia do rock, que explodiu nos anos 1980 e 1990, com o sertanejo, que teve alis
ascenso quase simultnea. E,  claro, com a lambada, de origem incerta, mas que como uma chispa conquistou o mundo, passando a seguir pelo ax de Daniela Mercury.
Finalmente, o fenmeno funk, o rap, expresses da cultura hip-hop das periferias urbanas - as quais, por sua origem popular, no deixariam de ser discriminadas e
estigmatizadas em nosso pas, mas que tambm conquistariam pblico jovem de classe mdia, o que fica comprovado com a popularidade da potica sincopada e perspicaz
de Gabriel O Pensador.

Sem falar nas estrelas individuais, houve ao finalzinho do sculo XX a multiplicao de talentos transitando tambm por diversas tribos e gneros. Antes, os artistas
tinham um gnero que os marcava, quase um rtulo; no mximo mudavam, inaugurando uma nova fase quando trocavam um estilo/gnero por outro. Hoje  raro um CD com
um repertrio puro-sangue, e isso no  por acaso.

O trnsito tambm funciona interligando diferentes eras da nossa msica. Hoje, e principalmente a partir da divulgao do melhor pagode de um Martinho da Vila, ou
do popularssimo Zeca Pagodinho, com sua voz seca e to genuna do samba, existe uma curiosa contrafao do samba carioca de raiz expressa em grupos como S pra
Contrariar, Catinguel, Raa Negra, S Preto sem Preconceito.

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_Jorge Benjor. So Paulo, 1993. Toni Pires / Folha Imagem

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O samba, o choro, a seresta, j no pertencem apenas aos subrbios, favelas e periferias, onde sempre foram tocados em volta da mesa do bar ou no fundo de quintal,
acompanhados de cachaa, cerveja, torresminho e caldinho de feijo. Os elementos da cena so exatamente os mesmos, mas uma outra ambientao a ampliou. E a as rodas
de pagode e de samba passaram a pertencer ao cotidiano afetivo tambm da classe mdia. Garotas e garotos dos bairros da Zona Sul do Rio correm para o cavaquinho
e o violo to avidamente quanto recuperam as grandes histrias da poca de ouro da MPB e seus protagonistas.  estranho que um adolescente combine na Praia de Ipanema
uma ida  noite a um botequim na Lapa onde um conjunto formado por amigos vai tocar Noel Rosa? To certamente quanto haver algo de novo, de inslito at, ao se ver
numa boate de moda da Zona Sul do Rio ou da Barra da Tijuca os jovens se juntarem aos pares para os remelexos do xaxado e do baio, depois do filme Eu, tu, eles
e das suas msicas, gravadas por Gilberto Gil no CD homnimo (que alcanaram sucesso, se no inteiramente surpreendente, pelo menos merecedor de maior reflexo).


Seriam tais episdios espantosos? Incomuns? No mais, hoje   Cadinhos Brown.

em ia.

E quais os mais destacados sucessos da recente MPB? A romntica Joanna, a tambm romntica ngela Ro-R com seu qu de fossa  Maysa. A contundncia solar de uma
Cssia Eller. As baladas que hoje descem as estradas do pas na voz de Zeca Baleiro, a sensualidade cosmopolita das interpretaes de Zlia Duncan, ou a nova sensao
Jorge Vercilo. A novidade instigante sempre renovada de um Lenine e a doura irretocvel de Leila Pinheiro e de Joyce. Ana Carolina, que alia a boa cantora a composies
suas que alcanaram grande sucesso popular ao comeo do ano 2000. O refinamento delicado, potico e meldico, de Adriana Calcanhoto, outra bela cronista da vida,
do amor e do cotidiano urbano, que com grande xito tanto recita Haroldo de Campos no palco quanto faz dupla com Erasmo Carlos em "Do fundo do meu corao". A tambm
refinada Marisa Monte, que conseguiu combinar a balada, quase modinha, "Amor I love You" (Carlinhos Brown e Marisa Monte) com a leitura do roqueiro (se  que o rtulo
no  pequeno para ele) Arnaldo Antunes de um texto de Ea de Queirs. E, mais peculiar ainda, a reunio dos trs, Marisa, Arnaldo e Carlinhos, no CD Tribalistas.
Ou todos, ao lado de uma Sueli Costa, de um Monarco da Portela, de um Nei Lopes e um Nelson Sargento, em seus shows to concorridos? E quem sabe eles e todas as
Velhas Guardas num espetculo com o embaladssimo Lulu Santos, o ltimo romntico (na verdade, um roqueiro que resgatou o romantismo para o rock).Ou ainda com a
ginga soul-danante de Ed Motta, que tanto lembra seu tio, Tim Maia, mas com uma modu-

_Salvador 1997. Evelson de Freitas / Folha Imagem

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_Escola de Samba Imperatriz Leopoldinense, do Grupo Especial. Rio de Janeiro (RJ), fevereiro de 2002.

Antonio Gaudlro / Folha [macem

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lao mais do que prpria, e marcadamente satrica? Ou Lus Melodia, com suas msicas em que o mesmo mundo que gerou o hip-hop  exibido como crtica poltica ao
sabor de uma releitura do samba mais investido de suas razes?

Todas essas figuras exponenciais surgidas e alavancadas nos anos 1980 e 1990 so fenmenos autnomos, mas nunca isolados, sem que isso nos faa perder a noo dos
grandes blocos a serem examinados.

Inicialmente, h que se sublinhar um fato histrico que considero relevante e que  a expanso dos festejos (ou festas) populares de grande porte, sejam as tradicionais,
sejam as novas. Umas e outras assumiram nesta dcada uma dimenso nunca vista. E elas se celebram e se constituem a partir da msica popular, ou seja, aquelas canes
que tm autores definidos (j que a msica folclrica se estriba na tradio do anonimato). As festas ou espetculos para grandes massas (dos bailes funk aos cronometrados
desfiles de Escola de Samba no Sambdromo, ou melhor, de Baco a Apoio) nascem nas franjas da sociedade e atingem vrios nveis, provocando uma solidariedade social
muito rara. E muito valiosa, portanto, para um pas de enormes contradies e diferenas sociais como o Brasil.

 nesse contexto que vemos a ascenso dos espetculos proporcionados pelas escolas de samba, que do Rio de Janeiro se irradiaram para vrios outros centros. As escolas
de samba do Grupo Especial do Rio comearam a fazer, especialmente a partir dos anos 1990, o espetculo mais arrebatador do mundo: seus cerca de 50.000 desfilantes
so aplaudidos por 80.000 pessoas em duas noites e vistos via tev, por dezenas de milhes no Brasil e em vrias partes do planeta.

Por quase quatro sculos, o carnaval carioca respirou apenas o entrudo portugus - algo rspido, tosco, onde a diverso de uns era um melao de gua com farinha
e tinta, tudo preparado dentro de



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uma bexiga de tripa de porco, e que, lanada, explodia na cara e na roupa dos outros. Somente na segunda metade do sculo XIX tomou ares europeus, no exclusivamente
lusitanos, de folguedo livre, sensualizado, em praa pblica.

At a terceira dcada do sculo XX, o Carnaval evoluiu sem a interveno do poder pblico - era uma festa de rua, no mais lmpido esprito de Momo, muita folia,
muita fantasia, confete, serpentina e fortuitos beijos na boca. No caso dos desfiles, com a falncia das tradicionais bases de sustentao econmica da festa, formadas
pela solidariedade de grupos, jornais patrocinadores e livros de ouro, o Carnaval passou a ser gerenciado pelo Poder Pblico de forma paternalista e poltica. O
que se visava era mostrar a eficincia da administrao oficial sobre a festa (desmando e truculncia que vm ano a ano deteriorando um outro grande evento do Rio
de Janeiro, o Ano Novo na Praia de Copacabana), e atrair turistas, que  uma outra maneira de apresentar servio. E conquistar eleitorado.

Todo esse gerenciamento oficial nunca trouxe de fato benefcios financeiros para a cidade nem para o Estado,  exceo do maior e quase nico lucro desse perodo:
a maior divulgao dos sambas-enredos, seja pelos discos gravados antes do carnaval pelas escolas, seja pelos grandes intrpretes que os registram desde o incio
da dcada de 1980. O carnaval carioca perdera, ao menos nas dcadas de I960, 1970 e 1980, a diversificao que o caracterizou desde o incio do sculo - carnaval
de rua, bailes nos clubes, desfiles de escolas e outras agremiaes -, reduzindo-se praticamente  seduo esmagadora do desfile principal das Escolas de Samba.
Positivo nesse fenmeno, , sem dvida, a crescente popularidade dos puxadores de samba das escolas, ou seus intrpretes, como preferem alguns, como o histrico
e monumental Jamelo, da Mangueira, famoso pelo seu mau humor, que na verdade disfara uma doce figura, muito querida. Alis, esse grato elenco de puxadores de samba
revela



intrpretes cada vez mais conhecidos como Neguinho da BeijaFlor, Dominguinhos do Estcio, Paulinho da Mocidade e outros.

Sintomtico, por exemplo, que as marchinhas e os sambas de carnavalno sejam mais produzidos.  s ver h quantas dcadas sucessos como "Mscara negra" ou "Bandeira
branca" no ocorrem mais nos dias de Momo... Ou que os blocos carnavalescos que vo ressurgindo s executem sucessos de carnaval compostos at os anos 1970, no mximo.
No deixa de ser, portanto, uma tradio, que vamos perdendo e que projetou tanta gente linda da MPB, msicas to relevantes. Enfim, boa parte da alma brasileira.

Seja como for, quem sabe se reverta essa perda agora que se avoluma a reao contra o estreitamento e o monolitismo do carnaval reduzido aos grandes desfiles. Daqueles
que querem e amam brincar o carnaval e que revivem em vrios bairros da cidade a tradio dos blocos e das bandas. Assim, ao lado do tradicionalssimo Cordo do
Bola Preta, que nunca deixou de ser exuberante, e de arrastar uma enorme multido tocando as marchinhas de antigamente pelas ruas do Centro do Rio, no sbado de
Carnaval, existe a pioneira dessas bandas, desde a dcada de 1970, A banda de Ipanema, cuja primeira madrinha foi ningum menos que Leila Diniz. Logo a seguir foram
criados outros blocos e bandas, como o Simpatia E Quase Amor, Suvaco de Cristo, Bloco de Segunda, o Carmelitas, o Bloco do Barbas, a Banda Bandida e o Bloco do Bip-Bip
(nome do bar, em Copacabana, que promove concorridas rodas de samba) e muitos outros, tanto em sadas pr-carnavalescas como nos dias de Carnaval. O fato  que quem
deseja hoje brincar na base do voc pra l, eu pra c, at quarta-feira, pode ir saltando de um bloco para outro sem parar. Ou seja, o carnaval de rua no Rio est
revitalizado, embora no ainda com a volpia e sofreguido das ruas de Salvador, Recife, Olinda ou Fortaleza.

No rastro do carnaval, principalmente o da Bahia, vrios gneros ou foram gestados ou ganharam popularidade nacional. Depois da

351



_Carnaval no Rio de Janeiro, 2002: bloco Cordo do Bola Preta, festa tradicional de carnaval de rua

centro do Rio de Janeiro (RJ). Fevereiro de 2002.

Caio Guateu.i / Folha I.macem

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_Carnaval no Rio de janeiro, 2002: bloco Cordo do Bola Preta, festa tradicional de carnaval de rua carioca, desfila no centro do Rio de Janeiro (RJ). Fevereiro 
de
2002. Caio Guatkli.i / Foi ha [ mac. km

insinuante lambada, que criou sua constelao de protagonistas e rapidamente ganhou o mundo - virando moda internacional e produto de exportao -, houve nos anos
1990 a abertura para outras novidades vindas da Bahia, como por exemplo o ax-music, miscelnea musical com pitadas de samba, de afro estilizado, mas tambm do reggae.
Vrios grupos se destacaram, embora esquecidos muito rapidamente, como convm  msica de consumo fcil e passageiro. Com fora mesmo, despontou para a MPB a cantora
Daniela Mercury. Sempre na tendncia de diversificao a partir da interlocuo com as diversas regies brasileiras, registre-se tambm a fora com que surgiram
o Olodum e, especialmente, Chico Csar e Carlinhos Brown, duas revelaes. E no podemos nos esquecer dos muitos artistas brasileiros, vivendo e fazendo carreiras
de boa aceitao no exterior, graas  popularidade crescente da MPB, nomes como a tambm baiana Margareth Menezes, Shirley Dom (em Paris), Marcos Faraco (em toda
a Frana) e outros, como Lilian Vieira e Rogrio Bicudo (em Amsterd) diversificando cada vez mais nosso som-exportado.

Depois de seus precursores, como Rita Lee e Raul Seixas, ainda bastante ligados  musicalidade tradicional da MPB, o rock brasi-



leiro, intensificando um vis prprio cada vez mais ligado ao rock internacional, s conseguiu se inserir como fenmeno de venda e de prestgio junto  mdia na
dcada de 1980. Uma relao essencial dos grupos e personagens mais importantes do gnero1, incluiria, na dcada de 1980, o Paralamas do Sucesso, tendo  frente
Herbert Vianna, o Kid Abelha, o Baro Vermelho - com o lder inconteste Cazuza, A Blitz, com Evandro Mesquita e Fernanda Abreu (que desenvolveriam carreiras solo),
Lobo, o Legio Urbana - com o lder Renato Russo -, os Tits -  frente dos quais Arnaldo Antunes, hoje em carreira solo, e por fim, Lulu Santos, considerado o
melhor arteso do pop acelerado.

Do rock brasileiro, dois letristas tambm cantores e vocalistas de seus grupos so essencialmente relevantes: Cazuza e Renato Russo - ambos mortos prematuramente,
o primeiro em 1990 e o segundo em 1996. So eles autores de peas que ficaram, pela elegncia malcriada dos versos acridoces e pela contundente crueza em referir-se
a temas da sua gerao, entre elas "Codinome beija-flor", "Burguesia" e "Faz parte do meu show" (Cazuza), e "Que pas  esse", "Gerao coca-cola" e "Faroeste caboclo"
(Renato Russo).

Diversas expresses do rock, como o Skank e o Sepultura (este com surpreendente repercusso internacional), ganharam popularidade junto ao pblico jovem.

Bem caracteristicamente, a novela Pantanal (de Benedito Rui Barbosa, 1990) jogou o Brasil de cara com seu interior. E o que se viu por l, agradou em cheio, at
por ser uma imagem idealizada, idlica, livre de impurezas como o drama dos sem-terra, da mortalidade infantil, enfim, da excluso social. No deixou de ser surpreendente
a absoro da msica sertaneja, ainda mais quando se pensa que, havia pouco, o rtulo caipira era extremamente pejorativo. Mas, com rapidez e permeabilidade, eis
que garotas das manses do Morumbi em So Paulo ou de condomnios fechados da

1 Para esta lista, contei gentil colaborao do lista Arthur Dapieve.

;om a orna-

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_O cantor e compositor Cazuza durante show no Palace. So Paulo (SP), 1988. Masao Goto Filho / Folha Imagem


Barra da Tijuca - bairro de classe mdia alta da Zona Oeste carioca pontilhado de shoppings, sem vida de rua, com deslocamentos restritos  utilizao de veculos
motorizados e com largas e compridas avenidas com trfego em alta velocidade - viam-se apaixonadas, tietes, das duplas sertanejas. O mais radicalmente urbano abraando
o rural. O fato  que as duplas sertanejas - at ento com ressonncias marcadamente na rea rural e na periferia dos migrantes do eixo Rio-So Paulo - disputaram,
a partir de 2000, as preferncias do grande pblico, alguns com qualidade maior, como Pena Branca e Xavantinho outros muitssimo mais populares como Chitozinho
e Xoror, Leandro e Leonardo, Zez di Camargo e Luciano. Assim, depois de seu passado de msica caipira, com duplas como Alvarenga e Ranchinho, Jararaca e Ratinho,
o gnero reformatou-se a partir do crescimento da economia agrria de algumas regies do interior e do estabelecimento de algo que poderia ser chamado de cultura
do peo-boiadeiro, ou country, com direito a adornos texanos como chapu de caubi, rodeios colossais etc. Hoje, existe um orgulho country em muitas partes do pas,
especialmente no Sul. E h aqueles para quem pertencer a esse



_1997.

Edlr Chiodetto / Folha Imagem

segmento significa um sentimento de auto-identidade que tem na Tits. So Paulo, (sua) msica um ingrediente bsico.

Finalmente, h que se registrar o enigma do hip-hop, que tem suas origens na cultura desenvolvida pelas populaes excludas, predominantemente negras, dos maiores
centros urbanos dos EUA. Aqui, o gnero ganhou feies prprias, como tudo o mais que canibalizamos do branco colonizador - assim como do jazz, acrescentado a outros
ingredientes tropicais, fizemos a Bossa Nova. O hip-hop, com seus bons usados com abas para trs, ora assusta parte da populao por viver nas periferias (perverso
destas nossas cidades partidas, como nomeou Zuenir Ventura), ora seduz a classe mdia pelo apelo tribal e liberatrio dos bailes. Trata-se, entretanto, de um fenmeno
relativamente recente, do qual devemos esperar os desdobramentos.

Os fundamentos da MPB de hoje so a permeabilidade de nossa cultura benignamente imperfeita - no sentido de no-fossilizada

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_Chitozinho e Xoror. So Paulo, 1996. Luiza Ferreira / Folha Imagem


- aliada a nossa histria poltica de nao que poucas vezes conseguiu assegurar soberania para um projeto prprio. Vejam o que escreve a respeito Helosa Buarque
de Hollanda em seu ensaio "Uma novidade chamada Brasil" {Para entender o Brasil, So Paulo, Alegro, 2000):

Restou-nos uma ambigidade difusa. Decididamente no nos representamos, como nossos vizinhos norte-americanos, por exemplo, em preto-e-branco, ou com nitidez suficiente
que  o que facilita a constituio imaginria da identidade da nao... Temos uma identidade mvel, que vaza pelas prprias fronteiras... uma identidade algo fora
do lugar... porosa...

A professora ressalta que essa porosidade  um dos nossos talentos,  o contrrio da paralisia, da rigidez;  um dos atributos que nos faz capazes de receber contribuies
de fora.

No entanto, alm dessa generosa no-finalizao cultural que nos faz insaciavelmente criativos, temos outros atributos essenciais como nossa seminal miscigenao,
mestiando genticas, memrias, sensibilidades e dons. E ainda os contrastes regionais e a musicalidade de nossa alma popular, que geram talentos em profuso interminvel.
Desses fundamentos... e mais, do percurso de nossa MPB, do fertilssimo patrimnio que acumulamos e do qual jamais se pode falar em evoluo (pois o que ficou para
trs, muito ao contrrio de ser menos per-



feito,  fonte, referncia, inspirao), mas em encadeamento, com um vis bastante ntido (repetindo: interlocuo, canibalizao, miscigenao...), enfim de todas
essas matrizes, ser sempre possvel esperar uma renovao.

Quem sabe uma sntese inesperada, uma releitura provocadora, como j houve tantas vezes, unindo o que hoje parece menor ao que sempre foi considerado excelncia,
mais uma vez faam desabrochar novas flores?

Nossa msica  to diversificada, to descentralizada hoje em dia, que devemos prever que qualquer aparente inrcia no pode ser mais do que enganosa estreiteza
de viso. Em algum ou em muitos de seus recantos estaro sempre ocorrendo efervescncias, que quando menos se espera podem fecundar novos caminhos. Se vamos busc-los
na referncia ao samba de raiz ou nos ritmos nordestinos, nos novssimos gneros da periferia ou em outra matriz qualquer, no importa. Temos muito de onde tirar,
muita diversidade sempre em curso. E viver para ver que o essencial  a opulncia das musicalidades desta terra. Ser sempre nossa fonte inesgotvel. Multiplicadora.
E redentora.

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V 


Sobre o autor 

Pesquisador, historiador, crtico da MPB, Ricardo Cravo Albin  uma personalidade fundamental de nossa cultura. Sua longa vivncia musical  pontuada de realizaes, 
livros publicados, produo de shows histricos e gesto de importantes projetos e instituies. Na dcada de I960, foi o estruturador e o primeiro diretor do Museu 
da Imagem e do Som, cargo no qual permaneceu por 8 anos, tendo ali realizado a srie de Depoimentos para a Posteridade, fonte de informaes sobre nossa msica e 
cultura, alm de shows que marcaram poca, sempre preocupado em apontar caminhos e resgatar nossas razes musicais. Sobre o MIS, Ricardo Cravo Albin publicou em 
2000 o MIS - rastros de memria, uma jornada pelo surpreendente acervo do museu. O escritor Ricardo Cravo Albin, colaborador do jornal O Globo, crtico de O dia, 
produtor e apresentador de programas de MPB na Rdio MEC por 30 anos em 2003, supervisiona atualmente a finalizao do Dicionrio Cravo Albin de MPB, obra enciclopdica 
com cerca de 5 mil verbetes (hoje veiculado pela Internet no endereo www.dicionariompb.com.br). Em 2001, doou todos os seus bens (inclusive os direitos autorais 
de seus livros) para o recm-criado Instituto Cultural Cravo Albin (ICCA) que, amparado por diversos conselhos, realiza um relevante trabalho de reunio de acervos, 
de pesquisa e de produo de projetos sobre a Msica Popular Brasileira e sobre a cidade do Rio de Janeiro. 

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FSTF LIVRO COMPOSTO EM ADOBE GARAMOND, FOI IMPRESSO PELA GRFICA ALAUDE SOBRE PAPEL OFFSET 75 G. FORAM PRODUZIDOS 1.500 EXEMPLARES PARA A EDIOURO EM DEZEMBRO DE 
2004.
